Apresentação do Dossiê Paulo Freire

Este Dossiê “40 anos da Pedagogia do Oprimido” que compõe o segundo número da Revista Múltiplas Leituras comemora não apenas a vitalidade e a fertilidade da produção freiriana em favor dos oprimidos do mundo, como também o fato de vermos crescer, no mundo, o número de educadores comprometidos com esta nobre causa, em que pese a malvadez da exclusão social que açoita a maioria do povo da Terra.

É importante que explicitemos o posicionamento dos autores participantes deste dossiê. Trata-se de pessoas que não sustentam uma fé ingênua na capacidade humana de “ser mais” nestes tempos de padronização cultural imposto pela globalização hegemônica, mas que manifestam um inconformismo atuante sobre os caminhos do “ter sempre mais”; um inconformismo atuante de resistência ao consumismo exacerbado do capitalismo voraz, que tudo devora, que tudo destrói; um inconformismo atuante frente às injustiças e a toda e qualquer forma de opressão; pessoas que mantêm viva a capacidade de indignar-se, como defendia nosso incansável mestre; pessoas que constituem-se em uma pequena, mas significativa parcela dos que engrossam as fileiras em defesa de um mundo menos desigual e injusto; dos que consideram a educação como um direito de cidadania e não como um bem mercadológico.

Suas reflexões abrangem um largo espectro no tempo e no espaço, mas têm como inspiração a leitura de Freire sobre o mundo, sobre o homem, sobre a educação.

O primeiro artigo, Pedagogias de Paulo Freire, é de autoria de José Eustáquio Romão, diretor do Instituto Paulo Freire e docente-pesquisador do Programa de Pós-Graduação da UNINOVE. Seu texto foi apresentado pela primeira vez sob a forma de conferência, em Lisboa, no curso de Mestrado em Educação, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e na Livraria Ler Devagar, em fevereiro de 2005. Diz seu autor: “Na comemoração dos quarenta anos da elaboração da Pedagogia do Oprimido, justifica-se publicá-lo, mesmo sem alterações, para se compreender porque esta verdadeira obra prima da educação mundial não tratou apenas de uma pedagogia (a dos oprimidos), mas de várias pedagogias que nela estão potencializadas.”

Segue-se o texto de Maria Stela Graciani, Professora de Sociologia da Educação e Coordenadora do Curso de Pedagogia da PUC/SP, A perversidade social que engendrou a exclusão escolar gerou o analfabeto, no qual trata dos analfabetos do mundo, coletivos pobres, excluídos, marginalizados que experimentam a insuportável ordem injusta, imoral das relações de produção, da apropriação da Terra, do espaço e da riqueza. Graciani defende a afirmação do ser humano e de suas necessidades e direitos, como prioritários em contraposição a uma moralidade ou imoralidade das regras do mercado, da produção e da exploração.

O terceiro texto Dançando na escola: reflexões com Paulo Freire é de autoria de Joana Lopes, professora de arte-educação da UNICAMP. Esse texto tem sua primeira versão escrita para o Colóquio Sombra dos Mestre*s promovido pelo Departamento de Música e Espetáculo da Universidade de Bolonha, Itália, 1998, sob o título *Atualidade do Ensino da Dança no Brasil. Traz algumas de suas reflexões com Paulo Freire sobre a importância da dança e sobre os princípios orientadores para introduzi-la no processo formativo desenvolvido na escola. A arte-educadora foi uma das assessoras do projeto desenvolvido por Freire, quando ocupou o cargo de Secretário de Educação do Município de São Paulo.

O texto a seguir Poder y filicidio: memoria del taller autogestivo Paulo Freire (1999-2000) é de autoria de Miguel Escobar ...... e traz reflexões sobre o conhecimento desenvolvido no “taller autogestivo Paulo Freire”, que discutiu o movimento estudantil e a greve ocorrida na Universidade Nacional Autônoma do México no período de 1999 a 2000.

Colaboraram também neste dossiê dois membros da Diretoria do Instituto Paulo Freire: Ângela Antunes, Diretora Pedagógica e Paulo Roberto Padilha, Diretor de Desenvolvimento Institucional, ambos discutindo questões relacionadas à concretização dos direitos de cidadania.

Em Democracia e cidadania na escola: do discurso à prática, Antunes faz uma discussão sobre o exercício da democracia e da cidadania na escola, como condição, para que todos sejam sujeitos do processo educacional. Considerando que o discurso educacional é favorável à prática da democracia traz contribuições sobre como, na prática, é possível educar para e pela cidadania no contexto escolar.

No texto Educação em direitos humanos sob a ótica dos ensinamentos de Paulo Freire, Padilha apresenta reflexões sobre Educação em Direitos Humanos apoiadas no universo dos princípios político-pedagógicos desenvolvidos por Paulo Freire. Quais seriam os conteúdos e as metodologias condizentes e coerentes com a temática da Educação em Direitos Humanos, quando se trabalha na perspectiva de currículo e de educação intertranscultural? Essa é a questão que o autor se propõe a responder em seu artigo.

Em A conectividade do presente com a história em Freire e Foucault Jason Mafra, Coordenador da Universitas Paulo Freire - Unifreire apresenta uma aproximação sobre reflexões de Foucault e de Freire, em torno da temática do poder e da liberdade, examinando, para isso, partes de suas produções mais significativas: Microfísica do poder (Foucault, 2003) e Pedagogia do oprimido (Freire, 1987).

Os últimos dois textos, elaborados em duplas, são de professores pesquisadores da UMESP, integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas Paulo Freire do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Educação da Metodista de São Paulo, grupo que faz parte da Cátedra do Oprimido do IPF, com pesquisas sobre a Pedagogia da Infância Oprimida .

Elydio dos Santos Neto e Marta Regina de Paula Silva no estudo de natureza teórica Quebrando as armadilhas da "adultez": um diálogo sobre infância a partir de Giorgio Agamben e Paulo Freire, contribuem para a construção de uma Pedagogia da Infância Oprimida, discutindo, a partir de um diálogo com as idéias de Paulo Freire e Giorgio Agamben, o papel da infância na formação humana. Defendem uma pedagogia aberta ao resgate da dimensão estética da formação, que aliada às dimensões ética, política e técnica ajudem a quebrar as armadilhas de nossa "adultez".

O texto Educação problematizadora: uma releitura de Extensão ou comunicação? de Maria Leila Alves e Danilo Di Manno de Almeida, retoma a relação entre formação técnica e educação. Discute-se a formação pedagógica e a prática docente confrontando os procedimentos técnicos presentes na pedagogia bancária com os princípios freirianos de “problematização”, “dialogicidade” e “invasão cultural”.

Esperamos com este dossiê estarmos comemorando condignamente os 40 anos da Pedagogia do Oprimido e também encontrarmos em nossos leitores a interlocução necessária para fazer avançar as nossas reflexões e nossas lutas contra a opressão


São Bernardo do Campo, setembro de 2008.


Elydio dos Santos Neto
Maria Leila Alves
Marta Regina Paulo da Silva