Conversa com o editor

Etienne Higuet

A publicação do presente número de Correlatio sofreu um grande atraso, em razão de diversos problemas que afetaram o editor durante os últimos meses. Pretendemos publicar o n° 12 no início de 2008, a fim de manter a periodicidade semestral. Em vista de alcançar esse objetivo, esperamos que a renovação parcial do Corpo Editorial permita maior agilidade no trabalho. Por outro lado, os leitores e, sobretudo, os futuros autores encontrarão as normas técnicas que vão vigorar a partir do próximo número.

Os artigos apresentados nesse número de Correlatio, salvo o primeiro e o último, são produtos dos Seminários em Diálogo com o pensamento de Paul Tillich de 2006 e 2007. Em “La historia de las religiones en la interpretación de Paul Tillich”, o teólogo argentino Alberto Fernando Roldán analisa a última conferência pronunciada por Paul Tillich em 1965 sobre “O significado da história das religiões para o teólogo cristão”. Roldán expõe os argumentos desenvolvidos pelo teólogo e filósofo alemão, dentro os quais se destacam suas críticas a Karl Barth e a uma “religião-sem-Deus” expressa na “teologia da morte de Deus”. Na última parte do seu trabalho, Roldán analisa a proposta de Tillich, na qual ele intui a possibilidade de uma “Religião do Espírito Concreto”. Tillich pressupõe assim a alternativa de uma religião, onde o simbolismo religioso permita enriquecer o diálogo entre as distintas religiões do mundo.

O segundo artigo,“A Religião na Reconstrução de uma Teoria Crítica Social em Max Horkheimer, de Manoel Ribeiro de Moraes Jr., é dedicado à Filosofia da Religião do principal representante da Escola de Frankfurt. Amigo de Tillich durante a vida inteira, Horkheimer trocou com ele uma importante correspondência, parcialmente publicada. O autor procura mostrar como o tema religião surge numa etapa tardia de sua vida, e como Horkheimer re-encontra nesta nova etapa reflexiva as experiências motivacionais em relação à razão e à vida, que outrora se ancoravam em princípios iluministas que apregoavam uma razão autônoma e livre em si mesma.

No texto seguinte, “Conhecimento controlador e razão ontológica: implicações do conceito de substância católica para a ciência”, Martin Santos Barcala desenvolve uma reflexão que toca, ao mesmo tempo, nos temas dos dois últimos Seminários, sobre a Substância Católica e sobre a Ciência. Trata-se da relação entre a técnica e a ontologia na epistemologia de Paul Tillich. O autor pretende demonstrar os riscos do reducionismo tecnológico na apreensão da realidade, bem como destacar a importância de se atentar para conteúdos mais profundos da realidade que são acessíveis principalmente pela participação do sujeito conhecedor na realidade cognoscível por modos que transcendem a razão técnica.

Os quatro artigos que seguem foram, primeiro, apresentados como comunicações no último Seminário, em maio-junho de 2007, sobre o tema: “Ciência, tecnologia e religião”. No primeiro, “Confluências entre Teologia e Literatura: Análise do demônico na obra de Júlio de Queiroz a partir de Tillich”, Diógenes Braga Ramos e André Luiz do Amaral exploram caminhos de convergência entre os textos de Júlio de Queiroz, poeta brasileiro, e Paul Tillich. Para tal, partem do conceito de demônico, amplamente discutido em Tillich e presente, ainda que de modo incipiente, em Queiroz. Universos literários bastante diversificados são trilhados ao longo do texto, o que demonstra a importância do contínuo diálogo da teologia com a cultura, tão caro a Tillich. O segundo e o terceiro texto enfocam de modo bastante diferente, a mesma obra Frankenstein, de Mary Shelley. Felipe Fanuel Xavier Rodrigues oferece, em “O cientista e a religião”, uma reflexão crítica sobre ciência a partir da leitura da obra literária Frankenstein, de autoria da escritora inglesa Mary Shelley. O romance mostra que há dimensões na ciência que estão para além do âmbito científico. Neste limite, onde o conhecimento científico se cala, revela-se um campo possível de diálogo com a religião, em que pese fé e ciência serem instâncias autônomas, conforme se conclui a partir do pensamento de Paul Tillich. Num texto instigante, onde não faltam elementos autobiográficos, Rogério Migliorini enseja, na perspectiva de Tillich, um diálogo com a questão do hibridismo próprio da pós-modernidade. Inspirado nas personagens e símbolos da obra de Mary Shelley, o texto “Frankenstein e o Centauro: seres híbridos” aborda diversos temas da cultura contemporânea fragmentada, em particular a respeito da arte da dança, bem conhecida do autor.

Em “Paul Tillich e o neopositivismo”, Júlio Fontana procura mostrar que o positivismo lógico deu o golpe fatal no teísmo, no campo da filosofia. É que a linguagem é de tal forma limitada que não permite qualquer discurso sobre Deus. Paralelamente, muitos teólogos estavam insatisfeitos com a concepção filosófico-teológica tradicional de um Deus como Ser supremo, fundamento da realidade e da moral. Tillich pode ter dado a resposta mais satisfatória, ao escrever que a linguagem pode expressar o Incondicional, contudo, só por meio de símbolos. Desse modo, o nosso teólogo demarcou de modo excepcional as competências da ciência e da teologia.

Enfim, o ensaio de Antonio Almeida Rodrigues da Silva trata do tema da “Relação entre espaço e lugar no pensamento de Martin Heidegger”. Embora não estabelece pontos de contato com o pensamento de Tillich, o texto cabe em nossa revista, pois reflete sobre um tema que foi, várias vezes, em outra perspectiva, objeto das análises do nosso teólogo. Além disso, Tillich adotou a linguagem da ontologia existencial, indiretamente inspirada em Heidegger. Para o autor, Heidegger pensou o espaço a partir de sua vinculação ontológica com a noção de lugar, considerando este último em seu sentido mais tangível, a saber, os lugares do mundo. Em contrapartida, a temática toma outra proporção nas suas reflexões quando, em 1947, a questão do ser começava a ser pensada em termos de lugar.

Duas resenhas completam o número da revista. Desejo a todas e todos uma boa leitura. Enviem-nos suas reações e sugestões no e.mail etienne.higuet@metodista.br.