Você está aqui: metodista Portal de Publicações Científicas Netmal in revista Netmal 03 Apresentação

Apresentação

Fernanda Lemos [1]

Nossa experiência acadêmica sobre os estudos de gênero, principalmente na edição de revistas científicas sobre a temática, tem demonstrado que esta categoria analítica ainda tem se limitado ao interesse feminino, aos problemas de mulheres e a suas realidades sociais. O estigma de que gênero é sinônimo de mulher é de difícil desconstrução, pois foi solidificado pelo preconceito masculino e até por algumas feministas.

O fato é que toda a produção de conhecimento parte de uma escolha teórica, que por sua vez está condicionada a realidade prática e de interesse de quem pesquisa! Entretanto, é fato que algumas feministas não utilizam gênero enquanto categoria analítica por considerar que ela não dá conta de explicar outros fatores sociais como raça, etnia, geração, cultura, classe e outros. Vale ressaltar que nenhuma categoria tem o poder de abordar todos os aspectos de um fenômeno, mas vale ressaltar que desde o início, gênero busca, a partir desses fatores, abordar as relações sociais de sexo.

Esta edição da Netmal in Revista muito nos surpreendeu! O crescente interesse dos homens pelos estudos de gênero, bem como o direcionamento de suas pesquisas nas mais variadas áreas do conhecimento às relações sociais de sexo, apresentam uma reconfiguração da produção na academia. Demonstra que os problemas de mulheres podem e sao problemas dos homens também!

Num congresso de produção discente realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista no ano de 2008, Sandra Duarte de Souza mencionou a importância da categoria gênero ao observar que um número significativo de trabalhos buscou compreender a dinâmica social dos sexos para análise de seus objetos de pesquisa. E isto se reflete nesta edição, quando de cinco articulistas temos três homens, que discutem as relações sociais de sexo a partir dos elementos da Igreja Primitiva.

A revista está organizada em cinco artigos. O primeiro deles intitulado “Aborto e razão pública: o desafio da anencefalia no Brasil”, por Débora Diniz e Ana Cristina González Vélez foi recentemente publicado em nossa revista impressa Mandrágora sobre Gênero, Religião e Políticas Públicas na edição de 2007. É um artigo que discute a questão bioética da Anencefalia no Brasil a partir de considerações jurídicas, o que culmina no amplo debate sobre os direitos reprodutivos no Brasil. Além da importância das autoras para a discussão desta temática, a abordagem é curiosa e desafiadora. O segundo artigo “São Vicente e Santa Ágata: Um estudo comparado das construções de santidades genderificadas na Legenda Áurea” de Priscila Gonsalez Falci, compara os discursos de santidade sobre duas figuras: Santa Ágata e São Vicente, e faz uma análise de gênero das construções das identidades d@s Sant@s a partir das narrativas da Legenda Aurea. O diferencial desta pesquisa está em sua contribuição histórica e na forma como o martírio é compreendido a partir da “ gendereficação” para se concretizar enquanto sacrificio humano.

Os três últimos artigos são interdependentes, no sentido de que retratam a situação da mulher na Igreja Primitiva. O primeiro artigo de Valtair Miranda, “ “Quando a mulher é o demônio”: celibato e misoginia no Apocalipse de João”, aborda a questão da misoginia e do celibato no contexto de Apocalipese de João, momento em que a acusação de demoniáco ao adversario servia de instrumento de afirmação da identidade religiosa. No segundo artigo, de Kenner Roger, “ Medo de mulher: a relação de poder pela sexualidade no Mito dos Vigilantes e sua influência no Cristianismo Primitivo”, o mito dos vigilantes é retratado para analizar a situação da mulher e sua sexualidade, o que para o autor significou uma forma de representação demoníaca da sexualidade da mulher em algumas sociedades judaico-cristãs. No terceiro e último artigo, Givaldo Mendes Ribeiro, “ Mulheres magas: uma ameaça ao poder masculino na Igreja primitiva”, observa que a participação da mulher sempre esteve associada a magia e ao demoníaco, nesse sentido o autor busca encontrar o lugar dos homens e das mulheres na tarefa da magia, e encontrar as relações de poder nos escritos do primeiro século.

Nossa apresentação é um convite para aqueles e aquelas que se interessam pela dinámica complexa existente entre gênero e religião, bem como todas as suas posibilidades analíticas. O que no caso desta edição específica passa pela questão da anencefalia e os direitos reprodutivos das mulheres, pelas genderificações dos discursos sobre os martírios dos santos e pela situação das mulheres na Igreja Primitiva, tanto no que se refere ao celibato, a misoginia, a magia, a sexualidade, e a sua demonização.

Todos os artigos revelam que as idéias sobre as mulheres são construções históricas arquitetadas por determinados grupos de interesse. O problema que estas idéias se solidificaram e cristalizaram-se na história e na prática em contexto global, o que influenciou até mesmo a realidade das mulheres que não fazem parte orgânica das tradições judaico-cristãs. O resultado disso tudo isso… certamente será analisado nas próximas edições da Netmal in Revista!

[1]É mestre e doutoranda na área de Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, e membro do Grupo de Estudos de Gênero e Religião Mandrágora/Netmal deste mesmo programa.
Ações do documento