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Diálogos literários: Dom Quixote subvertido na narrativa de Carlos Fuentes

Ana Lúcia Trevisan Pelegrino

Resumo
O trabalho estuda o processo narrativo desenvolvido pelo escritor mexicano Carlos Fuentes no romance Terra Nostra (1975), objetivando identificar a motivação que conduz o autor a recortar e a reformular períodos históricos e personagens literários consagrados. O romance destaca autores e obras da literatura espanhola, como Dom Quixote, Celestina e Dom Juan, compondo um mosaico de referências. A pluralidade de escrituras implícita no romance significa uma multiplicidade de leituras e, principalmente, leva à percepção crítica dos processos de recorte e intenção imanentes ao modus operandi de toda narrativa histórica ou literária.
Palavras-chave: narrativa contemporânea, literatura espanhola, Dom Quixote, cultura ibero-americana.

Diálogos literarios: Don Quijote subvertido en la narrativa de Carlos Fuentes

Resumen
El trabajo estudia el proceso narrativo desarrollado por el escritor mejicano Carlos Fuentes en la novela Terra Nostra (1975), para identificar la motivación que lleva el autor a recortar y reformular períodos históricos y personajes literarios consagrados. La novela destaca autores y obras de la Literatura Española como Don Quijote, Celestina y Don Juan componiendo un mosaico de referencias. La pluralidad de escrituras implícita en la novela significa una multiplicidad de lecturas y, principalmente, lleva a la percepción crítica de los procesos de recorte e intención inmanentes al modus operandi de toda narrativa histórica o literaria.
Palabras – clave: narrativa contemporánea, literatura española, Don Quijote, cultura ibero-americana.

Literary Dialogues: Dom Quixote subverted in the Carlos Fuentes narrative

Abstract
The work studies the narrative process developed by the Mexican writer Carlos Fuentes in the novel Terra Nostra (1975), in order to identify the motivation which guides the author to cut and to reformulate historical periods and consecrated literary characters. The novel highlights authors and pieces of the Spanish Literature as Dom Quixote, The Celestina and Dom Juan compounding a mosaic of references. The plurality of the scripts implicitly in the novel mean a multiplicity of readings and, mainly, bring to a critic perception of the cutting process in the immanent intention to the modus operandi of all the historical or literary narrative.
Key words: contemporaneous narrative, spanish literature, Dom Quixote, Iberian – American Culture.

O escritor mexicano Carlos Fuentes certa vez referiu-se ao sentimento de “inveja” que chega a sentir dos leitores que se encontram no momento da primeira leitura de Dom Quixote. Ele, que confessa ler o texto de Cervantes todos os anos, diz que ainda se lembra do impacto da sua primeira leitura. O fascínio de Fuentes pela personagem de Cervantes é uma constante referência em entrevistas e ensaios, no entanto, se materializa de maneira concreta na produção de um livro de ensaios, Cervantes o la Critica de la Lectura (1976), e no romance de que trataremos aqui, Terra Nostra, de 1975.

Quando Carlos Fuentes publica o romance Terra Nostra já era um autor renomado no universo das letras hispano-americanas – que ainda respiravam os ares renovadores do alardeado boom da década de 60. Fuentes, então, já havia atingido um destaque considerável em meio à crítica especializada e um merecido número de leitores dentro e fora do continente. Outras obras do autor, anteriores a 1975, como La región más transparente, de 1958, Zona Sagrada e Cambio de piel, de 1967, La muerte de Artemio Cruz e Aura, de 1972, haviam sido objeto de muitos estudos literários na década de 70. Carlos Fuentes se revelava como um autor que parecia não temer nem se condicionar a limites formais ou reflexivos. A crítica destacou toda esta gama de inovações estéticas, assim como as inferências temáticas que versavam sobre a heterogeneidade cultural mexicana, o uso renovado dos mitos, ou os diálogos com o discurso histórico. Dessa forma, estudar Carlos Fuentes implica percorrer muitos caminhos de leituras, primeiramente no terreno da sua própria ficção e ensaio e, logo, os caminhos da abundante e profícua crítica literária já realizada a respeito de sua obra.

Carlos Fuentes, em muitos de seus romances e ensaios, apresenta uma reflexão sobre as diferentes culturas e os diferentes “tempos” que formam o continente latino-americano. Tal aspecto o sintoniza com debates contemporâneos sobre mestiçagem e pluralidade cultural. Fuentes tem protagonizado a reflexão sobre os mecanismos de sobrevivência, e até mesmo de resistência, tanto das culturas indígenas como das tradições européias, e vem conseguindo explicitar a amplitude cultural do sujeito latino-americano e posicioná-lo em suas reflexões dentro de uma diacronia histórica.

A visão de Fuentes sobre a cultura dos povos ibéricos e ibero-americanos realizada em sua bela obra ensaística, El espejo enterrado (FUENTES,1992), explicita que é preciso transcender as polarizações suscitadas por conceitos impregnados pelas limitações geográficas estanques – cultura espanhola de um lado, cultura hispano-americana de outro. Elabora-se que os elos entre os povos se estabelecem muitas vezes por vias diretas e indiretas e a produção artística fundamenta-se como um dos caminhos que permitem a união de idéias e ao mesmo tempo a preservação das identidades. Quando tomamos a bela interpretação que Fuentes faz sobre o Barroco hispano-americano, percebemos a explicitação de um momento em que a arte é capaz de dialogar com os diferentes universos cognitivos. A fachada da igreja de Potosí, realizada pelo índio José Kondori, é assinalada como uma manifestação desse diálogo. Nela, a deusa incaica aparece ao lado das sereias de Ulisses e a linha coríntia divide seu espaço com a flauta peruana (FUENTES, 1992, p. 206-207). Enfim, no espaço reservado à arte, o diálogo pode estabelecer-se ajustando-se tanto em sua forma como em seu conteúdo e, assim, permitindo a ruptura da incomunicabilidade tantas vezes assinalada.

Essas idéias disseminadas em sua obra sobre uma interpretação da História da América relacionada a uma preocupação por compreender todo o contexto cultural ibérico fizeram com que nos voltássemos para ao romance Terra Nostra, obra que exige do leitor tanto empenho quanto desprendimento intelectual. Isso porque, nesse romance, a forma, marcadamente caótica, passa a ser vista como elemento estruturador da conceituação crítica de história realizada pelo autor. É preciso desvendar o desafio intelectual proposto por ele sem descartar o artifício da sua “montagem”, pois nessa forma há também um significante: trata-se da raiz do conceito que passamos a denominar de construção crítica da história.

Existe um paradoxo vital inerente à leitura do romance, pois é preciso confiar em um fio de Ariadne, que ora surge ora foge de nossas mãos. A profusão de referências não pode ser um impedimento para o fluir da leitura, e, como verificaremos, o romance exige de seu leitor uma grande bagagem intelectual a respeito das culturas ibéricas e americanas, da história dos séculos XVI e XVII, dos mitos meso-americanos, da história das religiões, enfim, de inúmeros dados e referências. Entretanto, no cerne do romance, realidade e verdade são conceitos sobrepujados; é preciso confiar e ao mesmo tempo deixar-se enganar por Carlos Fuentes para encontrar-se e perder-se muitas vezes nos caminhos e nas interpretações das culturas que formam os povos ibéricos e ibero-americanos. Esse emaranhado é um fundamento para pensar-se a História em uma perspectiva de pluralidade de pontos de vista e, nesse sentido, pensá-la criticamente.

O romance Terra Nostra estabelece uma tese de Fuentes que vem se reafirmando em inúmeros ensaios e entrevistas: “el pasado no ha concluido; el pasado tiene que ser reinventado a cada momento para que no se fosilice entre las manos.”(FUENTES,1990, p.23). Ou, em seu livro de ensaios Tiempo mexicano, “la coexistencia de todos los niveles históricos en México es solo el signo externo de una decisión subconsciente de esta tierra y esa gente: todo tiempo debe ser mantenido. ¿Por qué? Porque ningún tiempo mexicano se ha cumplido aún” (FUENTES,1971, p.10)

A primeira leitura de Terra Nostra deixa clara uma ambição do autor de tentar abarcar a multiplicidade de culturas e de “tempos” que compõem o caudal cognitivo dos povos ibéricos e ibero-americanos. O autor mexicano, nesse romance, introduzirá seu debate sobre a formação pluricultural do sujeito hispano-americano através de uma fragmentação temporal e de alusões aos grandes textos literários dos séculos XVI e XVII. O romance destaca autores como Miguel de Cervantes e obras como El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, La Celestina e El burlador de Sevilla, e da mesma forma estão ali os relatos míticos pré-hispânicos. A Espanha dos Áustrias e, especificamente, o reinado de Felipe II são recortados, assim como o momento da chegada do homem europeu às terras americanas, o império de Tibério César e, ainda, a imagem de um iminente apocalipse, em Paris, em 1999.

Temos recortes históricos e literários que se revelam como um caminho metafórico para compreender-se a profundidade das raízes socioculturais tanto da Espanha como da América. Perceber o sentido implícito ao tempo histórico, ao tempo mítico e – por que não pensar? – a um “tempo literário”, seria uma das formas para compreender a cosmovisão dos povos ibéricos e ibero-americanos.

No romance, a multiplicidade temporal que aparece, a priori, como o grande desarticulador da estrutura narrativa é, na verdade, o articulador da macrorreflexão fuentiana. Todos os saltos temporais, as referências históricas concretas mescladas às referências totalmente imaginárias, compõem a origem do caos formal que se manifesta na obra. Entretanto, essa fragmentação temporal revela-se como o articulador da reflexão de Fuentes, pois, rompendo a linearidade dos discursos da história e dos mitos – mas, ao mesmo tempo, construindo uma narrativa que remete às muitas histórias já conhecidas –, Fuentes exige nossa atenção não para os conteúdos histórico-míticos, mas para a forma de contá-los.

Esse romance apresenta personagens da Literatura Espanhola, assim como da própria História da Espanha. As personagens históricas e literárias aparecem nos grandes blocos temporais que estão fragmentados ao longo do romance e ora são fiéis à historiografia, ora estão permeados pela liberdade ficcional do escritor. Este trabalho apresenta uma reflexão sobre algumas dimensões históricas e literárias compiladas no romance e, seguindo a trilha destas implicações, pondera sobre os porquês específicos desta retomada de autores, obras e personagens da Espanha dos séculos XVI e XVII. A literatura de Fuentes utilizará outras literaturas para compor uma visão crítica da realidade; assim, implícita e explicitamente, a literatura reflete a literatura para alcançar essa realidade.

Há uma perspectiva simbólica orientativa do recorte histórico em Terra Nostra ancorada na discussão sobre a sucessão dos poderes e as suas conseqüentes arbitrariedades. Como fruto desta seqüência de poder e arbitrariedade se encontraria uma chave para interpretar-se as origens do pensamento ibérico – pensamento este que determina a conquista e a colonização dos povos americanos. Da mesma forma, está posta em discussão a sintonia entre as formas de poder centralizador dos povos meso-americanos e do poder hegemônico da Espanha dos Áustrias. Desta análise de relações entre poderes separados por universos culturais distintos surgirá um elo comum, uma semelhança que servirá de base para a crítica de Fuentes: trata-se da religião que comunga com a violência para impor sua ordem e transpor qualquer divergência.

Nesse sentido, o momento da construção do “monastério-necrópolis” do Escorial e a figura de Felipe II, o momento da chegada do homem europeu às terras americanas, o império de Tibério César e, ainda, a imagem de um iminente apocalipse, em Paris, em 1999 compõem o mosaico de períodos históricos que representam uma percepção crítica e ideológica de Fuentes. Cada um desses recortes possui um sentido mais profundo, relacionado à essência da obra.

É interessante refletir sobre a idéia de que, ao longo do romance de Fuentes, a história, assim como seus ciclos e repercussões, tornam-se os grandes protagonistas. A trama se articula não apenas através dos saltos temporais: ela é, em si mesma, a proliferação de tempos e referências históricas. A leitura completa da obra não permite ao leitor identificar uma única trama. Ironicamente, num romance de quase mil páginas, percebemos que acontece pouca coisa, mas, ao mesmo tempo, é imensa a quantidade de histórias que se acumulam e são inúmeras as formas de contar uma mesma história. Infinitas, talvez, as combinações interpretativas dos conteúdos culturais, filosóficos e religiosos.

Cabe uma reflexão inicial a respeito do significado do título do romance: qual é, o que é, ou, talvez, a quem pertence esta “terra nostra”? A referência imediata e a mais comumente utilizada diz respeito ao Mare Nostrum, alusão à Roma Imperial e, logo, a sua posse e domínio do mundo então conhecido. Acreditamos que essa referência, que traz implícita certa idéia expansionista, é pertinente para iluminar alguns dos parâmetros interpretativos inerentes às indagações propostas na obra. O romance possui uma ambição de abarcar as origens ibéricas e mesmo latinas como elementos formadores das mentalidades da Espanha do século XVI, assim como o impacto dessas mentalidades após o descobrimento, a conquista e a colonização da América. Logo, esta “terra nostra” seria o espaço que habitamos todos, espanhóis, portugueses, negros e povos americanos, todos tocados pela experiência – incorporada ou não – dessas mentalidades que compõem o caudal da cultura ibérica.

Entretanto, não escapa a essa ponderação a respeito dessa “terra nostra” um certo tom europeizante, que suprimiria qualquer referência individualizada ao novo mundo. Observamos que o romance inclina-se muito mais ao universo ibérico que ao universo cultural americano. Porém, cabe perceber esta “terra nostra” como o espaço da língua espanhola, da expressividade dessa língua, que adquire contornos diferenciados nos diferentes países do continente, mas que remete sempre a uma estrutura européia. O que nos une, como dirá Fuentes, “lengua: española, no lengua del imperio, sino lengua de la imaginación, lengua de Cervantes, lengua del Quijote”. Esse nome, essa “terra nostra”, é uma nova u-topia, onde o topos não é apenas lugar, mas também tempo e linguagem.

Essa “terra nostra” é um fragmento temporal que acumula diferentes ordens de pensamento e que se articula pela particularidade de formulações narrativas. A língua espanhola se revela como “terra nostra” na medida em que tenta traduzir todas as idiossincrasias deste continente. Adaptando-se, curvando-se, exigindo, enfim, uma re-elaboração para permitir uma expressividade, para possibilitar a arte e, com ela, o diálogo que aproxima as culturas e, ao mesmo tempo, propõe os signos que nos diferenciam diante dos outros.

Nesse romance percebemos as raízes da língua espanhola e suas multiplicações como marco de uma “terra nostra”; na verdade, são os indícios da macrorreflexão de Fuentes sobre as identidades culturais hispano-americanas que se compõem de fragmentos, de simultaneidades, enfim, da multiplicidade. Nossa história multicultural, que, de certa forma, se origina e se reflete na pluralidade do idioma no continente, exige uma narrativa histórica que resgate toda a sua complexidade. Nesse sentido, o romance Terra Nostra articula, com sua perspectiva plurívoca, essa multiplicidade. Temos, mimetizadas na estruturação fragmentada do romance, as discussões implícitas às reflexões sobre linguagem, cultura e identidade. Esse signo fragmentado se apresenta tal qual um renovado enigma da esfinge: ainda que me decifres, eu te devoro. Conceber a história das culturas ibéricas e americanas inseridas em um mosaico de fragmentos que compõem a imagem do espelho fragmentado é um ponto de partida para a leitura das múltiplas construções narrativas expostas em Terra Nostra. No entanto, a “explicação” do espelho fragmentado não deve ser o ponto de chegada, nosso argumento é que o espelho fragmentado, enquanto desordem e ruptura, incita a discussão sobre os processos de construção das narrativas, sobre a formulação dos diferentes discursos que tentam legitimar a nossa percepção da realidade. Ainda que decifremos uma imagem nesse espelho, sabemos que nossa “resposta ao enigma” é, tão-somente, uma possibilidade; é, em si mesma, apenas mais uma “construção” permitida.

Pensar as articulações possíveis para todas as partes, capítulos e narrativas contidas no romance Terra Nostra é uma tarefa árdua, que se converte, em certa medida, em um trabalho de recuperação labiríntica. Porém, como todo labirinto tem seu construtor, que guarda a concepção das entradas e saídas possíveis, identificamos o construtor-narrador desse labirinto, Carlos Fuentes, que nos dá muitas pistas em seu livro de ensaios Cervantes o la crítica de la lectura (1976), publicado quatro meses depois do romance. Temos de um lado um texto teórico (o ensaio) sobre a História e a Literatura Espanhola dos séculos XVI e XVII, com suas críticas e referências bibliográficas muito bem articuladas, e, de outro, o texto ficcional (o romance), onde todas estas articulações parecem ter sido embaralhadas.

O romance de Fuentes constrói um período da história da Espanha marcado pelo poder e pela centralização, no entanto, apresenta as fissuras deste universo histórico que se propunha como unívoco. Articulando ficcionalmente as palavras e as atitudes do “Señor”, referência explícita a Felipe II em Terra Nostra, Fuentes dimensiona, com toda a eloqüência possível, o poder absolutista e, ao mesmo tempo, o contrapõe aos flancos existentes: as inúmeras heresias compiladas, além das obras e dos personagens literários que se incluem na narrativa.

As obras literárias instrumentalizadas ao longo de Terra Nostra são El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, La Celestina, de Fernando de Rojas e El Burlador de Sevilla, de Tirso de Molina, e configuram cada qual a seu modo um pólo de resistência ao ideário dominante em suas épocas. Seus autores, de alguma forma, não comungaram com a ordem do poder estabelecido, também foram agentes de uma subversão.

Dom Quixote, a Celestina e Dom Juan, quando retomados na narrativa de Terra Nostra, remetem a esta amplitude de referências, e Fuentes, com isso, realiza uma apologia da leitura. Ele obriga seus leitores a ler outros autores que, por sua vez, leram o seu mundo que, neste outro momento histórico, Fuentes está analisando e questionando. Fuentes nos obriga a mergulhar no seu exercício de hermenêutica.

No livro de ensaios Cervantes o la crítica de la lectura, Fuentes interpreta as figuras de Miguel Cervantes e de Fernando de Rojas como sujeitos históricos críticos de seu tempo, atentos à existência de uma ordem imutável (ditada pela Igreja e pela Coroa), mas, ao mesmo tempo, sensíveis às mudanças avassaladoras pelas quais passavam enquanto homens renascentistas. São sujeitos, vistos por Fuentes, que usaram a arte como instrumento de crítica, ainda que disfarçada e dissimulada, em um mundo onde a intolerância com relação às diferenças obrigava a um amálgama cultural, sem arestas, e a uma leitura unívoca, a um ato de comunhão perene com os valores preestabelecidos. Cada um desses autores, à sua maneira, percebeu-se diferente, percebeu o esforço que necessitava fazer para assemelhar-se, daí a ironia e os traços de modernidade presentes em suas criações. Suas obras revelam possibilidades, são aberturas em um universo fechado, são reflexões que se disfarçam em trapaças e loucuras e que ocultam, atrás do riso que provocam, uma aguda amargura do saber-se inadequado.

As personagens literárias Dom Quixote e Celestina habitam os limites da intolerância, mas, ao mesmo tempo, funcionam como espelho de verdades de seu tempo. Celestina transita pelo universo de criados e senhores (subverte todos); Dom Quixote revela, em sua peregrinação pelos campos da Espanha, uma população que tantas vezes escapa dos livros de história, e Dom Juan subverte o valor da honra e do amor cortês, revelando o desejo individual como um fim em si mesmo.

Terra Nostra está dividido em três grandes partes. Na terceira parte do romance, intitulado "El otro mundo", as personagens literárias Dom Quixote, Celestina e Dom Juan aparecem como personagens da trama de Fuentes, assim como, na primeira parte, o rei Felipe II é uma personagem histórica-ficcional, e o Peregrino da segunda parte é personagem mítica e histórica. O que se percebe é que Fuentes, em Terra Nostra, procura esgotar as variações e as possibilidades dos fatos determinados pela História e consagrados pela Literatura. Ele cria o caminho do não dito, recriando a História e ampliando a trajetória de personagens literárias clássicas nesse período histórico. Tanto os autores como as personagens dessas obras configuram-se como uma dimensão simbólica para referir-se às rupturas com a ordem estabelecida. Assim, Fuentes se apropria delas subvertendo seus conteúdos e referências. O texto de Dom Quixote está subvertido em Terra Nostra justamente porque representa em si mesmo uma possibilidade de subversão histórica e literária.

Fuentes cria um novo passado para suas personagens da literatura e estabelece relações entre elas nesse passado. Dom Quixote, por exemplo, se encontra com outras personagens de Fuentes ao longo do romance, mantém a essência do "caballero de la triste figura". Entretanto, Fuentes cria uma história que justifica seus atos e, além disso, insere em sua trajetória as relações com Celestina, que nesse momento reúne características da Celestina de Rojas, assim como da personagem Celestina, criada por Fuentes em sua narrativa.

No texto de Fuentes, descreve-se uma aventura de Dom Quixote onde este aparece lutando em uma “venta” contra "gigantes y mágicos encantadores". Sancho, “para intentar salvarle de tamañas locuras”, encontra Celestina (de Fuentes) e lhe diz:
al verla la tomó del brazo y díjole, manceba, quienquiera que seas, ayúdame, que mi amo ha enloquecido y creo que sólo tú le devolverás un poco la calma y razón; haz por comportarte como un alta dama, aunque poco importa, que él mira la nobleza donde sólo hay villanía, y la alcurnia descubre en los más ruines menesteres (TN, p.537).
Com isso, apresenta esta Celestina a Dom Quixote, e este, que a vê como a “alcahueta” Celestina, de Rojas, responde a Sancho da seguinte forma:
El apaleado caballero miró intensamente a Celestina, luego al labriego, y tembló de enojo: ¿Así te burlas de mi amigo? ¿Tan sandío me crees que no vea ante mí a esta vieja bruja, alcahueta, que hasta piedras le gritan a su paso. "¡Puta vieja!" , y que fregó sus espaldas en todos los burdeles? Joven fui, aunque no lo creas, y mi virtud perdí a manos de esta misma vieja falsa, barbuda, malhechora, que prometiendo introducirme en la alcoba de mi amada, me adormeció con filtros de amor en la suya y tomóme para sí, habiéndole yo pagado anticipadamente.(...) a otro, por más dinero entregaste a mi amada Dulcinea; (...) ¡Fuera com ella Sancho! (...) Y tú, escudero ¿ por qué te empeñas en darme gato por liebre, y en traerme com nombre de princesa a fregonas, putas y troteras? ¿ Crees que no sé ver? ¿Crees que no conozco la realidad real de las cosas? Los molinos son gigantes. Mas Celestina no es Dulcinea. ¡ Vámanos, Sancho , fuera de Toledo, que bien la llamo Livio, urbes parva, ínfima ciudad, y ancha es castilla! (TN, p.538, grifo nosso).

Esse momento faz alusão a um episódio da obra de Cervantes onde Dom Quixote vê a rude pastora e, mesmo diante de evidências tão claras da negação da verdade de Dulcinea, continua fiel ao seu discurso. Nesse recorte que Fuentes faz, observamos uma visão da “realidade” que seria impensável para o Dom Quixote original, principalmente no paralelo com o episódio referido. A personagem Dom Quijote de Fuentes pode perceber a realidade de seu texto – e ser fiel a ela. Nesse fragmento, Fuentes constrói uma personagem que parece perceber que está sendo apropriada por outro autor. Dom Quijote manifesta o discernimento de estar vivendo outro momento textual, por isso rompe seu discurso e percebe a realidade “ficcional” de Terra Nostra.

Em outro momento, a história da vida de Dom Quixote ganha outros elementos:
yo amaba a Dulcinea, ella mostrábase virtuosa, valíme de vieja alcahueta, hube a la doncella para mí, empezó a cambiar mi tiempo, maldije a los gallos porque anunciaban el día y al reloj porque daba tan de prisa (...) sorprendió nos el padre de la muchacha, desafiome, violenteme, violentose, atravesó com la espada a su propia hija y yo com la mía a él: dícese que no hubo día más sangriento en el Toboso; a padre e hija enterraron juntos bajo lápida estatuaria que representaba a la hija dormida y al padre de pie, velándola com su espada (...) huí de allí, púsose precio a mi cabeza, cambie de nombre, instaléme en lugar de cuyo nombre no quiero acordarme (...) (TN, p.581).

Nessa "nova" trajetória de Dom Quijote, Fuentes atribui características que remetem a Calisto e também ao "burlador" Dom Juan. Mas o mais interessante é perceber a apologia da leitura que Fuentes faz indiretamente ao retomar essas obras, estabelecendo outra dimensão de significados. Valoriza-se, pois, a leitura e seu impacto na imaginação de cada leitor.

Um leitor apaixonado pelo Dom Quixote já pensou ou imaginou a origem de sua "loucura" ou mesmo a juventude do “Caballero”. Fuentes cria um novo paradigma para a leitura do Dom Quixote, já que inventa um passado para o herói. Nesse momento a liberdade da imaginação extrapola o âmbito da literatura. Fuentes, em Terra Nostra, amplia e inventa a história de personagens históricas, míticas e também literárias. Concomitante a isso, introduz uma reflexão sobre o impacto dessa obra em cada leitor e logo sobre a criação literária, que se completa e se reinventa a cada leitura que se faça dela, dependendo dos diferentes tempos e contextos .

Em seu livro El espejo enterrado (1992), onde o autor propõe longamente uma reflexão sobre a cultura ibero-americana, podemos destacar suas ponderações sobre Cervantes e a marca de um sentimento de incerteza que perpassa as idéias relacionadas à figura do narrador, o que aponta para uma dimensão especulativa da obra no que tange à sua própria “construção” ficcional.
El principio de la incertidumbre queda establecido en la primerísima frase de la novela: "En un lugar de La Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme". Puesto en duda el lugar mismo donde la novela ocurre, Cervantes procede a establecer la incertidumbre acerca del autor del libro. ¿Quién es el autor de Don Quijote?(...) (FUENTES,1992:187-188, p. grifo nosso).

Essa permissão que o livro dá ao leitor possibilita e impulsiona as “leituras imaginativas” de Fuentes e de outros tantos escritores ao longo do tempo.

Si la Contrarreforma y Inquisición exigían un sólo punto de vista, Cervantes responderá que estamos siendo vistos. No estamos solos estamos rodeados por los otros. Leemos, somos leídos. No hemos terminado nuestra aventura. No la terminaremos, Sancho, mientras exista un lector dispuesto a abrir nuestro libro y así, devolvernos a vida. Somos el resultado del punto de vista de múltiples lectores, pasados, presentes y futuros. Pero siempre presentes cuando leen Don Quijote o ven Las Meninas. (FUENTES,1992, p.190)

Cabe destacar como Celestina, Dom Quixote e Dom Juan, na trama de Fuentes, se fundem em suas próprias trajetórias, compondo uma nova trama na qual se mantém, de forma embrionária, uma relação com suas obras originais. Assim, Dom Quixote conhece Celestina e utiliza seus "servicios" para conquistar Dulcinea, e, neste ponto, a trajetória de Melibea se confunde com a da personagem Dulcinea. Dom Quijote se nomeia a si mesmo Dom Juan, quando descreve sua juventude. Enfim, a trajetória literária original é também recriada por Fuentes e compõe a trama de Terra Nostra, incrementando as ponderações fuentianas sobre a amplitude de sentidos que os recortes dos textos literários e – por que não? – também históricos podem suscitar. O autor parte da perspectiva intrínseca “às mentalidades das personagens” históricas e literárias, e desse princípio é que deriva a sua reformulação na trama de seu romance.

Cervantes permite que Dom Quixote experimente viver fielmente conforme o discurso concebido e elaborado por ele: o ideal da cavalaria. Discurso e verdade, mundo real e mundo “construído” são paradoxos pelos quais transitam personagem e também o leitor. Terra Nostra impõe um paradoxo entre os dados da história e da ficção, e o leitor é provocado a experimentar, a desconfiar de tudo o que parece histórico, além de vivenciar a ausência de linearidade tanto temporal como espacial. O leitor de Terra Nostra sente-se em uma experiência semelhante à de Dom Quixote: conseguiremos afirmar nossa verdade construída linearmente diante de um mundo – Terra Nostra – que não admite as verdades preconcebidas, as certezas do preto e do branco, os discursos coerentemente elaborados? Tentaremos impor uma única lógica de entendimento, reduziremos sua ambição de ser tudo e nada ao mesmo tempo? Ler e reler Terra Nostra aponta para um desejo de compreensão que nos traria segurança. Poderíamos dizer algo como: todo o romance quer nos revelar “isto” ou “aquilo”, e logo construiríamos nosso Escorial, que nos protegeria e ocultaria em sua forma nossos questionamentos. Entretanto, quando optamos por encerrar a leitura e esgotarmos as possibilidades de interpretações, corremos o risco de admitir que os gigantes eram moinhos, que a rude lavradora não era Dulcinea, ou seja, de deixar-nos vencer pela necessidade de adequação. Impor ao romance uma interpretação fechada e unívoca seria como negar que, em toda narrativa, temos a soma de “recorte” e “intenção”, e que esta dimensão interpretativa variará nos diferentes tempos e contextos culturais.

A leitura de Terra Nostra nos insere em uma vivência do processo da leitura – e talvez esteja neste aspecto a sua maior relação com a obra de Cervantes. O romance é um labirinto de histórias entrecruzadas, e o leitor não sai do labirinto de Terra Nostra enquanto não aceita que pode ser construtor de labirintos. Cada porta de saída de Fuentes propõe outro labirinto que nada mais é do que a nossa vivência sempre renovada da leitura. Lemos Terra Nostra e encontramos Dom Quixote, relemos Dom Quixote e voltamos a Terra Nostra. Fuentes segue as pegadas de Cervantes e redimensiona o papel do leitor e da leitura. Lemos, somos lidos, lemos as leituras dos outros. Essa apropriação das personagens literárias permite a discussão dos múltiplos sentidos da leitura. Pois cada leitura de Dom Quixote, Celestina ou Dom Juan implicará uma renovada leitura de Terra Nostra. Lendo a história, Fuentes nos questiona a forma de contar e construí-la; lendo a obra literária, Fuentes nos questiona a forma de leitura, sua capacidade de renovar-se ao longo do tempo.

Dom Quixote e Sancho de Cervantes sabem que suas aventuras estão sendo construídas, e, o mais surpreendente, sabem que estão sendo lidos. Carlos Fuentes, em Terra Nostra, usará a personagem Dom Quixote para apontar suas intenções interpretativas das “mentalidades” ocultas por detrás da construção imaginativa da história dos povos ibéricos. Da mesma forma, a retomada de Dom Quixote incita a reflexão de que as realidades do mundo são uma sucessão de discursos construídos, por isso podemos ler e reler a história, porque podemos ler os mecanismos implícitos à sua construção e, logo, questionar os momentos em que existe uma ambição unívoca de “verdade”. A verdade de Dom Quixote é ficção, a verdade de Terra Nostra é história e ficção, ou ainda, é a explicitação dos movimentos de construção da narrativa, seja histórica, seja literária.


Ana Lúcia Trevisan Pelegrino é Professora do Curso de Letras: Língua espanhola e hispano-americana; Português/ Inglês (EAD); da Faculdade de Educação e Letras da UMESP e Doutora em Letras: Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Faculdade de Filosofia Ciências Humanas da USP. E.mail: altp@uol.com.br





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