Contribuições dos Estudos Bakhtinianos para os estudos de Tradução
Daniel Adelino Costa Oliveira da Cruz
Resenha do livro de SOBRAL, Adail. Dizer o ‘mesmo’ a outros: ensaios sobre tradução. São Paulo: Special Book Services Livraria, 2008.
O livro compõe-se de ensaios sobre tradução e interpretação, que, como o próprio autor explica em sua introdução, são novas versões de outros trabalhos dele mesmo, apresentados na forma de palestras e de textos preparados para suas participações em simpósios e congressos, além de material que ele desenvolveu para a disciplina Teorias da Interpretação, que leciona na Universidade Metodista de Piracicaba –– no curso de Formação de Intérpretes de LIBRAS.
Esses textos apresentam elementos que o autor considera presentes no ato de traduzir. Para ele, “a tradução é uma atividade de ver o ‘mesmo’ com os olhos do ‘outro’ e de ver o ‘outro’ com os olhos do ‘mesmo’ e que por isso todo ato de tradução envolve dizer o ‘mesmo’ a outros”. Seguindo a perspectiva bakhtiniana, ele explora “a idéia de que a própria atividade simbólica humana consiste em traduzir [...] e que a atividade de tradução mostra de maneira mais clara como isso acontece, pois torna explícitos os atos que realizamos no dia a dia mesmo sem nos darmos conta”. Com esses princípios em mente, o autor discorre sobre vários assuntos ligados à tradução.
O livro está organizado em oito ensaios. O primeiro – Teoria e prática e atividade profissional do tradutor – fala da importância da união entre teoria e prática e da formação do tradutor. No que diz respeito à relação entre teoria e prática, insiste no fato de que sempre há teoria envolvida no trabalho do tradutor, mesmo que este não esteja a par disso. Importa refletir sobre qual teoria é mais adequada à prática de tradução e como a prática da tradução pode colaborar para a teorização. No que se refere à formação do tradutor, são focalizadas questões de ensino-aprendizagem. O autor critica uma abordagem mais tradicional, estática, que dissocia conteúdo de forma e favorece uma abordagem mais dinâmica, que defende a exposição do aluno ao conhecimento de modo a permitir que esse mesmo conhecimento possa ser reconstruído, já que, segundo o autor, as verdades não são, mas estão.
O segundo ensaio – A possibilidade da tradução: o traduzível e o tradutível – fala do funcionamento da língua em situação real de uso a partir da idéia de que toda atividade simbólica humana consiste em traduzir e que a criação de sentido se dá em uma tensão entre o coletivo e o individual. O autor relaciona essa configuração ao trabalho do tradutor, uma vez que este se posiciona de modo muito particular, mais complexo que a posição do autor original, já que ele assume a posição presumida do autor do texto fonte e traduz para um público que não é necessariamente previsto por esse autor. O tradutor é leitor, interlocutor do autor do texto fonte e (co-)autor quando é tradutor. Está em jogo a tão discutida possibilidade da tradução. Sobral propõe uma categorização para dar conta disso. Para ele, as línguas são traduzíveis, pois podem ser postas em uma relação de correspondência, mas não são tradutíveis, já que a equivalência não é possível.
O terceiro ensaio – Mundo, linguagem, pensamento e tradução – aborda a linguagem como algo que fala da realidade e, ao mesmo tempo, como um processo em si de criação da própria realidade. O autor faz referência a Bakhtin, Piaget, Sapir-Whorf e Vygotski para relacionar linguagem, pensamento e mundo, defendendo que não há “uma relação irremediável entre pensamento e linguagem oral”. De outro modo, os surdos que dominam apenas a língua de sinais não teriam condições de pensar. Há, isto sim, uma relação estreita entre pensamento e linguagem, que o autor chama de pensamento verbal, inserida num contexto sócio-histórico. Para Sobral, essas noções importam ao tradutor por permitirem-lhe observar como uma língua que não é oral constrói sentidos, constituindo-se em uma grande vantagem já que, normalmente, o tradutor tem experiência com línguas que, embora diferentes, são orais.
O quarto ensaio – Traduzimos discursos, não (apenas) textos – fala da tradução como uma atividade que não pode entender a linguagem e o sentido fora de contexto e sem sujeito. Como diz o autor, é fundamental observar “quem diz o quê a quem, onde e como”, para que se possa pensar em sentido. A título de exemplo, somos lembrados de das situações em que uma piada pode e deve ser traduzida por outra piada para que haja o efeito de sentido que a piada original pretendeu criar: jocosidade. Essa reflexão relaciona-se diretamente à questão da (in)fidelidade na tradução, levando Sobral a pensar na tradução como uma atividade discursiva que reelabora o discurso do texto fonte, por vezes radicalmente, tentando produzir condições para que o leitor do texto da tradução possa construir sentidos próximos daqueles pretendidos pelo texto original. Pensando no conceito bakhtiniano de ‘gênero’, ele define a tradução como um trans-gênero ou pós-gênero que deve pensar a língua em seu contexto de produção. Daí afirmar que “traduzimos discursos, não (apenas) textos”.
O quinto ensaio – Equivalências/correspondências – discute a idéia da tradução palavra-por-palavra, argumentando que se deve pensar em correspondências dinâmicas entre formas de expressão. O tradutor deve procurar formas de dizer algo na língua de chegada que corresponda ao que foi dito na língua de partida. Para tanto, o texto fonte deve ser observado considerando-se o contexto sócio-histórico que permitiu sua existência e que nunca é equivalente ao contexto sócio-histórico do texto da tradução. Ora, se o sentido for entendido como sendo possível apenas a partir de um dado contexto, e se, por sua parte, for entendido que um contexto nunca se repete, deveremos entender que um texto nunca encontrará uma tradução equivalente, mas, isto sim, uma tradução correspondente.
O sexto ensaio – Habilidades e ações do tradutor – fala das habilidades que o tradutor deve desenvolver e discute a questão da autoria. Sobral defende uma ação efetiva do tradutor para que seja reconhecido socialmente, passando, inclusive, a interferir em questões de política lingüística, já que se encontra em um lugar privilegiado de quem entende sobre os processos de produção de sentido em diferentes línguas. Para tanto, precisa desenvolver-se em termos teóricos e práticos. Precisa se dedicar ao estudo contínuo da língua de partida e da língua de chegada, tornando-se apto a ser fiel ao original sem violar a língua para a qual traduz. Precisa saber relacionar sentido e sistema lingüístico numa perspectiva sócio-histórica, ou seja, discursiva. Precisa estar apto à pesquisa, tanto da perspectiva metodológica quanto da tecnológica. Precisa se relacionar com seus pares através de encontros presenciais e/ou à distância. Deve fazer e refletir sobre seu fazer (teoria e prática). Tudo isso leva-nos ao tradutor como um sujeito leitor-(co)autor, profissional e politicamente ativo.
O sétimo ensaio – A atividade (necessariamente) babélica do tradutor num mundo globalizado – introduz questões a que o tradutor está sujeito num mundo que exige cada vez mais dele. O tradutor vive num interstício babélico e deve ter em mente que sua função é construir uma ponte entre diferentes mundos que falam línguas diferentes sendo convocado a perceber pontos de correspondência entre esses mundos a partir da linguagem. Ele transita em um mundo que cada vez mais rapidamente põe diferenças em contato, o que enfatiza seu papel fundamentalmente político.
O oitavo ensaio – Traduzir em LIBRAS também é dizer o “mesmo” a outros – insere o intérprete de LIBRAS no contexto da tradução em geral. Dessa perspectiva, discutem-se diferentes questões relacionadas a LIBRAS. Uma delas é o aspecto ético dessa atividade, já que considera a LIBRAS como uma língua de uma minoria, o que chama o tradutor à responsabilidade política de um intermediário em situações de comunicação nas quais uma das línguas é oral e hegemônica, como seja o português em relação a LIBRAS. Outra questão é a relação entre a LIBRAS e a língua portuguesa sinalizada. Para o autor, a primeira cria sentidos, mas a segunda não, o que o leva à conclusão que a primeira é uma língua natural e a segunda é um arremedo de língua. Por fim, o autor acredita que a observação dos processos pelos quais passa o intérprete de LIBRAS colaborará para o entendimento dos processos pelos quais passam os intérpretes de línguas orais. Temos, então, várias entradas nas questões relativas à LIBRAS, tornando a leitura desse ensaio relevante aos estudos na área da interpretação e da tradução como um todo.
O livro interessa a alunos, professores e pesquisadores de tradução e interpretação. Não se trata de um manual para traduzir bem e certo, mas de uma reflexão que aborda diferentes aspectos da atividade em questão, o que pode torná-lo um tanto hermético para quem não está acostumado a lidar com teorias. Lembra que é possível teorizar sem praticar e, também, praticar sem teorizar, mas enfatiza que há sempre relação de complementariedade entre teoria e prática, esteja-se a par disso ou não. Argumentando em favor da contribuição da prática para a teoria, aproveita a discussão para convocar os tradutores e intérpretes à reflexão teórica. Chega em boa hora, já que considera a atividade da interpretação de LIBRAS em suas discussões, um campo com muito ainda a ser explorado da perspectiva dos estudos tradutológicos. É ainda bem vindo por inovar ao trazer a perspectiva bakhtiniana, tão profícua em outras áreas, como a literatura, a educação e a linguagem, mas ainda pouco ou quase nada explorada nos estudos tradutológicos.