A Esfera Do “Humano”: Uma Reflexão Sobre O Caráter Cultural Do Psiquismo Do Homem

Marlene Theodoro Polito

Artigo apresentado para a disciplina Teorias dos processos de criação e mídia

RESUMO

Os vínculos que se firmam entre um processo social marcado pela complexidade e pela ampla diferenciação simbólica e os impactos que esse processo provoca na dimensão existencial do indivíduo ficam claramente delineados quando acompanhamos a trajetória da concepção de identidade individual até a pós-modernidade, perspectiva que inevitavelmente nos leva a discutir também os conceitos de sujeito, subjetividade e representação. Torna-se necessário, por isso, refletir a respeito do modo como construímos a nossa realidade, o nosso universo de significações, e de como a linguagem tem papel fundamental em nossa reelaboração do mundo, da vida e de nossa subjetividade, enfim, refletir sobre o caráter cultural do nosso psiquismo.

Palavras-chave: humano, cultura, psiquismo, indícios, internalização, significação, signo.


THE SPHERE OF "HUMAN": A REFLECTION UPON THE CULTURAL CHARACTER OF MAN'S PSYCHISM

Abstract

The bonds established between a social process marked by complexity and ample symbolic differentiation and the impacts this process arouses in the individual's existential dimension are clear outlined when the trajectory of individual conception until post-modernity is followed, a perspective that inevitably leads us to discuss the concepts of subject, subjectivity and representation. It is necessary, therefore, reflect upon the way we build our reality, our universe of significations, and how language exerts a role of utmost omportance in our re-elaboration of the world, of life and our subjectivy, that is, reflect upon the cultural character of our psychism.

Key Words: human, culture, psychism, traces, internalization, sign


LA ESFERA DEL “HUMANO”: UNA REFLEXIÓN SOBRE EL CARÁCTER CULTURAL DEL PSIQUISMO DEL HOMBRE


Resumen

Los vínculos que se fijan entre el proceso social marcado por la complexidad y por la amplia diferenciación simbólica y los impactos que este proceso provoca en la dimensión existencial del individuo, quedan claramente delineados cuando acompañamos la trayectoria de la concepción de identidad individual hasta la pos-maternidad, perspectiva que inevitablemente nos lleva a discutir también los conceptos de sujeto, subjetividad y representación. Se torna necesario, por eso, reflectar al respecto del modo como construimos nuestra realidad, nuestro universo de significaciones, y de como el lenguaje tiene papel fundamental in nuestra elaboración del mundo, de la vida, y de nuestra subjetividad, por fin, reflexionar sobre el carácter cultural de nuestro psiquismo.

palabras-clave: humano, cultura, psiquismo, indicios, internalización, significación, signo.


INTRODUÇÃO

O tema – “A esfera do ‘humano: uma reflexão sobre o caráter cultural do psiquismo do homem” – nos sugere o diálogo com as idéias de três autores: Mikhail M. Bakhtin (1895-1975), Lev S.Vigotski (1896 – 1934) e Angel Pino (1933/) , ponto de encontro na grande temporalidade que certamente traz novas perspectivas e uma compreensão mais ampla da complexidade da natureza humana.

Angel Pino, em seu livro “ As marcas do humano. Às origens da constituição cultural da criança na perspectiva de Lev S. Vigotski ”, discute a dimensão que atribui em seu trabalho ao termo “humano”, referência que nos servirá de diretriz em todo o desenvolvimento da análise: “... designa esse ponto indescritível na relação homem-natureza em que ocorre a emergência da consciência” (PINO, 2005, p.16).

Suas reflexões, afirma, devem ser entendidas a partir da tese de Vigotski que, mesmo tendo sido escrita nas décadas de 1920 e 1930, mostra-se, ainda na contemporaneidade, de fundamental importância para a discussão do tema.

Embora os trabalhos de Vigotski e de Bakhtin se sustentem em objetivos diferentes – para Vigotski, é a elaboração de uma psicologia que tenta reconstruir a origem e o processo de desenvolvimento do comportamento e da consciência, assim como perfazer a análise da transformação dos processos psíquicos elementares; para Bakhtin, é o estudo da linguagem a partir de uma concepção histórica e social, em seus movimentos de formação e desenvolvimento –, suas idéias se entrelaçam em muitos aspectos na convergência do sentido, possibilidade que se deve principalmente a dois pontos básicos comuns: o materialismo histórico dialético e uma proposta dialógica de ciência.

Em “Nos textos de Bakhtin e Vigotski: um encontro possível”, Maria Teresa de Assunção Freitas nos esclarece a esse respeito:
Tudo está em movimento. Todo movimento é causado por elementos contraditórios que coexistem posteriormente numa nova totalidade. É assim que, na abordagem psicológica de Vygotsky, há sempre a integração entre dois sistemas: pensamento – linguagem, aprendizagem – desenvolvimento, plano-interno/plano-externo, plano interpessoal - plano intrapessoal. Bakhtin, por sua vez, em sua concepção dialógica de linguagem, coloca em diálogo: enunciado e vida, falante e ouvinte, arte e vida, linguagem e consciência. (...) Entendendo o homem com um sujeito social da e na história (FREITAS, 1994) consideram a cultura como o meio de existência através do qual se constitui a natureza humana em toda a sua variedade (FREITAS, 1997, p.315-316).

Trabalhando sobre as bases do materialismo histórico e dialético, na linha de Marx e Engels, a concepção proposta por Vigotski estabelece pontos importantes:

  1. A emergência da consciência se dá quando o homem, ao se descobrir parte da natureza, percebe que pode atuar sobre ela transformando-a com os recursos que é capaz de criar para tal.
  2. Nesse processo em que ele se distancia da natureza, ela se transforma em objeto de sua ação.
  3. A consciência surge, portanto, no próprio processo da ação do homem e é ao mesmo tempo causa e efeito dessa ação.
  4. Essa ação humana não é apenas técnica, mas também simbólica – “ou seja, afeta tanto o objeto sobre o qual se exerce quanto o sujeito que a realiza” (PINO, p.16).
  5. Natureza e homem são perpassados, assim, por essa nova dimensão simbólica.
O termo “humano” traduz, então, essa dimensão do homem que ao mesmo tempo em que o remete às suas raízes na natureza, remete-o também a uma história que começa com ele e da qual ele é autor e protagonista (PINO, p.17).

Mediada pela linguagem, a consciência estabelece seus fundamentos a partir da interação do diálogo com outras consciências – conceito que vai ser defendido por Bakhtin em sua obra Estética da criação verbal: “...o que conhecemos e presumimos de nós mesmos através da visão do outro se torna totalmente imanente à nossa consciência, parece ser traduzido para a linguagem da nossa consciência, sem nela alcançar consistência e autonomia, sem romper a unidade de nossa vida orientada para frente de si mesma, para o acontecimento por-vir e que não fica em repouso e jamais coincide com a sua própria atualidade dada, presente.” (BAKHTIN, 2000, p.36)

A alteridade se apresenta, assim, como ponto essencial na definição do ser humano, pois somente na relação e na oposição com o outro é que o homem participa do fluxo da linguagem, penetra o mundo sígnico, produz e é produzido pelo conhecimento trocado e assimilado, alcança níveis psíquicos superiores, forma sua consciência, toma sua posição diante dos outros e se constitui como sujeito. O outro, portanto, é imprescindível para fazê-lo alcançar a expressão de sua humanidade.

Nosso objetivo neste estudo é compreender a maneira como a subjetividade se manifesta para o conhecimento e para a ação – o processo paradoxal de produção de sentido –, tentando apreender tanto os movimentos que estão por trás da individualidade da produção lingüística quanto a dimensão social do ato, analisando o sujeito em sua possível liberdade de criação, na relação consigo mesmo, com o outro e com aquilo que Bakhtin denomina as vozes de sua consciência.

Este artigo – uma tentativa de oferecer elementos para reflexão e análise – visa, assim, esboçar, a partir de uma concepção de linguagem, a reconstituição dos fundamentos da consciência, o papel do outro e do diálogo nos processos que levam à elaboração da interiorização de um sujeito e à intervenção crucial e constitutiva do contexto.


A esfera do “humano” – uma reflexão sobre o caráter cultural do psiquismo do homem

Definindo a cultura como condição essencial da existência humana e uma das formas pelas quais a natureza em evolução se apresenta, e considerando o homem como a “emergência da consciência na natureza” (p.36), Pino tem como objeto de análise em seu trabalho:

  1. Explicar a relação existente entre a natureza e a cultura. A primeira como a força vital dentro da qual o homem se inclui; a segunda, como ordem por ele criada e que lhe garante sua qualidade essencial de ser humano.
  2. Definir o processo através do qual se articulam em cada indivíduo as forças naturais, e também a conseqüente mediação semiótica que tem lugar nesse mesmo processo.

É seu objetivo procurar encontrar nos primeiros meses da criança indícios (indícios não-verbais) que apontem em que momento esse processo de transformação tem início, assinalando a influência decisiva do meio social, fornecendo pistas concretas de como a ação da cultura se efetua sobre sua natureza biológica por meio da atuação social do Outro, “constituído nos primeiros momentos de vida do bebê humano pelo seu entorno familiar, em especial pelos pais e parentes próximos” (PINO, 2005, p.37).

Os indícios das origens da constituição cultural devem ser buscados, então, no encontro das formas simbólicas de comunicação, usadas pelo adulto na tentativa de transmitir a significação das coisas para a criança, com as formas biológicas de comunicação dessa criança, na verdade o único “repertório” de que ela dispõe.

Pino (2005) afirma que, diferentemente da psicologia tradicional, a tese de Vigotski nos propõe a unidade do ser do homem, que uniria nele a natureza e a cultura, a existência biológica e a dimensão simbólica. O homem como um todo coeso e único – que não se constitui apenas em função da força de seus elementos internos, mas que tampouco se limita a ser mero reflexo do meio em que se encontra.

No conjunto das idéias propostas por Vigotski, duas em particular dão sustentação e servem de ponto de partida para seus estudos.

A primeira é a existência no homem de duas séries de funções – as naturais, referentes aos processos biológicos, e as culturais, regidas por leis históricas.

A segunda é a “lei genética geral do desenvolvimento cultural” que fundamenta a emergência no homem das funções culturais.

Embora distintas, essas diferentes funções agem reciprocamente sobre si interpenetrando-se e constituindo um sistema complexo de funcionamento: as funções biológicas sendo transformadas pelas funções culturais e estas dependendo de condições de desenvolvimento normais para que possam se constituir de forma plena.

A articulação dessas funções se dá, assim, dentro de um planejamento previsível que acompanha o ritmo de amadurecimento biológico.
No desenvolvimento cultural da criança cada função aparece em cena duas vezes, em dois planos, primeiro o social, depois o psicológico, primeiro entre as pessoas como uma categoria interpsicológica, depois no interior da criança como uma categoria intrapsicológica. (PINO, 2005, p.31)

Essa lei não se daria simplesmente como conseqüência direta de leis naturais que controlam todo o desenvolvimento orgânico, mas surgiria da gradativa inserção da criança nas práticas sociais do seu meio cultural, no contato com o Outro, na apreensão daquilo que a faz participar da história social dos homens.

Em seu desenvolvimento teórico-estrutural, Pino discute a qualidade essencial da natureza humana e o impacto que essa “herança”, não só biológica mas principalmente cultural, tem sobre cada ser humano.

Algumas questões se apresentam como fundamentais dentro desse ambiente teórico:

  1. O desenvolvimento da criança pressupõe uma estrutura biogenética e neurológica da espécie que lhe dá condições de “aptidão para a cultura”.
  2. Desde o início, em um período anterior ao desenvolvimento da fala, a criança dispõe de um aparato sensório-motor que torna possível seus contatos com o meio físico e social. As áreas sensoriais primárias do córtex – sensorialidade visual, auditiva e tátil – são as primeiras a se desenvolver; as aptidões motoras primárias surgem depois, articulando-se com as primeiras.

A sensorialidade e a motricidade garantem à criança satisfazer sua necessidade básica de contato com seus semelhantes (“necessidade básica dos mamíferos superiores e o fundamento biológico da sua sociabilidade” (PINO, 2005, p.61)). No desenvolvimento da criança, esse período seria de fundamental importância e serviria como base para as primeiras tentativas de comunicação com o seu meio social. “(…) Essa atividade passa, durante o primeiro ano de vida do ser humano, por transformações tais que fazem dela a base da emergência de estruturas ou funções psicológicas novas claramente distintas das biológicas.” (PINO, 2005, P.64).

Segundo Freud, o homem nasce puro instinto e, se não tiver a introdução à cultura, não desenvolve a afetividade. O poder da linguagem se caracteriza, então, como essencialmente humanizador; o homem na linguagem cria sentido, comunica, produz os mitos e é, por sua vez, por eles produzido, em uma cadeia infinita de retroação.

  1. A característica que distingue o homem de outros seres biológicos semelhantes a ele é atribuir uma significação a tudo que realiza ou sobre o que atua. Desta forma, não nega a condição natural de suas funções biológicas ou a natureza material das coisas, mas atribui-lhes uma dimensão nova, uma dimensão simbólica, “ou seja, uma nova forma de existência” (PINO, p.54).
  2. A passagem para o mundo da cultura acontece quando os atos naturais da criança passam a ter significação para o Outro, que possui e disponibiliza essa significação. Nesse momento, a comunicação natural realizada por meio de sinais se articula com a comunicação simbólica, característica do adulto.

A apreensão e incorporação pela criança dessa significação “desloca o eixo da ação do determinismo dos sinais à indeterminação dos signos” (PINO, 2005, p. 65) – um processo de natureza extremamente complexo em que a conversão da significação das relações sociais se realiza a partir do envolvimento da criança com as situações criadas com o adulto, fenômeno que acaba por provocar neles - criança e adulto – respostas, ações e reações, constituindo o primeiro circuito de comunicação dessa criança com o Outro e delineando os contornos de seu ingresso nesse mundo da cultura.

Mesmo não captando o significado das palavras, a criança passa a apreender, pelo efeito de reforço e modelo, as significações dentro de um processo “que lhe permite descobrir a relação que pode existir entre o sinal e o objeto sinalizado. Ao atribuir-lhe uma significação, o Outro transforma o sinal em signo.” (PINO, 2005, p.146).

A constituição das funções culturais tem lugar em cada indivíduo a partir de um processo que Vigotski denomina de internalização ou conversão: a experiência das relações sociais no nível público lhe serve de fundamento e é, então, transposta para o plano pessoal. “Em outros termos, elas são o resultado de uma conversão das* funções* das relações sociais que operam na esfera pública em funções dessas mesmas relações, operando agora na esfera* privada*, razão pela qual Vigotski chama de “quase sociais” (PINO, 2005, p.32).

Na “transposição” de um plano para outro, surge a significação, que não é de natureza física, mas sim o resultado de um complexo processo semiótico que independe das leis físicas do espaço.

A idéia da existência de dois planos sugere a hipótese de um momento zero cultural que conduz necessariamente à discussão sobre as origens da constituição cultural da criança, fenômeno que não coincide com seu nascimento biológico e nem pode ser confundido com ele, fato que, conseqüentemente, nos põe diante de dois nascimentos – o biológico e o cultural –, “fazendo da cultura a categoria central de uma nova concepção do desenvolvimento psicológico do homem.” (PINO, 2005, p.35)

Da mesma forma, Bakhtin afirma que a alteridade define a essência da natureza do ser humano, pois a presença do outro é fundamental para a sua concepção. A consciência surge nas relações estabelecidas socialmente, por meio da linguagem e sua mediação sígnica.
A única definição objetiva possível da consciência é de ordem sociológica. A consciência não pode derivar diretamente da natureza, como tentaram e ainda tentam mostrar o materialismo mecanicista ingênuo e a psicologia contemporânea (sob suas diferentes formas: biológica, behaviorista etc.). ... A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais. Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica e suas leis. (BAKHTIN, 1999, p.35)

Também é importante ressaltar nesses primeiros contatos exploratórios, particularmente pela mediação do comportamento da mãe, a importância e o papel da entonação e da emoção.

Para Bakhtin, desde a mais tenra infância acumulamos em nossas memórias diversos valores de conteúdo e de expressão, plenos de significação social e afetiva. Todo enunciado carrega essas vozes e não se realiza sem uma avaliação social que o transmita. “A entonação é a mais pura e a mais imediata expressão de avaliação” (BAKHTIN, 1981, p.264). A natureza de toda interação se define, assim, primeiramente pela entonação, e esta é memória semântica e social depositada na palavra, seu aspecto emocional-volitivo. A emoção, portanto, é flagrada nos intercursos sociais e nas manifestações da linguagem.

Ainda a partir dos trabalhos de Vigotski, duas idéias podem ser indicadas como inéditas no pensamento psicológico:

  • Aquilo que a psicologia tradicional considera a essência do psiquismo (e que Vigotski denomina de “funções psicológicas superiores”: inteligência, fala, memória, consciência, etc. (PINO, p.102)) tem origem e natureza sociais. Desta forma, “a relação ‘Eu-Outro’ é o fundamento da constituição cultural do ser humano”(p.103).
  • As “funções psicológicas superiores” são estabelecidas e formadas como “relações sociais entre pessoas”, são internalizadas e passam a ser funções da pessoa – uma referência explícita à afirmação de Marx: “(...) a natureza psicológica da pessoa é o conjunto das relações sociais, transferidas para dentro e que se tornaram funções da personalidade e forma de sua estrutura” (PINO, p.101).

Partindo da afirmação de Vigotski – “Somos conscientes de nós mesmos porque somos conscientes dos outros e somos conscientes dos outros porque em nossa relação conosco mesmo somos iguais aos outros em sua relação conosco” (VYGOTSKY, 1979, p. 85) –, outras questões podem ser consideradas no processo de desenvolvimento do psiquismo humano:

  1. O Outro é realidade física externa que se transforma em realidade psicológica interna.
  2. O Outro constitui junto com o Eu “duas dimensões de uma mesma e única pessoa” (PINO, 2005, p.104), o que reforça o papel e a importância da palavra do Outro para o Eu.
  3. Nesse movimento de conversão de relação* interpessoal* em relação intrapessoal, permanece a significação dessas relações; altera-se, porém, seu estado e direção: “... de social torna-se pessoal, incorporando-se na pessoa como base da sua estrutura social – e de agente externo, imposição social, torna-se agente interno, orientador da própria conduta” (PINO, p.112).
  4. A significação dada às relações sociais torna possível a cada um de seus integrantes a realização de sua condição de pessoa: eles participam da vivência de um mundo público, mas têm também, simultaneamente, a experiência do mundo privado.

A consciência individual se forma, assim, a partir do social – um conceito que Bakhtin também afirma ao explicitar as relações do “eu” no diálogo com os outros eus.

Na percepção do eu, distingue a autopercepção – o eu-para-mim –, a percepção dos outros – o eu-para-os-outros – e a percepção em relação ao outro – o outro-para-mim. Ao tratar da relação que o sujeito estabelece consigo mesmo, enfatiza que “o eu se esconde no outro, nos outros, quer ser o outro para os outros, entrar até o fim no mundo dos outros como outro, rejeitar o fardo do eu único no mundo (o eu-para-mim)”. (BAKHTIN, 2000, p.388).

O tema da autoconsciência define a condição de ser como essencialmente ser para o outro e, por meio dele, ser para mim mesmo. Dessa autocompreensão participam necessariamente os outros eus: os eus como atores uns dos outros, como espelhos que podem garantir a cada um a percepção de si mesmo – uma intervenção do outro que se realiza de forma incessante no sujeito, como o define Jobin e Souza em Mikhail Bakhtin e Walter Benjamin: polifonia, alegoria e o conceito de verdade no discurso da ciência contemporânea:
No que diz respeito à constituição da consciência, Bakhtin afirma que o território interno de cada um não é soberano: ser significa ser para o outro e, por meio do outro, para si próprio. É com o olhar do outro que comunico com meu interior. Tudo que diz respeito a mim, chega à minha consciência por meio da palavra do outro, com sua entoação valorativa e emocional. (Jobin e Souza, 1997, p.339).

Embora em Bakhtin o sujeito ocupe um lugar espaço-temporal definido e único, o “nós” é fundamentalmente a pessoa na qual podem desaparecer todos os outros, o “eu” inclusive. O sujeito carrega esse “nós” – sujeito coletivo, no qual o “eu” que fala se dilui, e funda sua humanidade junto com tantos outros homens. E é nessa referência absorvente e complexa que o sujeito se percebe como homem e vislumbra sua singularidade.

5 . Em Bakhtin e Vigotski, o pensamento verbal constitui a tessitura fundamental da estrutura semiótica da consciência. É responsável pelos processos de organização psíquica interior do homem, pela construção da sua subjetividade, pelo lento e progressivo movimento de individualização. O significado da palavra é, então, peça determinante para a compreensão do movimento dialético existente entre pensamento e linguagem.

Para Vigotski, “O pensamento não é simplesmente expresso em palavras: é por meio delas que ele passa a existir. (...) Uma palavra é um microcosmo da consciência humana.” (VIGOTSKI, 1991, p.108 e p. 132).

Bakhtin vai além e afirma o valor da palavra dentro de um plano ideológico; em sendo signo, reflete e refrata a realidade. “As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios.” (BAKHTIN, 1999, p.41)

Os processos de significação estão presentes na vida cotidiana das pessoas e marcam seus atos de pensar e de falar. Articulados na unidade do signo, pensamento e palavra se concretizam através de duas funções essenciais – respectivamente, representação e comando.

Noções de subjetividade, objetividade, de criação de um tempo e espaço humanos, entre outras coisas, constituem “conteúdos culturais” que marcam a passagem, na representação, do estado da natureza para o estado da cultura. “Com a invenção de signos, o homem pode distanciar-se do concreto e do singular e encontrar-lhes equivalentes abstratos e genéricos que os representem, sem os quais a natureza e ele mesmo seriam impensáveis” (PINO, 2005, p.148)

O uso dos signos, por outro lado, possibilita que pessoas ajam sobre outras pessoas e sobre si mesmas provocando nessas pessoas e em si mesmas mudanças e reações. A palavra permeia, assim, a dinâmica das interações, comandando suas ações, sendo fonte inequívoca de poder.
Se no primeiro caso (representação) o signo tem mais a ver com os “conteúdos” culturais – que, nos termos de T. Parson, se situam principalmente no nível cognitivo –, no segundo (comando) tem mais a ver com a interação entre as pessoas, entendida esta como a dinâmica das relações sociais. Dessa forma, o signo torna possível não só a circulação das significações dos objetos culturais e a sua contínua re-significação, mas também a constituição do indivíduo como ser cultural (PINO, 2005, p.148). (...) O fato de que o indivíduo possa surpreender-se “dando ordens” a si mesmo explica que a relação entre duas pessoas na vida social possa ser reconstituída no plano pessoal ou subjetivo, ao assumir o indivíduo o duplo papel do “eu” e do “Outro” da relação, com suas respectivas funções de mandar e executar (PINO, 2005, p.164).
  1. A idéia de “sujeito assujeitado ao Outro” (Althusser) poderia colocar em questão a individualidade e a singularidade desse mesmo sujeito. Os significados, porém, são construídos historicamente e concretizam-se no dia-a-dia das diferentes práticas sociais, ao assumirem contornos pessoais intransferíveis garantindo ao sujeito a sua individualidade e singularidade: “Falar de desenvolvimento cultural da criança (do ser humano) é falar da construção de uma história pessoal no interior da história social dos homens, da qual aquela é parte integrante” (PINO, p. 158).
A significação torna-se, assim, elemento fundamental para entender a história natural do homem e sua história cultural.
O fantástico da função semiótica é tornar possível que o objeto de conversão torne-se outra coisa sem deixar de ser o que é. Agregar à natureza uma significação transforma seu modo de existência, mas não altera a sua essência. A natureza torna-se simbólica e o simbólico torna-se natureza sem anular-se mutuamente. Esse parece ser o último nível atingido, por enquanto, pelo processo evolutivo da matéria inerte e viva. O autor dessa proeza é essa porção da natureza – denominada Homo – que inventa o simbólico e dessa forma se transforma sem perder sua condição de natureza. (PINO, 2005, p.169)

O conhecimento do homem, sua visão de mundo, a compreensão da complexidade e da integridade da sua existência constituem-se indissoluvelmente no diálogo da vida, no reconhecimento de outras consciências; o papel da linguagem e suas inúmeras mediações adquire, então, valor essencial na interpretação e constituição do sujeito, implicado em um tempo e em uma cultura.


Considerações finais

Um comportamento – nos diz Vigotski – é o resultado de uma série de relações que deram certo. O valor e a atualidade de tal conceito certamente indicam que o ato vivido, para além de toda sensibilidade e razão, é apenas uma singela materialização dentre as infinitas possibilidades que o sistema discursivo nos apresenta pelo diálogo, na relação com o Outro, na potencialidade e na expressão da vida.

Desvendar essas visões do mundo, procurar entender as relações existentes entre realidade *- processo em movimento e transformação - e *a construção de representações dessa realidade -, perspectiva totalizante, não fragmentada, que se firma através dos tempos, em um tempo - no interior da atividade mental dos indivíduos, constitui ponto fundamental em meus estudos e leva necessariamente à compreensão do papel da linguagem e de suas inúmeras mediações na redefinição dessa realidade, fixando-a na existência histórica dos homens, no conjunto das relações sociais, na interpretação e na constituição do sujeito, na ressignificação da cultura e da temporalidade; enfim, conduz a uma concepção de linguagem como experiência primordial da existência humana, na transmutação da realidade concreta do mundo objetivo, para além de seus elementos físicos, em sua dimensão alegórica; linguagem enquanto signo, dialético e vivo.

Caminhar com o saber significa caminhar também com a incerteza, a dúvida, com alguma coisa que escapa à nossa lógica. O valor que a idéia de pesquisa traz ao fazer uso do pensamento complexo é exatamente esse: passar ligeiramente o limite do indizível, como nos diz Morin (2000, p. 158).


Marlene Theodoro Polito é Doutoranda do Instituto de Artes – UNICAMP






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