Será que nascemos com o dom para ser professor?
Mara Pavani da Silva Gomes
A obra
NOGUEIRA, Maria Alice & NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins. Bourdieu & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 152 p. (Pensadores e educação, v. 4)
Apesar de este livro ter sido publicado no ano de 2004 e, portanto, já ter sido lido e estudado por muitos, consideramos de extrema relevância apresentá-lo, sobretudo àqueles que se iniciam na árdua tarefa de pensar as questões da educação. A contemporaneidade da obra de Bourdieu e, por extensão, do presente livro, se explica principalmente pelas respostas originais aos sempre presentes questionamentos relativos às funções e ao funcionamento social dos sistemas de ensino, bem como às relações entre os diferentes grupos sociais, a escola e o saber. É através da crítica ao mito do dom, que Bourdieu rompe com as explicações fundadas nas aptidões naturais dos indivíduos, apontando os mecanismos que transformam as desigualdades resultantes da herança cultural em desigualdades de destino escolar.
Os autores
Maria Alice Nogueira é professora titular do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG). Foi professora visitante na Universidade de Lille, na França. Graduou-se em Ciências da Educação na Universidade de Paris V. É doutora em Ciências da Educação também pela Universidade de Paris V e fez Pós-Doutorado no laboratório “Sociologie de l’Éducacion” do CNRS (URA 887), na França.
Cláudio Marques Martins Nogueira é professor-adjunto de Sociologia da Educação do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG). Graduou-se em Ciências Sociais e fez mestrado em Sociologia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. É doutor em Educação pela Faculdade de Educação da UFMG, tendo realizado estudos de doutorado com o Professor Dr. Bernard Lahire, na École Normal Supérieure Lettres et Sciences Humaines de Lyon, na França.
Os autores objetivaram, nessa obra, organizar um conjunto de idéias e teses do pensamento de Pierre Bourdieu, realçando as contribuições que consideraram as mais importantes no campo da educação, de forma a torná-las acessíveis e úteis a um público amplo e diversificado. Guiou-os, também, a consciência da dificuldade de se evitar que um discurso de apreciação produza efeitos indesejados de celebração do autor, fetichizando sua obra e cristalizando suas idéias. Os principais pontos deste estudo estão agrupados em duas partes: a obra geral de Pierre Bourdieu e a sua teoria sociológica da Educação.
Na primeira parte, Nogueira & Nogueira apresentam o desafio teórico central da obra de Bourdieu, marcada pela busca da superação, pelo desafio de explicitar o dilema que se coloca entre subjetivismo e objetivismo. Bourdieu advoga que os indivíduos não são seres autônomos e autoconscientes, nem seres mecanicamente determinados pelas forças objetivas e, sim, agiriam orientados por uma estrutura incorporada, um habitus que refletiria as características da realidade social na qual foram anteriormente socializados. São apresentados, ainda, os principais conceitos da teoria sociológica de Bourdieu: o espaço social, os campos e os tipos de capital (econômico, cultural, simbólico e social), enfatizando o destaque que este pesquisador da sociedade dá à dimensão simbólica ou cultural na produção e reprodução da vida social.
De acordo com Bourdieu, as diferentes esferas da vida social funcionariam com uma dinâmica análoga à esfera da economia, em que cada indivíduo conta com um volume, com uma variedade específica de recursos trazidos do “berço” ou acumulados ao longo de sua trajetória social, o que lhe assegura determinada posição no espaço social. Portanto, quanto maior o volume de capital possuído e investido pelo indivíduo em determinado mercado, maiores serão suas possibilidades de ter sucesso.
Na segunda parte, os autores discutem as análises e reflexões de Bourdieu sobre a constituição diferenciada dos sujeitos segundo sua origem social e familiar, bem como suas repercussões nos planos das atitudes e comportamentos escolares. Para Bourdieu, o capital cultural constitui o elemento da herança familiar que teria maior impacto na definição do destino escolar.
Nogueira & Nogueira evidenciam que as reflexões de Bourdieu sobre a escola partem da constatação de uma correlação entre as desigualdades sociais e escolares. As posições mais elevadas e prestigiosas dentro do sistema de ensino (definidas em termos de disciplinas, cursos, ramos do ensino e estabelecimentos) tendem a ser ocupadas pelos indivíduos pertencentes aos grupos socialmente dominantes. Ressaltam que, para o sociólogo francês, essa correlação nem é, obviamente, casual, nem se explica, exclusivamente, por diferenças objetivas (sobretudo econômicas) de oportunidades de acesso à escola. Segundo ele, por mais que se democratize o acesso ao ensino por meio da escola pública e gratuita, continuará existindo forte correlação entre as desigualdades sociais, sobretudo culturais, e as desigualdades ou hierarquias internas ao sistema de ensino. Na perspectiva bourdieusiana, essa correlação só pode ser explicada quando se considera que a escola, dissimuladamente, valoriza e exige dos alunos determinadas qualidades que são desigualmente distribuídas entre as classes sociais, notadamente, o capital cultural e uma certa naturalidade no trato com a cultura e o saber, que apenas aqueles que foram desde a infância socializados na cultura legítima podem ter.
Ao sublinhar que a cultura escolar está intimamente associada à cultura dominante, a teoria de Bourdieu abre caminho para uma análise crítica do currículo, dos métodos e da avaliação escolar. Os conteúdos curriculares seriam selecionados em função dos conhecimentos, dos valores e dos interesses das classes dominantes e, portanto, não poderiam ser entendidos fora do sistema mais vasto das diferenciações sociais. O próprio prestígio de cada disciplina acadêmica está associado à sua maior ou menor afinidade com as habilidades valorizadas pela elite cultural.
Bourdieu formulou a tese de que a avaliação escolar representa, antes de tudo, um mecanismo de transformação da herança cultural em capital escolar. E isso seria possível porque a avaliação docente iria muito além da mera verificação da aprendizagem dos conteúdos, constituindo-se, na prática, em um verdadeiro “julgamento social”, baseado – implicitamente e de maneira quase sempre inconsciente – na maior ou menor distância do aluno em relação às atitudes e aos comportamentos valorizados pelas classes dominantes, em particular, ao seu modo de ligação com a cultura.
Nas considerações finais, os autores analisam as críticas e ponderações em relação à obra de Bourdieu, afirmando que, apesar dos méritos inegáveis, seu constructo recebe também algumas críticas importantes. O grau limitado de independência ou autonomia conferido por Bourdieu aos estabelecimentos de ensino e ao sistema escolar no que se refere às estruturas de dominação social é o problema central apontado pelos críticos. Estes afirmam, ainda, que a Sociologia de Pierre Bourdieu é notadamente reconhecida por ter fornecido as bases para um rompimento frontal com a ideologia do dom e com a noção moralmente carregada de mérito pessoal. As limitações dessa abordagem, porém, revelam-se sempre que se busca a compreensão de situações particulares (famílias, indivíduos, escolas e professores específicos). Finalizam afirmando que Bourdieu nos forneceu importante quadro macrossociológico de análise das relações entre os sistemas de ensino e a estrutura social, mas que, entretanto, esse quadro precisa ser completado e aperfeiçoado por análises mais detalhadas. Faz-se necessário, em especial, um estudo mais minucioso dos processos concretos de constituição e utilização do habitus familiar, bem como uma análise mais fina dos diferentes contextos de escolarização.
Comentário
No Brasil do século XXI os problemas relativos à educação continuam os mesmos do século passado. Por volta dos anos 1950 surge um intenso movimento de migração da zona rural e conseqüente urbanização no nosso país. Em decorrência das especificidades do trabalho nas cidades, inicia-se uma forte pressão por ampliação e criação de escolas que possam atender à demanda cada vez mais crescente por escolarização. Com a entrada das classes populares no sistema educacional brasileiro, até então privilégio das classes mais favorecidas, começam a aparecer nas nossas escolas problemas nunca antes vividos. Se até a década de 1960 as Ciências Sociais e o senso comum atribuíam à escolarização um papel central na superação do atraso econômico, conseqüência do autoritarismo e dos privilégios, em busca de uma sociedade justa, moderna e democrática, é no final dessa década que se começa a reconhecer que, além de não se configurar em elemento de mobilidade social, a escola se configura como uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais. Constatar que ainda hoje o desempenho escolar dos sujeitos pertencentes às classes menos favorecidas é um dos fatores de exclusão do mercado de trabalho nos remete ao valor intrínseco desta obra, no que se refere à análise da forte relação entre desempenho escolar e origem social. Compreender a Sociologia da Educação de Bourdieu certamente não é tarefa das mais fáceis, o que confere a este livro enorme importância na medida em que a apresenta de modo claro e, principalmente, numa linguagem bastante acessível. A teoria de Bourdieu constitui um dos mais importantes paradigmas utilizados na interpretação sociológica da educação.
Mara Pavani da Silva Gomes é Mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP – e coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação e Letras da UMESP.








