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Relato de uma experiência didático-pedagógica em prática de tradução

Andréa da Silva Pereira e Paulo Rogério Stella
Resumo
A tradução de textos é uma atividade lingüística de considerável grau de complexidade, uma vez que requer do tradutor a mobilização e o domínio tanto dos aspectos estruturais de, pelo menos, duas diferentes línguas, como do uso dessas estruturas no diálogo com os seus mais variados contextos extraverbais. Com o propósito de aprofundar a discussão acerca da complexidade dessa atividade, este trabalho tem como objetivo relatar uma experiência didático-pedagógica para o ensino da prática de tradução de textos à luz de alguns pressupostos teóricos da análise do discurso. Partindo da concepção dialógica da linguagem, que permite identificar o “outro” na linguagem verbal, as noções de Ethos, tal como propõe Maingueneau (2001, 1987), e de Gênero do Discurso, trabalhada por Bakhtin e seu Círculo (2003), são convocadas para servir como suporte teórico desta proposta. Longe de conclusões exaustivas, o presente estudo aponta para alguns resultados fecundos obtidos pelos autores/pesquisadores na aplicação de um projeto-piloto, com base nessa abordagem interdisciplinar que envolve a prática da tradução e o referencial teórico dos estudos discursivos da linguagem.
Palavras-chave: tradução, prática, dialogismo, estudo discursivo

Report of a didactic-pedagogic experience in translation practice

Abstract
Translation of texts is a linguistic activity of considerable level of complexity due to the fact that it requires the translator to mobilize and dominate both the structural aspects of, at least, two different languages and the use of these structures in dialogical process with a variety of extraverbal contexts. Aiming at deepening the discussion about the complexity of such an activity, this piece of work focuses on reporting a didactic-pedagogic experience on the teaching practice of translation of some texts, following some theoretical presuppositions of discourse analysis. The dialogic conception of the language, which permits us to identify the “other” in the verbal language, the notions of Ethos as proposed by Maingueneau (2001, 1987), and the concept of Discourse Genres as worked by Bakhtin and his circle (2003) are brought about as theoretical background of this proposal. Far from reaching exhaustive conclusions, this study points out some fruitful results obtained by the authors/researchers in the application of a pilot project involving translation practice and the theoretical referential of the discursive studies.
Keywords: translation, practice, dialogism, discursive studies

Relato de una experiencia didáctico-pedagógica en práctica de traducción

Resumen
La traducción de textos es una actividad lingüística que presenta considerables dificultades, una vez que exige del traductor la movilización y el dominio tanto de los aspectos estructurales de, por lo menos, dos lenguas diferentes, como el uso de esas estructuras en el diálogo con sus más variados contextos extra verbales. Con el propósito de profundizar la discusión a respecto de la complejidad de esa actividad, ese trabajo tiene como objetivo relatar una experiencia didáctico-pedagógica para la enseñanza de la práctica de la traducción de textos, a la luz de algunos presupuestos teóricos del análisis del discurso. Partiendo de la concepción dialógica del lenguaje, que permite identificar el “otro” en el lenguaje verbal, la noción de Ethos, tal cual lo plantea Maingueneau (2001, 1987), y de Género de Discurso, trabajada por Bakhtin y su Círculo (2003), son evocadas para servir como soporte teórico de esta propuesta. Más allá de conclusiones exhaustivas, el presente estudio revela algunos resultados fecundos obtenidos por los autores/investigadores en la práctica de un proyecto piloto, sostenido en un abordaje interdisciplinario que conlleva la práctica de la traducción y el referencial teórico de los estudios del lenguaje.
Palabras-clave: traducción, practica, dialogismo, estudio discursivo

Introdução

As discussões sobre a tradução podem ser divididas em duas grandes correntes, segundo Baker (1992). A primeira trata da tradução como uma atividade natural a partir do conhecimento de língua que o tradutor tem. Discute-se o fato de que uma boa tradução só é possível quando o sujeito tradutor conhece profundamente tanto a língua de partida do texto, ou seja, a língua original, quanto a língua de chegada, ou seja, a língua para a qual o texto foi traduzido.

Nesse caso, a tradução é um dom natural do bom usuário de duas línguas. Espera-se que o tradutor tenha um bom talento inato para o manejo lingüístico, uma ótima capacidade de leitura e interpretação em decorrência da experiência diária e uma grande habilidade de escrita para a produção do novo texto.

A segunda corrente trata da necessidade da utilização das técnicas de tradução para o bom desenvolvimento da atividade. O resultado dessa discussão se apresenta na necessidade dos estudos tradutológicos por parte do futuro tradutor. Justificam-se, assim, os cursos e a didática da tradução.

Dessa perspectiva, o tradutor não precisa ter um conhecimento inato tanto da língua de partida do texto quanto da língua de chegada. Para essa corrente, além de um conhecimento de língua, não necessariamente fluente, é importante o domínio adequado das técnicas e dos processos lingüísticos somente aprendidos na academia para que uma boa tradução possa ser feita.

Nossa perspectiva se coloca entre essas duas correntes. Em outras palavras, acreditamos que a habilidade lingüística inata é um instrumento importante para a formação do tradutor, pois o sujeito que possui facilidade para o manejo lingüístico poderá mais fácil e rapidamente se desenvolver na área, tornando-se um bom profissional.

Entretanto, acreditamos que só é possível se tornar um bom profissional com o conhecimento e com a utilização das técnicas e das ferramentas oferecidas pelas novas abordagens de ensino e aprendizagem advindas dos estudos tradutológicos, ou seja, somente com o domínio das técnicas de tradução poderá o tradutor se tornar ágil na área.

Este texto visa apresentar uma proposta de discussão teórico-metodológica aplicada a partir do relato de nossa experiência em sala de aula com alunos falantes de língua portuguesa e inglesa, contudo, sem experiência nas técnicas de tradução. Divide-se em fundamentação teórica, descrição e discussão do material utilizado em sala de aula e resultados obtidos.


Fundamentação teórica

Segundo Bakhtin (2003), os textos não existem isoladamente. Entende-se por texto qualquer produção verbal da experiência humana. Esses textos agrupam-se em tipos, de acordo com seu uso em diferentes contextos. Bakhtin (2003) chama esses textos agrupados em tipos de gêneros do discurso.

O autor define gêneros do discurso como formas relativamente estáveis de enunciados, ou seja, entende que o texto apresenta algumas características que possibilitam sua classificação. A observação dessas características se dá por meio de três aspectos: forma composicional, conteúdo temático e estilo.

A forma composicional pode ser entendida como a estrutura lingüístico-formal do texto, ou seja, pode englobar desde o nível fonológico, passando pelo nível sintático, e chegar até ao nível textual. Todos esses níveis interferem na construção do texto, dando-lhe características que o distinguem de outros e o igualam a outros tantos.

O conteúdo temático, aspecto mais complexo da construção textual, trata dos valores circulantes em uma sociedade, que interferem, ou mesmo, constituem parte do sentido do texto. A charge abaixo pode exemplificar melhor a questão do tema:

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Ilustração 1 – Charge Frank and Ernest (2002)


Na charge, o assunto tratado é a questão dos altos valores cobrados dos contribuintes pela Receita Federal. A graça está no uso do termo “dependente”, que tem um sentido estável, ou seja, no caso do imposto de renda, os dependentes são os filhos.

O sentido, contudo, desloca-se para outro nível, o do conteúdo temático, porque o termo “dependente” tem outro sentido para o contribuinte que paga altos impostos, ou seja, para ele, o dependente é o governo. Esse conteúdo temático traz consigo todos os valores decorrentes desse deslocamento, ou seja, a exploração do assalariado, o mau uso do dinheiro do contribuinte, etc.

O estilo são as modificações possíveis feitas no texto pelo seu autor, não descaracterizando o aspecto genérico global do texto. Em outras palavras, o texto possibilita variações estilísticas que permitem a identificação ou a aproximação com certos autores, certas correntes, etc.

Um dos aspectos possíveis de trabalho com o estilo do texto dentro de um gênero do discurso é o ethos, que pode ser entendido, segundo Maingueneau (2001), como uma personalidade que emerge do texto. Segundo o autor, todo texto tem um enunciado, ou seja, um autor que assina o texto, mas também possui uma identidade com características psicológicas e de certa corporalidade.

A corporalidade se constitui dentro de um contexto sócio-histórico amplo, isto é, somente dentro desse contexto um enunciador pode incorporar uma determinada personalidade, assumindo valores que circulam como conteúdo temático em um tempo e um espaço específicos.

Na charge analisada, podemos dizer que o ethos remete à burocracia. A linguagem utilizada pelos participantes da interação aponta para o tipo de estrutura recorrente no preenchimento de formulários, por exemplo, “write down your dependents here” [ponha seus dependentes aqui]. Além disso, o desenho apresenta um local burocratizado, com um balcão, uma placa e um funcionário. Esse conjunto mostra um distanciamento entre contribuinte e receita federal.

O que determina a graça da charge é a relação entre distanciamento e proximidade, ou seja, toda a estrutura textual cria um efeito de distanciamento, contudo, quando o contribuinte pede o nome do funcionário como dependente, há uma quebra desse distanciamento e uma estranha aproximação entre os dois, criando o efeito de humor.


Relato da experiência

Uma preocupação da coordenação pedagógica e dos professores do curso de Letras Tradutor e Intérprete da Universidade Metodista de São Paulo é a interdisciplinaridade. Esse trabalho é possível quando aliamos as disciplinas teóricas sobre tradução com as disciplinas de prática de tradução e de produção textual.

Esse relato advém da interdisciplinaridade ocorrida entre as disciplinas Lingüística: Fundamentos da Análise do Discurso com a disciplina de Prática de Tradução de Textos Técnico-Científicos e a de Prática de Tradução de Textos Jornalísticos. Na primeira, discutimos a teoria dos Gêneros do Discurso, objetivando o estudo do ethos. Na segunda e na terceira, aplicamos os conceitos apresentados na prática de tradução.

Na disciplina prática, os alunos foram apresentados a dois textos em língua inglesa, aparentemente diferentes, porém pertencentes ao mesmo gênero, ou seja, os dois textos pertencem ao gênero técnico-científico. O primeiro trata de aspectos da teoria lingüística, suas correntes, seus autores, etc. O segundo diz respeito à teoria sobre engenharia de software.

Além do assunto, a diferença entre ambos se pauta no estilo dos dois textos, observado por meio da constituição de dois ethos diferentes e, até mesmo, conflitantes. O texto do livro, intitulado Software Engineering – Theory and Practice, possui uma estrutura lingüística mais distanciada do leitor. Utiliza-se do recurso lingüístico “nós”, característica do discurso argumentativo-acadêmico. A ilusão de objetividade se dá pelo conjunto de vozes que permitem ao enunciador se posicionar no texto como um grupo, ou seja, como aqueles que possuem a informação e vão transferi-la.

Além disso, o texto visa o aluno iniciante em engenharia, pois apresenta linguagem didática, estrutura lexical bastante simplificada e conteúdo aparentemente seqüencial. Um exemplo disso pode ser observado na ilustração 2.

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Ilustração 2 – Página 1 do livro Software Engineering


Podemos ver uma tentativa de interação por meio da pergunta “Why Software Engineering?” [Por que Engenharia de Software?]. A linguagem gráfica, que remete ao conteúdo do que deverá ser aprendido pelo estudante, pode ser observada logo depois da pergunta introdutória do capítulo.

A respeito do ethos, podemos dizer que o enunciador incorpora uma personalidade com característica psicológica de mais seriedade, observada por meio da formalidade da linguagem verbal e visual. A corporalidade remete à figura acadêmica do professor que propõe uma pergunta inicial, expõe os objetivos de sua proposição e desenvolve o assunto dentro de seus objetivos.

O segundo texto, do livro Saussure for Beginners, por sua vez, possui uma estrutura que aproxima autor e leitor. Apesar da proposta científica do texto, faz uso do gênero revista em quadrinhos, utilizando-se de figuras e diferentes recursos gráficos, como letras variadas.

Para chamar a atenção do leitor, o texto se aproxima de diferentes formas de narrar, por exemplo, traz a descrição em primeira e em terceira pessoa, a narração de eventos a partir da constituição de vários tipos de narradores. Faz entrevistas fictícias com Saussure, objetivando a explicitação de algum conceito. Personifica animais e coisas para trazer algumas digressões sobre o assunto. Um exemplo pode ser observado na ilustração 3.

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Ilustração 3 – Página 1 do livro Saussure for Beginners


A página apresentada mostra em destaque a imagem de um homem segurando o livro Curso de Lingüística Geral, obra que dá origem à ciência denominada lingüística. A imagem mostra também uma lápide fazendo um jogo entre vida e morte, objetivando criar interesse do leitor por meio da antítese.

O texto começa em forma de narrativa, contanto a história da morte de Saussure e criando o problema da falta de registro por parte do autor de suas reflexões sobre a linguagem. A narração se dá em terceira pessoa, mas a linguagem utilizada é bastante acessível, contendo várias entradas de grande apreciação valorativa tanto do autor quanto do trabalho.

Em se tratando do ethos, observamos um enunciador cujos aspectos psicológicos criam um tom de familiaridade e intimidade com o leitor, por meio de recorrente uso de adjetivos, sintaxe simplificada e ironia, por exemplo, quando o texto trata do problema da autoria do Curso de Lingüística Geral, “but there was a slight problem” [mas tinha um probleminha], para introduzir o problema de a publicação do livro ter sido feita postumamente à morte do autor por meio de notas das aulas de seus alunos.

Enquanto o texto anterior corporifica o professor, esse texto corporifica um colega de sala de aula. Isso pode ser comprovado por meio de alguns recursos que trazem o leitor, que é um aluno, para dentro do texto, por exemplo, “this was (take a deep breath now)” [isso era (respire fundo agora)], ou por meio do uso de hipérboles, como bombshell, em "at the age 21, Saussure produced the bombshell that first showed his genius” [com 21 anos, Saussure explodiu mostrando pela primeira vez sua genialidade].

O trabalho proposto com os alunos foi a tentativa de aguçamento da percepção do tradutor quando deparado com, aparentemente, diferentes textos. Essa percepção deve promover a observação dos diferentes estilos de textos que circulam em uma mesma esfera de produção. Nesse caso, textos técnicos, científicos e pedagógicos, que, contudo, possuem características distintas.

Os alunos comparam os textos atentando para o ethos, em seus aspectos psicológicos e de corporalidade, objetivando ultrapassar os limites da estrutura textual por si mesma, bem como visando a reflexão sobre a aplicação das técnicas tradutológicas não como um fim nelas mesmas, mas como um instrumental para a construção de sentidos.


Resultados obtidos

Pudemos observar quatro resultados distintos a partir desse viés de estudo. Os resultados são os trabalhos finais envolvendo pesquisa e análise tanto dos materiais apresentados em sala quanto de outros escolhidos pelos próprios alunos, contendo o ponto de vista teórico-metodológico proposto.

A primeira categoria corresponde às variações sobre os dois textos apresentados em sala de aula. Os alunos propuseram não somente a tradução dos textos nas disciplinas, mas também a troca de ethos como exercício de adaptação de textos, o que poderá ser útil caso precisem trabalhar com diferentes linguagens e códigos.

Na segunda categoria de trabalhos, dois tipos de propostas foram apresentados. No primeiro tipo, os alunos propuseram a observação da movimentação estrutural da linguagem nos textos da Revista Reader’s Digest em língua inglesa e sua correspondente em língua portuguesa, por meio da comparação entre o texto original e a tradução consagrada (publicada), objetivando a constatação da manutenção ou não do ethos na língua de chegada.

No segundo tipo, os alunos trabalharam com diálogos ficcionais de filmes, verificando se o ethos de algumas personagens se mantém quando da passagem da fala original para a legenda em português.

Na terceira categoria, os alunos observaram somente o texto de partida da Revista Newsweek. O artigo tratava do problema da dengue no Brasil. O objetivo foi o levantamento dos valores circulantes na escrita, constituintes da corporeidade do texto e conflitantes com os valores circulantes no Brasil. Esse trabalho ofereceu aos alunos a possibilidade da reflexão sobre o ponto de vista ideológico do autor inserido em seu contexto concreto.

E, na quarta categoria, os alunos propuseram a mudança de ethos, por meio da transformação de um texto jornalístico em língua inglesa para um texto de história em quadrinhos em língua portuguesa. Os alunos fizeram a análise da linguagem verbal na língua de partida e construíram uma relação entre linguagem verbal e não-verbal na língua de chegada.


Referências bibliográficas

BAKER, M. In Other Words – A coursebook on Translation. London and New York: Routledge, 1992.

BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1979/2003.

GORDON, T. Saussure for Beginners. New York: Writers and Reader Publishing Inc., 1996.

MAINGUENEAU, D. Análise de textos de Comunicação. Tradutores: Cecília P. de Souza e Silva e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2001

____________. Novas tendências em análise do discurso. Tradução: Freda Indursky. Campinas, SP: Pontes - Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1997, 3ª edição

PFLIGEER, S. Software Engeneering – Theory and Practice. New Jersey: Prentice Hall, 1998