O cientista e a religião: refletindo sobre ciência a partir da obra literária “Frankenstein”, de Mary Shelley
Resumo
Este texto é uma reflexão crítica sobre ciência a partir da leitura da obra literária “Frankenstein”, de autoria da escritora inglesa Mary Shelley. O romance mostra que há dimensões na ciência que estão para além do âmbito científico. Neste limite, onde o conhecimento científico se cala, revela-se um campo possível de diálogo com a religião, em que pese fé e ciência serem instâncias autônomas, conforme se conclui a partir do pensamento de Paul Tillich.
Palavras-chave: Frankenstein, Mary Shelley, ciência, religião, Tillich.
Abstract
This paper is a critical reflection about Science from a reading of the literary work Frankenstein, written by Mary Shelley. This novel shows that there are dimensions in Science which lie beyond the scientific scope. On this boundaries, where scientific knowledge has its limit, a possibility of dialogue with Religion reveals itself, even though faith and science are autonomous, as we conclude from Paul Tillich’s thought.
Key-words: Frankenstein, Mary Shelley, Science, Religion, Tillich.
1. Introdução
- A leitura do romance “Frankenstein”, da autora inglesa Mary Wollstonecraft Shelley [2] , tem provocado uma reflexão crítica sobre os limites da ciência desde a sua primeira publicação, em 1818. Considerada uma obra do século dezoito, mesmo tendo sido publicada no início do século dezenove, esse livro emerge como uma crítica à tirania da razão em detrimento da imaginação e do sentimento. No texto estão registradas as ansiedades da Idade da Razão, ou seja, as revoluções social e industrial na França e Grã-Bretanha, quando a burguesia assume o controle da sociedade, tornando o ser humano responsável pela re-feitura do mundo, emergindo uma recriação a partir do caos. (cf. MONTEIRO, 2003: 124) Como constata Paul Tillich (1988: 26), quando analisa esta época,
- o século dezoito tinha prazer em chamar a si mesmo de o ‘século filosófico’, não porque era produtor de grandes sistemas, mas porque buscava trazer cada aspecto da vida para dentro do domínio da filosofia, tanto na teoria como na prática. Assim, a razão no século dezoito era uma razão revolucionária. Não estava interessada em descrever o que é meramente pelo que é, mas pelo que proporciona de materiais para a reconstrução da sociedade em conformidade ao que é natural e racional. (TILLICH, 1988: 26)
O nascedouro do positivismo, uma das principais tendências do pensamento científico nos dias atuais, está neste período, onde em reação ao racionalismo revolucionário do século dezoito, “o espírito dos tempos se torna cético, positivista e conservador em cada aspecto”. (Idem)
A começar pelo próprio título, “Frankenstein ou, o moderno Prometeu”, Shelley quer discutir os riscos de se descobrir certos segredos. Na mitologia grega, Prometeu era um titã que habitava a terra antes dos humanos. Certa ocasião, ele roubou fogo do Olimpo para permitir com que a raça humana fosse superior aos outros animais. Devido a este ato, o qual diminuiu a supremacia dos deuses sobre a humanidade, Prometeu foi castigado por Zeus, quem o acorrentou a uma pedra onde um abutre comia seu fígado.
Ora, o protagonista da história de Shelley, Victor Frankenstein, é um jovem estudante idealista da filosofia natural que, ao encontrar o segredo de dar vida à matéria, cria um ser vivo. Frankenstein representa, pois, a figura de um moderno Prometeu, porque ele roubou o segredo da vida, ocupando, assim, o lugar de Deus. (cf. SILVA, 2006: 208)
- Neste sentido, a ciência tem tornado o ser humano cada vez mais Prometeu, cada vez mais Frankenstein. Conforme analisou Tillich (1988: 6), ao falar sobre o momento em que a sociedade moderna avançou tecnicamente,
- o deslocamento da razão revolucionária pela razão técnica foi acompanhado por mudanças abrangentes na estrutura da sociedade humana. O homem se tornou cada vez mais capaz de controlar a natureza física. Através dos instrumentos colocados à sua disposição pela razão técnica, ele criou um mecanismo mundial de produção de larga escala e de economia competitiva que começou a tomar forma de uma espécie de ‘segunda natureza’, um Frankenstein, sobre a natureza física, sujeitando o homem a si mesmo. Enquanto podia cada vez mais controlar e manipular a natureza física, o homem se tornou menos e menos capaz de controlar sua ‘segunda natureza’. Ele foi engolido por sua própria criação.
Portanto, Frankenstein é um cientista, é aquele cujo instinto prometeico leva-o a cometer loucuras em prol do desvelamento de mistérios ocultos, o que resulta em castigo divino, pois furtar fogo do Olimpo é ameaçar os deuses com a possibilidade de os humanos se tornarem — ou se descobrirem — divindades. Esse seria o calcanhar de Aquiles da ciência, apontado pela obra da autora inglesa, que, possivelmente, transcenderia a discussão científica para o campo da religião.
2. A história de “Frankenstein”
A magnum opus de Mary Shelley está dividida em quatro cartas e 24 capítulos, cujo objetivo desta estrutura epistolar é manter a estratégia da literatura gótica de propor que o que está sendo lido aconteceu de fato. (cf. SILVA, 2006: 207)
Em uma série de cartas à sua irmã, o capitão Robert Walton descreve sua obcecada tentativa de alcançar o Pólo Norte, bem como seu encontro com Victor Frankenstein. É dentro deste cenário relativamente realista que se dá o relato do cientista Frankenstein, que conta para Walton a história de como ele criou e abandonou o monstro, feito de pedaços de cadáveres. Ao perceber que não é aceita na sociedade, essa criatura se vinga de seu criador, o qual também lhe nega o direito de ter uma companheira. Após ver sua família toda morta, Frankenstein morre de exaustão. Walton encontra-se então com a criatura, disposta a tirar a sua própria vida porque perdera aquele que considerava seu pai. Comovido por esta história, o capitão Walton volta para casa, após ter sacrificado sua tripulação nesta ambiciosa viagem ao desconhecido caminho das geleiras setentrionais.
- Nascido a partir de um pesadelo da autora, no qual seu bebê morto volta à vida, esta obra reflete traços biográficos de Shelley, sendo a confluência de seus fantasmas, traumas e influências. As discussões sobre o mistério da vida e as últimas descobertas sobre eletricidade estão também presentes no romance. Tendo sido objeto de análises psicológicas, científicas, marxistas, de gênero e pós-colonialistas, “Frankenstein” surgiu de uma competição na casa do poeta inglês Lord Geoge Gordon Byron, em Genebra, onde ele e o casal Mary e Percy Shelley [3] decidiram que cada um escreveria uma história de terror, inspirados em outras tramas congêneres alemãs. (cf. Ibidem: 206s) O principal resultado deste encontro literário foi esta obra de Mary [4] , cujo propósito está expresso nas seguintes palavras:
- Eu me dediquei a pensar numa história — uma história para competir com aquelas que nos incitaram a esta tarefa [de escrever uma história de terror]. Que falasse aos misteriosos medos da nossa natureza e despertasse um horror emocionante — para fazer o leitor temer olhar em volta, coagular o sangue, e acelerar as batidas do coração. Se eu não fizesse essas coisas, minha história de terror não seria digna deste nome. (SHELLEY, 1994: 7s)
2.1. A figura do cientista louco
Quem é Victor Frankenstein? Ele é um burguês criado no berço do pensamento iluminista. Como estudante de química, ele uniu o mistério medieval e a ciência contemporânea para construir e animar uma criatura supostamente intentada a ser um modelo idealizador de um ser humano, mas era tão monstruosa que apavorava todos os que a viam. (cf. DAVENPORT-HINES, 1999: 189s) Ele, Victor, busca o conhecimento a fim de descobrir os mistérios do universo, a fim de explorar poderes desconhecidos capazes de revelar os mais profundos arcanos da criação. (cf. MONTEIRO, 2003: 125s)
- Esta obra introduz o protótipo gótico do cientista louco através deste jovem entusiasta, registrando as ansiedades em torno do progresso científico desacompanhado da consciência social. Os estudos do ambicioso novel cientista o alienam de sua própria família, levando-o a catacumbas, num ambiente de morte e deterioração. Ao buscar criar a vida, ocupando um lugar divino, Victor chega a dizer:
- Ninguém pode conceber a variedade de sentimentos que me furam progressivamente, como um furacão, no primeiro entusiasmo de sucesso. A vida e a morte me parecem limites imaginários, os quais eu deveria primeiramente romper, e espalhar uma torrente de luz em nosso mundo ignorante. Uma nova espécie me bendiria como seu criador e como sua origem. (Ibidem: 51)
Esta postura dada por Shelley ao protagonista de sua história pode ter provocado certo tom anticientífico nas leituras de seu romance, sendo sua influência ressentida por parte de alguns cientistas. “Graças a ‘Frankenstein’”, reclamou um professor da Universidade de Londres, “é impossível se ter uma discussão inteligente sobre genética”. O senhor Lewis Wolpert, que é especialista em biologia aplicada à medicina, chegou a dizer também que “Mary Shelley é a fada madrinha má da genética”. (DAVENPORT-HINES, 1999: 192)
2.1.1. Ocupando o lugar de Deus?
A ambição do doutor Frankenstein em dar vida à sua criação coloca o dedo na ferida do histórico debate entre ciência e religião. Afinal, o cientista não estaria, em suas atividades, ocupando o lugar de Deus? Esta popular pergunta já está, por si só, no campo da relação de confronto entre ciência e religião. Como constata Alister McGrath (2005: 62), “historicamente, o modelo mais importante da relação entre ciência e religião é o do ‘conflito’ ou, talvez, até mesmo da ‘luta’”. “Esse modelo fortemente antagonista”, diz ele, “continua a influenciar profundamente os debates populares, mesmo se amenizado entre os estudiosos.”
Este conflito pode ser interpretado como um problema cultural, pois o conhecimento científico seria um recurso cultural construído e desenvolvido por alguns grupos sociais com vistas a determinados interesses e objetivos. Isto explica a competição entre o clero e os cientistas profissionais na sociedade inglesa do século XIX. Para McGrath (Idem), “esse ‘conflito’ deve ser entendido em termos das condições específicas da era vitoriana, na qual novos grupos intelectuais emergentes procuravam substituir os antigos”.
- Tillich (1988: 161) esclarece que
- todos os conflitos entre religião e cultura estão baseados na identificação da religião como religião no mais estreito sentido, [i.e.], religião como um pedaço de cultura que reivindica ser mais que cultura e, portanto, irrompe o conflito com outras realidades culturais [tais como a ciência].
3. Ciência e religião
- Este conflito entre ciência e religião certamente tem raízes na falta de diálogo entre cientistas e teólogos. Citando Tillich, Robert Beims (2005: 101) comenta:
- Segundo ele [Tillich], o/a cientista de qualquer área precisa ter consciência do seu lugar no todo do conhecimento, isso porque todas as ciências estão a serviço da única verdade que acaba morrendo se ela perder o vínculo com o todo. E o/a teólogo/a, ao reivindicar para a teologia um objeto e método especial, precisa responder a duas perguntas: ‘qual é a relação da teologia com as ciências especiais (Wissenschaften) e qual é a relação com a filosofia?’
Na verdade, Tillich (s.d.: 53ss) não vê conflito entre fé e conhecimento, desde que se entenda que “nem a ciência tem o direito ou capacidade de se intrometer nos interesses da fé, nem a fé tem o direito ou a capacidade de interferir na ciência”. Afinal, “a ciência só pode entrar em conflito com a ciência, e a fé apenas com a fé”. Tillich ressalta: “uma ciência que permanece ciência não pode contradizer a uma fé que permanece fé”. Ou seja, é importante que cada uma entenda o seu lugar.
Tendo como um dos objetivos assegurar à teologia um espaço entre as ciências, em 1923, Tillich escreveu a obra “System der Wissenschaften nach Gegenständen und Methoden” (Sistema das Ciências segundo objetivos e métodos), onde ele classificou o sistema das ciências a partir de três grupos, a saber, as ciências do pensamento, as ciências do ser e as ciências do espírito. (cf. BEIMS, 2005)
- O enredo da obra de Shelley questiona o espaço que o conhecimento científico ocupa na vida das pessoas, pintando a figura de um cientista que possui poderes outrora sobrenaturais, mas que agora a ciência pode alcançar, como a manipulação da eletricidade, por exemplo.
- Marylin Butler demonstrou que Shelley e seu marido estavam extremamente interessados numa controvérsia médica de seu tempo sobre se ‘a eletricidade, ou algo análogo a ela, poderia servir para a alma’. Este interesse inspirou os meios para Frankenstein introduzir uma vital faísca de vida na sua monstruosa criação. (DAVENPORT-HINES, 1999: 191s)
- O papel científico seria semelhante ao da religião, de trazer vida, só que através da eletricidade, cuja centralidade desta tecnologia para a vida física estava sendo debatida pelos contemporâneos do livro de Shelley. (cf. Ibidem: 192)
- O físico moderno Sir James Murray, cuja careira de pesquisa estava dedicada a estabelecer a posição da ‘agência voltaica nas leis da vida’, argumentou, em A eletricidade como uma causa da cólera ou outras epidemias (1949), que ‘a energia nervosa e o poder elétrico aparentaram ser idênticos’, e ele desenvolveu um novo alcance de terapias satisfatórias para suas doutrinas sobre a faísca de vida. (DAVENPORT-HINES, 1999: 191s)
- Sendo a ciência livre, como bem constatou Tillich (cf. 1988: 61), ela tem o direito de desenvolver suas técnicas, porém “toda verdade científica é provisória e sujeita a constante verificação, tanto no que diz respeito à sua compreensão da realidade como no que tange a sua formulação científica” (TILLICH, s.d.: 54). Victor Frankenstein é um exemplo de cientista provisório, quem não se prendeu muito às suas conquistas no momento em que atingiu o ponto máximo de seus experimentos, conseguindo dar vida a uma criatura feita de pedaços de cadáveres.
- No exato momento em que a criatura é animada, Frankenstein fica horrorizado. Imediatamente rejeitando a criatura como monstruosa nas bases de sua aparência física, Frankenstein foge e tenta esquecer tudo em sono. (PUNTER & BYRON, 2004: 199)
- Esse caráter provisório da ciência, exprimido aqui como uma fuga do cientista de uma possibilidade de verdade sempre aberta, se diferencia do conceito de fé que só tem verdade se exprimir uma preocupação incondicional. (cf. TILLICH, s.d.: 63) Nas palavras de um intérprete da obra de Shelley,
- a narrativa da própria criatura sugere que o principal pecado de Frankenstein não é seu ato de criação, mas sua falha em tomar responsabilidade daquilo que ele produziu. (...) Embora a criatura possa ser fisicamente repugnante, ela é inicialmente muito mais natural e humana que o criador que a rejeita. (PUNTER & BYRON, 2004: 200)
4. Considerações finais
O romance “Frankenstein” revela que há dimensões na ciência sobre as quais se deve refletir criticamente, que estão para além do âmbito científico propriamente dito. O resultado daquilo que a ciência tem provocado, transformando o ser humano em Prometeu, em Frankenstein, pode ser levado em conta através de um sugestivo diálogo com a religião. A propósito, o jovem ambicioso cientista, protagonista da história de Shelley, representa não apenas a avidez científica em realizar tudo aquilo a que se propõe, incluindo alvos aparentemente impossíveis, como dar vida a uma criatura, mas uma sociedade composta cada vez mais por “partes de máquinas do que por seres humanos” (TILLICH, 1988: 128). Estas “partes”, sobre as quais fala Tillich, lembram aquelas partes de corpos mortos que compõem a criação inaudita do ganancioso cientista, relatada por Shelley.
Todavia, é importante não perder de vista que o caráter provisório da ciência a faz diferente da religião, pois, enquanto “fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente” (TILLICH, s.d.: 5), “Frankenstein” traz um alerta de que o cientista pode fugir a qualquer momento após realizar seu alvo de dar vida a pedaços de cadáveres, como fez o protagonista desta obra literária.
Referências bibliográficas
BEIMS, R. W. O sistema das ciências. In: MUELLER, E. R. & BEIMS, R. W. (orgs.) Fronteiras e interfaces: o pensamento de Paul Tillich em perspective interdisciplinar. São Leopoldo: Sinodal, 2005, pp. 99-119.
DAVENPORT-HINES, R. Four hundred years of excess, horror, evil and ruin. New York: North Point West, 1999.
McGRATH, A. E. Fundamentos do diálogo entre ciência e religião. Trad. Jaci Maraschin. São Paulo: Loyola, 2005.
MONTEIRO, M. C. Na aurora da modernidade: a ascensão dos romances gótico e cortês na literatura inglesa. Rio de Janeiro: Caetés, 2004.
__________. Corpos assombrados na narrativa gótica inglesa. In: HENRIQUES, A. L. S. (org.) Feminismos, identidades, comparativismos: vertentes nas literaturas de língua inglesa. Rio de Janeiro: Caetés, 2003, pp. 111-130.
PUNTER, D. & GLENNIS, B. The Gothic. Oxford: Blackwell, 2004
SHELLEY, M. Frankenstein. Londres: Penguin, 1994.
SILVA, A. M. da. Literatura inglesa para brasileiros. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006.
TILLICH, P. Dinâmica da fé. Trad. Walter O. Schlupp. 4ª ed. São Leopoldo: Sinodal, s.d.
__________. The spiritual situation in our technical society. Macon: Mercer Univesity Press, 1988.
__________. Teologia sistemática. Trad. Getúlio Betelli e Geraldo Korndörfer. 5ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
| [1] | Discente do programa de pós-graduação em Ciências da Religião (mestrado) da Universidade Metodista de São Paulo. |
| [2] | Nascida em Londres em 1797, morreu na mesma cidade em 1851. |
| [3] | Segundo Monteiro (2004: 115), estavam presentes também Jane Clairmont, amante de Byron, e Jonh Polidori. |
| [4] | Além dessa obra, o concurso resultou também no livro The vampyre, de Polidori, que seria a extensão de um fragmento de história de vampiros iniciada por Byron. Polidori teria sido um dos primeiros a explorar as tradições populares sobre vampiros neste livro, cuja primeira publicação está datada em 1819. (cf. MONTEIRO, 2004: 115) |








