As mulheres: um desafio para a Substância Católica

Luiza Etsuko Tomita

Resumo

A crítica de Tillich sobre a substância católica na Igreja Romana dá ensejo a uma reflexão sobre como as mulheres se posicionam perante a exclusão de alguns sacramentos, em especial a ordenação e quais são os seus discursos e suas práticas para superarem essa exclusão e se afirmarem como líderes no campo da religião.

Palavras-chave: mulheres, religião, sacramentos, catolicismo, ministérios, feminismo, poder.


Abstract

Tillich’s criticism of Catholic substance in the Roman Church gives occasion to reflection regarding how women find themselves in terms of exclusion from certain sacraments, especially ordination, and their discussion and practices regarding how to overcome this exclusion and affirm themselves as leaders in the field of religion.

Key-words: women, religion, sacraments, Catholicism, ministries, feminism, power.


Introdução

A absolutização da substancia católica na Igreja Romana, parte fundamental da crítica de Paul Tillich ao catolicismo, pode ter na reflexão das mulheres um desdobramento significativo quando ressalta o sacramentalismo e a autoridade excessiva de sua hierarquia. É exatamente pela inclusão e exclusão aos sacramentos que se constroem cristãos de primeira e segunda categoria, identidades estas reforçadas pelo uso de uma autoridade infalibilizada que reforça esta divisão. Teólogas feministas como Elisabeth Schüssler Fiorenza, declaram que as mulheres formam uma “cidadania de segunda categoria” pelo não acesso a todos os sacramentos, em especial à ordenação (1994, 1999). Teólogas e teólogos são unânimes em afirmar que a não-ordenação das mulheres não é mais um “problema da mulher”, mas tem a ver com o verdadeiro cerne e auto-compreensão da Igreja católica romana e a integridade da teologia cristã. (cf Concilium 281: 1999; Häring: 6, 138). Assim, a inclusão da mulher no ministério ordenado não seria uma questão numérica, mas algo muito mais profundo, pois acrescentaria uma qualidade diferente ao ministério, de acordo com J.D. Soberal (1989, 33) Como é de se supor, este sentimento desconfortável de marginalização tem suscitado os mais vários tipos de indignação e revolta por parte das mulheres católicas, sobre os quais pretendemos discorrer.

As teólogas feministas, em sua elaboração de uma teologia reivindicatória dos direitos das mulheres, podem acrescentar a esta crítica sobre a substância católica, interessantes argumentos ao refletirem sobre o papel e a identidade das mulheres na Igreja Católica a partir de dois grandes traços da teologia tillichiana: a cidadania religiosa na modernidade e a secularização.

A secularização é um fenômeno marcante da modernidade, com sua lógica de individualização que incentiva a emancipação dos sujeitos. Surpreendentemente, a Igreja Católica tem se mostrado uma promotora eficaz da secularização [1] , ao se mostrar irredutível em atualizar-se em relação às necessidades do mundo contemporâneo e às necessidades do cotidiano de homens e mulheres, seja no que se refere à sexualidade (o uso da camisinha, os direitos reprodutivos, a visão da homossexualidade etc.), ou a um diálogo mais aberto em relação aos direitos de cada indivíduo. A Igreja é assim compreendida, segundo Schüssler Fiorenza, como uma igreja sacramental, hierarquicamente estruturada, centralizada no gênero masculino e regida de forma monocrática (1999, p.7)

No que se refere à conquista da autonomia e da cidadania pelas mulheres, fica o paradoxo de que exatamente uma instituição que prega o amor, a justiça, a fraternidade, seja aquela que ainda se recusa a permitir a cidadania plena para as mulheres. Num momento em que todas as instituições civis reconhecem a capacidade, as reivindicações, os direitos das mulheres, hoje conquistando os mais altos cargos na sociedade (até como primeiras-ministras e presidentes da república), a Igreja Católica permanece um reduto dos mais conservadores, em sua recusa a reconhecer os direitos plenos da metade da humanidade.

O tema da secularização ligada à modernidade vem ao encontro do discurso e da prática das mulheres católicas que se sentem marginalizadas da instituição. A participação nos sacramentos deixou de ser um atrativo para elas e, assim, sua participação futura na Igreja permanece uma incógnita dentro desta herança cristã medieval que forjou um cristianismo pouco atraente para as mulheres. Entretanto, fica bastante claro que o seguimento de Jesus ainda é o eixo que perpassa toda a teoria e a prática das teólogas cristãs, católicas ou não. Assim, a secularização não significa o fim das religiões, mas pode traduzir a busca de uma independência das instituições, uma fuga de uma tutela que tem acorrentado as mulheres, considerando-as como menores de idade ou cidadãs de segunda categoria.

Católicas ou cristãs? Este não é um dilema para as mulheres católicas. Mais do que católicas, elas querem continuar sendo cristãs. Entretanto, chamamos a atenção para uma organização não governamental que começou nos Estados Unidos e hoje é bem conceituada e atuante no Brasil: CDD – Católicas pelo Direito de Decidir [2] . Este grupo faz questão de se intitular “católicas”, apesar de contrariarem as doutrinas/normas eclesiásticas ao defenderem os direitos reprodutivos (contracepção, uso da camisinha, aborto) para as mulheres. No início havia pastoras protestantes no grupo que fundou a entidade, mas elas acabaram por se retirar porque a coordenação [3] optou por permanecer com o nome “católicas” ao invés de cristãs, para se posicionar politicamente contra as diretrizes/normas do Vaticano.

Este grupo tem sido constantemente censurado por bispos da Igreja Católica, os quais recusam o título de católicas às suas participantes, porém estas, assim como as adeptas desse movimento defensor dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres continuam a dizer “Nós Mulheres somos Igreja”, conforme o artigo de Mary Hunt (Concilium 281 117-132.).

Antes de desenvolver a relação das mulheres com as diversas questões que envolvem a chamada “substância católica”, faremos uma rápida retrospectiva histórica de algumas lutas das mulheres para o reconhecimento de seus direitos no âmbito das igrejas e de por onde vão as práticas e os discursos das mesmas, hoje.


As mulheres nas Igrejas Cristãs

Algumas Igrejas protestantes como a Congregational Chuch nos Estados Unidos começaram a ordenar mulheres já em 1853. É bem verdade que foi um passo isolado, assim como algumas ordenações no início do século XX, pois foi especialmente a partir de meados do século XX que as igrejas protestantes passaram a ordenar mulheres com alguma regularidade.

Desde o século XIX, há informações de ações reivindicatórias nas igrejas cristãs dos EUA, mas a primeira ação coletiva das mulheres parece ter se concretizado com a elaboração da Bíblia da Mulher organizada por E. Cady Stanton (1895-1898). A repercussão dessa obra, entretanto, foi bastante negativa, tanto entre os homens como entre as mulheres, no final do século XIX, pois a aura de sacralidade que envolvia os escritos bíblicos não permitia nem crítica nem hermenêuticas que não fossem as tradicionais, fundamentalistas.

Entretanto, foi logo ao término do Concílio Vaticano II, em 1965, que na Europa e nos Estados Unidos, as mulheres católicas passaram a reivindicar seus direitos também dentro da Igreja católica. É conhecido o caso de Mary Daly, jovem teóloga norte-americana que escreveu seu livro “A Igreja e o Segundo Sexo”, publicado em 1968, fazendo críticas à exclusão das mulheres do ministério pastoral dentro da Igreja Católica. Ela propôs mudanças radicais para a situação das mulheres. Já nos anos 70, ao publicar “Para além de Deus Pai” (1973), despede-se do catolicismo porque julga a religião católica demasiado sexista e autoritária, sem possibilidade de recuperação. Como Daly, um número significativo de teólogas decide deixar o cristianismo, chamando-se a si mesmas “pós-cristãs”. Continuam como teólogas, enfocando diversos eixos temáticos, como o corpo, as questões relativas à sexualidade reprodutiva ou enfocando uma divindade feminina. A crítica ao Deus masculino tem sido uma tônica nas obras teológicas feministas que tentam dessacralizar a hierarquia masculina da Igreja. É famosa a afirmação de Mary Daly: “Se Deus é homem, o homem é Deus” (1973, p.19).

Porém, renunciar à Igreja, dizer-se “não-cristã”, não é a solução para a maioria das católicas que acreditam “ser Igreja”, enquanto seguidoras de Jesus e anunciadoras da Boa Nova. Assim, muitas das teólogas feministas católicas que passaram pelas mudanças anunciadas pelo Vaticano II e que viram suas esperanças desmoronarem, continuaram acreditando na função profética da Boa Nova cristã frente à sociedade e principalmente frente à Igreja, apesar de seu caráter androcêntrico, sexista, autoritário. Destacamos aqui várias teólogas feministas: Elisabeth Schüssler Fiorenza, Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Kari Borresen, Phillys Trible, Louise Schotroff, cada uma desenvolvendo uma metodologia teológica própria, umas mais ao nível da hermenêutica bíblica, outras mais no resgate histórico das mulheres no cristianismo, como o resgate do discipulado das mulheres, outras mais na linha da ética cristã feminista e assim por diante.


As mulheres no catolicismo: uma cidadania de segunda categoria

A crítica ao poder da hierarquia é uma constante, mas este é um tema que já tem sido amplamente debatido, tanto por teólogos como por teólogas. L. Boff afirma que é necessário buscar uma visão coerente para equilibrar as relações de poder eclesial. Esta divisão entre Igreja-Povo de Deus, com estruturas igualitárias de participação e comunhão está sempre em conflito com uma Igreja-sociedade perfeita, que é hierárquica, clerical, piramidal e que continuamente cria, reproduz e legitima desigualdades (1999/3 Concilium 281 p.48). Este conflito entre estes dois modos de conceber a Igreja tem impedido, é claro, que haja uma sociedade justa e fraterna como prega o evangelho, a boa nova de Jesus.

Apenas como ilustração, gostaria de ressaltar que o embate sobre o poder na perspectiva de gênero não é privilégio da Igreja Católica. Também as pastoras protestantes freqüentemente nos têm relatado as dificuldades que enfrentam para arranjar colocação (são geralmente enviadas para locais periféricos, pobres, rejeitados por seus colegas do sexo masculino), menor remuneração, além da resistência que enfrentam por seus estilos diferentes de ministério e liderança. Melanie May relata que nos últimos 20 anos, estudos mostram que as decisões das denominações em ordenar mulheres têm mais um caráter simbólico do que a intenção de realmente apoiar a igualdade de gênero (1999, 103)


Sacramentos x Ministérios

As mulheres parecem pouco se importar em realizar debates sobre os sacramentos, esta é a conclusão à qual chegamos, pelo pouco interesse que elas demonstram sobre esse tema. O teólogo católico Hermann Häring nos informa que a discussão teológica deste conceito juridicamente coarctado de sacramento foi amplamente abandonada em todos os quatro pontos, de forma que

“Sacramento” já passou a ser reconhecido como um conceito genérico sem serventia; a instituição por Jesus Cristo vale, quando muito, para o batismo e a eucaristia; o pensamento em categorias de poder trai interesses hierárquicos, não necessariamente cristãos; a fixação sobre a ordenação como pressuposto dos outros sacramentos reverte a perspectiva original do Novo Testamento. (1999, p.14)

Häring, assim, dessacraliza os sacramentos, desconstruindo a visão de que esses sinais são imprescindíveis para a vida e a fé dos cristãos. As mulheres já há muito substituíram a preocupação pelos sacramentos pelos ministérios, principalmente o ministério do serviço.

E quanto à ordenação? Inúmeros são os argumentos que desmontam a sacralidade da ordenação, assim como a infalibilidade do magistério eclesiástico. Para Häring, a questão da não ordenação das mulheres gira em torno de três questões principais: a hermenêutica institucional, a infalibilidade da doutrina e a auto-interpretação do magistério eclesiástico, em especial o magistério romano. Segundo ele, a resolução franca e honesta destas questões permitiria que a Igreja como um todo fosse finalmente levada a sério e aceita no processo eclesiástico da verdade, de forma que as mulheres não apenas poderiam, mas deveriam assumir funções de direção na Igreja. (1999: 24-27)

Teólogos e teólogas são unânimes em afirmar que mais importante que os sacramentos, definidos pela instituição, são os ministérios. E estes existem enquanto serviço à comunidade, pois é a rede destas comunidades que forma o Povo de Deus, o qual resulta de um processo comunitário e participativo. Deve-se lembrar que a Igreja não é inicialmente um corpo sacerdotal que cria comunidades, mas, ao contrário, é a comunidade daqueles que responderam com fé à convocação de Deus em Jesus, por seu Espírito (cf Boff: 1991, 46). Há na comunidade uma diversidade de funções, encargos e serviços, que Paulo chamou de carismas (cf 1 Cor 12 e Rom 12). Os carismas são constitutivos da Igreja, sem os quais a Igreja não existe. O sacerdócio ministerial, desta forma, tem o objetivo de coordenar os carismas, ordená-los para um projeto comunitário, de acordo com Boff (1991, 47, 48)

Nos Estados Unidos, desde 1975 as teólogas norte-americanas começaram a refletir sobre os ministérios para as mulheres e passaram a organizar uma Conferência sobre a Ordenação das Mulheres, que tem se realizado periodicamente, a cada três anos, para discutir este tema. Schüssler Fiorenza tem defendido ferrenhamente um ministério significativo para as mulheres, tendo escrito vários livros [4] sobre este assunto. Ela defende que as mulheres devem recusar os ministérios inferiores, devendo aspirar a posições de responsabilidade e liderança, assim sendo, devem começar pela ordenação episcopal, e só depois de a terem obtido poderiam se permitir receber ordens do diaconato e do presbiterato (1995, 101). Uma outra argumentação para fugir ao impedimento da ordenação seria, segundo esta teóloga, a nomeação de mulheres ao cardinalato, já que nenhuma ordenação é exigida para este importante cargo, tendo ele sido instituído para proporcionar ao papa uma corte (por esse motivo os cardeais são chamados príncipes da Igreja). (1999, 76)

De fato, trata-se de uma idéia audaciosa, porém temos que começar a nos ver em cargos de liderança em todos os níveis da Igreja, tanto como cardeais, mas também como presbíteros e bispos (e algum dia até como papas) influindo na formulação da teologia e da lei da Igreja, na emissão de encíclicas e na celebração da liturgia. Este é um passo imprescindível, se a Igreja realmente almeja tornar-se uma comunidade de iguais, diante de Deus e do mundo. Segundo Schüssler Fiorenza, esta ordenação das mulheres não acarretaria um simples acréscimo, mas uma transformação psicológica, estrutural e teológica de toda a Igreja. (1999)

Um discipulado de iguais tem sido proposto por Schüssler Fiorenza, através de um intenso trabalho teológico usando os textos bíblicos como fonte, mostrando as mulheres como discípulas tão importantes como os 12 discípulos varões de Jesus [5] . Ela propõe uma “ekklesia de mulheres”, uma ekklesia como povo de Deus, para reclamar os poderes religiosos próprios das mulheres e assim participar plenamente no processo de decisão eclesial, cuidando umas das outras como mulheres cristãs. (1992, 384) Esta proposta de Schüssler Fiorenza foi muito bem recebida e nos Estados Unidos tem reunido muitos grupos de mulheres que fazem esta experiência de celebração e espiritualidade. Este é, com certeza, um primeiro passo para a conscientização das mulheres de sua importância histórica como ministras e apóstolas cristãs.


Um discipulado de iguais

Em todo o planeta, percebe-se que a Igreja Católica está atravessando um período de crise, pois existe escassez de presbíteros por conta de uma queda nas vocações e, por outro lado, um aumento do abandono da vida presbiteral. Assim, as mulheres e em especial as religiosas, estão assumindo cada vez mais os ministérios, mas sem o reconhecimento oficial como ministros ordenados. A teóloga Rosemary Radford Ruether comenta que os debates entre os bispos norte-americanos que defendem a igualdade das mulheres e a ordenação são cada vez mais freqüentes, porém eles não têm a coragem de levar a cabo uma discussão firme perante o Vaticano. (1991, 24-25)

Um discipulado de iguais tem sido proposto por Schüssler Fiorenza, através de um intenso trabalho teológico usando os textos bíblicos como fonte, mostrando as mulheres como discípulas tão importantes como os 12 discípulos varões de Jesus [6] . Ela propõe uma “ekklesia de mulheres”, uma ekklesia como povo de Deus, para reclamar os poderes religiosos próprios das mulheres e assim participar plenamente no processo de decisão eclesial, cuidando umas das outras como mulheres cristãs. (1992, 384) Esta proposta de Schüssler Fiorenza foi muito bem recebida e nos Estados Unidos tem reunido muitos grupos de mulheres que fazem esta experiência de celebração e espiritualidade. Este é, a nosso ver, um primeiro passo para a conscientização das mulheres de sua importância histórica como ministras e apóstolas cristãs.

Na América Latina, o debate sobre a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados tem levado as mulheres a desenvolver novas formas de participação, de comunicação, de ação pastoral.

A presença é uma nova prática das mulheres que está revolucionando a maneira de ser Igreja: é nestes espaços que as mulheres tornam-se visíveis e dialogam umas com as outras, individualmente e em grupos. Desde os anos 80 as mulheres estão formando novos espaços de debate, novas alianças, novas parcerias de trabalho e construindo espaços de solidariedade e de luta, principalmente a favor dos mais empobrecidos e marginalizados. Assim, no Brasil, vemos os grupos de mulheres que começaram nas comunidades eclesiais de base, a partir das conversas e dos trabalhos de costura nos Clubes de Mães, e que, ao conquistaram as creches para os filhos, puderam alçar vôo para um trabalho fora de casa, remunerado. Conhecemos, assim, vários grupos [7] , tanto na zona leste como na zona sul da cidade de São Paulo. Hoje proliferam os grupos que trabalham com a formação de lideranças, com a questão da violência sexual e doméstica [8] , com os direitos reprodutivos, com a saúde da mulher. E tudo muito ligado à religião e à fé, onde esses grupos mantêm reflexões sobre espiritualidade feminista.

Maria Pilar Aquino, teóloga mexicana, acredita que as mulheres estão se reapropriando de um direito seqüestrado: o de refletir a partir de sua própria condição, situação e consciência, como mulheres, sobre a experiência peculiar da revelação de Deus e como ela acontece na sua vida. (1997, 12) Para elas, a experiência é o ponto de partida de toda reflexão teológica libertadora, pois a experiência de opressão-libertação das mulheres latino-americanas tem permitido que elas vivam uma experiência de Deus na luta cotidiana pela sobrevivência própria e a de sua comunidade. (1997: 9-10) Existe uma participação incontestável das mulheres na Igreja e que hoje continuam a viver o seguimento de Cristo em diversos campos da missão evangélica: catequese, preparação para o crisma, preparação de noivos para o casamento, pastoral da juventude, pastoral carcerária etc.

Ivone Gebara, conhecida teóloga brasileira, fala a partir do seu ser de mulher religiosa. Para ela, a presença das religiosas nas comunidades periféricas tem permitido a descoberta da vida cotidiana do povo. Saindo dos conventos, passaram a fazer uma experiência de viver com e no meio do povo, nas periferias das cidades e nas áreas rurais, fazendo uma “opção de vida radical”. Passaram a integrar-se nos movimentos sociais, formando lideranças populares através de cursos de Bíblia, alfabetização, trabalho em creches, postos de saúde etc. (1992, 26). Gebara critica a sacramentalidade da teologia e do magistério que coloca nas mãos do sacerdote, um homem, o poder de dizer uma palavra humana simbólica, o perdão, no sacramento da confissão. Esse poder concentrado, que é colocado nas mãos masculinas de um padre, usurpa os direitos humanos que devem ser de todos, mulheres e homens. (1992, 91-92) Também a celebração da eucaristia, enquanto memória da vida e morte de Jesus, transformou-se historicamente num ato eminentemente masculino, expressão do poder de Jesus, que simbolicamente atribui poderes especiais de propriedade privada a um ser do gênero masculino.

Alijadas das decisões pastorais, percebendo a exploração a que foram submetidas durante séculos, as religiosas hoje desabrocham como mulheres adultas, segundo Gebara. (1992: 30-31) Inspiradas por Medellín e Puebla, elas experienciam um novo tipo de espiritualidade transformadora, a qual é vivida de maneira particular através do compromisso e da luta pela vida dos mais pobres. Agora, mais inseridas no meio do povo, as religiosas passaram de uma vida mais dedicada a obras específicas dentro de diversas instituições como escolas, hospitais, para uma vida religiosa cujas fronteiras não são tão bem delimitadas. Enfim, passaram a se inserir na Igreja local com os leigos e os sacerdotes, numa proximidade maior com os problemas vividos pelo povo. (1992: 43- 44)

É inegável que as mulheres católicas buscam superar os limites de sua atuação permitida pela instituição religiosa das mais variadas formas possíveis, desafiando aquilo que Tillich chamou de “substância católica”. Sentimos a falta de pesquisas mais elaboradas que nos informem das práticas pastorais nas dioceses de nosso país [9] e incentivamos os estudos que nos permitam visualizar melhor essas práticas. Este foi apenas um pequeno ensaio sobre uma temática que queremos continuar refletindo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, Maria Pilar. A Teologia, a Igreja e a Mulher na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1997.

DALY , Mary. Beyond God the Father. Boston: Beacon Press, 1973.

GEBARA, Ivone. Vida Religiosa: da Teologia Patriarcal à Teologia feminista. São Paulo: Paulinas, 1992.

HÄRING, Hermann. Pleno Poder das Mulheres. In: Concilium 281, 1999/3, p.133-141.

HUME, Maggie. La Evolución de um Código Terrenal. La anticoncepción em la Doctrina Católica. Cartilha Católicas por el Derecho a Decidir, Montevideo, 1993.

MAY, Melanie. Prática de Transformação – Nas pegadas das mulheres em Postos de Liderança Religiosa. In: Concilium 281, 1999/3, p.101-116.

RUETHER, Rosemany Radford. Diferença e Direitos Iguais das Mulheres na Igreja. In: Concilium 238 – 1991/6. Petrópolis: Editora Vozes, p. 23 - 30.

SOBERAL, José Dimas, O Ministério Ordenado da Mulher. São Paulo: Paulinas, 1989.

SCHÜSSLER FIORENZA, Elisabeth. As Origens Cristãs a Partir da Mulher. Uma Nova Hermenêutica. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992.

______________________________. Violência contra a Mulher. In: Violência contra a Mulher. Concilium 252, 1994:2. Petrópolis: Vozes, 1994, p.5-25.

______________________________. Discipulado de Iguais: uma Ekklesia-logia Feminista Crítica da Libertação. Trad. Yolanda S. Toledo. Petrópolis: Vozes, 1995.

______________________________. Wisdom Ways – Introducing Feminist Biblical Interpretation. Marycknoll, New York: Orbis Books, 2001.


Revistas:

Mulher – Mulher? Concilium 238 – 1991/6. Petrópolis: Editora Vozes.

A não-ordenação da Mulher e a Política do Poder. Concilium 281 – 1999/3. Petrópolis: Editora Vozes.


Luiza Etsuko Tomita é Doutora em Teologia Sistemática na Universidade Metodista de São Paulo. É secretária executiva e tesoureira da Associação de Teólogos do Terceiro Mundo – ASETT – conhecida em inglês por EATWOT (Ecumenical Association of Theologians of Third World).



[1]Sobre o cristianismo em seu enfrentamento com a modernidade e a secularização, leia o artigo de J.B.Libânio Prospectivas teológicas e pastorais do Cristianimo. in Cristianismo na América Latina e no Caribe, org. por Wagner Lopes Sanchez, São Paulo, Paulinas, 2003, 307-349.
[2]Nos EUA chama-se Catholics for a Free Choice.
[3]A autora fez parte do grupo que fundou a organização, em 1993.
[4]Conferir Discipulado de Iguais, em português, e vários outros, posteriores, não traduzidos do inglês.
[5]Dois de seus primeiros livros, As origens cristãs a partir da mulher e Discipulado de Iguais, traduzidos para o português, dão uma idéia clara de sua metodologia e do que ela quer dizer com “discipulado de iguais”.
[6]Dois de seus primeiros livros, As origens cristas a partir da mulher e Discipulado de Iguais, traduzidos para o português, dão uma idéia clara de sua metodologia e do que ela quer dizer com “discipulado de iguais”.
[7]Grupos como AMZOL, Associação das Mulheres da Zona Leste, Casa Lilith, SOF – Sempre Viva Organização Feminista, etc.
[8]O Centro Maria Miguel, por exemplo, que trabalha com promotoras legais populares formadas pela União de Mulheres de São Paulo e é apoiada pela Procuradoria Geral do Estado de são Paulo.
[9]Neste sentido, indico o livro elaborado por mulheres do Canadá que fizeram uma pesquisa bem desenvolvida, nas dioceses de seu país: Vozes de Mulheres, caminhos de passagem. Práticas pastorais e questões eclesiais, São Paulo: Paulinas, 1999.