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Histórias de vida... um reencontro com a nossa humanidade?

Marta Regina Paulo da Silva*

Livro: JOSSO, Marie-Christine. Experiências de Vida e Formação. São Paulo: Cortez, 2004.


Essa é uma bela imagem para um professor: alguém que conduz alguém até si mesmo. É também uma bela imagem para alguém que aprende: não alguém que se converte num sectário, mas alguém que, ao ler com o coração aberto, volta-se para si mesmo, encontra sua própria forma, sua maneira própria. (Jorge Larrosa)

Eis o que propõe Marie-Christine Josso, em seu livro “Experiências de Vida e Formação”, voltar-se para si mesmo, ou nas suas palavras: “caminhar para si”. Um caminhar para si que implica em caminhar com um outro. Um outro que também é singular. Singularidade que ameaça. Ameaça porque põe em xeque nossos supostos saberes sobre o outro. Outro que é enigma e que, portanto, não dá para ser aprisionado nas pretensas categorias das“ciências do humano”. É a descoberta e a valorização desta singularidade que marca a metodologia das histórias de vida discutida aqui nesta obra. Metodologia que coloca o sujeito na centralidade do seu processo de formação e aprendizagem.

Estudiosa desta abordagem há mais de quinze anos, Josso nos apresenta os motivos pelos quais as histórias de vida podem se tornar um excelente instrumento na formação, tendo como perspectiva “transformar a vida socioculturalmente programada numa obra inédita a construir” (p. 58). Uma viagem empreendida pelo próprio sujeito, ao longo da qual vai se conhecendo como viajante, tomando consciência dos itinerários escolhidos, dos encontros e desencontros, das parcerias durante a viagem, das marcas deixadas pelo caminho, das aprendizagens, lacunas. Viagem e viajante que aos poucos vão se cruzando e se reconhecendo como sendo um só.

Coerente com suas próprias idéias, a autora narra neste texto uma viagem, onde os fragmentos da sua própria história de vida se entrecruzam com as reflexões teóricas e metodológicas da abordagem autobiográfica. Seu texto é denso, exigente do ponto de vista de sua leitura, dado a linguagem de sua narrativa e discussão de conceitos bastante complexos. Organizado em três partes, sua escrita apresenta-se num movimento em “espiral”, uma vez que vai ao longo de toda a obra retomando questões e conceitos; retomada que não implica em repetição e sim em explicitações e aprofundamentos sob diferentes perspectivas.

Assim, na primeira parte, “A formação no centro das narrativas de vida: contribuição para uma teoria da formação na perspectiva do sujeito aprendente”, propõe que se pense a formação do ponto de vista do aprendente em interação com outras subjetividades. Para Josso, formar-se é “integrar-se numa prática o saber-fazer e os conhecimentos, na pluralidade de registros” (p. 39), sendo estes: o psicológico, o psicossociológico, o sociológico, o político, o cultural e o econômico. Registros colocados em evidência a partir da construção, pelo sujeito, da narrativa de sua história de vida, uma vez que tal construção se constitui como um recurso importante para evocar as “recordações-referências”; recordações que contam o que se aprendeu com a própria vida. Em outras palavras, é narrar para si a própria história: “a narrativa de formação obriga também a um balanço contábil do que é que se fez nos dias, meses e anos relatados, ela nos permite tomar consciência da fragilidade das intencionalidades e da inconstância dos nossos desejos” (p. 45).

É um aprender com a própria experiência. Com isto, é possível ao próprio sujeito questionar-se acerca das suas escolhas, dinâmicas, saberes, faltas, enfim, pensar sobre a sua própria existencialidade. Um embate entre o passado e futuro para questionar o presente, afinal, como e por que me tornei o que sou hoje? Uma vez que descreve os processos que afetam nossa identidade e nossa subjetividade, pode constituir-se em um caminho para que o “sujeito oriente, com lucidez, as próprias aprendizagens e o seu processo de formação” (p. 41), portanto, um suporte para possíveis transformações. Para a autora, a formação é sempre experiencial, do contrário não é formação, pois implica num trabalho reflexivo sobre o que se passou, como foi observado, percebido e sentido pelo sujeito, articulando aqui atividade, sensibilidade, afetividade e imaginação. Daí a formação ser compreendida como “a procura de uma arte de viver em ligação e partilha”, que se desenvolve em torno de quatro eixos: a busca da felicidade, a busca de si e de nós, a busca de conhecimento ou do “real” e a busca de sentido. Por meio da abordagem das histórias de vida é possível ao sujeito tomar consciência destes eixos, que estruturam a formação da sua existencialidade, na busca de uma “sabedoria de vida”:

A busca de uma sabedoria de vida consiste pois em tentar a integração das quatro buscas, subordinando-as a uma presença empática consigo e com o mundo, e a uma presença consciente da complexidade das causas e das condições que fundamentam uma arte de viver, associada a um sentimento de integridade e de autenticidade que permitem sentir a vida como um desafio que tem valor, em outras palavras, uma vida que vale a pena ser vivida (p. 103-104).

Na segunda parte, “As histórias de vida como metodologia de pesquisa-formação”, como o próprio título aponta, a autora define a história de vida como metodologia de pesquisa e formação. Aqui descreve e discute as etapas desta abordagem: a fase de introdução à construção da narrativa da história da formação (p. 114), a fase de elaboração da narrativa (p. 117), a fase de compreensão e de interpretação das narrativas escritas (p. 119) e a fase de balanço dos formadores e dos participantes (p. 122). Com isso vai demonstrando que “a narrativa de vida não tem em si poder transformador mas, em compensação, a metodologia de trabalho sobre a narrativa de vida pode ser a oportunidade de uma transformação, segundo a natureza das tomadas de consciência que aí são feitas e o grau de abertura à experiência das pessoas envolvidas no processo” (p. 153). Neste movimento, fica claro o grau de implicação dos diferentes sujeitos nesse trabalho. Trabalho que exige observação e escuta de cada um sobre o que se passa consigo mesmo e com cada um do grupo, o que implica em respeito, disponibilidade e humildade.

Caminhar para si não significa caminhar sozinho, dessa forma, o papel do formador neste processo é fundamental. Segundo Josso, ele assume diferentes “figuras antropológicas” (p. 160): o de amador, ancião, balseiro e animador, tendo como função conduzir alguém até si mesmo. Para tanto, é imprescindível que este tenha feito sua própria experiência de “caminhar para si”, para que então possa alimentar e instigar o grupo a encontrar o seu próprio caminho, bem como colocar-se ele próprio na posição de aprendente. Tarefa nada fácil numa sociedade onde predomina uma educação que tem como marca a idéia de que, neste processo, apenas o aluno se forma, sendo o professor alguém detentor do saber e que deve despejá-lo em um outro, recipiente passivo. Esta é uma dificuldade não apenas para o formador mas também para o grupo, que muitas vezes espera tal depósito.

Outro desafio no trabalho com esta abordagem é o de socializar aspectos de nossa vida interior. O que socializar, como socializar, como os outros irão interpretar, o que vão pensar etc., constituem-se em preocupações do narrador. Além disso, a própria narrativa coloca-se como um outro desafio, uma vez que, para evidenciar sua singularidade, seu autor precisa romper com as formas padronizadas de pensar e escrever, criando desta forma, espaço de liberdade para se expressar. Assim, trabalhar com esta metodologia de histórias de vida requer de cada um o aprendizado de desaprender (p. 231), como bem nos ensina Fernando Pessoa [1]:

Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.

Na terceira parte, “Contribuições do saber biográfico para a concepção de dispositivos de formação”, Josso traz algumas experiências e propostas que exemplificam o trabalho com esta abordagem. Aqui várias são as temáticas discutidas, entre elas: a dimensão temporal da formação, a dimensão da subjetividade neste trabalho, a dialética individual e coletiva, interioridade e exterioridade, o papel da imaginação e ainda, a aprendizagem do distanciamento, da implicação, da responsabilização e da intersubjetividade. Também apresenta suas referências teóricas, que vão de autores como Paulo Freire, Bertrand Schwartz, Carl Rogers, Piaget, Jung, Freud, Bateson, Morin, a filosofias e práticas orientais, constituindo deste modo o que a autora chama de “minha mestiçagem intelectual”.

Concluindo este trabalho, a autora pontua como as histórias de vida tocam as fronteiras do racional e do imaginário; uma vez que leva “o indivíduo a compor uma visão imaginária de si mesmo” (p. 263). Na narrativa imagina e cria as ligações entre os diferentes acontecimentos que foram significativos ao longo de sua vida. Ligações que implicam em uma “escuta atenta da sua vida interior” (p. 265) e que ao serem contadas, escritas e lidas, dão acesso às dimensões da sensibilidade, da afetividade, da criatividade e do imaginário do seu autor. Dimensões estas esquecidas num mundo globalizado, que tem exigido uma educação e uma formação cada vez mais aligeirada, mercantilizada, marcada pelo supérfluo e pela aparência. Assim, voltarse para si, formar-se, na concepção defendida nesta obra, significa uma ruptura com estes modelos de educação e de formação. Significa redescobrir essas dimensões esquecidas, acreditando que elas ainda estão vivas dentro de nós, sendo, portanto, mola propulsora para que possamos nos colocar numa relação renovada conosco, com os outros e com o mundo, pois como afirma Nietzsche [2]:

Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém, exceto tu. Certamente, existem as veredas e as pontes e os semideuses inumeráveis que se oferecerão para te levar para o outro lado do rio, mas somente na medida em que te vendesses inteiramente: tu te colocarias como penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho sobre o qual ninguém, exceto tu, poderia trilhar. Para onde leva ele? Não perguntes nada, deves seguir este caminho. Quem foi então que anunciou este princípio: “Um homem nunca se eleva mais alto senão quando desconhece para onde seu caminho poderia levá-lo?”.

Mas como nos encontrar a nós mesmos? Como o homem pode se conhecer?

Josso nos apresenta neste livro um caminho possível; caminho que precisa ser repensado nas práticas de formação continuada que acontecem no interior das escolas, afinal: é possível o uso da metodologia das histórias de vida num espaço onde muitas vezes a formação é imposta, sem que haja abertura e disponibilidade por parte de alguns educadores? Como equacionar aí os tempos cronológicos, institucionalmente definidos, com os tempos internos, para que haja a apropriação pelo sujeito de sua própria história?

Fica aqui então um convite à leitura do livro “Experiências de Vida e Formação”, a todos aqueles que, sem desconsiderar a importância das dimensões técnicas e tecnológicas da formação, buscam resgatar no humano aquilo que lhe é peculiar, a sua humanidade.


[1]Fernando Pessoa. Obras poéticas. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2003.
[2]Friedrich Nietzsche. Escritos sobre educação. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003.

Endereço: Rua Octávio Hildebrando, 62
Bairro Mauá – São Caetano do Sul-SP 09580-330
Recebido: abril de 2005 Aceito: maio de 2005


Marta Regina Paulo da Silva - Mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, atua na formação de educadoras e educadores em instituições públicas e particulares.

Endereço: Rua Octávio Hildebrando, 62, São Caetano do Sul, SP, 09580-330. E-mail: martarps@uol.com.br


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