A tensão entre Substância Católica e Princípio Protestante no Anglicanismo
Resumo
Este artigo procura caracterizar o anglicanismo, ao mesmo tempo como católico e protestante. Aliás, a história da Igreja Anglicana é marcada por oscilações pendulares entre as duas correntes. Para compreender o anglicanismo, é melhor olhar para a liturgia e para a catequese que procurar conteúdos doutrinais específicos, praticamente inexistentes.
Pode-se observar também a prática da “comunhão anglicana” e o chamado “Quadrilátero de Lambeth”. Paul Tillich comentou o conceito anglicano de Via Média, o comparando à tensão entre Substância Católica e Princípio protestante e lamentando a falta de experiências radicais de pensamento. O presente texto analisa as vantagens e os limites desse conceito, numa breve avaliação crítica.
Palavras-chave: anglicanismo, comunhão anglicana, Via Média, Paul Tillich, culto, teologia.
Abstract
This article seeks to characterize Anglicanism, at the same time Catholic and Protestant. The history of the Anglican Church is marked by pendulum swings between the two currents. In order to understand Anglicanism it is best to look to its liturgy and catequism than to look at specific doctrinal contents, which are practically nonexistent.
The practice of “Anglican communion” and the “Quadrilateral of Lambeth” can also be observed. Paul Tillich commented on the Anglican concept of the Via Media, comparing it to the tension between Catholic substance and the Protestant principle, and lamenting the lack of radical experiences of thought. The present text analyzes the advantages and the limits of this concept, in a brief critical analysis.
Key-words: Anglicanism, Anglican communion, Via Media, Paul Tillich, worship, theology.
Introdução
Este ensaio nasceu de uma curiosidade pessoal a partir de diferentes experiências – minha vivência eclesiástica e os estudos sobre a teologia de Paul Tillich. Sou clérigo anglicano e, apesar das tensões e decepções que freqüentemente enfrentamos na política eclesiástica e na experiência pastoral, sinto-me bastante satisfeito na Igreja onde Deus me colocou a seu serviço. Minha experiência religiosa desde a infância foi marcada pela tradição protestante. Porém, desde pequeno sentia-me atraído pela liturgia católica, por aquele senso de mistério, de algo incompreensível e inexplicável que acontecia enquanto o povo se reunia e o padre pronunciava estranhas palavras em latim e repetia os gestos de Jesus na última Ceia. Mais tarde, estudando teologia, conheci o pensamento de Tillich e, posteriormente, vivendo a experiência anglicana perguntava-me até que ponto essa igreja conseguiria manter a substância católica e o princípio protestante. Para quem não está muito familiarizado com a eclesiologia anglicana, ofereço algumas informações iniciais:
Anglicanismo – católico e/ou protestante?
A história da Igreja Anglicana é marcada por oscilações pendulares em relação ao catolicismo romano e ao protestantismo. Quando Henrique VIII separou a Igreja da Inglaterra do Catolicismo Romano (1534), todos compreendiam que a mudança fora apenas de mandatário: de um Papa para um Rei. Mas a liturgia e a estrutura hierárquica continuavam as mesmas. Nos anos seguintes é que, através de contatos com luteranos e calvinistas da Europa continental, a liturgia anglicana foi reformulada (o primeiro Book of Common Prayer é de 1549) e elaborou-se uma declaração doutrinária, os “39 Artigos de Religião”. Desde então, o anglicanismo tenta se equilibrar entre o peso de tradições pré-reformadas (sobretudo na liturgia) e a influência de grupos protestantes às vezes bastante radicais. Essa atitude recebeu mais tarde a designação de “via-média”, expressão através da qual busca-se a identidade do anglicanismo num meio termo entre o catolicismo romano e o protestantismo clássico. As evidências dessa “via-média” ganham visibilidade em algumas peculiaridades anglicanas: tal como no catolicismo, há bispos com sucessão apostólica, padres e diáconos, mas semelhantemente ao protestantismo, não se exige de ninguém o celibato. Tal como no catolicismo, o centro da vida litúrgica é o altar e a comunhão eucarística, mas grande ênfase é dada na pregação. Utiliza-se terminologia tipicamente católica (diocese, paróquia, eucaristia, missa, sacristia, padre, etc) mas, ao mesmo tempo permite-se que padres sejam chamados de “pastores”, que a missa seja designada “culto” ou que a Eucaristia seja chamada simplesmente “Santa Ceia” ou “Ceia do Senhor”. Assim é o ethos anglicano – uma constante tentativa de acomodar diferenças em prol da preservação da comunhão.
Na prática pastoral, de vez em quando acontecem situações curiosas. Fui pároco de uma comunidade em Curitiba de linha fortemente protestante e de outra com tendência mais anglo-católica. Em ambas pude vivenciar momentos de dificuldades para explicar as características da Igreja a visitantes. Quando recebíamos a visita de pessoas oriundas de igrejas evangélicas, algumas delas apreciavam o sermão, mas perguntavam porque aquela Igreja tinha missa, o “pastor” usava batina de padre, a ceia era servida com hóstia, mas não havia imagens ou orações à Virgem Maria. Por outro lado também recebíamos visitas de católicos que apreciavam a liturgia mas perguntavam por quê não havia menções ao Papa, orações a Maria ou imagens para devoção. Recentemente recebi um email de um colega pastor presbiteriano perguntando em tom de brincadeira se a Igreja Anglicana já tinha decidido se era católica ou protestante. Ele estava envolvido em uma pesquisa sobre batismo e eucaristia para sua denominação e queria saber qual era a doutrina oficial da Igreja Anglicana em relação a esses assuntos.
A questão é que, no sentido estrito da palavra, não há nenhuma doutrina teológica especificamente anglicana ou nenhum reformador como Lutero ou Calvino. Isso não significa, porém, que as igrejas anglicanas não tenham um “discurso oficial” sobre certos pontos teológicos. O discurso oficial, naturalmente há, para a própria viabilidade institucional, mas não recebe o status de “doutrina”. O que chamamos “discurso oficial” refere-se ao conjunto de crenças aceitas como parte da identidade da igreja enquanto comunidade de fé. São as proposições ou enunciados que definem o conteúdo do ensino da instituição eclesiástica e que, espera-se, façam parte da cosmovisão religiosa das pessoas que participam da comunhão da igreja. Esse discurso é produzido pelos atores qualificados como pólos de poder ideológico (no caso, teológico) da instituição na função de definidores de certos parâmetros. Evidentemente, a instituição espera que seus filiados aceitem e assumam o discurso oficial. No caso da Igreja Anglicana do Brasil, a instância que define as crenças oficiais é o Sínodo Geral que reúne trienalmente bispos, representantes clericais e representantes leigos das dioceses.
Os documentos que contêm o “discurso oficial” da IEAB são: o “Livro de Oração Comum” (LOC) e o “Resumo da Fé Cristã comumente chamado Catecismo”, aprovado pelo Sínodo em 1986. O Catecismo é usado para a transmissão aos neófitos dos conteúdos que a Igreja julga essenciais para a fé. O LOC é usado para a realização das missas e cerimônias sacramentais (confirmação, batismo, casamento) funerais, etc, contendo a forma como a igreja regula sua celebração litúrgica. Tais documentos mencionam ou listam outros textos considerados essenciais para a compreensão da fé professada pela IEAB: o Credo Apostólico e o Credo Niceno. O Catecismo menciona também o Credo Atanasiano, embora pouquíssimos leigos (e mesmo clérigos) o conheçam. Os “39 artigos de Religião”, que ainda são normativos na Church of England (obrigando que os padres britânicos o subscrevam para que sejam ordenados) são considerados no Brasil e em outros países (Estados Unidos, Canadá, etc) apenas um documento histórico de estudo e consulta.
Além disso, a IEAB compartilha com toda a Comunhão Anglicana o “Quadrilátero de Lambeth” como base para o diálogo ecumênico e que demarca sua postura diante do que considera inegociável nos acordos bilaterais entre igrejas cristãs. O Quadrilátero estabelece: (1) As escrituras do Antigo e Novo Testamentos como “contendo todas as coisas necessárias para a salvação”; (2) O Credo dos Apóstolos como símbolo batismal e o Credo Niceno como declaração suficiente da fé cristã; (3) Os dois sacramentos ordenados por Cristo (Batismo e Ceia) ministrados com as palavras bíblicas e por um sacerdote legitimamente ordenado; (4) O Episcopado histórico, localmente adotado nos métodos de sua administração.
Esse minimalismo na definição dos conteúdos da fé faz com que a Igreja Anglicana não seja uma igreja confessional ou doutrinal. É uma igreja “credal” pois exige que seus membros vinculem a fé apenas aos credos históricos da igreja antiga. Contudo, a forma como a adesão a essa fé se concretiza varia muito. Ser credal, nesse caso vincula-se mais à forma que ao sentido, pois contenta-se em reafirmar o que está dito nos credos antigos sem especificar seus significados ou tentar interpretá-los em códigos doutrinários fechados. Por isso a Igreja Anglicana do Brasil recusa-se a adotar os “39 Artigos de Religião” porque esses não são credais, mas confessionais. Na época de sua redação era extremamente forte a influência calvinista na Inglaterra. Os 39 artigos definem muitas coisas consideradas “não-essenciais” e restringe o diálogo. Com a postura credal, a IEAB acaba permitindo mais pluralismo e diversidade hermenêutica. Numa igreja assim, a capacidade de convivência com a alteridade é fundamental para a sobrevivência institucional. Essa alteridade se manifesta em pelo menos três grandes tendências teológicas (que às vezes se misturam, de acordo com interesses políticos circunstanciais): são os “anglo-católicos”, os “evangélicos” e os “liberais”.
Simplificando, os anglo-católicos tendem a enfatizar a tradição anterior à Reforma, principalmente a Patrística e se aproximam dos católicos romanos e ortodoxos. Dão muito valor aos ritos sacramentais e símbolos litúrgicos. Sua eclesiologia é mais institucional (ou “alta” como preferem), afirmando que o episcopado é essencial (“esse”) à existência da Igreja. Os “evangélicos” enfatizam mais os princípios da Reforma Protestante (sola scriptura, justificação pela fé, regeneração), centralizam-se na pregação, preferem uma liturgia menos formal e interpretam os sacramentos numa linha mais calvinista ou luterana. Defendem uma eclesiologia orgânica que aceita o episcopado não como “essencial”, mas como funcional (“bene esse”). Os chamados “liberais” podem ser oriundos do anglo-catolicismo ou da ala evangélica, mas seus referenciais teológicos são encontrados no século XVIII e XIX, enfatizando princípios do humanismo e do racionalismo. Prezam a razão, a intelectualidade, a cientificidade, uma interpretação mais social do Reino de Deus e abrem-se ao uso do método histórico crítico aplicado à Bíblia e à Dogmática.
A noção de sacramento é central para o anglicanismo. Segundo o Catecismo da IEAB, os sacramentos são “sinais externos e visíveis de uma graça interna e espiritual, dados por Cristo como meios seguros pelos quais havemos de receber essa graça”. Nesse ponto, acompanha os 39 artigos: “os sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco”. A tentativa de acomodar tendências católicas e protestantes levou o anglicanismo a afirmar a existência de dois sacramentos (batismo e eucaristia) e cinco ritos sacramentais.
- Essa característica sacramental confere, pelo menos às pessoas filiadas à Igreja Anglicana, algo parecido ao que Tillich chama “estrutura da graça”. Mutatis mutandis, a substância católica presente no anglicanismo assemelha-se ao que Tillich escreve em A Era Protestante:
- “O catolicismo pretende oferecer uma forma segura de superar a separação entre o ser humano e seu fundamento divino por meio de graças sacramentais e de exercícios ascéticos, cuja eficácia é garantida pela hierarquia e pelos poderes sacramentais” [1] (A Era Protestante, p.188)
Então à primeira vista, aparentemente o anglicanismo consegue manter, ao menos na liturgia, a substância católica. Mas, e o Princípio Protestante? Haverá lugar no anglicanismo para ele? Ou, antes, o Princípio Protestante depende de que a instituição lhe ofereça espaço ou ele irrompe quando menos se espera e à despeito das proteções institucionais?
Tillich comenta o Anglicanismo
Algum tempo atrás, em uma viagem aos Estados Unidos, encontrei um pequeno livro que reproduz as fitas gravadas durante uma semana de diálogos que Tillich manteve na 1ª Igreja Batista de Granville, Ohio, em 1960, com estudantes, professores, pastores e leigos interessados no seu pensamento. [2] O editor e organizador do livro preservou essas fitas e só conseguiu financiamento para publicá-las em forma de livro em 1988, quase 30 anos depois desse evento.
Na segunda noite de diálogo, um clérigo anglicano cujo nome não é identificado provocou a discussão sobre a progressiva perda da força histórica do protestantismo na cultura americana. O interlocutor identificou-se apenas dizendo: “Sou anglo-católico e vejo na doutrina católica uma preocupação para com toda criação, o que não é muito visível no individualismo protestante. Porém, não me sinto confortável em aceitar a totalidade da doutrina de Roma, mas também não posso aceitar o atomismo implícito na doutrina protestante. Então pergunto: existe alguma possibilidade de termos uma igreja sacramental-confessional que demonstre respeito e consideração para com a totalidade da criação – não apenas uma pequena comunidade, mas a comunidade humana como um todo – sem o dogmatismo e o autoritarismo que Roma representa?”
- A resposta de Tillich se inicia com algumas considerações sobre o conceito anglicano de via-media e, mais à frente afirma: “Compreendo seu ponto de vista muito bem e tenho expressado isso em minha própria linguagem conceitual usando os termos Princípio Protestante e Substância Católica que sempre devem andar juntos. Concordo plenamente com sua preocupação. De fato, o protestantismo perdeu muito de sua substância, da essência da catolicidade, da liturgia e do simbolismo católicos” [3] . Ele passa então a explicar como se deu historicamente o enfraquecimento da substância católica no protestantismo e, de repente, passa a falar sobre a Igreja Anglicana especificamente:
- Admiro a linha que a Igreja Anglicana sempre tentou seguir – a de encontrar uma via média entre a Igreja Romana sem o autoritarismo do Papa, e o Protestantismo evitando os elementos racionalistas, éticos e intelectuais da ortodoxia protestante (...). O Princípio Protestante exclui a possibilidade de um Papa porque ele coloca toda igreja sob o julgamento divino. Isso o impossibilita de se afirmar como uma instituição divina como também torna impossível a fossilização de uma doutrina ou liturgia imutável. Tudo está sob julgamento e nada pode reivindicar ser absoluto. A Substância Católica é a expressão dessa unidade na grande tradição (...). Tenho muitos alunos e amigos que são da Igreja Episcopal e eles freqüentemente me perguntam: ‘Por que você não se torna episcopal, já que o seu slogan da unidade entre Princípio Protestante e Substância Católica se encaixam tão bem em nossa eclesiologia?.’ Eu respondo que não faço isso porque você só pode chegar a uma via-média se tiver experimentado os extremos. Essa é a minha crítica à Igreja Anglicana. Por exemplo, o Anglicanismo nunca se aprofundou em questões teológicas radicais. Os alemães são um povo mais impetuoso, inclusive na teologia. Fazem questão de ir aos extremos e pensar de modo radical. Já os britânicos são um povo muito mais bem comportado. Eles raramente vão aos extremos e têm dificuldades para cultivar experiências radicais de pensamento. A via média é possível apenas se for alcançada após palmilhar as vias mais extremas. Mas isso nunca aconteceu. A Igreja Anglicana, de fato, preserva muito do que o Protestantismo perdeu, mas ela não consegue oferecer à maioria dos protestantes uma resposta capaz de atraí-los. Então, eu gostaria muito que alcançássemos uma via media, mas que essa nascesse da experiência nos extremos mais radicais” [4]
Esse conceito de “via-média” é muito invocado entre os anglicanos para explicar porquê o anglicanismo optou por se separar de Roma mas ao mesmo tempo nunca aderiu completamente às ênfases da Reforma. Alguns anglicanos até estufam o peito em reuniões ecumênicas e enchem a boca para explicar que o anglicanismo representa o equilíbrio entre o catolicismo e as igrejas evangélicas, ou a “igreja-ponte”, que evita os erros e abusos de cada lado, ao mesmo tempo em que acolhe seus acertos.
Porém, o conceito de “via-média” não está isento de riscos. Ele dá a impressão de que a Igreja Anglicana seria de algum modo "superior" às igrejas protestantes reformadas ou ao catolicismo romano porque teria desenvolvido um pretenso equilíbrio que as demais igrejas não atingiram. Além disso, o conceito de “via média” está associado a Aristóteles, particularmente sua expressão "in medio virtus". Significaria que "a virtude está no meio", no equilíbrio entre dois extremos. Porém, não devemos nos esquecer que do latim "medio" ou "medium" também deriva a palavra "mediocridade" e o adjetivo "medíocre". A maior ambigüidade presente no conceito de “via-média” é o risco de a teologia anglicana tornar-se simplesmente mediana ou, na pior das hipóteses, medíocre. E nesse ponto, ao menos, Tillich parece estar certo porque o ethos anglicano sempre primou pela acomodação ou, em momentos de tensão na política eclesiástica, as autoridades optaram por deixar que o passar do tempo esfriasse os ânimos.
Etienne Higuet observa, referindo-se diretamente a Tillich, que “a substância católica inclui três elementos: o sacramental ou intuição da presença do sagrado e da profundidade do ser em toda realidade transparente a seu próprio fundamento; a comunidade ou substância do amor, baseada na realidade sacramental do novo ser, que reúne os indivíduos alienados uns dos outros, manifestando-se assim como princípio de resistência a reificação das pessoas na vida social; a autoridade real, essencial para a vida, que exprime a verdade do fundamento do ser, manifestando-se através da tradição e dos símbolos” O princípio protestante, por sua vez, “exerce uma ação profética contra a absolutização sacerdotal – heterônoma e idólatra – de uma igreja, de um sistema de ordens, de sacramentos, de modos de vida e de dogmas”. [5]
Minha intuição particular é de que a via-média anglicana não representa de fato um equilíbrio entre Substância Católica e Princípio Protestante. No anglicanismo prevalece muito mais a Substância Católica e talvez isso explique a capacidade que a Comunhão Anglicana tem, de manter vinculadas, igrejas que apresentam ênfases tão diferentes. O fenômeno carismático que se observa no catolicismo com as missas dos padres cantores também existe no anglicanismo e mesmo quando pessoas ligadas a esses movimentos de cunho mais pentecostal se dispõem a liderar uma reforma na igreja, a maneira como a instituição lida com isso acaba por desanimar os ânimos entusiastas. O resultado é que a Igreja nunca toma a iniciativa de excluir ou excomungar ninguém que esteja incomodando. As próprias lideranças entusiastas acabam por se afastar ou romper a comunhão criando novas igrejas. Desse modo, o seu iconoclasmo e seu anseio por reforma sempre migram para outras áreas.
Dourley observa que “o princípio protestante é o complemento necessário da substância católica. Juntos lançam-se na dialética da mútua correção e complementação. Sem a substância católica o princípio protestante torna-se insípido, intelectualmente unilateral para facilmente degenerar em moralismo casuísta. A substância católica sem o princípio protestante, ao se tornar concreta na forma das religiões históricas, como sempre tragicamente acontece, degenera-se em idolatria, inevitavelmente”. [6]
Não pretendo entrar em considerações mais longos a respeito da atual crise de unidade na Comunhão Anglicana. Vou apenas frisar dois episódios que contribuíram para a exacerbação dessa crise: a ordenação feminina nos anos 80 e a discussão sobre a ordenação de homossexuais iniciada no final dos anos 90. A totalidade de igrejas nacionais que preserva a herança da reforma inglesa relaciona-se mutuamente em processos de consulta e companheirismo. A isso se chama “Comunhão Anglicana”. Mas essa estrutura internacional nunca se caracterizou como uma Federação. Sempre preferiu o termo “Comunhão” para explicitar os laços afetivos que unem os anglicanos espalhados pelo mundo. Por isso nunca houve um Papa ou uma cúria, ou qualquer espécie de órgão que funcionasse em moldes semelhantes à Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.
Contudo, a crescente experiência da ordenação feminina, sobretudo de bispas, ocasionou sérios problemas em diferentes lugares. Na Inglaterra, por exemplo, algumas paróquias recusavam-se a receber a visita oficial de bispas para confirmar os novos membros. A solução encontrada foi nomear um grupo de “flying bishops”, ou “bispos voadores”, geralmente aposentados, ou bispos que não concordavam com a ordenação feminina e que esporadicamente visitavam paróquias não vinculadas à sua jurisdição para realizar ofícios de confirmação ou mesmo de ordenação. Algumas paróquias insatisfeitas, chegaram a solicitar jurisdição canônica em outras dioceses a quilômetros de distância. Isso tudo motivou a Igreja a repensar seu conceito de unidade. Uma comissão internacional foi nomeada em 1988 para redigir um relatório teológico e pastoral a todas as igrejas anglicanas espalhadas pelo mundo e tentar encontrar um caminho de pacificação. A esse documento deu-se o nome de “Relatório de Virgínia”.
A Conferência de bispos anglicanos em Lambeth (1998) acolheu o relatório e solicitou que se iniciasse uma década de estudos sobre o mesmo em todas os países, com uma especial consideração: “se uma verdadeira comunhão em todos os níveis não exigirá instrumentos apropriados, com a devida salvaguarda, não só da legislação, mas também da supervisão, bem como sobre a questão do ministério universal a serviço da unidade cristã” (Lambeth 1998, Resolução III.8.h). A resolução III.8 é muito contraditória na própria redação, porque uma “verdadeira comunhão” prescinde de instrumentos de legislação e supervisão institucionais. Quando precisamos nos valer de mecanismos institucionais e jurídicos, é sinal exatamente de que não há “verdadeira comunhão” e que a discussão tomou um rumo político. A meu ver, o termo “comunhão” (Koinoina), aplicado a instituições é um arriscado contrabando teológico, pois Instituições não são capazes de manter comunhão. Instituições podem, no máximo, manter acordos bilaterais enquanto for conveniente para ambas as partes. Quem mantém comunhão são pessoas.
O Relatório de Virgínia algumas vezes é contraditório. Reconhece, por exemplo, que a eclesiologia exposta no Quadrilátero de Lambeth “não é completa, nem está livre de ambigüidades interpretativas” (4.25), mas ao mesmo tempo se esforça por oferecer definições claras a respeito da Trindade e da Igreja. Sua intenção é bastante ortodoxa. Rubem Alves escreveu há algum tempo um livro chamado “Protestantismo e Repressão”, no qual utiliza a expressão “protestantismo de reta doutrina”. O Relatório de Virgínia algumas vezes parece encaminhar-se na trilha de um “Anglicanismo de reta doutrina” ao insistir demasiadamente na expressão “correta”: Diz, por exemplo: “Estruturas corretas e correta ordenação fornecem canais pelos quais através do poder do Espírito Santo, a vontade de Cristo é discernida, a conduta correta da Igreja encorajada...” (5.3).
Além disso, o Relatório tende a confundir a Igreja em seu aspecto místico com as instituições que organizam a vivência eclesial. A partir daí, qualquer risco à estabilidade institucional é visto com desconfiança. No item 4.4, o Relatório fala em “ameaças a serem combatidas”. De onde virá essa necessidade de “combater ameaças”? O medo de a Igreja ser destruída sempre foi uma característica dos líderes empenhados na preservação das instituições cristãs, mas não é uma preocupação do povo. A instituição, sim, sempre teve medo de ser destruída.
Talvez por isso Hans Küng tenha dito, acertadamente, que o “Relatório de Virgínia” representaria não mais uma via-média tipicamente anglicana, mas uma “via-romana”. A tendência a essa “via-romana” se manifesta nas insinuações feitas por alguns bispos de que a Comunhão Anglicana precisa de uma espécie de “cúria” para controlar abusos que aparecem em determinados países. Embora na vida real, não haja limites para a diversidade, o Relatório de Virgínia insiste em perguntar “quais os limites da diversidade se a unidade e comunhão imperativa do Evangelho devem ser mantidas?” (1.8). Tentar estabelecer previamente limites à diversidade é decretar que não a aceitamos. Quem lê o documento tende a perguntar: ‘quem tem autoridade para estabelecer os limites da diversidade?’ Quem estabelece os critérios para delimitar a diversidade? Talvez a resposta esteja na própria discussão: quem tenta estabelecer critérios para a diversidade acaba se auto-excluindo da comunhão. Por isso, o Relatório de Virgínia talvez consiga, no máximo, chegar a uma teologia de via-média, no pior sentido da expressão.
Não tenho qualquer pretensão de dizer que o anglicanismo represente o equilíbrio entre Substância Católica e Princípio Protestante. Nesse ponto concordo com Tillich: o extremo da experiência protestante nunca foi vivenciado no anglicanismo ou, quando o foi, as pessoas que o incorporaram não permaneceram na Igreja Anglicana por opção própria. Isso me inclina a levantar outra questão para discussões e à qual não me sinto capaz de responder no momento: o equilíbrio preconizado por Tillich entre Substância Católica e Princípio Protestante pode, de fato, ser realizado historicamente em alguma instituição religiosa real ou é algo que ficaria no plano do idealismo e da utopia como meta jamais plenamente alcançável?
Carlos Eduardo Calvani é Doutor em Ciências da Religião. Diretor do Centro de Estudos Anglicanos do Brasil.
| [1] | TILLICH, Paul. A Era Protestante. São Bernardo do Campo, Ciências da Religiao, 1992, p. 188 |
| [2] | ASHBROOK, James B. Paul Tillich in Conversation. Bristol, Wyndham Hall Press, 1988. |
| [3] | Idem. p. 83. |
| [4] | Idem, p..85-86. |
| [5] | HIGUET, Etienne. “Alguns aspectos do catolicismo brasileiro atual – considerações a partir da visão da mordenidade em Tillich”. Correlatio 1.Ver: TILLICH, Paul. Substância católica, princípio protestante e decisão socialista. In: Substance catholique et principe protestant, (trad. A. Gounelle), Paris/Genève, Cerf/Labor et Fides, 1995, pp. 347-362. |
| [6] | DOURLEY, John. Substância Católica e Princípio Protestante: Tillich e o diálogo inter-religioso”. Correlatio I. |








