O Retorno do Religioso no Mundo da Técnica - Reflexão a partir da filosofia de Gianni Vattimo
ResumoNosso artigo parte do pensamento de Gianni Vattimo para analisar o retorno do religioso no mundo da técnica após o anúncio Nietzschiano da “morte de Deus”. Esse retorno se dá, em parte, por um desejo de respostas que não se encontra na filosofia, num momento em que as metanarrativas concernentes à técnica começam a se fragmentar. A técnica, como elemento de desumanização, não deve ser vista como ameaça, mas ainda assim, criticada em sua tentativa de transformação do mundo em realidade objetiva, o que sustentaria um retorno à metafísica.Palavras-chave: Vattimo – religião – técnica – morte de Deus – Ge-Stell
The Religious Return in Technical World - A reflection from Gianni Vattimo’s philosophy
AbstractThis paper analyses, from Vattimo’s philosophy, the religious return in a technical world after Nietzschian announcement of God’s death. This return happens, partially, because of a desire of answers that cannot be found in philosophy, in a moment when meta-narratives concerning to technique begin to fall down. Technique, as dehumanization element, must not be understood as threat, but still, criticized in its trend to transform the world in objective reality, what would sustain a return to metaphysics.Key-words: Vattimo, religion, technique, God’s death, Ge-Stell.
O presente texto é uma tentativa de perceber como se dá o retorno do religioso no mundo dominado pela técnica a partir da filosofia de Gianni Vattimo. Logo de início é importante compreender que não nos referimos ao mundo da técnica como Ge-Stell, mas como momento de predominância da técnica na civilização humana.
Vattimo desenvolve sua filosofia a partir do pensamento de Nietzsche e Heidegger, desde sua compreensão de pós-modernidade até sua reflexão sobre o retorno do religioso; quanto à questão da técnica, ele concentra-se especificamente em Heidegger que, entre os dois filósofos, foi quem mais pensou sobre o tema. A relação entre religião e técnica não é muito trabalhada por Vattimo, e quando é, não se dá de forma muito clara, mas consideramos importante destacá-la entendendo que é fundamental para a compreensão da filosofia da religião na pós-modernidade.
Nesse breve texto abordaremos a compreensão da técnica em Vattimo, as possibilidades e impossibilidades que ele vê para a religião em seu retorno na pós-modernidade e, por fim, a relação entre o retorno da religião e a técnica moderna.
1. A compreensão da técnica
A partir de Aristóteles, techné pode ser compreendida como aquilo que pode ser feito pelas mãos humanas: tanto pode ser a confecção de um instrumento, como uma atividade agrícola ou uma obra de arte. Mas um sentido ainda anterior a esse é o de techné relacionado a episteme (ciência ou conhecimento), que dá idéia de um conhecimento aberto, como revelação. Heidegger (2001, p. 17) refletindo sobre essa relação diz que a essência da técnica tem tudo a ver com episteme pois é nesse descobrimento (revelação) que se funda a produção (poiésis). Granger (1994, p. 24) distingue techné de episteme pela possibilidade de demonstração e pela referência desta última ao necessário.
Heidegger (2001, p. 12), apoiando-se na concepção corrente em sua época, compreende que a técnica é uma atividade humana que é meio para um determinado fim, o que ele chama de “determinação instrumental e antropológica da técnica”. Pode-se afirmá-la ou negá-la, mas considerá-la neutra é fechar os olhos à sua essência. Para Lyotard (2006, p. 80), por exemplo, a técnica moderna está ligada, não ao verdadeiro, ao justo, ao belo, etc., mas à eficiência: ser bem-sucedida e ter baixo custo. Em Heidegger – e ele insiste nisso – a essência da técnica não é algo técnico (VATTIMO, 2002, p. 36). Como já dissemos, Vattimo se utiliza de Heidegger para falar sobre técnica, principalmente no que concerne ao Ge-Stell, que ele interpreta como “imposição e provocação do mundo técnico”, a essência da técnica. O fim da metafísica está ligado a essa essência, a técnica representa sua consumação. Vattimo já disse que “Nietzsche ligara a morte de Deus (...) à nova situação de relativa segurança que a existência individual e social adquiriu em virtude da organização social e do desenvolvimento técnico” (2002, p. 188).
- No segundo capítulo de O fim da modernidade Vattimo aponta como causa do fim do humanismo a “morte de Deus”, que rompeu com o ideal de fundamento transcendente. O humanismo está conectado, ainda que de forma pouco clara, a uma mentalidade metafísica enquanto compreende o ser humano como fundamento e porta como ideal leva-lo à sua plenitude. O humanismo entra em crise diante da técnica moderna porque nela não há ideal de plenitude humana, nem ser humano como fundamento. Em outras palavras:
- A técnica aparece como a causa de um processo geral de desumanização, que compreende seja obscurecimento dos ideais humanistas da cultura em favor de uma formação do homem centrada na ciência e nas habilidades produtivas racionalmente dirigidas, seja, no plano da organização social e política, um processo de acentuada racionalização que deixa entrever as características da sociedade da organização total, descrita e criticada por Adorno (VATTIMO, 2002, p. 20).
Na verdade a técnica não se opõe totalmente aos valores do humanismo, mas faz com que este entre em crise quando o chama a se superar na superação da metafísica. Inácio Strieder (1983, p. 39), partindo de uma visão humanista (e metafísica) acaba, em parte, concordando com essa percepção quando diz: “O certo é que a técnica envolve e determina a vida do homem atual. (...) Esta realidade é um valor para o homem, mas se encontra de certa forma em conflito com os valores humanísticos porque situa o homem em segundo plano”.
O humanismo acaba por conceber a técnica numa visão demoníaca, prejudicial ao desenvolvimento da vida e desintegradora da essência humana. Mas Vattimo (1998, p. 44; 2002 p. 30) diz que, longe dessa visão demoníaca, para Heidegger é ela quem prepara a saída da metafísica e para Nietzsche é a possibilidade do homem livrar-se de sua subjetividade, “entendida como imortalidade da alma”.
Se, por um lado, a técnica não deve ser vista como demoníaca, por outro deve ser criticada em sua tentativa de absolutizar suas leis e seus jogos. Há um retorno à metafísica no momento em que a técnica impõe seu mundo como “realidade” determinante [2] (VATTIMO, 2002, p. 15, 36). Vattimo (1998, p. 20) ainda alerta para o perigo do ser humano no mundo da técnica moderna tornar-se “puro material, parte da engrenagem geral da produção e do consumo”, que é o que Adorno chamou de “mundo da ‘organização total’”. Esse perigo surge da tentativa de manipulação do objeto da técnica. Ele ainda diz que: “O mito da técnica desumanizante e, também, a realidade desse mito nas sociedades da organização total são enrijecimentos metafísicos que continuam a ler a fábula [3] como ‘verdade’” (VATTIMO, 2002, p. 16).
2. Possibilidades e impossibilidades da religião na pós-modernidade
A pós-modernidade altera significativamente a forma da experiência religiosa e a partir disso, Vattimo aponta algumas novas possibilidades e impossibilidades. Com o anúncio da “morte do Deus” em Nietzsche, a religião, que sempre esteve vinculada a uma concepção metafísica de mundo, perdeu seu grande fundamento. Essa perda de fundamento além de representar crise para as instituições religiosas significa a oportunidade para uma reflexão filosófica de maior profundidade, possibilitando uma desconstrução que permite chegar à essência da experiência religiosa. Ou seja, “é (só) porque as metanarrações metafísicas se dissolveram que a filosofia redescobriu a plausibilidade da religião e pode, por conseguinte, olhar para a necessidade religiosa da consciência comum fora dos esquemas da crítica iluminista” (VATTIMO, 2000, p. 96).
Mas essa religião sem fundamento não é a negação da existência de Deus, mas a compreensão de que seu significado não é claro. Na verdade a questão da existência de Deus em Vattimo não é importante, o que deve ser levado em conta é a experiência religiosa, ainda que vazia de objeto, no que ela significa para o indivíduo religioso e a forma como ela pode promover solidariedade entre as pessoas. O próprio Vattimo, quando, certa vez, questionado se ainda acreditava em Deus, se colocou como alguém que crê que crê, expressando bem o sentido de fé pós-moderna como a impossibilidade de certezas absolutas (VATTIMO, 1998, p. 66).
A pós-modernidade não esvazia apenas o conteúdo da religião, mas também do ateísmo. Um ateísmo baseado na impossibilidade de comprovação empírica da existência de Deus torna-se impossível, porque essa forma de comprovação como absoluta, metanarrativa moderna, perdeu sua força com a dissolução dos elementos metafísicos na pós-modernidade. Além disso, só se pode negar a existência do Deus metafísico: um Deus com um significado para ser negado e, sobre o Deus-vazio-de-significado da pós-modernidade, não se pode dizer muita coisa. Sendo assim, Vattimo (2001, p. 111-112) critica o ateísmo filosófico inerte que considera a religião como ideologia ou atraso social, e acusa-o de ser “ineficaz” em sua leitura da sociedade.
Um tema fundamental para se entender em Vattimo como se dá a religião na pós-modernidade é o símbolo da encarnação. A encarnação não é vista apenas como um dogma cristão mas uma metáfora que ultrapassa o cristianismo. Por isso ele diz: “É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensarmos Deus também sob a forma de outro ser natural, como acontece em tantas mitologias religiosas não-cristãs” (VATTIMO, 2004, p. 40). A encarnação, enquanto kenosis (esvaziamento, abandono, no sentido de um Deus que se esvazia, se abandona), tem alguns significados, sendo que dois são principais. O primeiro deles Vattimo desenvolveu a partir da concepção de René Girard de que a civilização humana está relacionada ao sagrado que se expressa em violência. “Jesus não se encarna para fornecer ao Pai uma vítima adequada à sua ira, mas vem ao mundo para revelar e, portanto, também para liquidar o nexo entre a violência e o sagrado” (VATTIMO, 1998, p. 28). O segundo significado está relacionado ao esvaziamento de Deus, em que este perde seu caráter divino-religioso secularizando-se, apontando uma vocação do cristianismo para a secularização (VATTIMO, 1998, p. 38). A secularização como possibilidade para a religião pós-metafísica já estava contida na própria essência do cristianismo e continua em processo. Vattimo (1998, p. 41) entende que ela não é uma purificação da religião, como propuseram os teólogos dialéticos, mas a realização da kenosis de forma mais perceptível e isso não é perda para o cristianismo, mas a realização do seu sentido.
- Quando Vattimo fala dessa vocação do cristianismo para a secularização, ou seja, de um cristianismo não-religioso, aproxima-se, em parte, do pensamento de Bonhoeffer. Este disse:
- Não é de nossa alçada prever o dia – mas esse dia virá – no qual as pessoas serão novamente vocacionadas para expressar a Palavra de Deus de tal maneira que o mundo seja transformado e renovado por ela. Será uma nova linguagem, totalmente arreligiosa, mas libertadora e redentora como a linguagem de Jesus (BONHOEFFER, 2003, p. 397).
Essa aproximação poderia implicar na constatação de falta de originalidade no pensamento de Vattimo? Melhor seria perguntarmos: até onde vai essa aproximação? Em primeiro lugar, há uma diferença nos motivos para um cristianismo secularizado (a-religioso ou não religioso): em Vattimo o cristianismo se seculariza pela perda dos elementos metafísicos a partir da “morte de Deus”, já em Bonhoeffer não há uma superação desses elementos, mas – como diz o próprio Vattimo (2004, p. 51, 52) – uma afirmação da transcendência de Deus. Além disso, em Vattimo a secularização do cristianismo é a própria mensagem do cristianismo e é inevitável dentro de uma concepção pós-metafísica, enquanto em Bonhoeffer está mais para uma linguagem que se opta para falar do Evangelho a uma sociedade em que os símbolos religiosos já não são tão significativos. Portanto, em primeira instância, há certa aproximação entre os dois, mas as diferenças (bem significativas) devem ser levadas em conta.
Considerações finais: O retorno do religioso no mundo da técnica
Algo que observamos como uma inquietação em Vattimo é a pergunta sobre as causas do retorno do religioso num mundo técnico e sem fundamento absoluto. Ele próprio se posiciona diante dessa pergunta dizendo que esse retorno se dá em duas esferas: na cultura comum e na filosofia. Na primeira o religioso retorna gerado, principalmente, pelo medo diante dos riscos de catástrofes nunca antes imaginadas, como o risco de uma guerra nuclear e a crise ecológica; na segunda pela queda das metanarrativas, que enfraqueceu as filosofias que se opunham à religião (VATTIMO, 2000, p. 92-93). Por esse motivo Vattimo (2004, p. 111) afirma que a filosofia “pode e deve, reconhecendo-se parte do mesmo processo histórico que favorece o retorno da religião, apreender no interior dele os princípios para avaliar criticamente os seus êxitos”.
- A pós-modernidade, como época do fim da metafísica, é momento propício para o retorno da religião. Com a perda dos fundamentos absolutos, tanto a filosofia como a técnica deixam de fornecer respostas ao vazio de sentido do ser humano, que o pode encontrar na religião. Além disso, no processo da técnica moderna surgem questões éticas, frente às quais ela não pode se posicionar, forçando a busca de resposta a outras instâncias, como a religião. Sobre essa relação do retorno do religioso com o mundo da técnica Vattimo diz:
- O mesmo fenômeno de retorno da religião na nossa cultura parece hoje ligado à enormidade e aparente insolubilidade, para os instrumentos da razão e da técnica, de muitos problemas que se colocaram ultimamente ao homem da modernidade tardia: questões que dizem respeito à biotécnica, sobretudo, da manipulação genética às questões ecológicas e, ainda, a todos os problemas ligados à explosão da violência nas novas condições de existência da sociedade massificada (VATTIMO, 1998, p. 13).
Vattimo (2004, p. 66) ainda diz que a técnica, que hoje é também tecnologia da informação, “enfraquece a realidade ao mostrá-la (...) como um jogo de interpretações”. Uma leitura mais “espiritual” da Bíblia e dos dogmas cristãos está relacionada a esse enfraquecimento da realidade. Essa espiritualização da leitura, que é a desvinculação da literalidade, ou seja, uma leitura onde o único limite é a caridade, é posta como alternativa para as igrejas, no que concerne ao encontro com outras religiões, “justo no mundo da tecnologia das comunicações, no mundo do conflito das interpretações”.
Vattimo vai além das questões trabalhadas por Heidegger sobre técnica, principalmente quando, ainda que brevemente, as relaciona com o retorno do religioso na superação da metafísica. Ele contribui com o tema pela lucidez com que aborda a religião, mesmo sendo de tradição cristã, e a técnica, mesmo vivendo numa sociedade dominada pela ciência-técnica. Ele não as demoniza, como por exemplo, o humanismo (em relação à técnica) e o iluminismo (em relação à religião) nem deixa de tecer suas críticas.
| [1] | Mestrando em Ciências da Religião (UMESP). |
| [2] | Na pós-modernidade a experiência é que se constitui “realidade” (VATTIMO, 2001, p. 21). |
| [3] | Quando Vattimo fala sobre fábula ele reporta-se o capítulo Como o “mundo-verdade” se tornou enfim uma fábula, do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, onde o autor trata da cristalização do pensamento metafísico na filosofia ocidental. |
Referências bibliográficas
BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: Cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
GRANGER, Gilles-Gaston. A ciência e as ciências. São Paulo: UNESP, 1994.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 9ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 2006.
STRIEDER, Inácio. Os fundamentos do homem. Série didática. Recife: Fundação Antonio dos Santos Abranches, 1983.
VATTIMO, Gianni. Acreditar em acreditar. Lisboa: Relógio D’água, 1998.
______. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Editores / Instituto Italiano di Cultura, 2001.
______. Depois da cristandade: Por um cristianismo não religioso. Rio de Janeiro: Record, 2004.
______. O fim da modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
______. O vestígio do vestígio. In: VATTIMO, G.; DERRIDA, J. (Organizadores). A religião: O seminário de Capri. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.








