Conversa com o editor

Etienne A. Higuet

O número de Correlatio que aparece na tela do seu computador traz ainda várias contribuições – mais precisamente sete - apresentadas no XIV Seminário em diálogo com o pensamento de Paul Tillich, que foi realizado na Universidade Metodista de São Paulo em maio de 2008, sobre o tema: “Religião, teologia e literatura”.

O primeiro artigo é a versão ampliada da conferência de Carlos Eduardo Calvani, com um título novo: “Teologia e Literatura: princípio profético, busca de sentido e ambigüidades na vida religiosa.” Tomando as citações de Tillich como ponto de partida, o ensaio esboça algumas possibilidades de leitura e interpretação de obras literárias a partir de três conceitos da obra tillichiana: profetismo (ou princípio profético protestante), especificamente na obra do poeta português Guerra Junqueiro; busca de sentido, comparando John Bunyan e Paulo Coelho; finalmente, busca detectar alguns sinais do conceito de ambigüidade na vivência de fé proposta na obra literária de Miguel de Unamuno.

O texto de Heloisa Helena Guedes Terror - “A poesia e o espírito da palavra: reflexões teológicas a partir de Meishu-Sama”- apresenta algumas considerações sobre a poesia, em particular a poesia japonesa, a partir do conceito de “espírito da palavra”, fundamentando-se em Meishu-Sama, fundador da Igreja Messiânica Mundial. Meishu-Sama discute o papel da palavra na criação poética como forma de influir sobre o Cosmos, na medida em que pode contribuir para a harmonia ou a desarmonia do Universo, a partir do espírito, ou seja, do sentimento que esta palavra carrega.

Claudinei Fernandes Paulino da Silva esboça um possível diálogo teológico entre a Cristologia da Libertação de Juan Luis Segundo e a Cristologia da Liberdade de Dostoievski. A cristologia de Juan Luis Segundo é trabalhada a partir dos sinóticos, a origem de Jesus de Nazaré nas primeiras comunidades, o deslocamento de sua significação histórica e o seu projeto libertador e humanizador. Em relação a Dostoievski, apresenta-se parte de sua biografia, sua perspectiva cristológica - aquilo que o texto chama de cristologia literária -, encerrando com a lenda do “Grande Inquisidor” num diálogo com Juan Luis Segundo.

Fabrício Cordeiro Dantas resolve incorporar à literatura a letra da canção “Sete Marias”, de Sá e Guarabira. Para ele, no mundo atual, o valor da arte vem sendo constantemente revisitado, inclusive pela sua dimensão propositiva de nova realidade, o que a aproxima da teologia. Diante da idéia da literatura conectada à teologia também por meio do símbolo, o autor procura discutir como tal recurso entra em conjunção com a metáfora na configuração do discurso teológico na canção analisada. O empreendimento teológico da letra se manifesta quando reúne símbolos seculares e religiosos, que refletem, de modo metafórico, a condição das mulheres e a realidade nordestina.

Em“Riobaldo e sua meia teologia: liberdade e sofrimento como temas de correspondência entre teologia e literatura”, Clademilson Fernandes Paulino da Silva pretende, antes de tudo, fazer uma leitura de Riobaldo, personagem do “Grande Sertão: Veredas”, romance de João Guimarães Rosa, como uma personagem interlocutora entre a literatura e a teologia. Refletindo sobre a vida, Riobaldo, como personagem humana, livre e sofrente, busca entender da matéria vertente, que é a grande tessitura do romance. O autor procura pensar, de dentro da literatura, os grandes temas aqui em correspondência: a liberdade e o sofrimento, de uma forma teológica. No entanto, essa forma teológico-literária ou literário-teológica de pensar, pensada sem lugar eclesiástico, sem dogma e sem sistematização, configura-se apenas como meia teologia, já que é teologia num lugar, em tese, não teológico, a literatura.

No artigo “Profecia, Existência e Teologia da Cultura na poética de Belchior”, Natanael Gabriel da Silva mostra que a obra poética do cantor popular Belchior tem uma natureza existencial e profética, possível de ser estudada como discurso religioso e cristão.Temas da teologia elaborada por Tillich, como inocência sonhadora, preocupação última, vida sem ambigüidade, por exemplo, podem ser encontrados em diálogo com a obra poético-profética de Belchior. Ao negar o cristianismo, e dimensioná-lo como um não-cristianismo, Belchior elabora pelo viés da contradição um novo sentido do modo de ser cristão e a busca do Paraíso em sua condição de inocência.

Rogério Costa Migliorini reflete sobre “O poder integrador da comunicação não-verbal baseada no movimento para o diálogo inter-religioso”. Esse diálogo é mais do que uma conversa verbal, é uma forma de relacionar-se com o(a) próximo(a) por meio de outros recursos, tais como vivências baseadas em trocas e diálogos não-verbais. O autor acredita ser possível aprimorarmos nossa capacidade de enxergar, ouvir, tocar, bem como tomarmos consciência de que, além do diálogo verbal, interagimos com o outro física, espacial, emocional e espiritualmente. Na sua análise, Rogério Migliorini relaciona o poder integrador do movimento e da expressão não-verbal com o pensamento de teólogo(a)s como Paul Tillich e Lieve Troch, e do coreógrafo francês Maurice Béjart.

Antonio Almeida Rodrigues da Silva e Cristina Kelly da Silva Pereira abordam o tema tillichiano da irrupção do Incondicionado na contemplação das obras de arte. A superfície pode levar os indivíduos a conhecerem o que existe por debaixo dela. No mergulhar e, conseqüentemente, no quebrar da superfície, o ser humano pergunta por uma Realidade Última. O tema e a forma compõem a superfície de toda criação cultural. A substância, em contrapartida, é compreendida como o sentido, isto é, a substancialidade espiritual que dá sentido à forma. Consoante a isso, para Tillich, sempre que uma obra de arte é contemplada, deve-se buscar aquilo que se esconde atrás das aparências; aí mora a substância da obra de arte; aí há uma irrupção do Incondicionado.

Etienne Higuet procura apresentar, de forma sintética, o espectro inteiro das concepções de Tillich sobre religião, cultura e suas mútuas relações. Além do oferecer uma visão didática dos conceitos centrais da Teologia da Cultura, o autor pretende trazer maiores subsídios para fundamentar uma crítica do intelectualismo no protestantismo histórico, especialmente no Brasil, e uma aproximação ecumênica mais decidida entre as igrejas protestantes e o catolicismo.

Em “A noção de pecado como alienação em Paul Tillich – Notas de leitura a partir do pensamento de Gianni Vattimo”, Cleber Souto Baleeiro aborda indiretamente a questão das possíveis relações (a posteriori) entre o pensamento de Paul Tillich e a filosofia pós-moderna. Duas questões orientam o ensaio: que significa “pecado” no pensamento de Paul Tillich? E como esse significado pode relacionar-se com o pensamento pós-metafísico de Gianni Vattimo? Em Tillich, há uma relação íntima entre alienação e pecado. A alienação é pensada, em primeiro lugar, como separação do homem do ser de Deus, do seu ser e do ser do mundo. Em segundo lugar, a alienação é, ao mesmo tempo, destino do homem, algo a que ele não pode fugir, e conseqüência de sua liberdade. A leitura de Tillich a partir de Vattimo permite perceber que o maior distanciamento entre os dois autores está na ontologia, o ser aparecendo ou não como fundamento estável. Ao contrário, eles se aproximam quanto à relação entre amor e pecado.

Carlos Jeremias Klein aproveita a comemoração dos 500 anos de João Calvino para estabelecer uma relação entre a teologia dos sacramentos do reformador de Genebra e as propostas doutrinais de Zuínglio e de Tillich. Calvino considera os sacramentos como meios de graça, Cristo como fundamento dos mesmos e a ação do Espírito Santo para sua eficácia. A teologia de Tillich apresenta pontos de convergência com a calvinista. Por outro lado, a presença da teologia sacramental simbólico-metafórica de Zuínglio – que endurece a posição de Calvino - prevaleceu no protestantismo histórico, mormente nos Estados Unidos da América e no Brasil.

Enfim, em “Teologia, ciência ou metafísica?”, Júlio Fontana retoma a discussão sobre a cientificidade da teologia pelo viés da epistemologia da ciência de Karl Popper. O artigo pretende definir o estatuto epistemológico da teologia tomando como critério demarcador aquele proposto pelo filósofo Karl Popper em sua contribuição para o volume coletivo The Philosophy of Rudolf Carnap publicado em 1964. O empreendimento tem como objetivo também, caso a teologia, segundo o critério demarcador utilizado aqui, não seja considerada digna de ser chamada de ciência, buscar reconhecer a sua racionalidade própria.