Apresentação
Boa parte dos artigos desse número resulta do 12° SEMINÁRIO EM DIÁLOGO COM O PENSAMENTO DE PAUL TILLICH, que foi realizado de 11 a 13 de maio de 2006, sobre o tema: A SUBSTÂNCIA CATÓLICA. No convite aos participantes, caracterizamos o assunto do seguinte modo: “Para Tillich, a substância católica é uma dimensão intrínseca do cristianismo e até da fé humana universal. Ela inclui três elementos: o sacramental ou intuição da presença do sagrado; a comunidade ou substância do amor, que reúne os indivíduos alienados uns dos outros; a autoridade real, essencial para a vida, que se manifesta através da tradição e dos símbolos. Embora o protestantismo tenha nascido de um protesto profético contra a absolutização da substância católica na igreja romana, a substância católica não deixa de ser um princípio necessário no cristianismo e deve estar presente no protestantismo, em polaridade dialética com o princípio protestante, sob pena de uma radical perda de sentido.”
Os cinco primeiros artigos correspondem a conferências proferidas por convidados. Em primeiro lugar, Enio R. Mueller tratou da temática geral do seminário, com o título: “Princípio protestante e Substância católica”: subsídios para a compreensão de uma importante fórmula de Paul Tillich. O texto esclarece o contexto literário imediato da fórmula de Tillich e seu contexto no desenvolvimento histórico do pensamento do nosso teólogo. No seu período alemão, o foco está na análise do protestantismo, sendo que o catolicismo aparece mais como elemento de contraste. A proposição de uma “catolicidade evangélica” é expressão de um movimento no pensamento de Tillich em direção a uma perspectiva mais marcada por síntese e complementaridade. Suas reflexões sobre a necessidade do princípio protestante se realizar em formas concretas vão levar, com o tempo, à percepção do significado permanente do catolicismo para as igrejas protestantes, de modo que ele chegue a uma compreensão mais madura da “essência” do cristianismo.
O artigo de Afonso Maria Ligorio Soares: “Algumas anotações acerca da atual conjuntura teológico-religiosa do catolicismo romano”, apresenta alguns exemplos da vivacidade do catolicismo real, fiel a sua substância católica mesmo quando praticado em situações de sincretismo ou dupla pertença religiosa. O autor evidencia a tensão interna entre a ortodoxia do magistério e a livre pluralidade das experiências populares, destacando que o desejo implícito de unidade parece ser mais forte que os movimentos de diferenciação constituídos historicamente.
O terceiro texto: “A substância católica e as religiões”, por Faustino Teixeira, pretende situar a reflexão teológica de Paul Tillich a respeito das religiões. Partindo de sua abordagem sobre a universalidade da revelação e de seu horizonte cristomórfico, busca sublinhar a pista mística da Presença Espiritual como eixo disponibilizador para uma perspectiva de abertura singular no campo do diálogo inter-religioso. Pontuando a riqueza da Presença Espiritual na história da humanidade e das religiões, Tillich lança o essencial desafio de captar no âmbito da profundidade das diversas tradições religiosas os dados fundamentais para o exercício de emulação recíproca e de acolhida da alteridade.
“A substância católica e o fator Melquisedeque”, artigo de. Jorge Pinheiro dos Santos, analisa o conceito substância católica e suas implicações para a construção de uma missiologia que respeite a universalidade da espiritualidade e as manifestações culturais. Parte da compreensão tillichiana de substância católica, enquanto relação entre a manifestação da essência na existência e a afirmação do significado do evento crístico. Essa leitura de Tillich permite ver a história e a cultura como a substância que, para além de toda a situação, fornece os símbolos de uma situação última, a unidade universal do reino de Deus.
No texto seguinte: “As mulheres: um desafio para a Substância Católica”, de Luiza Etsuko Tomita, mostra-se que a crítica de Tillich sobre a substância católica na Igreja Romana dá ensejo a uma reflexão sobre como as mulheres se posicionam perante a exclusão de alguns sacramentos, em especial a ordenação, e quais são os seus discursos e suas práticas para superarem essa exclusão e se afirmarem como líderes no campo da religião.
Os quatro artigos seguintes encerram a parte dedicada ao 12° Seminário, com comunicações livres sobre o mesmo tema. Carlos Jeremias Klein traz alguns apontamentos sobre o tema: “A substância católica e o princípio protestante no presbiterianismo”. Conquanto a mensagem profética original do protestantismo, a justificação pela fé, tenha representado um protesto contra o sistema hierárquico da Igreja Católica; no protestantismo e, particularmente, no presbiterianismo, surgem novas autoridades absolutas, como a Bíblia, considerada “única e infalível regra de fé e prática” e confissões de fé. O princípio protestante deve, portanto, dirigir seu protesto ao próprio protestantismo.
Carlos Eduardo Calvani trata praticamente do mesmo tema numa outra denominação: o Anglicanismo, sob o título “A tensão entre Substância Católica e Princípio Protestante no Anglicanismo”. O autor procura caracterizar o anglicanismo, ao mesmo tempo como católico e protestante. Aliás, a história da Igreja Anglicana é marcada por oscilações pendulares entre as duas correntes. Para compreender o anglicanismo, é melhor olhar para a liturgia e para a catequese que procurar conteúdos doutrinais específicos, praticamente inexistentes. O texto analisa também as vantagens e os limites do conceito anglicano de Via Média, comentado por Tillich, numa breve avaliação crítica.
Ozeas da Silva Nunes analisa “A dialética da substância católica e do princípio protestante e suas implicações para o diálogo entre cristianismo e budismo”. O ensaio aborda a relação entre o princípio protestante e a substância católica, observando as implicações desta relação para o diálogo inter-religioso, constatado nos escritos dos últimos anos da vida de Paul Tillich. A partir daí, aborda-se o diálogo inter-religioso do cristianismo com o budismo, cuja maior abertura se deu a partir do Concílio Vaticano II. Ressalta-se ainda as significativas contribuições de Tillich em vista de manter um diálogo promissor do cristianismo com outras tradições religiosas.
Em “Conflitos polissêmicos dos símbolos sagrados”, Antonio Almeida Rodrigues da Silva verificar os perigos encontrados numa hermenêutica exclusivista dos símbolos “sagrados”. As conseqüências mais imediatas são notórias: conflitos são instaurados, trazendo estragos desastrosos para os moradores do planeta. É sabido que todos os símbolos são polissêmicos, tendo o poder de apontar para uma realidade última. Assim, à luz do pensamento de Paul Tillich, pretende-se perceber alguns conflitos provocados por interpretações exclusivistas de elementos condicionados.
Os dois últimos artigos são dedicados a outros aspectos do pensamento de Tillich. O artigo de Júlio Fontana: “Paul Tillich e a busca pelo Jesus histórico”, trata de um tema muito presente atualmente na mídia, mas até agora pouco pesquisado nas obras de Paul Tillich. Assim como Rudolf Bultmann, o nosso teólogo dava mais importância ao Cristo da fé que ao Jesus histórico. Ele seguiu essa linha com grande convicção e, possivelmente, ainda hoje manteria tal atitude cética quanto à pesquisa.
Enfim, apresentamos o primeiro capítulo de uma obra em preparação de Carlos Eduardo Calvani: “A recepção do pensamento de Tillich no Brasil”. O propósito deste texto é apontar, em breves linhas, algumas informações sobre a recepção do pensamento de Paul Tillich no Brasil. Procura resgatar, primeiro, alguns testemunhos relativos à primeiras leituras de Tillich no Brasil. Faz, em segundo lugar, um levantamento minucioso das atividades e da produção do Grupo de pesquisa Paul Tillich da Universidade Metodista de São Paulo e da Associação Paul Tillich do Brasil. Apresenta também uma extensa bibliografia, dividida por temas, da grande maioria das publicações dedicadas ao nosso teólogo no Brasil.
O leitor encontrará também a resenha de uma obra de Tillich recentemente traduzida no Brasil e algumas notícias da nossa Associação e de Associações-Irmãs.








