O Poder Integrador Da Comunicação Não-Verbal Baseada No Movimento Para O Diálogo Inter-Religioso
Rogério Costa Migliorini [1]
RESUMO:Este trabalho discorre sobre o poder da expressão não-verbal no diálogo inter- religioso, entendendo esse diálogo como, mais do que uma conversa verbal, uma forma de relacionar-se com o(a) próximo(a) por meio de outros recursos, tais como vivências baseadas em tro-cas e diálogos não-verbais. Acreditamos ser possível aprimorarmos nossa capacidade de enxergar, ouvir, tocar, bem como tomarmos consciência de que, além do diálogo verbal, interagimos com o outro física, espacial, emocional e espiritualmente. Para tanto, relacio-namos o poder integrador do movimento e da expressão não-verbal com o pensamento de teólogo(a)s como Paul Tillich e Lieve Troch. Remetemo-nos também ao pensamento de Maurice Béjart, coreógrafo frances que criou e dirigiu uma das companhias de dança mais importantes da atualidade.PALAVRAS-CHAVE: diálogo; expressão não-verbal; movimento; relacionamentos; troca;
The Integrative Power Of Non-Verbal Comunication Based In The Movement For Inter-Religious Dialogue
ABSTRACT:This paper deals with the power of non-verbal communication in the inter-religious dialogue. Rather than a verbal conversation, it considers a dialogue any way of communicating with others. Thus, we believe that through movement based workshops, one can develop ability such as to look at, listen to, touch, and to relate to another one physi-cally, spatially, affectively and spiritually. Therefore, we link the integrative power of movement and non-verbal communication with the thoughts of theologians such as Paul Tillich and Lieve Troch. We also recur to the Maurice Béjart’s thoughts, a French choreog-rapher that created and direct one of the most important dance companies of the day.KEYWORDS: dialogue; non-verbal communication; movement; relationships; exchanges.
O homem está só diante do incompreensível: angústia, medo, atração, mis-tério. As palavras de nada servem. Para que dar a isso nomes como Deus, Absoluto, Natureza, Acaso? O que é preciso é entrar em contato. O que o homem busca, para além da compreensão, é a comunicação. A dança nasce dessa necessidade de dizer o indizível, de conhecer o desconhecido, de es-tar em relação com o outro.O homem faz parte de um dado grupo. E tem necessidade de se sentir fa-zendo parte integralmente deste grupo: de estar em relação com os outros. Mais do que as leis, os costumes, os trajes e a linguagem é o gesto que vai dar existência a essa união. As mãos se juntam, o ritmo une as respirações, a dança nasce.Maurice Béjart [2]O movimento é a experiência física mais elementar da vida humana. Não é apenas encontrado no movimento funcional e vital do pulso e em todo o cor-po na tarefa de manter-se vivo, mas também na expressão de toda experiên-cia emocional; e é nesse aspecto que reside o seu valor para o bailarino. O corpo é o espelho do pensamento. Quando nos assustamos o corpo reage com movimentos rápidos, curtos e intensos; quando envergonhados, o san-gue vai para o rosto e coramos; se estamos abalados, o sangue nos foge da face e empalidecemos; quando tristes, lágrimas chegam em nossos olhos e surge o que denominamos de "um nó na garganta". Quando temos qualquer uma dessas experiências, os músculos contraem-se ou relaxam-se e todos os membros do corpo são afetados. Essas ilustrações são tão comuns que dis-pensam maiores comentários. O movimento físico é o primeiro efeito normal de qualquer experiência mental ou emocional.John Martin [3]O que Cristo está sempre dizendo, o que ele nunca deixa de dizer, o que ele diz mil vezes e de mil formas diferentes, mas sempre com uma unidade central, é isto: “Eu sou o filho do meu pai, e vocês são os meus irmãos”. E o que nos une; o que faz dessa terra uma família, e de todos os homens ir-mãos, portanto filhos de Deus; é o amor.Thomas Wolfe [4]
Introdução
Este trabalho tem por intenção discorrer sobre o poder integrador do movimento e da expressão não-verbal no diálogo inter-religioso, entendendo esse diálogo como, mais do que uma conversa verbal, uma forma de entrar em relação com o(a) próximo(a) por meio de todos os recursos imagináveis. Assim, acreditamos ser possível, por meio de vivências ba-seadas em trocas e relacionamentos não-verbais, intermediados pelo movimento, aprimorar a capacidade de enxergar, ouvir, tocar, bem como de se relacionar física, espacial, emocio-nal e espiritualmente com o(a) outro(a) “diferente de mim”, o outro que “não sou eu”.
Não pretendemos dizer aqui que uma forma de diálogo substitui a outra – pois ambas coexistem no ser humano – nas trocas entre as pessoas. Pretendemos ser apenas coerentes com o verdadeiro fascínio que a expressão não-verbal tem exercido sobre nós durante toda a nossa vida e com a nossa formação em arte do movimento.
A arte do movimento e algumas de suas aplicações
O sistema de análise do movimento criado pelo húngaro Rudolph Laban (1879-1958) e introduzido no Brasil pela também húngara Maria Duschenes (1922-), permite a descrição, registro e análise dos aspectos corporais, espaciais e dinâmicos do movimento. Uma vez observados tais aspectos, novas possibilidades de ação podem ser sugeridas. Esse método, bem como sua vertente educacional e artística denominada ‘arte do movimento’, por ser bastante flexível, pode ser aplicado à educação; pode ser usado terapeuticamente tanto em problemas físicos como emocionais e pode, igualmente, ser direcionado ao palco na forma-ção de atores e bailarinos. Ele também já foi utilizado no treinamento de atletas e empresá-rios, bem como na interpretação de estilos de comunicação não-verbal de políticos, religio-sos e até de animais como golfinhos, ursos, lobos e outros.
Entre a queda e o equilíbrio
Em seu texto Exercícios em maravilhar-se, a teóloga Lieve Troch fala das áreas fronteiriças, da terra de ninguém, e do prazer que sentia quando ia à praia, na sua infância, em “ficar horas a fio na linha do fluxo da maré, na fronteira onde a água e a terra se encon-tram”. [5] Como exemplo de uma área fronteiriça na dança, cito um dos temas de movimento do método de Laban. Esse tema refere-se às direções que o corpo assume no espaço, como pra frente, pra trás, pra cima e para baixo. A partir daí, Laban refere-se ao que denomina de equilíbrio dinâmico, pois neste a movimentação constante e em todas as direções é a condi-ção de equilíbrio.
Em resumo, de forma diversa do que é feito na maioria das abordagens do movimen-to, que situam o corpo em um modelo cartesiano onde o equilíbrio é obtido pela manutenção da espinha dorsal o mais próxima possível de um eixo vertical, Laban situou o corpo no interior de sólidos virtuais (como se em cristais virtuais) formados pelos pontos mais distan-tes que podem ser atingidos com as mãos e os pés quando o corpo se estica ao máximo.
Por esse princípio, quando o corpo está totalmente estirado para atingir um determi-nado ponto, e estamos quase caindo, evitamos a queda mudando o sentido do movimento, e “caímos”: não no chão, mas em outra direção. Essa dinâmica faz com que estejamos sempre fora do eixo central; deslocados e procurando atingir pontos distantes do centro do corpo, em uma permanente quase queda. Como resultado, o corpo ganha velocidade e se move como uma moeda girando. Enquanto ela tem velocidade, gira em pé sobre a borda estreita num movimento aparentemente impossível, mas somente quando seu movimento ralenta, a moeda, como seria de se esperar, cai para um dos lados. Ela não tem a capacidade de mudar o sentido de seu movimento como os seres vivos.
Laban, portanto, deslocou o equilíbrio do eixo central (coluna vertebral) do corpo para a periferia, para as margens, de modo que não só esse eixo central sustenta o corpo e o mantém em equilíbrio, mas também o espaço que o envolve. E ao fazer isso, utilizou as ri-quezas da terra de ninguém, ou seja, soube aproveitar-se do que a fronteira entre a queda e o equilíbrio, a rigidez e a flexibilidade, estabilidade e mobilidade ofereciam. Resumindo, Laban ousou!
Numa ação tão prosaica e que aparentemente não requer nenhuma coragem, como andar, acontece algo semelhante. Para andar equilibramos-nos sobre uma perna até ultrapas-sarmos o limite máximo em que podemos nos manter sobre ela; então, para evitar a queda, colocamos o outro pé à frente, onde iríamos cair. Imediatamente retomamos o equilíbrio (eixo) sobre esse pé e perna para em seguida nos desequilibramos novamente ao ultrapas-sarmos o ponto máximo de estabilização em que podemos nos manter, então, a outra perna à frente evita uma nova queda. Fazendo isso seguidamente, a queda é continuamente adiada e os passos acontecem. Em outras palavras, nosso andar é um ato constante de evitar sucessivas quedas.
Ora, ambos processos ilustram a produtividade e a riqueza do que poderia ser uma terra estéril, como muitas vezes são as terras de fronteira. No primeiro exemplo, em vez de cair e perder totalmente o equilíbrio, nós ganhamos em momentum e, por conta disso, nos equilibramos. No segundo, graças ao andar (essa simples ação executada diariamente pela maioria das pessoas), avançamos no espaço e o conquistamos.
Podemos dizer, então, que a região existente entre a queda e o equilíbrio, a partir da elaboração concreta desses limites extremos, define uma terceira realidade (um terceiro “pa-ís”) na qual o equilíbrio se torna dinâmico e instável, e, exatamente por isso, a queda pode ser evitada. Por extensão, tem-se outros espaços fronteiriços, terras de ninguém, modos di-versos de encontrar riquezas de contatos (não verbais) nas periferias e nas margens; figura-tivamente, outras relações possíveis entre pontos e realidades aparentemente opostos e ex-cludentes, como “queda” e “equilíbrio”, ou entre pessoas de backgrounds diferentes, po-dem ser elaboradas e construídas com base nos relacionamentos do próprio corpo com o corpo do(a) outro(a) e com o espaço.
Essa questão da fronteira, da terra de ninguém, é intrigante e já interessou outros pensadores. Paul Tillich referiu-se a ela em um livro autobiográfico intitulado On the Boundary (Na fronteira). Nesse livro ele conta que na introdução de outro de seus livros, Religious Realization, escreveu: “A fronteira é o melhor lugar para se adquirir conhecimento”. [6] Ele também vê o conceito de fronteira como o símbolo mais adequado para todo o seu desenvolvimento pessoal e intelectual. Em quase toda sua história, diz, viveu “entre possibilidades alternativas de existência, sem se sentir realmente à vontade com nenhuma e sem adotar uma posição definitiva em relação a elas”. [7] Segundo ele, o pensamento pressupõe receptividade a essas novas possibilidades, e essa posição, embora frutífera para o pensamento, também é difícil e perigosa em relação à vida. [8] No livro, sempre discute uma possibilidade em relação a outra, mesmo quando as opõe entre si. [9] Por fim, afirma que a fronteira maior é aquela existente entre o Eterno e as possibilidades humanas, pois, na presença do Eterno, o que nos parece central em nosso ser é periférico e fragmentário. [10]
Linguagem não-verbal e comunicação
Lembro-me de que há alguns anos foi feita uma peça sobre um conto de Guimarães Rosa e um dos atores da montagem foi premiado como o melhor por sua interpretação. O ator premiado foi justamente aquele que fazia o papel de uma cachorra e não falava uma só palavra durante a peça. Ao invés disso, ele se limitava a coçar-se, andar de quatro, encolher-se embaixo da mesa, e, por meio de ações corporais, demonstrar estados de alegria, medo, prontidão, etc. Ou seja, expressava-se somente pelo movimento.
Outro exemplo mais recente é o filme estrelado por Tom Cruise, “O Último Samu-rai”. O filme retrata um soldado americano que foi ao Japão pra liderar uma luta contra re-beldes samurais. Apanhado, foi levado à aldeia em que os samurais viviam e ficou preso no lugar durante todo o inverno. Ali, captores e capturado estavam impossibilitados de se co-municarem pela palavra por falarem línguas diferentes e desconhecidas para ambos. Porém, isso não impediu que eles se conhecessem, pois os olhares, os gestos, as ações e o entorno (arquitetura, comportamentos frente às várias situações que surgiam, etc.) “diziam” o que não podia ser dito em palavras. Enfim, foi a partir do que viram um no outro e do que dedu-ziram a partir da observação dos elementos não-verbais, que os inimigos originais começa-ram a se relacionar e, finalmente, se tornaram grandes amigos.
Considerações finais
Os trechos de autoria de Maurice Bejárt citados na epígrafe são decorrentes de uma experiência que o coreógrafo teve em viagem de férias a uma ilha do mediterrâneo. Lá, teve oportunidade de viver durante algumas semanas a vida dos pescadores. Quando os homens, após o dia de trabalho, se sentavam e começavam a conversar, acabavam discutindo e reina-va a incompreensão. Entretanto, quando começavam a dançar, a vida era celebrada sem pa-lavras e imperavam a harmonia e a união.
O relato dessa experiência aponta para a importância do movimento e para o fato de que, às vezes, ele é muito mais eficaz para a harmonia e união de homens e mulheres do que a palavra verbal, exatamente porque aquele prescinde desta e possibilita um diálogo direto, apenas baseado em sentimentos e emoções e não no raciocínio e na argumentação.
A minha experiência com o poder integrador do movimento foi bastante diferente que a do coreógrafo francês. Esse poder ficou evidente para mim há mais de vinte anos, quando uma amiga me mostrou o vídeo de um grupo de dança de bailarinos surdos norte-americanos.
Fazia-se notar para nós, espectadores, o respeito que os integrantes do grupo tinham pelo movimento e pelo corpo do(a) companheiro(a) de palco. Penso eu que era porque para eles o movimento representava uma possibilidade de contato, organização e expressão de algo impossível de ser abarcado de forma racional e também porque era um fator de comu-nicação importante, um modo de se chegar ao(à) outro(a), surdo(a) ou ouvinte.
Devido a várias experiências, as pessoas surdas estão cansadas de saber que graças ao movimento é possível comunicar conteúdos que não encontram expressão exata nas palavras, como por exemplo, experiências com o numinoso [11] , que não pertencem ao âmbito puramente racional. De forma semelhante, quando a comunicação se processa em um nível emocional e afetivo, não necessita ser intermediada por qualquer língua ou por qualquer palavra. Nesses casos ela se processa de pessoa para pessoa, de coração para coração, e ne-nhuma diferença, nem nada do que normalmente dividiria as pessoas, importa verdadeiramente.
Será que é preciso que fiquemos impedidos de nos comunicar verbalmente para en-tender o poder da comunicação não verbal, ou do movimento, para um diálogo real?
Além de falar, pensar e discutir dogmas, talvez devêssemos dançar como os sábios pescadores gregos para sermos capazes de experimentar uma verdadeira união, um verda-deiro diálogo inter-religioso que nem sempre conseguimos alcançar do alto da nossa grande erudição.
Quiçá, por meio da dança e da relação corporal e pelo movimento com o(a) outro(a), lográssemos nos sentir parte do divino e capazes de dizer — não necessariamente com pala-vras — a quem estiver ao nosso lado: o Deus que há em mim saúda o Deus que há em você. Namastê.
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Rogério Costa Migliorini: email: awhi63@gmail.com
| [1] | Mestrando em Ciências da Religião na UMESP. |
| [2] | Roger GARRAUDY. Dançar a vida. p. 8 |
| [3] | John MARTIN. A Dança moderna. p. 7 |
| [4] | ‘What Christ is saying always, what he never swerves from saying, what he says a thousand times and in a thousand different ways, but always with a central unity of belief, is this: “I am my father’s son, and you are my brothers.” And the unity that binds us all together, that makes this earth a family, and all men brothers and so the sons of God, is love.’ I am also a you. |
| [5] | Lieve TROCH. Exercícios em maravilhar-se: fronteiras e transgressões de fronteiras na teologia feminista. In: TROCH, Lieve (org). Passos com paixão. p. 35 a 58. |
| [6] | Paul Tillich. On the Boundary. p. 13. |
| [7] | Ibid., p. 13. |
| [8] | Ibid., p. 13 |
| [9] | Op. cit., p. 97 |
| [10] | Ibid., p. 98 |
| [11] | Segundo Rudolf Otto (1869-1927), o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. No meu ponto de vista essa experiência é muito complexa para ser expressa racionalmente. Nesse sentido, penso que as metáforas não-verbais, dentre elas o movimento, são mais adequadas para sua expressão e comunicação. |








