Conversa com o editor
Este número está fechando o sexto ano da nossa revista. A maior parte dos artigos trata da religião no sentido estrito da palavra, que Tillich considerava como um dos setores específicos da cultura.
Os quatro primeiros manifestam o interesse que Tillich demonstrava, sobretudo nos últimos anos da sua vida, pela História das Religiões. Eles destacam especialmente dois textos de Tillich: a série de conferências sobre o encontro do cristianismo com as religiões mundiais e a última conferência de Tillich, sobre a importância da História das Religiões para a Teologia Sistemática. Lembro que o número anterior de Correlatio já trazia um estudo bastante aprofundado a respeito desse último texto, assinado por Alberto Roldán.
O artigo de Heloisa Helena Guedes Terror parte da última conferência de Tillich. O seu objetivo é mais modesto que o trabalho de Alberto Roldán. Pretende apenas apresentar as reflexões de Tillich na famosa conferência de 1965, a respeito das religiões e suas perspectivas futuras. A partir das considerações de Mircea Eliade a respeito dos últimos trabalhos de Tillich sobre o assunto, o texto resume os principais fundamentos metodológicos indicados por Tillich para o teólogo disposto a um diálogo com a história das religiões. Abordando a importância da universalidade da revelação presente nas diversas experiências religiosas, assim como o exercício da crítica à sacramentalidade para a concretização de uma teologia da história das religiões, Tillich propõe um desafio para a elaboração desta teologia a partir de um diálogo entre as diversas tradições religiosas.
A longa reflexão de Osvaldo Luiz Ribeiro serve-se também da última conferência pública de Paul Tillich, “A Significação da História das Religiões para o Teólogo Sistemático”. Por um lado, o autor mostra a dependência de Tillich em relação à metafísica e à ontologia cristãs pré-modernas. Por outro lado, o seu objetivo principal é, criticando os pressupostos de Tillich, de postular, incipientemente, uma teologia pós-metafísica comprometida e articulada com a plataforma epistemológica peculiar ao jogo das Ciências Humanas. Seguindo passo a passo o texto escolhido, o autor vai tecendo uma rede de relações, críticas e sugestões que constituem um texto instigante.
O artigo de Felipe Fanuel Xavier Rodrigues se dedica às conferências de Tillich sobre o diálogo inter-religioso a ser iniciado a partir do cristianismo. O encontro das religiões mundiais é uma oportunidade que a fé cristã tem de se colocar não apenas na fronteira das religiões, mas também das quase-religiões, as quais definem a presente situação da religião no mundo. A possibilidade de conversação com o budismo revela um caminho de diálogo que respeite as diferenças e semelhanças no contato com as diversas tradições religiosas. A superação da própria particularidade levará o cristianismo à percepção da presença espiritual em outras expressões de significado último da existência humana.
Uipirangi Franklin da Silva Câmara, por sua vez, focaliza um dos elementos das mesmas conferências: o possível diálogo entre cristianismo e budismo. Sabe-se que Tillich se interessou sobremaneira pelo budismo nos seus últimos anos de vida. O autor do ensaio observa que, num contexto de pluralidade religiosa e sofrimento humano, abre-se uma enorme possibilidade para uma atuação conjunta de diversas expressões religiosas quando abertas ao diálogo. Ele pretende então pontuar, partindo de Paul Tillich, possibilidades libertadoras que o diálogo entre Cristianismo e Budismo pode trazer para a realidade brasileira.
O artigo de Cleber Baleeiro parte do pensamento de Gianni Vattimo para analisar o retorno do religioso no mundo da técnica após o anúncio Nietzschiano da “morte de Deus”. Esse retorno se dá, em parte, por um desejo de respostas que não se encontram na filosofia, num momento em que as metanarrativas concernentes à técnica começam a se fragmentar. A técnica, como elemento de desumanização, não deve apenas ser vista como ameaça, mas ainda assim, criticada em sua tentativa de transformação do mundo em realidade objetiva, o que sustentaria um retorno à metafísica.
O jogo de palavras contido no título do ensaio de Leonardo Gonçalves de Alvarenga: “Fut-baal”, chama a atenção sobre o caráter quase religioso da paixão brasileira pelo futebol. O autor acredita que o pensamento de Paul Tillich, no que diz respeito à relação da religião com a cultura, abre portas para uma discussão entre duas esferas catalisadoras e difusas ao mesmo tempo, o futebol (enquanto arte) e a religião, dois fenômenos que com o passar do tempo tornaram-se duas paixões nacionais. O Futebol traz consigo de uma forma sutil e às vezes disfarçada paralelos sobre os mais variados temas da religião, como hinos, liturgia e devoção.
Jorge Pinheiro esboça uma comparação entre Tillich e Gramsci do ponto de vista da teoria sócio - política. Para ele, Antonio Gramsci e Paul Tillich têm coisas em comum. Ambos foram militantes políticos e fundamentaram parte de suas concepções em Karl Marx. Por isso, é importante ver que aproximações e assimetrias existem em suas elaborações teóricas. Cristianismo, intelectualidade, socialismo e democracia são temas que atravessam seus estudos. O confronto entre os dois pensadores poderá acrescentar elementos novos numa discussão cada vez mais acirrada em nossa América Latina: ainda é possível o socialismo?
Enfim, Cláudio de Oliveira Ribeiro procura, na eclesiologia sistemática de Tillich, fundamentos teóricos mais sólidos para as novas experiências no campo da pastoral. Nessa perspectiva, o conceito de Comunidade Espiritual, formulado por Paul Tillich, em especial as suas marcas de fé, amor, unidade e universalidade, contribui para melhor delimitação eclesial das iniciativas pastorais. Além desse aspecto, a elaboração sistemática das funções da Igreja feita por Tillich (de constituição, de expansão e de construção) coopera para uma aproximação entre as discussões eclesiológicas e as demandas pastorais. Tais funções contribuem para que se possa evitar enrijecimentos institucionais devidos a uma supremacia eclesiástica em detrimento da dimensão eclesial.
Uma resenha completa o número que oferecemos agora aos nossos leitores. Desejo a todas e todos uma boa leitura. Enviem-nos suas reações e sugestões no e.mail etienne.higuet@metodista.br.








