Conversa com o editor

Etienne A. Higuet

Apresentamos mais um número da nossa revista Correlatio. Os quatro primeiros artigos correspondem a três conferências e uma comunicação, apresentadas no XIV Seminário em Diálogo com o pensamento de Paul Tillich, sobre o tema “Religião, Teologia e Literatura”. O programa completo do Seminário encontra-se na seção “Notícias” deste mesmo número da revista. Mais uma vez, tentamos estabelecer uma correlação entre a religião e a cultura, desta vez entre a religião e a literatura. Procuramos inspiração na teologia da cultura elaborada por Paul Tillich, embora de modo não servil. Sabemos que a maior parte da carreira dele desenrolou-se na primeira metade do século XX, no hemisfério norte, o que marcou profundamente o seu pensamento. Sabemos também que dedicou muito pouco espaço na obra dele à análise da literatura, dedicando-se principalmente às artes plásticas. Contudo, os estudos de Tillich sobre a arte oferecem preciosas indicações para o tema tratado em 2008. O leitor poderá verificar isso em vários textos agora disponíveis no presente número.

O texto de João Cesário Leonel Ferreira é dedicado a uma consideração pouco comum em ambiente teológico: a Bíblia enquanto literatura. Apresenta uma proposta de leitura das narrativas bíblicas por intermédio de elementos da teoria literária, ressaltando o conceito de comunicação retórica. Inicialmente, indica e comenta as principais obras publicadas no Brasil na área, discutindo, a seguir, a relação entre Bíblia e literatura. Na seqüência, define os termos que serão empregados, em especial, Bíblia e literatura, e, finalmente os aplica às narrativas bíblicas.

Marcus Alexandre Motta procura localizar uma herança de Fernando Pessoa e heterônimos sobre a questão, geral, das afinidades entre Literatura e Religião. A primeira parte estabelece um conto intelectual que usufrui das frases pessoanas, de maneira a arregimentar uma poética que exclua a possibilidade de uma postura de comentarista. Posteriormente, apresentam-se as “afinidades eletivas” entre Literatura e Religião, de forma a demonstrar como a “artisticidade” da arte de Fernando Pessoa é uma religiosidade para com o outro e o mundo.

Ao analisar dois contos breves de Kafka, “Um cruzamento” e “Uma preocupação de um pai de família”, Eduardo Gross analisa a possibilidade de relação entre os temas destes contos e a questão da religião. Dois personagens recebem atenção especial: O animal híbrido, no primeiro, e Odradek, no segundo. Ambos são vistos como representações do insólito e do absurdo, e suas características são comparadas àquelas atribuídas a seres divinos e humanos. Finalmente, o autor testa a validade da sua interpretação, estabelecendo uma relação com alguns elementos do pensamento de Paul Tillich.

André Luiz do Amaral e Diógenes Braga Ramos tratam de mostrar, usando a metodologia da teopoética, as interfaces entre a poesia erótica de Hilda Hilst e a teologia tillichiana. Uma breve apresentação da concepção do erotismo em Georges Bataille ajuda a compreender o conceito de Eros criativo em Paul Tillich e seu conseqüente influxo em Hilda Hilst.

Antonio Almeida Rodrigues da Silva lança mão dos estudos tillichianos sobre as artes plásticas, para tratar da distinção e das semelhanças entre experiência estética e experiência religiosa. É que a obra de arte não é apenas um mero “objeto” de prazer, mas oferece possibilidades de desvelar experiências originárias, abrindo gamas de sentidos que ajudam os seres humanos a significar a própria existência. Para Tillich, numa obra de arte deve-se buscar o que se esconde no inaparente, pois é aí que reside a sua substância religiosa. Assim, na arte, como em qualquer manifestação cultural, por mais secular que aparente ser, se expressa sempre uma preocupação última.

O ensaio bem humorado de Osvaldo Luiz Ribeiro postula a insuficiência epistemológico-semiótica da fórmula de Tillich: “’Deus’ é símbolo para Deus”. Fazendo uma leitura da expressão tillichiana a partir da semiótica triádica de Peirce, o autor constata a falta do elemento correspondente à terceiridade – o “eu” fundante-interpretante. Finalmente, o autor inquire, propondo uma resposta por meio de Marx e Freud, a razão do ocultamento, aí, do “eu” fideísta-voluntarista, do “eu” crente.

Para John P. Dourley, a análise da relação entre a teologia de Paul Tillich e a psicologia deve se iniciar com a sugestão mais abrangente de que, com o progresso de sua reflexão, Tillich fundiu os domínios destas duas disciplinas a ponto da profundidade da psique e o que ele denomina “a profundidade da razão” tornarem-se a mesma profundidade. Seguindo a tradição de pensadores como Schelling e Heidegger, Tillich vinculou tanto sua ontologia como sua teologia à psicologia, num esforço de reconectar a mente com as profundezas da subjetividade humana e, por meio desta subjetividade, com as estruturas universais do ser em si mesmo (being itself).

O artigo de Claudio de Oliveira Ribeiro trata da relação entre Reino de Deus e história em Paul Tillich, explicitando conceitos básicos para o estudo da escatologia e para a relação entre salvação e história. Em especial, a noção do Reino para além da história como iluminação teológica para o tempo presente e a noção da vida eterna como fim (sentido) da história ajudam na avaliação das perspectivas demasiadamente intra-históricas da compreensão do Reino de Deus.

Em “Desenvolvendo uma ética-ontológica para o problema ecológico a partir de Paul Tillich”, Júlio Fontana trata da postura do homem em relação à natureza. O artigo visa propor uma ética-ontológica que possibilite a reconciliação do homem com a natureza, buscando a sua inspiração em Paul Tillich. Embora Tillich não tenha tratado explicitamente do tema, este permaneceu implícito na sua teologia, especialmente no conceito de unidade multidimensional da vida e na sua interpretação realista da natureza.

Enfim, Cleber Araújo Souto Baleeiro busca compreender de que forma o filósofo pós-moderno Gianni Vattimo concebe a secularização frente ao retorno ou despertar recente da religiosidade no Ocidente, como entende as causas deste fenômeno e com situa a secularização nos contextos da modernidade e pós-modernidade.

O próximo número, que deverá sair até o início de 2009, trará mais alguns textos do nosso XIV° Seminário. Desejamos a todos uma boa leitura.