O presente texto, ligado ao viés teologia e literatura em diálogo, possui como objetivo cen-tral fazer uma leitura de Riobaldo, personagem do Grande Sertão: Veredas, romance de Jo-ão Guimarães Rosa, como uma personagem interlocutora entre a literatura e a teologia. O que será feito, em princípio, tomando como temas de correspondência a liberdade e o sofri-mento, a partir de uma leitura em verossimilhança, onde Riobaldo, como personagem hu-mano, livre e sofrente, refletindo sobre a vida, buscando entender da matéria vertente, que é a grande tessitura do romance, pensa, de dentro da literatura, os grandes temas aqui em cor-respondência: a liberdade e o sofrimento, contudo, como no texto se procurará demonstrar, de uma forma teológica. Ainda e no entanto, como o título também anuncia: sua meia teo-logia, essa forma teológico-literária ou literário-teológica de pensar, pensada sem lugar e-clesiástico, sem dogma e sem sistematização, configura-se apenas como meia teologia, con-forme Juan Luis Segundo aplica a uma leitura de Jó, personagem bíblico, mas, como na aplicação de Segundo, apenas meia não por ser menos ou menor, nem teologicamente infe-rior, mas por não querer ser mesmo sendo, ou, de outra forma, sendo por querer ser, mas sem anunciar ser, já que é teologia num lugar, em tese, não teológico, a literatura.
Palavras-chave: teologia e literatura, verossimilhança, liberdade e sofrimento, método de correspondência, João Guimarães Rosa.
This paper seeks to analyze Riobaldo, João Guimarães Rosa’s character, as being an inter-locutor between theology and literature. Taking themes that are present in both theology and literature, such as freedom and suffering, the article reads Riobaldo as being a human, free and sufferer character, that thinks upon life, seeking to understand the changing, which is the world’s great tessitura. Nevertheless, despite of being a thinker within literature’s boundaries, Riobaldo’s reflexions are made in a theological manner. But, his reflexions stand as quasi-theology as well, namely, a theological literary or literary theological pattern of thinking that has no ecclesiastical place, dogma or systematization. Such a quasi-theology, according to Juan Luis Segundo, is so called not because it is whether smaller, lesser or theologically insignificant than traditional theology. Rather, because its character-istics of willing not be, while being or, put in another words, being exactly because willing to be, even without announcement, as theology in a place, in thesis, not theological, that is, within literature.
Key-words: Theology and Literature, verisimilitude, freedom and suffering, correlation’s method, João Guimarães Rosa.
“Através da arte, disse Goethe, distanciamo-nos e ao mesmo tempo aproximamo-nos da realidade”. [2]
Em algumas das primeiras discussões sobre o diálogo entre teologia e literatura, tanto no contexto europeu quanto no contexto latino-americano, levou-se em consideração, como uma das primeiras problematizações dentro desse novo campo de estudos, a questão sobre a verdade e a ficcionalidade dentro dos textos literários. Assim, a grande pergunta dentro dessa temática, pergunta não tão nova [3] como o viés de estudo, foi e ainda é sobre a capacidade de contribuição da literatura para as formas de saber e de pesquisa distintamente sérias, ou seja, em que um texto feito para ser bonito – para a fruição e para o devaneio – pode contribuir numa pesquisa séria, como por exemplo, numa pesquisa teológica?
O literário – e digo isso pressupondo uma resposta afirmativa à pergunta feita acima, sabendo das implicações que isso carrega e do simplismo e dos limites da minha resposta – pode em muito e em alguns casos de forma distinta, diria também: em alguns casos de for-ma privilegiada, contribuir para estudos e pesquisas em nível acadêmico [4] , sejam esses feitos em diálogo com a antropologia, com a psicologia, com as ciências da religião ou mesmo com a teologia. Já na teologia e em diálogo com a literatura – o presente texto parte desse lugar específico – o literário serve, não de forma menor e passiva, como se fez e se faz em alguns autores, mas em correspondência temática, como lugar de observação da realidade a partir daquilo que é verossimilhante, seja como realismo mágico, seja como antropologia contida ou seja como expressão “literário-teológica” ou “teológico-literária” de temas que na literatura e na teologia são correspondentes, o que aqui se resumiria a uma provisória leitura da liberdade e do sofrimento – os temas em correspondência – na meia teologia de Riobaldo, o personagem-narrador do Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. O texto que segue, de forma ainda provisória, é essa tentativa.
O mundo ficcional do romance e os desdobramentos das ações das personagens que dele fazem parte, mesmo que não estejam recriando aspectos de um lugar e de vidas reais, podem, de forma direta, ser utilizados como leitura da realidade observável. Mas, mesmo que este texto traga em si uma recriação da realidade, fale de um lugar e de pessoas reais, não recria fielmente essa realidade. Nas relações, o texto não-ficcional está preocupado em copiar literalmente a realidade apresentada, enquanto o texto ficcional, como obra literária, quer fazer, criando mundos e personagens apenas imaginários, somente uma imitação (mimesis) da realidade apresentada. A ‘verdade’ no texto ficcional não quer demonstrar a ‘verdade’ no sentido estrito da palavra, quer, por sua vez, mostrar, ou melhor, significar a verdade:
O termo verdade quando usado com referência a obras de arte ou de ficção, tem significado diverso. Designa [...] genuinidade, sinceridade ou autenticidade [...]; ou a verossimilhança, isto é, na expressão de Aristóteles, não a adequação àquilo que aconteceu, mas àquilo que poderia ter acontecido; ou a coerência interna no que tange ao mundo imaginário das personagens e situações miméticas; ou mesmo a visão profunda – de ordem filosófica, psicológica ou sociológica – da realidade. [5]
Segundo Anatol Rosenfeld apenas as grandes obras literárias conseguem realmente atingir esse universo da verossimilhança [6] Para ele, “é graças ao vigor dos detalhes, à veracidade de dados insignificantes, à coerência interna, à lógica das motivações, à causalidade dos eventos etc.” [7] que a obra literária – principalmente o romance [8] – tem a possibilidade de verossimilhança entre o mundo imaginário com o mundo real. Rosenfeld ainda salienta que a personagem literária é de importância central na construção dessa verossimilhança. Na obra ficcional, a personagem apresenta-se de forma mais completa e complexa do que a pessoa real, ela é, no texto, mais coerente e mais transparente do que a pessoa real. O mistério humano, nas grandes obras, saltam do texto [9] , e, a maioria das pessoas, quando lêem a obra fazem, imediatamente ligações com a própria vida real.
A grande obra de arte literária (ficcional) – diz o autor – é o lugar em que nos defrontamos com seres humanos de contornos definidos e definitivos, em ampla medida transparentes, vivendo situações exemplares de um modo exemplar (exemplar também no sentido negativo). Como seres humanos encontram-se integrados num denso tecido de valores de ordem cognoscitiva, religiosa, moral, político-social e tomam determinadas atitudes em face desses valores. Muitas vezes debatem-se com a necessidade de decidir-se em face da colisão de valores, passam por terríveis conflitos e enfrentam situações-limite em que se revelam aspectos essenciais da vida humana: aspectos trágicos, sublimes, demoníacos, grotescos ou luminosos. [10]
Antonio Candido, já com uma preocupação específica na relação entre romance e personagem [11] , trabalha na verossimilhança com a preocupação de mostrar que é a personagem, na construção do enredo do romance, que dá existência àquilo que não existe. É a personagem e os seus desdobramentos dentro do romance que fazem a relação entre o ser vivido (mundo real) e o ser vivido-imaginado (mundo ficcional). Para ele, Antonio Candido, a pessoa-personagem, nessa relação de verossimilhança, é muito mais compreensível na interpretação do que a pessoa-real. Na vida ‘verdadeira’, interpretamos a pessoa-real a partir de uma tentativa de criar uma unidade de existência diante da “sucessão dos seus modos-de-ser” [12] ; já a pessoa-personagem, na vida imaginada, é fixa, o “autor estabelece algo mais coeso, menos variável”, o autor dá à personagem “uma linha de coerência fixada para sempre” . [13]
E isto não quer dizer que seja menos profunda; mas que a sua profundidade é um universo cujos dados estão todos à mostra, foram preestabelecidos pelo seu criador, que os selecionou e limitou em busca de lógica. A força das grandes personagens vem do fato de que o sentimento que temos da sua complexidade é máximo; mas isso, devido à unidade, à simplificação estrutural que o romancista lhe deu.” [14]
Esta verossimilhança entre personagem e pessoa real é ainda e também fruto de uma verossimilhança entre autor e personagem. Antonio Candido, citando Mauriac, diz que existe uma estreita relação entre o autor e a personagem. [15] O autor sempre tira a personagem de si. É sempre de sua memória que ele as cria e lhes dá os seus modos de existir e seus mundos de sentido. Mesmo quando está nitidamente tentando imitar com a personagem uma pessoa real: “quando toma um modelo na realidade, o autor sempre acrescenta a ele, no plano psicológico, a sua incógnita pessoal” [16] . Ele pode ainda, como autor, misturar e confundir as coisas. Quando está criando sua personagem “pode pensar que copiou quando inventou; que exprimiu a si mesmo, quando se deformou; ou que se deformou, quando se confessou”. [17]
Além de tudo isso, Antonio Candido entende a personagem como fruto de seu meio, mesmo sendo esse imaginário e irreal. A personagem do romance será sempre destacada a partir da finalidade da construção do mundo ficcional que autor imaginou, e, como pessoa imaginada, seguirá o panorama de costumes, o panorama social e, acrescento, também o panorama religioso etc. de seu mundo imaginado. [18] Riobaldo, citado por Candido, é, como exemplo, personagem de um livro de realismo mágico – supermundo metafísico [19] –, e, como tal, comporta-se e pode ser entendido.
Juan Luis Segundo, um teólogo e não um literato ou um crítico literário, um ou o outro no espaço do diálogo, falando sobre a aventura da concepção humana sobre a liber-dade no Antigo Testamento, depara-se com a construção teológico-literária do livro de Jó [20] , uma personagem bíblico-literário-teológica em verossimilhança. Tomando o livro como narrativa mítica em prosa, o autor constrói, numa hermenêutica própria, a idéia de que no texto bíblico existem duas teologias e meia. O livro, que pode ser entendido como livro poé-tico, segundo a crítica bíblica, é uma aposta entre Deus e Satanás com relação à fidelidade de um homem chamado Jó. Que começa em desgraça e termina em triunfo. Porém, como Segundo o diz, entre o começo e o fim dessa história, existe um poema de grande beleza e riqueza teológica. O autor de Jó, ou aquele que organizou o texto final, preocupou-se em dar “tratos à bola” [21] para que o texto, em si mesmo, tivesse uma coerência teológica, uma lógica nos acontecimentos e uma certa beleza literária.
A primeira teologia que Juan Luis Segundo observa no texto é a teologia dos amigos de Jó que trabalharam e insistiram na antiga teologia da aliança. Eles, na verdade, queriam saber qual era o pecado que Jó cometera para estar passando por uma provação de tais pro-porções. O objetivo da interlocução dos amigos é para que Jó confesse seu pecado, arrepen-da-se e volte-se para Deus. A segunda teologia observada por Juan Segundo é a teologia de Deus, ou, a teologia que o autor de Jó coloca na boca de Deus. O Yahweh, na sua aparição no texto, não leva em consideração as reclamações do impaciente Jó diante de seu sofrimen-to. Ele, Deus, não considera como relevante nem a dor, nem a reclamação com relação à dor e nem o fato de a dor ser imerecida, ele também nem se lembra da aposta. O Deus do livro de Jó apresenta-se como um Deus despreocupado com a condição humana em relação ao sofrimento. Ele, no embate com Jó, nada fala da aliança e nem da providência, o seu discur-so divino gira em torno de sua onipotência:
Depois disso, Deus respondeu a Jó de um redemoinho: Quem é este que escurece o meu conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; perguntar-te-ei, e tu me responderás. Onde es-tavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-me se tens inte-ligência. [22]
Como terceira, ou melhor, como meia teologia, já que são duas e meia, está a meia teologia de Jó, e é ela que nos interessa. O protagonista do texto, Jó, não se opõe à teologia de seus amigos, ele apenas não entende. Não entende a sua culpa, pois não consegue perceber culpa em sua vida para as coisas que lhe aconteceram. Não entende as razões de Deus de, de repente, começar a castigar justos como se fossem ímpios. Diz ele: “tudo é o mesmo (tudo é a mesma coisa); portanto digo: Ele consome ao reto e ao ímpio. Quando o açoite mata de repente, ele se ri do desespero dos inocentes”. [23] O Deus da aliança, que para eles era um Deus bem próximo, no sofrimento – pelo menos para Jó –, torna-se um Deus de insuportável presença, que leva, como conseqüência, à ausência da liberdade:
Não são poucos os meus dias? Cessa, e deixa-me, para que por um pouco eu torne alento, antes que me vá para o lugar de onde não voltarei, para a terra da escuridão e da sombra da morte, para a terra escuríssima, como a própria escuridão, terra de sombra da morte e desordem, onde a própria luz é como a escuridão [24]
Jó, no discurso de Deus, também não entende, mas aceita, ele é onipotente e pronto:
Eu sei que tudo podes; nenhum dos teus planos pode ser impedido. [...] Certamente falei do que não entendia, coisas maravilhosas de mais para mim, e que eu não compreendia. [...] Com os ouvidos eu ouvia falar de ti, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza. [25]
Como visto, o livro de Jó apresenta duas teologias e meia: uma é a teologia da aliança e a outra é a teologia que o autor empresta para Deus, que põe em xeque a “antiga na crença da proporção entre conduta e acontecimentos históricos” e silencia o homem com sua transcendência, obrigando-o a viver os acontecimentos por seu valor intrínseco, gratuitamente [26] . Já a meia teologia é meia porque não consegue chegar a ser uma teologia inteira, não chega a ser um sistema é apenas um grito, um grito de desespero. Porém, apesar de não ser uma, não é também nenhuma, assim como não chega a ser teologia também não deixa de ser teologia. Desse modo, chego a Riobaldo e sua meia teologia.
Não é minha intenção, nesse primeiro momento, com o título “Riobaldo e sua meia teologia”, dada a este texto, dizer que o livro “Grande Sertão: Veredas” seja um palimpsesto do livro de Jó, ao modo de Eli Brandão e Salma Ferraz, e nem que Riobaldo e Jó, como per-sonagens que sofrem, sejam correspondentes entre si, apesar de serem. O que quero dizer, utilizando-me da interpretação que Juan Luis Segundo, faz de Jó e de sua teologia como livro, é de que Riobaldo, semelhantemente a Jó – personagens em verossimilhança com a vida real –, faz, com seu grito diante do seu sofrimento, “*uma* meia teologia”. Quando Riobaldo conta a sua história ao “senhor doutor”, tentando entender sobre a “gã que empur-ra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder”, [27] quando conta o que não sabe se sabe “e que pode ser que (esse) senhor saiba” [28] , quando diz que “tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data”, [29] quando diz que contar para outro é contar para si, [30] quando na morte de Diadorim desabafa: “Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo!”, [31] está, na verdade, lançando ao seu ouvinte – e ao seu leitor – seu desabafo, sua dor, seu grito, sua inexplicável condição diante da vida, sua meia teologia, que pode ser, para quem pensa e faz teologia, uma teologia inteira, verossimilhante, mas, mesmo assim, teologia, teologia que se põe a discutir a liberdade e o sofrimento como temas da vida, da teologia e da literatura:
Mas o mal de mim, doendo e vindo, é que tive de compensar, numa mão e noutra, amor com amor. Se pude? Vem horas, digo: se aquele amor veio de Deus, como veio, então – o outro? ...Todo tormento. Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ôntem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível [32] [...] A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... [33] [...] A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver. [34] [...] – Não podendo entender a razão da vida, é só assim que se pode ser vero bom jagunço... [35]
Riobaldo é, como já anunciado no resumo desse texto, aquele que nos introduz, como personagem em verossimilhança, no universo do sertão mineiro, lugar geográfico e espaço de ficção de João Guimarães Rosa. É ele, como personagem de ficção, em suas idas e vindas de jagunço, em suas muitas reflexões e conclusões sobre a vida e, principalmente, de seu maior sofrimento, a morte de seu maior amor, Diadorim, que faz a ponte temática: liberdade e sofrimento como correspondências, entre o mundo literário, mágico e imaginativo de João Guimarães Rosa e o mundo real e teologicamente pensado de Juan Luis Segundo [36] , que está, obviamente, para além das leituras de Jó.
A personagem Riobaldo, dentro do romance, é aquela que vive o ficcional e que, ao mesmo tempo, nessa ficcionalidade, revela também o real vivido e sofrido pelo humano comum, que, por seu tempo, no seu sofrimento real, também reclama, assim como na ficção, por respostas. Mas essa tentativa de leitura em verossimilhança da vida da personagem com a vida real e comum, também tenciona ser, no diálogo – e isso precisa ser também delimitado –, mais do que uma tentativa de observação das relações existentes entre a personagem e seu criador, o autor . Lendo Riobaldo, pretende-se ler, em diálogo, apesar de se estar tratando apenas da estória da personagem e não da história do autor, o que é correspondente, dentro do tema liberdade e sofrimento, entre João Guimarães Rosa e Juan Luis Segundo.
Diz Riobaldo, como bem poderia ter dito Rosa:
Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! [...] Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! [38]
Foi ali, nesse grande sertão, que ele, segundo Márcia Marques, cumpriu com a sua travessia de vida, “consolo e redenção do homem humano”. [39] E só então, depois desse cumprimento, agora já velho, como ele próprio apresenta-se, vem a esse “senhor doutor”, o leitor-intérprete, que o visita, e lhe conta sua estória, estória de vida já cumprida, tendo como principal preocupação a busca por uma resposta para a sua dor, resposta que talvez esteja no “senhor doutor”, no leitor, que talvez saiba o que ele, definitivamente, não sabe. Assim, o contar se torna um convite. Riobaldo, como personagem-protagonista e narrador de sua própria realidade, quando narra, joga-nos sua estória e também nos joga para dentro dela. Ele nos chama para ouvi-lo, mas nos chama para ouvir mais do que ele tem a dizer. Ele nos chama para sermos intérpretes de sua triste estória de vida ou, de outro modo, da triste história de vida humana, literária mas também teologicamente pensada.
Além disso Riobaldo é também João Guimarães Rosa em opinião [40] e diálogo [41] Márcia Marques, utilizando-se de Amigucci, apresenta Riobaldo e João Guimarães Rosa como duas figuras diferentes num diálogo virtual. Riobaldo, narrador oral (voz épica do sertão), fala do saber vivido e experimentado, e quando dialoga com João Guimarães Rosa, interlocutor intelectual, é absorvido por esse, mas também o absorve. Guimarães Rosa/Riobaldo falam e questionam, em espaços diferentes, um tema comum: a vida.
Pensado assim, a personagem de Guimarães Rosa, o jagunço Riobaldo, um tipo de Jó segundiano, é alguém-personagem, com valor real, que, relembrando sua estória de vida, conta a um outro, o “senhor doutor”, uma personagem emudecida durante todo o roman-ce, que faz um tipo de leitor e intérprete dessa estória contada, seu drama de vida e sua per-gunta diante desse drama. Essa estória, refletida e contada num tempo bem posterior aos acontecimentos – quando o personagem-narrador conta, conta quando já está vivendo anos depois de sua vida jagunça – é uma estória de sofrimento e saudade contada de memória. Ele relembra, reflete e questiona sua dor: “por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade?”[42]
Nesse seu tecer reflexivo, tentando dar respostas para o seu sofrimento, Riobaldo procura pelas razões da sua dor, aos modos de Jó e sua teologia. Mas, mesmo caminhando por sua memória repleta de magia, de mística e de religiosidade, não consegue entender. A personagem verossimilhante não formula, apesar dessa sua religiosidade, uma teologia que explique a sua angústia, já que, para ele, nenhuma delas dá conta de explicar o sofrimento humano. Ele apenas sofre, reflete e reclama de sua dor. Ele faz, apropriando-me de Juan Luis Segundo, aquilo que chamamos até aqui de "meia teologia", [43] , o que não chega a ser teologia, pois é apenas meia, mas que também pode, em potencialidade, tornar-se uma teologia, uma teologia inteira, mas que, por outro lado, também pode continuar sendo literatura sem perder seu elemento de literariedade teológica.
Possui graduação em teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas (2001), curso convalidado na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo (2008). Também é mestre (2005) e doutoran-do no curso de Ciências da Religião da Faculdade de Fiolosofia e Ciências da Religião da Universidade Me-todista de São Paulo, UMESP, com apoio da Capes. Tem experiência na área de teologia; teologia e história; religião, cultura e literatura. E-mail: clademilson@uol.com.br.
Faço essa afirmação, mesmo sabendo que a mesma é simplista, apenas para afirmar a importância da literatura para pesquisas e estudos acadêmicos, o que, de forma geral, sempre se faz necessário. O literário, como fonte de pesquisa, precisa sempre ser justificado.
“Os grandes autores levando a ficção ficticiamente às suas últimas conseqüências, refazem o mistério do ser humano, através da apresentação de aspectos que produzem certa opalização e iridescência, e reconstituem, em certa medida, a opacidade da pessoa real.” Id. Ibid.35.
SEGUNDO, Juan Luis. Que mundo? Que homem? Que Deus? Aproximação entre Ciência, Filosofia e Teo-logia. (tradução: Magda Furtado de Queiroz). São Paulo: Paulinas, 1995. pp.267-272.
SEGUNDO, Juan Luis. Que mundo? Que homem? Que Deus? Aproximação entre Ciência, Filosofia e Teo-logia. (tradução: Magda Furtado de Queiroz). São Paulo: Paulinas, 1995. p.271.
Essas são conclusões retiradas de minha dissertação de mestrado. SILVA, Clademilson Fernandes Paulino da. Liberdade e sofrimento: o “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa em diálogo com a teologia de Juan Luis Segundo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2005. 133p. (Dissertação de Mestrado).
Alguns críticos de Rosa fazem essa leitura, uma comparação entre o personagem e o autor, como verossimi-lhantes. Em verdade o próprio Guimarães Rosa faz essa comparação.
MORAIS, Márcia Marques de. Riobaldo e Suas Más Devassas no Contar. In: DUARTE, Lélia Parreira; ALVEZ, Maria Theresa. (Organizadoras). Outras Margens: Estudos na Obra de Guimarães Rosa. Belo Hori-zonte: Autêntica, 2001. p.170.
Sem imodéstia, porque tudo isso de modo muito reles, apenas, posso dizer a Você o que Você já sabe: que sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estricto e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do “G.S: V.”, pertença a todas. E especulativo, demais. Daí, todas as minhas, constantes, preocupações religiosas, metafísicas, embeberem os meus livros. Talvez meio-existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neo-platônico (outros me carimbam disto), e sem-pre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou. [...] Ora, Você já notou, decer-to, que, como eu, os meus livros, em essência, são “anti-intelectuais” – defendem o altíssimo primado de intu-ição, de revelação, de inspiração sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, a megera cartesiana. Quero ficar com o Tão, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Berson, com Berdieff – com Cristo, principalmente. Correspondência de João Guimarães Rosa, 25 de Novembro de 1963. ROSA, João Guimarães; BIZZARRI, Edoardo. João Guimarães Rosa: Cor-respondência com seu tradutor Italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p.90.
MORAIS, Márcia Marques de. Riobaldo e Suas Más Devassas no Contar. In: DUARTE, Lélia Parreira; ALVEZ, Maria Theresa. (Organizadoras). Outras Margens: Estudos na Obra de Guimarães Rosa. Belo Hori-zonte: Autêntica, 2001. pp.154ss.
“Seria possível dizer que o autor (do livro de Jó) deu tratos à bola para enfrentar, num diálogo crítico, duas teologias e meia... Em primeiro lugar, está a teologia dos amigos de Jó, que é a velha e insistente teologia da aliança. [...] Jó não se opõe a esse discurso o que poderíamos chamar de outra teologia. Sua resposta é mais um grito que um sistema. [...] Essa teologia que não chega a ser uma, mas talvez meia – porque é mais per-gunta que resposta – tem como virtude própria, dir-se-ia, obrigar Yahweh a justificar-se. [...] o autor propõe, pela boca de Deus, a única solução razoável (segunda teologia) [...]. Por isso, dizia que o livro de Jó entrelaça duas teologias e meia: a antiga crença da proporção entre conduta e acontecimentos históricos, a queixa de-sesperada de Jó de que isso não se aplica a seu caso, e a teologia colocada na boca de Deus, pela qual ele silencia o homem com sua transcendência, obrigando-o a viver os acontecimentos por seu valor intrínseco, gratuitamente.” SEGUNDO, Juan Luis. Que mundo? Que homem? Que Deus? Aproximação entre Ciência, Filosofia e Teologia. (tradução: Magda Furtado de Queiroz). São Paulo: Paulinas, 1995. pp.267-271.