“Quando a Mulher é o Demônio”: Celibato e Misoginia no Apocalipse de João
Valtair Miranda
Resumo: Como resultado de conflitos internos, grupos de seguidores de Jesus do primeiro século utilizaram personagens demoníacos para descrever seus adversários, bem como demarcar limites de pureza. Neste contexto tribulação, morte, martírio, sangue, bem como a misoginia e o celibato, parecem ter funcionado como instrumentos na construção de identidade religiosa.
Palavras-Chave: Mulher, Misoginia, Celibato, Apocalipse
“When the woman is the devil”: celibacy and misogyny in John’s Apocalypse
Abstract:
Because of internal conflicts, the Jewish-Christian groups of the first century described their opponents through demoniacal characters. They also used these characters to demarcate limits of purity. In this context tribulation, death, martyrdom, blood, as well as misogyny and celibacy, seem to have worked as tools for the building of religious identity.
Key Words: Woman, Misogyny, Celibacy, Apocalypse
“Cuando la mujer es lo Demônio”: celibato e misoginia en lo Apocalipsis de João
Resumen:
Como resultado de conflictos internos, grupos judeocristianos del primer siglo utilizaron personajes demoníacos para describir sus adversarios, así como para demarcar límites de pureza. En este contexto, tribulación, muerte, martirio, sangre, misoginia y celibato, parecen haber funcionado como instrumentos en la construcción de la identidad religiosa.
Palabras Clave: Mujer, Misoginia, Celibato, Apocalipse
O último livro da Bíblia cristã, denominado Apocalipse de João, é um dos textos mais complexos dentre as obras nascidas no meio das comunidades seguidoras de Jesus do primeiro século. Carregado de visões oriundas da tradição apocalíptica, ele esconde suas mensagens enquanto afirma revelá-las. [2]
Seu autor, que se autodenomina simplesmente João, parece ser um judeu mergulhado nas tradições de Israel que se converteu ao movimento de Jesus. Ele é possuidor de uma visão pessimista e negativa do contexto social. Em função disso, sua leitura da realidade o coloca como uma pequena minoria entre os crentes do final do primeiro século (VINSON: 1998, p. 12). [3]
O propósito deste texto, então, é apontar em linhas gerais a maneira como o livro apresenta a mulher. Para isso, primeiramente apresentaremos em linhas gerais a forma como o visionário descreve as figuras femininas que aparecem no livro. Nele, encontramos aparições de mulheres individualmente (simbólicas ou reais) apenas quatro vezes: a Jezabel de 2.20, a mulher grávida do capítulo 12, a prostituta do capitulo 17, e a noiva, também denominada de a Jerusalém santa que desce do céu (BRUNS: 1964, p. 459). Dessas, as duas mulheres centrais são a grávida do capítulo 12 e a prostituta do capítulo 17, justamente por estarem em lugares-chave do livro. As demais, neste caso, podem se relacionar com estas por assimilação ou oposição. Logo em seguida, tentaremos apontar algumas possíveis raízes da visão joanina sobre as mulheres.
As mulheres do Apocalipse
A mulher adversária. Esta surge sob o rótulo de Jezabel. O livro a apresenta como quem se declara profetiza, que ensina, incita à prostituição e à comida sacrificada aos ídolos. Ela recebeu tempo para se arrepender da sua prostituição, mas será prostrada na cama e em grande tribulação. Seus filhos serão mortos e recompensados segundo suas obras (Ap. 2.18-29).
João está desconfortável com essa profetiza cujas atividades lhe fazem concorrência, e cujos ensinos são diferentes dos seus. Aparentemente, ela possuía uma perspectiva mais aberta para a sociedade. A reação do visionário, assim, é encorajar seus ouvintes a verem-na à luz do conflito entre o cordeiro e Satã (Ap 12.1-5), condenando-a como uma aliada do Dragão e suas bestas (Ap 13).
Segundo David A. Silva, ela pode ter sido uma mulher proeminente que tinha aberto sua casa para os profetas nicolaítas, patrocinando-os da mesma maneira que outros patrocinavam o ministério itinerante de João (SILVA: 1992, p. 385). Esses nicolaítas representavam um outro grupo de profetas itinerantes que promoviam uma interpretação alternativa da mensagem de Jesus e uma resposta diferente para o relacionamento dos santos com a ordem social.
A mulher perseguida. A próxima mulher a aparecer no livro é descrita como a mulher perseguida do capítulo 12. A narrativa está montada de forma a levar os ouvintes a se identificarem com a sua descendência. São seus filhos, tal como a criança arrebatada.
Isso faz com que durante a história da interpretação dessa narrativa, várias sugestões de identificação tenham sido feitas, dentre as quais podemos destacar: - Como Maria, a mãe de Jesus; - Como a Igreja; - Como o Israel perseguido, do qual viria o Messias; - Como uma figura alegórica que representa a vida de uma forma geral, ou a humanidade no seu relacionamento conturbado com Deus.
Como nenhuma dessas hipóteses tem se firmado, tornou-se comum apenas vê-la como símbolo do povo de Deus perseguido.
Ao contrário de Jezabel, essa mulher aparece descrita de forma positiva: - Ela é mãe, ao gerar a criança messiânica. - É descrita no esplendor dos luminares criados por Deus; - Ela aparece no céu. Ela não é deste mundo; - Ela é resgatada e protegida do perigo.
O que acontece com esta mulher? Após dar origem “ao menino que apascentará as nações com vara de ferro” (Ap 12.5), ela sai de cena deixando apenas sua descendência no papel de comunidade perseguida.
A mulher prostituta. No capítulo 17, o visionário apresenta uma outra forte figura feminina, mas desta vez descrita de forma negativa. Isso faz com que ela funcione como a antítese da mulher perseguida.
O visionário a descreve como uma prostituta adornada, mas suas ostentações são fabricadas por seres humanos; ela tem seu lugar sobre as muitas águas, em cima de povos, nações e línguas. Ela é deste mundo; ela está tomando um cálice de blasfêmia. Ela não é mãe, mas assassina e prostituta; enquanto a tarefa da mulher-perseguida é gerar vida, a prostituta tem a missão de tirá-las.
João diz que ela é uma cidade, mas na hora de apontá-la, o faz com outro símbolo. É Babilônia. Compete aos leitores perceberem sua identidade, o que, a partir dos indícios que ele constrói, leva à capital do Império, a cidade de Roma. Nessa descrição o visionário faz uma forte crítica política e social do Império.
A mulher noiva. É a última figura feminina do livro. Ela é a noiva do Cordeiro, e aparece pronta para o casamento (Ap 21). Ela vem do alto, do céu, indicando sua natureza positiva. Da mesma forma que a mulher anterior, João também indica que a noiva é símbolo de uma cidade. Desta vez é a Jerusalém celestial, que receberá, no final, os guerreiros que venceram pelo testemunho do Cordeiro.
De uma forma geral, o visionário não apresenta as mulheres em si, mas em relações positivas ou negativas, na forma da mulher como adúltera (Ap 2.20), como mãe (Ap 12), como prostituta (Ap 17) ou como noiva (Ap 21). São categorias relacionais, com um homem no centro. As mulheres ativas do livro são pintadas negativamente (Jezabel e a prostituta), enquanto as mulheres mostradas positivamente são passivas (a mulher vestida de sol e a noiva). Elas não agem. Agem para elas (PIPPIN: 1992, p. 79).
Santidade ideal
- Desta vez numa referência indireta, uma outra passagem de Apocalipse nos ajuda a perceber as mulheres do livro. Nesta passagem, o visionário apresente o seu modelo de santidade ideal.
- Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai. Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa. Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra. São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.(Ap. 14.1-5)
Na passagem do capítulo 14 de Apocalipse, o Cordeiro está em pé sobre o Monte Sião com 144 mil seguidores santos. São seus vencedores, que enfrentarão as bestas do Dragão. Eles são apresentados como: - homens; - sem contato com mulheres, que os poderia contaminar; - virgens.
Por esta passagem, o visionário não recomenda apenas, então, o afastamento da sociedade romana, mas das relações sexuais. O celibato surge como um ideal de santidade. Afinal, o contato com mulheres poderia contaminar.
Apesar da dificuldade de se definir as causas concretas desta perspectiva misógina de João, tentarei apontar algumas possibilidades interessantes de serem aprofundadas e exploradas posteriormente.
- A origem dessa misoginia poderia estar, primeiramente, no contexto de conflito no qual nasce o Apocalipse. O livro é fruto de conflitos pela liderança das comunidades seguidoras de Jesus, onde as figuras femininas desempenhavam um papel importante.
Percebe-se que João está desconfortável com uma profetiza cujas atividades na igreja lhe fazia concorrência, e cujos ensinos incluíam a permissão, se não o encorajamento, de transgressões de limites (como o comer comida sacrificada). Sua reação, assim, é encorajar seus leitores e ouvintes a verem Jezabel à luz do conflito entre o cordeiro e Satã, condenando-a como uma aliada do Dragão e suas bestas.
- A perspectiva misógina poderia estar ligada à definição de limites do grupo religioso. Neste sentido, o problema da pureza era uma questão de grande significado. A maneira como este elemento é trabalhado indica uma busca de construção de identidade do grupo, bem como uma demarcação de fronteira com os demais grupos.
Apesar de grande parte dos elementos de pureza provir da tradição judaica clássica (cristalizada na Bíblia hebraica), de uma maneira geral, João radicaliza e amplia o alcance das normas de purificação. Há um desejo de estender para todo o povo o nível de pureza exigido no Templo, bem como as normas especificamente sacerdotais.
- Segundo Martinez, ao comentar essa mesma questão, desta vez em Qumran:
- No Israel em busca de sua identidade no período do Segundo Templo, o problema da pureza foi determinante para dotar o grupo qumrâmico duma identidade própria e para diferenciá-lo dos outros grupos judeus que não partilham os mesmos ideais de pureza e que acabam sendo considerados impuros, com os quais todo contato é proibido. (MARTÍNEZ: 1996, p. 196)
Por sua vez, o tema da pureza perpassa, com grande freqüência, a questão da sexualidade e do gênero. O próprio tema do sexo se mostra de fronteira e limite. Isso poderia apontar o motivo pelo qual a virgindade apareceria como um alvo do visionário.
- O visionário João teria encontrado uma tradição misógina no judaísmo para se amparar. Os 144 mil valentes de Apocalipse 14.1-5 parecem ser os santos vitoriosos dos tempos escatológicos. Neste sentido, sua descrição se parece com os perfeitos combatentes do manuscrito 1QM, encontrado na gruta 1 de Qumran. Em 1QM 6.17-7.7, após narrar a idade que habilitaria os combatentes a irem para a guerra escatológica, o texto descreve a pureza que deveria existir no acampamento. Legisla-se que nenhuma mulher poderia entrar na concentração dos combatentes depois que eles tiverem deixado Jerusalém. De alguma forma, a figura feminina poderia tornar o guerreiro inapropriado para o combate.
Esse combatente não precisaria ser virgem, como em Apocalipse, mas enquanto estivesse envolvido com a guerra, precisaria estar afastado das mulheres, já que o acampamento era santo e os anjos de Deus andavam no meio dele. Essa motivação se parece muito com o argumento de Paulo, quando escreve que as mulheres de Corinto deveriam usar véu na cabeça por causa dos anjos (1Co 11.10).
Além de paralelos como o de 1QM, uma tradição judaica presente em 1Enoque 1-36 já ligava a mulher diretamente ao demoníaco, relacionando-a com a queda dos vigilantes. Nesta narrativa, a luxúria atraiu os vigilantes para a terra. Esses anjos violaram as fronteiras traçadas entre céu e terra, e se relacionaram sexualmente com mulheres. Como resultado, eles foram expulsos do céu. Os filhos gerados dessa relação proibida também eram de natureza demoníaca.
Conclusão
Apesar do caráter preliminar dessas observações, é possível perceber que o elemento de misoginia em João o afasta não somente da sociedade constituída, através do radical dualismo presente no texto, mas também das mulheres. Ele não chega a afirmar a presença exclusiva de homens no âmbito celestial, como parece fazer o final do Evangelho de Tomé, mas idealiza uma comunidade santa onde a virgindade é idealizada.
De forma correlacionada, isso indicaria que para o vidente, carisma é diretamente relacionado com misoginia e celibato. Como em 1QM, que prescreve o perfeito combatente através da descrição de um futuro guerreiro, Apocalipse idealiza o profeta verdadeiro na projeção de 144 mil homens virgens. Profeta autêntico não se relaciona com mulher, porque mulher é o demônio.
Valtair Miranda [1]
Referências Bibliográficas
BRUNS, J. Edgar. The contrasted women of Apocalypse 12 and 17. In: The Catholic Biblical Quarterly, 26/4, p. 459-463, 1964.
MARTÍNEZ, Florentino García. O problema da pureza: a solução qumrâmica. In: MARTÍNEZ, Florentino García & BARRERA, Julio Trebolle. Os homens de Qumran: literatura, estrutura e concepções religiosas. Petrópolis: Vozes, 1996.
SILVA, David A. de. The Revelation to John: a case study in Apocalyptic propaganda and the maintenance of sectarian identity. In: Sociological Analysis, 53/4, p. 375-395, 1992.
PIPPIN, Tina. The heroine and the whore: fantasy and the female in the Apocalypse of John. In: Semeia, 60, p. 67-90, 1992.
VINSON, Richard B. The social world of the Book of Revelation. In: Review & Expositor, 98/1, p. 11-33, 2001.
| [1] | Mestre e Doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador de Teologia da Faculdade Batista do Rio de Janeiro. |
| [2] | O livro começa com a expressão “revelação de Jesus Cristo”, mas seu conteúdo está cheio de expressões cifradas, tal como “o seu número é 666” (Ap 13.18). |
| [3] | Conferir também MIRANDA, V. A. Apocalipse de João e Clemente Romano como fontes para uma discussão do contexto histórico-social das comunidades cristãs do final do primeiro século, In: Oracula, 1/1, 2005. |








