Conceitualização da divindade num ambiente de luta das mulheres pela igualdade

Felipe Fanuel Xavier Rodrigues

Resumo: Uma vez que a teologia clássica tem tido dificuldades em responder à realidade concreta das pessoas, em especial das mulheres, algumas teólogas feministas têm proposto uma nova conceitualização da divindade cristã. Embora o conceito de Deus como mãe tenha contribuído neste sentido, há muito que se fazer em prol não apenas de uma emancipação das mulheres, mas da construção de um mundo rumo à igualdade das pessoas, que se dá, por conseguinte, independente de seu sexo.

Palavras-chave: Teologia Feminista, Divindade, Luta das Mulheres, Igualdade

Abstract: Once classical theology has found difficulties for answering to the concrete reality of people, especially women, feminist theology has proposed a new conceptualization of Christian divinity. Although the concept of God as mother has contributed for this task, there are much more to do in order to not only emancipate women but build a world of equality between people, which occurs, eventually, independent of their sex.

Key words: Feminist Theology, Divinity, Women’s Struggle, Equality

Resumen: Como la teología clásica ha tenido dificultades para responder a la realidad concreta de las personas, en especial de las mujeres, algunas teólogas feministas han propuesto un nuevo concepto de la divinidad cristiana. Aunque el concepto de Dios como madre haya contribuido en ese sentido, aún queda mucho por hacer no sólo en favor de la emancipación de las mujeres, sino también a favor de la construcción de un mundo en pro de la igualdad de las personas, condición que acontece, por consiguiente, independientemente del sexo.

Palabras Clave: Teología Feminista, Divinidad, Lucha de las Mujeres, Igualdad.


Introdução

Se a teologia cristã tem, nos últimos anos, deixado de ser, cada vez mais, propriedade exclusiva de sua instituição, a igreja, para estar mais presente na realidade das pessoas, precisa passar por uma reformulação conceitual. Deus, o símbolo máximo de qualquer reflexão teológica, foi posto em quarentena no giro antropológico que fez o teólogo perceber que sua “teologia é jogo, construção, artesanato: coisa humana, por demais humana”. [1] Assim, a tarefa teológica tem saído das torres de marfim para se inserir na vida das pessoas, não sendo um saber exclusivo, pois, a rigor, “ninguém que reflita sobre as questões cruciais da vida escapa de fazer teologia”. [2]

Ao assumir que a teologia não tem dono, assume-se também que a divindade não tem proprietário. Contudo, através do esforço de teólogas que surgem neste contexto, [3] é possível perceber que o modo sobre o qual se tem falado de Deus é predominantemente masculino, favorecendo a um mundo estrutural que exclui ou subordina a mulher . Ou seja, tem se praticado, na história cristã, um tipo de teologia que acaba forjando toda uma cultura de exclusão do sexo feminino no ocidente. [5] Conforme observa Maria Clara Lucchetti Bingemer, o cristianismo “tem privilegiado sempre a nomenclatura e a perspectiva masculinas para identificar o Deus de quem fala e a quem se refere”, eliminando um dos “pólos constitutivos para compreender o ser humano enquanto imagem de Deus”. [6]

O esforço de se criticar a teologia a partir desta perspectiva tem legitimado teologicamente o direito das mulheres em lutar por mais humanitarismo, bem como elaborado novas idéias teológicas a respeito de Deus. [7] Afinal, toda teologia, quer queira ou não, se organiza em torno da realidade social e da fé. [8] Por mais distante que os estudos teológicos se pretendam, [9] estes não devem se afastar da situação na qual se encontram, que é “a interpretação criativa da existência tal como se realiza em todos os períodos da história, sob todos os tipos de condições psicológicas e sociológicas”. [10] Portanto, é necessário que a realidade concreta das pessoas, em especial das mulheres, se torne, cada vez mais, a fonte da teologia, em cuja tarefa precisa estar incluída a reflexão crítica e criativa dos conceitos que têm dominado os círculos teológicos judaico-cristãos.


Um novo conceito de Deus

Neste sentido, a teologia cristã está defasada [11] na relação entre homens e mulheres, [12] sobretudo em sua conceitualização da divindade carregada de uma herança androcêntrica, necessitando de uma abertura para se pensar criativa e criticamente um novo conceito de Deus. A começar pela trindade, “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”, cuja linguagem é criticada pelas teólogas feministas, principalmente porque “funciona para reforçar a macheza de Deus” e porque “serve para sacralizar valores patriarcais, investindo-os com crença divina e de autoridade”. [13] Todavia, Elizabeth Johnson nota que
a fermentação atual em torno da designação, da imaginação e da conceptualização de Deus, a partir da perspectiva da experiência feminina, reintroduz a verdade antiga de que a idéia de Deus, mistério insondável, infere uma história indefinida de entendimento que ainda não está concluída. [14]

Ora, as teólogas feministas revelam que o conceito de Deus está aberto porque a própria realidade divina é um mistério situado para além e acima de toda imaginação humana. Por esta razão, Ursula King chama atenção para o fato de que “as categorias de nossa linguagem tentam exprimir a experiência e compreensão duma realidade omniabrangente do Divino”, isto é, “Algo/Alguém que transcende muito tudo o que podemos jamais ser ou conhecer, mas também Algo/Alguém imanente, um fundamento e fonte de todo ser, vida e criação”. [15] Ou seja, “tão transcendente e tão imanente é o sagrado mistério de Deus, que nós nunca conseguimos envolver por completo nossa mente em torno deste mesmo mistério e exaurir a realidade divina em palavras e conceitos”. [16]

Essa consciência da ineficiência conceitual em relação à divindade não vai desencorajar as teólogas a refletir sobre um novo conceito de Deus. Na verdade, nota-se uma prática saudável entre estas pensadoras de autocriticar suas próprias propostas conceituais, argumentando sobre a razão pela qual optaram por defender tais termos.


Deus como mãe

Em que pese esse não ser o único modelo, em geral, há certa concordância entre as teólogas [17] de se pensar Deus como mãe, pois esse modelo de Deus sugere uma alternativa ao patriarcal, normalmente assimilado dentro da “monárquica” e “triunfalística” linguagem sobre Deus como rei, mestre e senhor. [18] Pensar em Deus como mãe é tentar descobrir uma fonte negligenciada de expressar alguns aspectos do relacionamento divino-humano de modo especial. [19] Nas palavras de King, falar do Divino como mãe
expressa, portanto, a riqueza e criatividade de nossa fonte original e a de toda a criação; exalta a doação de vida, o extravasamento de amor e compaixão, o permanente fundamento de segurança e proteção. O fato de saudar, chamar, implorar o Divino em termos maternais exprime nosso carinho, afeição, intimidade e mesmo familiaridade em contraste com outras formas onde a Realidade Última parece tão remota, distante e estranha. [20]
Johnson nota que “a dinâmica interior deste símbolo materno afasta a idéia associada ao teísmo clássico de que Deus cria o mundo e ao mesmo tempo se mantém alheio a ele”, [21] pois ao transmitir vida graciosa e abundantemente, a mãe continua envolvida com a criação, sustentando-a e instruindo-a. Este símbolo da maternidade está associado às experiências humanas primordiais de conforto, segurança, alimento, amor e compaixão, bem como à segurança e certeza de ser sustentado, acalentado, nutrido, abrigado e protegido. [22] Como salienta Sallie McFague,
todos nós, homens e mulheres, temos o útero como nosso primeiro lar; todos nós nascemos do corpo de nossas mães e quase todos fomos nutridos por nossas mães. Que imagem poderia expressar melhor a realidade mais básica de nossa existência: que nós, todos nós do nosso planeta e todo o resto do universo, vivemos e nos movemos e temos nosso ser em Deus? [23]

Não obstante, as teólogas têm consciência de que a figura de Deus como mãe pode carregar traços autoritários e patriarcais prejudiciais à emancipação das mulheres, causando dano às suas integridades. [24] A imagem materna de Deus pode ser problemática por algumas razões, a saber, por causa da idealização que há em relação à mãe considerada apenas nos seus aspectos positivos, por causa da exaltação da maternidade a ponto de limitar a esfera de vida e aspirações da mulher, e por causa da dependência infantil do seres humanos em relação às suas genitoras. A imagem da mãe pode ser tão escravizante como a do pai, causando até maior dependência. [25] Todo cuidado é importante também para não inverter as posições e estabelecer um novo dualismo hierárquico com um modelo matriarcal de Deus.

Mesmo assim, McFague insiste que “apesar de todas essas restrições, a metáfora maternal é tão forte e eficaz e tão adequada ao nosso tempo que deveríamos usá-la”, [26] muito embora nenhuma imagem seja capaz de representar Deus definitivamente, porque está sempre sujeita a mudanças. [27]


Emancipação das mulheres

Desde os tempos de institucionalização do movimento em torno de Jesus de Nazaré, as mulheres têm sofrido uma perseguição social para se amoldarem a uma hierarquia onde o poder se concentra predominantemente em pessoas do sexo masculino. Segundo Elsa Tamez,
a atitude negativa diante das mulheres obedece à forte pressão exterior da cultura greco-romana, que via nas casas-igreja uma célula subversiva. Portanto, se continuassem desafiando a ordem patriarcal e os valores da sociedade romana, as comunidades cristãs correriam o risco de desaparecer completamente. Por isso e por outras razões, deveria existir um ‘patriarcalismo de amor’. Essa realidade, no entanto, não justifica nenhum tipo de opressão ou marginalização de membro algum da comunidade cristã. [28]

Com objetivo de combater esta ideologia, que ainda é forte nos dias atuais, as teólogas têm assumido, com paixão, a tarefa de buscar, através da realidade da mulher, proporcionar metáforas adequadas para uma linguagem em relação a Deus, [29] emancipando-se das imagens masculinas tradicionais. O realce e a descoberta de imagens femininas de Deus na tradição bíblica, pós-bíblica e até extra-bíblica têm resgatado o reconhecimento das mulheres como imagem e semelhança divinas, desenvolvendo nelas uma autoconsciência teológica. [30] A histórica interpretação da imago Dei estritamente no sentido espiritual trouxe conseqüências graves para as mulheres, as quais são geralmente relacionadas com corporalidade, sexualidade e tudo o que é terrestre. [31] Por esta razão, algumas mulheres têm reivindicado, cada vez mais, a dignidade de serem plenamente reconhecidas como imagem de Deus, apesar das feministas criticarem este conceito, haja vista que muitas delas propõem uma pluralidade de imagens de Deus, não presa apenas a uma tradição judaico-cristã.


Rumo à igualdade

Num primeiro momento, portanto, “a primeira onda teológica feminista queria inclusividade”, [32] mas chegou um tempo em que o “movimento da Deusa” (Goddess movement), como prefere Marcella Althaus-Reid, precisou não apenas pensar Deus, mas pensar raça, globalização e exclusão social, pois teológica e politicamente este movimento não está mais nos anos setenta. [33] Como ela enfatiza, “se a teologia não é para libertação, isto é, para livrar-nos de constrangimentos ideológicos sexuais e políticos de suas construções, e se não está arraigada em nossa experiência e não se torna transformadora, não é teologia”. [34] Esperando por um novo momento na teologia feminista, Althaus-Reid diz:
precisamos não apenas da deusa, mas da Outra deusa, a Deusa que lê Capital e entende a necessidade de reforma agrária. Precisamos de anjos femininos iluminando os passos contra as políticas de globalização. Precisamos de divindades para nossos tempos. [35]

Nesse movimento em prol da igualdade, sobre o qual fala Lieve Troch, a revelação acontece, e também a visão do reino aparece, fazendo vislumbrar a perspectiva de uma inclusão de todos, que é a exigência da luta pela cidadania democrática. [36] Como propõe Tamez, a comunidade de iguais deve levar adiante a mensagem do reino de Deus e, ao mesmo tempo, a denúncia de tudo aquilo que oprime e exclui as mulheres e qualquer membro das comunidades. [37] A definição de Deus, então, está atrelada a um esforço pelo discipulado de iguais, isto é, uma luta concreta e histórica que se modifica continuamente por causa dos padrões de opressão que sempre se reconstroem. [38]


Considerações finais

A teologia clássica cristã não tem atendido — ou sequer atentado — à demanda de uma nova conceitualização da divindade num contexto histórico-social de luta das mulheres pela igualdade, como tem se caracterizado os últimos anos — precisamente do início do século XX em diante.

A teologia feminista faz um exercício de (re) pensar Deus, criticando suas conotações inerentemente masculinas. O resgate da dimensão materna de Deus é um exemplo de uma grande contribuição de teólogas neste sentido. Todavia, ainda há muito que se fazer e, por isso, a emancipação das mulheres é apenas um passo, para cujo alvo tem se caminhado rumo à igualdade entre todas as pessoas, independentemente de qual seja seu sexo. Os esforços críticos e criativos de teólogas em torno da conceitualização da divindade revelam que a teologia pode contribuir muito em prol desta luta, especialmente quando assume como fonte a realidade concreta das pessoas, sobretudo das mulheres.


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Felipe Fanuel Xavier Rodrigues é discente do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. (http://lattes.cnpq.br/7240690456759444).


[1]ALVES (2005: 25).
[2]GRENZ & OLSON (2002: 14).
[3]Para ser mais específico, refiro-me a um período no qual o ser humano nega ser explicado a partir de pressupostos estritamente metafísicos. Como constata Vattimo, “esta recusa da metafísica expressa, na verdade, uma atitude comum a grande parte do pensamento — não apenas filosófico, mas também artístico, literário e religioso”, marcando as primeiras décadas do século XX, quando a cultura humanista começa a sentir a necessidade de se rebelar contra aquela “organização total” da sociedade imposta com a racionalização do trabalho e o triunfo da tecnologia. Ver: VATTIMO (2004: 10).
[4]JOHNSON (1995: 19).
[5]McFague diz que “o Deus do céu, masculino, sob o qual todas as coisas estão hierárquica e dualisticamente ordenadas, tornou-se o modelo da subseqüente teologia, como também se tornou o modelo de quase toda cultura ocidental.” Ver: McFAGUE (1989: 144).
[6]BINGEMER (1991: 110).
[7]TROCH (2002: 105).
[8]BOFF (2004: 159).
[9]Como, e.g., a definição de que “a teologia ocupa-se com um problema apenas: Deus”. Ver: MOLTMANN (2004: 31), apud ALMEIDA (2006: 13).
[10]TILLICH (2005: 22).
[11]Sem juízo de valor, mas só para citar que as palavras de Santo Agostinho ainda se fazem ouvidas, não apenas em muitos púlpitos, como também na sociedade em geral que segrega as mulheres a postos de obediência a um homem menos pela capacidade e mais pelo preconceito. O bispo de Hipona já dizia que uma “união amical e fraterna” poderia se dar entre os dois sexos desde que “o homem fosse o dirigente e a mulher obsequiosa e obediente”. Ver: AGOSTINHO (2003: 29).
[12]O uso da palavra gênero pode ser perigoso neste caso, pois, conforme alerta Fiorenza, a “política de gênero entende as diferenças entre os gêneros masculino e feminino ou como fatos naturais ou como essência metafísica ou como papéis de gênero que são socialmente construídos, mas supostamente radicados no sexo biológico”. Ver: FIORENZA (2001: 17).
[13]BACON (2007: 221), disponível em http://fth.sagepub.com/cgi/content/abstract/15/2/220 acesso em (15/03/07).
[14]JOHNSON (1995: 23).
[15]KING (1989: 136).
[16]JOHNSON (1995: 23).
[17]Só para citar algumas: ROELIN (1989: 67-76); WACKER (1989: 107-116); KING (1989: 134-143); McFAGUE (1989: 144-150).
[18]Ver: McFAGUE (1989: 144s).
[19]Ver: McFAGUE (1989: 145).
[20]KING (1989: 141).
[21]JOHNSON (1995: 263).
[22]KING (1989: 141).
[23]McFAGUE (1989: 147).
[24]ROELIN (1989: 68).
[25]KING (1989: 142).
[26]McFAGUE (1989: 147).
[27]McFAGUE (1989: 150).
[28]TAMEZ (2004: 99).
[29]JOHNSON (1995: 21).
[30]ROELIN (1989: 67).
[31]TROCH (2002: 107).
[32]ALTHAUS-REID (2005: 266). Disponível em http://fth.sagepub.com/cgi/reprint/13/2/265 acesso em (15/03/07).
[33]ALTHAUS-REID (2005: 271).
[34]ALTHAUS-REID (2005: 271)
[35]ALTHAUS-REID (2005: 268).
[36]TROCH (2002: 111).
[37]TAMEZ (2004: 100).
[38]TROCH (2002: 111).