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Orientação Profissional de Adolescentes: O Difícil Momento da Escolha

Denise D´Aurea Tardeli [1]


Resumo

O presente artigo discute o momento da escolha profissional e as implicações desta escolha para os projetos de vida futuros de adolescentes. Para tal, foram entrevistados 192 jovens do Ensino Médio, em 2005, e 119 jovens, em 2007, de escolas da Baixada Santista/SP. Esses estudantes responderam a um questionário sobre escolha profissional e desenvolveram uma reflexão sobre a concepção de “vocação”. Os resultados mostraram que os adolescentes estão muito preocupados com seu futuro, que acreditam não sofrer influência em suas escolhas, sendo uma decisão só deles, e que a maneira de ser de cada um está vinculada à escolha profissional. Suas concepções sobre “vocação” ainda são estereotipadas, contudo acreditam que a escolha profissional pode ser um processo que se forma desde a infância. A pesquisa se apoiou em teorias sócio-históricas da área de Orientação Profissional.

Palavras-Chave: escolha, vocação, identidade, adolescente, profissão


ADOLESCENTS PROFESSIONAL ORIENTATION: THE DIFFICULT MOMENT OF CHOICES

Abstract

This article discuss the moment of the professional choices and the implications of it for the future projects of adolescents life. So, 192 students from Baixada Santista/SP´s schools were interviewed in 2005 and 119 in 2007. They were asked about their professional choices in a inquiry with six alternative questions and only one to describe their opinions about “vocation”. The results showed that the students are very worried about their future as well that they believe do not receive external influences from others in this special moment. They also believe that their identities are very associated to their choices. Their conceptions about “vocation” are still in a stereotype way however, they believe that to choose a job it is a process that can be built in a person since early years. This research is based on socio-historical theories from the Professional Orientation area.

Key Words: choice, vocation, identity, adolescent, profession


ORIENTACIÓN PROFESIONAL DE L´ADOLESCENTES: LA DIFÍCIL OCASIÓN DE LA SELECCIÓN

Resumen

Este artículo examina el momento de la selección profesional y las implicaciones desta selección para los proyectos de vida de l´adolescentes. Así, fueran entrevistados en 2005, 192 jovenes del Ensino Medio de escuelas de la Baixada Santista-SP y 119 jovenes en 2007. Ellos fueran cuestionados acerca de suyas elecciones profesionales en uno cuestionario com seis preguntas de alternativas y una sola pregunta discursiva sobre la concepción que tenían sobre “vocación”. Los resultados apuntan que los adolescentes estan muy preocupados con su futuro y que creen no sufriren influencia externa en sus selecciones. Creen todavía que la manera de ser de una persona és atada a la selección profesional. Sus conceptos sobre “vocación” se presentan estereotipados, sin embargo creen que la selección profesional puede ser un proceso que se forma en la persona desde la infancia. La investigación se queda apoyada en las teorias socio-historicas de l´area de Orientación Profesional.

Palabras-clave: selección, vocación, identidad, adolescente, profesión


Sobre nossa cultura contemporânea

Todas as sociedades conhecidas definem um certo número de obrigações que seus membros devem cumprir em um determinado momento de suas existências. Uma categoria dessas obrigações se deve às exigências sociais que são essenciais na fase da adolescência e muito cobradas pelos adultos: refletir sobre seu futuro pessoal e profissional. Essa exigência social se expressa brutalmente dentro dos regimentos educacionais que propõem o objetivo de orientar os adolescentes a construir um projeto de vida e, nesse contexto, a escolha de uma profissão é uma das decisões mais importantes que um adolescente tem de fazer.

As profissões e ocupações não são pensadas de forma abstrata pelo indivíduo. “(...) A escolha sempre se relaciona com os outros indivíduos (reais ou imaginários). O futuro nunca é pensado abstratamente. Nunca se pensa numa carreira ou num curso universitário despersonificados (...)” (BOHOSLAVSKY, 1977, p. 53). Acreditamos que tal formulação de Bohoslavsky nega a visão liberal e naturalizante do sujeito. Nela, busca-se o entendimento de que a pessoa se constrói a partir do que vive, resultando daí a dimensão histórica da construção de sua identidade. Ou seja, ao pensar em uma profissão, o sujeito mobiliza uma imagem que foi construída a partir de sua vivência por meio de contatos pessoais, de exposição à mídia, de leituras, de ouvir dizer, etc., e essa escolha resulta em um processo, mas só é efetivada em determinado momento, estabelecido socioculturalmente.

Se a escolha e a construção de um projeto de vida profissional não é uma tomada de decisão simples, mais intensa é esta decisão, por tomar lugar no momento da adolescência. A adolescência é um conceito histórico que tem adquirido distintas conotações de acordo com o momento e a sociedade em questão, ou seja, é uma categoria teórica. A cultura vivida e internalizada nos diversos âmbitos se sintetiza de maneira diferenciada e singular em cada história pessoal e seu contexto. Cada indivíduo e grupo configuram sua identidade de maneira complexa no marco das próprias condições sociais, econômicas e históricas, e os significados que definem sua cultura local e global.

Os jovens têm necessidade de construir sua identidade em função de sua intimidade e de sua autonomia, assim como seus próprios valores e projetos, no centro de uma crise pessoal que define a adolescência. Essa crise – não em um sentido negativo do termo – é lida como potencialidade dos sujeitos, na qual a cultura e as condições sociais, econômicas e regionais, comunitárias e familiares incidem, de alguma maneira, nos processos e nas relações em que os adolescentes enfrentam os conflitos de sua identidade. A crise se explica para o jovem que enfrenta uma revolução fisiológica dentro de si mesmo, que desestrutura sua imagem corporal e sua identidade do ego. A adolescência, como nos explica Erikson (1992), é a etapa em que se acentua o conflito da identidade, “é quase um modo de vida entre a infância e a idade adulta” (p. 111).

Abordamos aqui a identidade como uma articulação complexa e multidimensional de elementos psicológicos, sociais, culturais e afetivos, que se elaboram de maneira específica em cada adolescente. Cada etapa do desenvolvimento, segundo Erikson (1992), supõe uma crise. As do desenvolvimento não são uma fatalidade, mas sim “um ponto de virada, um período crucial de vulnerabilidade incrementada e de mais alto potencial” (ERIKSON, 1992, p. 82), que se conjugam com as condições sociais e culturais de cada contexto. Dessa forma, a etapa da adolescência representa um período de crise constitutiva ou normativa da identidade, que tomará distintos aspectos, dependendo da sociedade e da cultura em que o sujeito viva. Destaca-se nesse período, a crise normativa da adolescência, que se converte em um momento de “virada” e reorganização da própria personalidade, representando com isso uma possibilidade de sustentação para o futuro. E é nesse percurso que o adolescente é requisitado a fazer suas escolhas profissionais.

Somado a esse momento particular de cada adolescente, consideramos ainda o contexto cultural como outro ponto desagregador. A pós-modernidade é marcada pela eficiência e igualdade como ideal, segundo Bauman (1998), mas o paradoxo se instala justamente porque vivemos uma cultura individualista, cujo valor é sempre a renovação, mas que se concretiza na padronização do idêntico e do estereótipo. Segundo Bauman (1998), há um esgotamento da vanguarda que traz uma sociedade puramente técnica, extinguindo a profissão como “carreira” ou como um processo que se desenvolve ao longo de uma vida. Nessa cultura do nonsense, há um culto ao consumismo, e o ideário que se apresenta – em detrimento ao ideário da Modernidade inaugurado com a Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade – é a racionalidade, a funcionalidade e a produtividade. É a busca pela igualdade dos meios e de resultados para que possamos acreditar que existe a democracia da participação (BAUMAN, 1998).

O adolescente, nesse contexto de banalização social, é solicitado compulsivamente a fazer escolhas que não priorizam a posteridade, que trazem como valor essencial o prazer e o bem-estar sem esforço, em uma perda gradativa do sentido da continuidade histórica, segundo Bauman (1998). Em uma sociedade que vive o presente, o jovem é compelido a pensar no futuro. Nesse sentido, nosso interesse com esta investigação está na compreensão desse processo de escolhas e de vivências, na perspectiva dos próprios protagonistas: os adolescentes.


O método empregado

Para verificar como os jovens se organizam nesse importante momento de suas vidas e o que pensam a respeito, realizamos uma sondagem com 311 sujeitos, homens e mulheres, na faixa etária de 16 a 19 anos, do 3º ano do Ensino Médio de escolas variadas da Baixada Santista - SP, entre os meses de setembro e outubro [2] , momento em que se iniciam as inscrições para os vestibulares da maioria das universidades. A sondagem consistiu de um questionário com seis questões de múltipla escolha e uma questão dissertativa sobre suas concepções sobre vocação e, ainda, se a escolha da profissão é um processo que vai se formando desde a infância ou se aparece de repente em algum momento da vida. As questões consistiam em: - se atualmente o adolescente pensa no futuro (muito, pouco, ou não pensa); - se, para ter uma boa vida no futuro, o adolescente pensa que a escolha da profissão está relacionada (muito, pouco ou não está); - se a escolha da carreira profissional está vinculada ao jeito de ser do adolescente (muito, pouco ou não está); - se a maior influência na escolha da profissão vem da família, amigos, escola, mídia ou é decisão própria; - se um serviço de Orientação Profissional pode ajudar no momento da escolha (muito, pouco ou não ajuda); e - se para obter êxito na profissão escolhida é relevante o curso ou universidade (muito, pouco ou nada).


Comentando os Resultados

A necessidade de pensar sobre o futuro e estabelecer um projeto para ele repousa sobre uma dupla norma social. A primeira constitui o que fundamentalmente é igual em todas as sociedades contemporâneas: o jovem deve se separar de sua família e construir a sua própria. A segunda relaciona-se a uma concepção que considera que o sujeito é o centro de um processo decisório. Esta idéia é absorvida expressivamente pelos jovens, tanto que, em nosso estudo, do total de sujeitos entrevistados, 54,34% afirmam que atualmente pensam no seu futuro e 40,51% declaram que pensam muito no seu futuro.

Há várias razões psicológicas básicas que explicam a importância da escolha profissional. Todas as pessoas necessitam satisfazer as necessidades de reconhecimento, elogio, aceitação, aprovação, amor e independência. Uma forma de conseguir isso é assumindo uma identidade profissional, transformando-se em “alguém” a quem os demais podem reconhecer e a quem podem conceder satisfação emocional. Identificando-se com uma vocação particular, as pessoas encontram uma identidade, auto-realização e satisfação consigo mesmas. À medida que os adolescentes têm êxito com suas possibilidades, sentem-se satisfeitos e reconhecidos em sua busca pela identidade e satisfação consigo mesmos, estão fortemente motivados a fazer uma escolha profissional que contribua com sua auto-realização.

Para tanto, a escolha de uma ocupação necessita reflexão, o que pode ser cognitivamente complexo. Essa reflexão, quando se refere a seu próprio futuro, traz um período de crise que, nesta época da vida, é de importância capital. É, de fato, a primeira vez que o adolescente começa a se auto-conhecer: suas competências ou pré-requisitos para o que pode vir a fazer e todas estas variáveis se associam aos seus projetos de vida.

Para o adolescente que adota uma posição filosófica frente à vida, sua vocação é um meio para alcançar às metas e os propósitos que estabeleceu para sua vida. Essa seria a razão de sua existência, o lugar que pretende ocupar no mundo. Se o adolescente crê que a vida tem um significado e um propósito, esforça-se para encontrar e viver esse significado como uma forma de empregar seu tempo, seu talento e sua energia. Nesse caso, a escolha profissional não implicaria somente se perguntar: “Como posso ganhar a vida?”, mas também em se questionar: “O que vou fazer com a minha vida?”.

Para o adolescente preocupado em servir aos demais ou melhorar a sociedade em que vive como projeto futuro, a escolha de uma profissão dependerá das necessidades que lhe pareçam mais importantes e que melhor podem lhe satisfazer a partir de um trabalho. Há um outro tipo de adolescente que quer ser mais prático, e a escolha implica descobrir os tipos de profissão nos quais haja mais emprego ou os que pagam mais. Tais opções estão baseadas principalmente em motivos econômicos, em interesses pessoais de seus projetos de vida. Há, também, o adolescente que busca uma profissão que se converta em um meio para demonstrar que é maior, independente economicamente, emancipado da família e capaz de ganhar a vida sozinho. Para ele, escolher um trabalho supõe um meio para entrar no mundo adulto.

O adolescente é, eventualmente, aconselhado pelos familiares e professores que ele é o protagonista da escolha de seu futuro, como apareceu significativamente em nosso estudo, quando os jovens foram questionados sobre qual seria a maior influência na escolha da profissão. Em nossa amostragem, 85,85% dos sujeitos responderam que a escolha da profissão é uma decisão só deles, registrando a influência da família somente em 10,61% dos questionários.

Entendemos que os pais influenciam na escolha da profissão de seus filhos de várias formas, apesar de os jovens de nossa amostragem não focarem isso. Uma das formas de influência é a herança direta: se o filho ou a filha herda o negócio de seus pais, parece mais fácil e sensato continuar esse negócio. De igual forma, os pais também exercem sua influência proporcionando a preparação necessária, quando ensinam seu ofício a seu filho. Os pais influem nos interesses e nas atividades de seus filhos desde quando pequenos, mediante os materiais que lhes oferecem para brincar, estimulando em determinados interesses, potencializando a participação em determinadas atividades e experiências. Os pais proporcionam modelos para que seus filhos sigam, ainda que tentem não exercer nenhuma influência consciente e direta.

Mas essa decisão não ocorre de maneira estritamente subjetiva como os jovens podem supor. Eles podem provavelmente fazer escolhas de maneira autônoma, mas sempre dentro de formas socialmente construídas. Escolher uma profissão é uma tarefa cada vez mais difícil, conforme a sociedade se faz mais complexa. Este jogo dialético entre a subjetividade das preferências e das tomadas de decisão, de um lado, e os determinantes sociais, de outro, é que estabelece as diferentes teorias da formação das interações de futuro dos adolescentes.

Há atualmente mais de 47 mil ocupações diferentes, segundo o “Dicionário de títulos ocupacionais” (in: RICE, 2000), e muitas das quais não são habituais. No Brasil, a construção da CBO — Classificação Brasileira de Ocupações — foi desenvolvida em 1970 em convênio com a ONU, por meio da OIT — Organização Internacional do Trabalho — atualizada em 1994 e unificada em definitivo a partir de 2002, com a criação da CONCLA —Comissão Nacional de Classificação —. Para a criação da CBO 2002 utilizou-se como norteadora a Classificação Internacional Uniforme de Ocupações (CIUO 68) da OIT. (DEFFUNE, 2005). [3]


A aprendizagem social

O modelo de aprendizagem social é aquele que insiste no máximo de fatores que influenciam o indivíduo em suas escolhas. As decisões tomadas frente à carreira se encontram, com efeito, explicadas a partir das interações entre determinantes ou influências externas. Com esses determinantes, o sujeito, ao longo de sua história de vida, constrói gradualmente um sistema representativo que lhe possibilita ver de uma maneira determinada as escolhas que se apresentam. Essa concepção ficou evidenciada em nosso estudo, pois 58,19% dos jovens entrevistados responderam que a carreira profissional está vinculada ao jeito de ser, e 32,47% enfatizaram que a carreira está muito vinculada ao jeito de ser.

Na aprendizagem social ocorrem dois tipos de processo:

  1. Aprendizagens associativas – fundamentam-se pela impregnação, pela imitação de um modelo.
  2. Aprendizagens instrumentais – resultados individuais positivos levam os jovens a certas inferências, possibilitando a eles construir habilidades e proceder a generalizações de observação de si.

Dentro desse modelo, a vida é considerada como uma série de experiências de aprendizagens as quais, se conduzidas ao sucesso, tendem a se reproduzir. Essas experiências determinam decisões da carreira por observação de si, por generalização e estereótipos e habilidades de se orientar. Essa concepção é um desenvolvimento de sucessivas aprendizagens que trazem alguns aspectos negativos. Uma delas é que não existem determinações gerais. Os períodos de desenvolvimento se formarão a partir das dimensões centrais da imagem de si: é somente a história de vida particular do indivíduo que permite compreender suas decisões. O outro aspecto é que os diferentes campos de influências ou modelos não são assimilados uns pelos outros, ou seja, o que determina o valor de um não é necessariamente o que determina o valor do outro. Cada caso é visto como peculiar e as experiências não são estudadas a partir da replicação.


A gênese da carreira profissional

O modelo da gênese da carreira pessoal, como aprendizagem social, incide sobre o papel que os fatores externos têm sobre as personalidades jovens. Mas se distingue sobre dois pontos essenciais, segundo Guichard e Huteau 1997.

  1. O sujeito é considerado protagonista de um papel ativo no contexto em que está situado
  2. Há forte influência sobre as características organizadas e estruturadas dentro deste contexto

A essência desses modelos é a imbricação e a interação dinâmicas. Essa idéia é permeada pelas argumentações de que há uma plasticidade do desenvolvimento do indivíduo, o papel derivado disso e as possibilidades de intervenção em todo momento da existência para modificar o curso das coisas. O organismo é, com efeito, inseparável de seu contexto: eles são implicados mutuamente, ou seja, sujeitos e contextos devem ser considerados como duas entidades distintas na relação. O sujeito é o produto de seu próprio desenvolvimento. Ele influencia de diferentes formas o meio em que está inserido: ele é um estímulo para os outros, ele é capaz de tratar cognitivamente e afetivamente a informação e lhe atribuir significações; ele é, enfim, um agente de sua própria transformação, porque se engaja nas atividades que serão para ele fontes de experiência.

O contexto – meio –, por sua vez, é constituído de diferentes níveis, implicados uns nos outros. O que se passa em um nível pode produzir mudanças de funcionamento em outro. Portanto, não podemos atribuir a gênese da carreira de um indivíduo somente ao seu desenvolvimento cognitivo, ou ao status social de sua família, ou às transformações socioeconomicas. Então, para compreender os projetos futuros de um adolescente, devemos observar os diferentes microssistemas dos quais ele participa e, notadamente, a família, a escola, os grupos de amigos, os trabalhos esporádicos. As relações entre os diferentes contextos com os quais o adolescente interage devem ser estudados, não de maneira global, mas a partir de uma análise dos processos que se influenciam reciprocamente.

O indivíduo pode simplesmente ser reduzido às experiências passadas, mas deve ser conhecido como um sujeito capaz de se auto-regular, de ter suas próprias habilidades e o controle de seu próprio destino. A adolescência, portanto, será um período da vida no qual múltiplas mudanças surgirão, tanto do organismo quanto do meio, e essas mudanças marcarão profundamente as projeções futuras. A formação dos projetos futuros dos adolescentes apresenta algumas perspectivas interessantes. Em nosso estudo, os adolescentes colocam suas projeções de futuro relacionadas à escolha da carreira. Ao serem questionados, 85,85% dos jovens afirmaram que, para ter uma boa vida no futuro, a escolha da profissão deverá estar totalmente relacionada.

E, ainda dentro dessas projeções futuras, a escola tem papel significativo nas sociedades desenvolvidas, como formadora de um profissional competente e apto ao mercado de trabalho, principalmente no segmento escolar referente à universidade. Do total de jovens entrevistados, 79,42% dos sujeitos acreditam que, para obter sucesso profissional, é extremamente relevante cursar uma boa universidade, e 13,82% dos sujeitos acreditam que é pouco relevante, mas, ainda sim, verifica-se que a quase totalidade da amostragem atribui valores significativos à formação acadêmica.

A priori, a escolha pela universidade está associada a jovens que provêm de famílias pequenas, com nível socioeconômico mais alto, que têm bom rendimento na escola de Ensino Médio e que fazem programas de preparação para o vestibular (cursinho). Os jovens com maior capacidade intelectual, e com amigos que consideram positivo cursar uma universidade, têm uma tendência maior de ter uma formação acadêmica antes de arranjar um trabalho.

Dentro do contexto ocidental atual, não se pode impor um futuro profissional a um adolescente. Ele escolhe, mas a escola é focada dentro de parâmetros que são socialmente aprendidos e a decisão depende de uma inflexão cognitiva. A instituição escolar é o lugar privilegiado dessa aprendizagem. Ela é um microssistema maior, onde o jovem não adquire somente conhecimento, mas onde se relaciona e compartilha com os colegas as mesmas experiências de amizade, perdas e amores. Nesse sentido, as escolas, principalmente as de Ensino Médio, deverão incorporar a seus projetos um trabalho permanente de Orientação Vocacional, que deverá compreender todas essas questões de autoconhecimento, de compreensão e reflexão sobre a sociedade. Os jovens entrevistados neste estudo apontam a importância da orientação para este período tão conflituoso: 65,91% acreditam que a Orientação Vocacional pode ajudar e 66% deles pensam que pode ajudar muito no momento da escolha profissional.

O interesse é um fator importante no êxito profissional. Quanto mais interessado está um sujeito em seu trabalho, mais possibilidade tem de conseguir sucesso, ou seja, quanto mais coincidem seus interesses com aquelas ocupações em que já obteve êxito de alguma forma, maior é a probabilidade de obter sucesso profissional. O trabalho da Orientação Vocacional está baseado neste último princípio: apurar grupos de interesse similares aos de pessoas que tenham obtido sucesso em um determinado campo para prever as probabilidades.

Além dos interesses pessoais, a Orientação Vocacional também avalia as oportunidades de trabalho, a remuneração e o prestígio de determinadas profissões, as influências relacionadas à idade, ao contexto social e cultural do sujeito e do meio em que vive e às experiências pessoais.


A concepção de vocação

A palavra vocação vem do latim vocatio, significando chamado interior. Inicialmente, o conceito estava ligado ao cristianismo paulino, inspirando o conceito religioso, ou seja, seria “um chamado divino que impõe uma missão para os indivíduos. A ordem social é determinada pela vontade de Deus e por isso não pode e nem deve ser questionada” (BOCK, 2002, p. 22). Hoje é um termo pedagógico e significa “propensão para qualquer ocupação, profissão ou atividade” (ABBAGNANO, 1999, p. 1007), que se modificou a partir dos ideais da Revolução Francesa, que pregava a igualdade entre os homens. A vocação pode ser semelhante à aptidão, mas tem caráter mais subjetivo por ser uma atração que o sujeito sente por determinada forma de atividade. Atualmente, desprezando-se o aspecto religioso, o orgânico explica as diferenças individuais e sociais, portanto, a escolha profissional é um fenômeno determinado que tem características histórico-culturais e depende das condições em que as pessoas vivem, de suas vontades e aptidões.

Do total de 192 jovens entrevistados para esta questão, 27,08% definiram o conceito vocação como sendo um “dom”. Essa idéia está relacionada a uma explicação mágica, como se as capacidades da pessoa fossem atribuídas por forças divinas que não dependem do próprio sujeito. O “dom” vem de divindade: nas mitologias ou no período medieval, acreditava-se que talentos e virtudes eram designados a determinadas pessoas escolhidas por Deus ou pelos deuses, de acordo com as várias crenças. Constatou-se ainda que 21,35% dos jovens explicam o conceito de vocação como sendo uma facilidade/predisposição/tendência/inclinação que a pessoa possui para realizar determinada tarefa ou desempenhar determinado ofício. Nessa concepção, está implícita uma tendência inatista, ou seja, os jovens acreditam que as pessoas nascem com determinadas capacidades que “facilitam” o desempenho de algumas tarefas. Seria algo próprio do sujeito que independe de esforço para realização.

Se somarmos as duas concepções, temos 48,43% dos jovens entrevistados apresentando idéias muito impregnadas do senso comum sobre o desenvolvimento da profissão. Há somente 12,5% de jovens que atribuem a idéia de Aptidão/Habilidade/Competência. Essa concepção se associa a uma tendência de aprendizagem social, pois a aptidão pode ser controlada objetivamente e indica a presença de determinados caracteres que, em seu conjunto, tornam o indivíduo capaz de realizar determinada tarefa. A aptidão ou a competência relacionam-se com a seleção e a preparação do indivíduo para um determinado trabalho, em conformidade com suas habilidades e preferências. Como conclusão dessa questão, temos jovens que, de forma imatura vêem a competência profissional como algo “dado” a priori, que está desvinculado de um processo de aprendizagem, de esforço e de empenho. Os 39,07% restantes deram respostas pouco consistentes e sem significado.

Uma outra questão que foi respondida por 119 sujeitos da amostra consistiu em saber se os jovens acreditam que a escolha da profissão é um processo que vai se formando desde a infância, ou se esta decisão surge de repente em algum momento da vida. Os resultados apontam uma indecisão na formulação desta opinião, já que somente 37,81% dos sujeitos afirmam ser a escolha proveniente de um processo. Um total de 46,21% de respostas apresenta concepções muito variadas e até fantasiosas que indicam que o jovem pensou nesta idéia pela primeira vez no momento da entrevista, daí considerações incoerentes e improvisadas. E ainda, 15,96% do total de 119 estudantes afirmam que a escolha é algo que surge momentânea e inesperadamente.

Por fim, podemos afirmar que todo processo de reconstrução do mundo interior e exterior do adolescente obscurece o caminho das soluções e cabe à Orientação Profissional ajudá-lo a compreender as seleções e escolhas que ele deve fazer, as fantasias que tem de abandonar e as conseqüências deste abandono, os objetos de que irá se desfazer e os novos que que irá assumir. Cabe ao profissional da área de Orientação Profissional facilitar o processo no qual o jovem é protagonista.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

BAUMAN, Z. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

BOCK, S.D. Orientação Profissional – a abordagem sócio-histórica. São Paulo: Cortez Editora, 2002.

BOHOLAVSKY, R. Orientação Vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

CALLIGARIS, C. A Adolescência. São Paulo: PubliFolha, 2000.

DEFFUNE, D. In: LASSANCE, M.C.P. et al. Intervenção e Compromisso Social – Orientação Profissional: Teoria e Técnica. São Paulo: Vetor Editora, 2005, vol. 2.

ERIKSON, E. Identidad, juventud y crisis. Madrid: Taurus, 1992.

GUICHARD, J.; HUTEAU, M. L´ecole it les représentations d’ avenir des adolescents. In: RODRIGUEZ-TOMÉ, H.; JACKSON, S.; BARRIAUD, F. Regards actuels sur l´adolescence. Paris: Presses Universitaires de France, 1997.

RICE, F. Philip. Adolescencia: desarrollo, relaciones y cultura. Madrid: Prentice Hall, 2000, p. 389-406.






[1]Professora da UMESP - Universidade Metodista de São Paulo, no curso de Pedagogia; formada em Psicologia e Pedagogia, com Mestrado em Educação pela FEUSP e doutorado em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano no IPUSP; supervisora de estágio em Orientação Vocacional na Unisantos e colaboradora do setor de Processo Seletivo da UMESP.
[2]Foram aplicados 192 questionários em 2005 e 119 questionários em 2007.
[3]Acesso ao banco de dados da CBO, na internet, por meio do site http://www.mtecbo.gov.br/index.htm