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Editorial

por Moises de Aguiar JuniorÚltima modificação 28/11/2008 10:16

Neste segundo número de Múltiplas Leituras trazemos um dossiê comemorativo dos “40 anos da Pedagogia do Oprimido”, com autores que dialogaram com Paulo Freire em distintos momentos de sua jornada de pesquisas. Paulo Freire, conhecido no Brasil e no exterior, nasceu no Recife, em 1921; exilado, em agosto de 1979, retornou ao Brasil sob o clima da anistia política para “re-aprender o seu país”! Foi professor da PUC-SP e da UNICAMP, Secretário da Educação do Município de São Paulo entre 1988 e1992. Faleceu em 2 de maio de 1997.

Como brasileiro, como latino-americano, Paulo Freire é um pesquisador com claro compromisso social e político, compromisso com o direito que todos os habitantes da região têm à alfabetização: crianças, jovens e adultos; mulheres e homens; indígenas, mestiços e imigrantes. A obra de Paulo Freire e sua própria personalidade foram, e continuam sendo, referências estritamente práticas para a ação educativa de muitos grupos, de coletivos e de pessoas que trabalham em diferentes partes do mundo, sobre temas como a educação de adultos, a libertação pela educação e a educação popular. Sua identidade latino-americana, seus conceitos como opressão e a luta para sair dela; sua concepção da cultura como algo dinâmico e que pode transformar a realidade e alfabetização como algo mais do que uma mera técnica de leitura e escrita; seu método educativo enraizado na prática cotidiana e real do educando, diante da separação entre escola e vida, são idéias inseridas na realidade brasileira e, também, na realidade latino-americana de hoje. A segunda parte da revista – Pedagogia e Pedagogos: caminhos, tramas e desafios, traz dois temas importantes e polêmicos:

Um primeiro, de Denise D´Aurea Tardeli, com o título “Orientação profissional de adolescentes: o difícil momento da escolha”, cujas discussões evidenciam as incertezas dos estudantes quanto ao futuro, quanto ao domínio profissional e com relação ao mercado de trabalho. Denise mostra, fortemente, que os adolescentes colocam suas projeções de futuro relacionadas à escolha da carreira, afirmando, mesmo, que, para ter uma boa vida no futuro, a escolha da profissão deverá estar totalmente relacionada com essa perspectiva do devir. O estudo aponta, então, para a necessidade de as instituições de ensino superior contribuir para a superação das dúvidas e insatisfações, estimulando a construção de projetos de futuro dos estudantes.

O trabalho de Bárbara Cristina Moreira Sicardi apresenta como resultado o entendimento de que a singularidade e a subjetividade das narrativas possibilitam ao sujeito em formação, a partir de um trabalho sobre sua memória, lembrar e, de forma visceral, relacionar diferentes dimensões e saberes da aprendizagem profissional. É importante considerar neste contexto que o diálogo da pesquisa em Educação com fontes (auto)biográficas ganhou grande impulso especialmente a partir dos anos 1990, com a publicação, por António Nóvoa, do livro “Vidas de Professores”. E sempre é bom lembrar as palavras do autor, para quem “[...] as abordagens (auto)biográficas mantêm intactas todas as possibilidades heurísticas e constituem em marco de referência para a renovação das formas de pensar a actividade docente, no plano pessoal e profissional” (1992, p.7).

Em sua terceira parte, “Letras e escrituras: traduções, interfaces e diálogos”, dois artigos se entrecruzam: o de Fábio Luiz Villani, com o tema “O efeito das crenças dos professores de língua inglesa na escola pública”, discutindo algumas crenças que envolvem o trabalho do professor de língua inglesa e como essas crenças afetam diretamente a atuação em sala de aula. Villani questiona o surgimento de tais crenças que afetam, muitas vezes de forma negativa, a atuação dos professores da rede pública estadual paulista e que foi foco deste estudo. Em trabalho similar, Fabio Madeira (2005), da Universidade de Campinas, considerou, mais de perto, as crenças dos atores diretamente envolvidos em um processo de ensino/aprendizagem: professores e alunos de Língua Portuguesa. “Crenças de professores, crenças de alunos” – este parece ser um campo de investigação que tem despertado o interesse de autores e pesquisadores nas áreas da educação, psicologia, ciências cognitivas e no campo dos estudos lingüísticos.

Já com o artigo “A esfera do humano: uma reflexão sobre o caráter cultural do psiquismo do homem”, a autora Marlene Theodoro Polito dialoga com as idéias de três autores: Mikhail M. Bakhtin (1895-1975), Lev S.Vigotski (1896 – 1934) e Angel Pino (1933/), por considerar ser este o ponto de encontro na grande temporalidade, o que traz novas perspectivas e uma compreensão mais ampla da complexidade da natureza humana. A autora teve o objetivo de compreender a maneira como a subjetividade se manifesta para o conhecimento e para a ação – o processo paradoxal de produção de sentido. E o fez com muita maestria, analisando o sujeito em sua possível liberdade de criação, na relação consigo mesmo, com o outro e com aquilo que Bakhtin denomina as vozes de sua consciência. Evidenciou fortemente “tanto os movimentos que estão por trás da individualidade da produção lingüística quanto a sua dimensão social”.

Fechando este segundo número a resenha do livro de Adail Sobral, “Dizer o ‘mesmo’ a outros: ensaios sobre tradução” e os resumos das Dissertações de Mestrado defendidas no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo, no 2º semestre de 2007.


Marília Claret Geraes Duran



Múltiplas Leituras
ISSN 1982-8993

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