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Medo de mulher: a relação de poder pela sexualidade no Mito dos Vigilantes e sua influência no Cristianismo Primitivo.

Kenner R. C. Terra

Resumo

É perigoso tratarmos a história do Cristianismo das origens de maneira generalizante, com afirmações que escondem sua identidade fluída e realidade complexa, especialmente em relação ao tema da sexualidade, pois corremos o risco de criarmos caricaturas. Partindo do pressuposto da pluralidade do cristianismo das origens, observaremos a literatura cristã antiga que apresenta de forma negativa a sexualidade e a mulher, como se fosse algo exótico, perigoso e demoníaco. Este trabalho analisará o Mito dos Vigilantes (2º século a. E. C), testemunhado no livro de IEnoque (Enoque etíope), muito conhecido na tradição judaico-cristã, para compreender nele o papel da mulher e da sexualidade, perguntando por sua influência na literatura do Cristianismo antigo. A hipótese é de que a linguagem e as imagens presentes nesse mito contribuíram para a construção da idéia da mulher e da sexualidade como perigosas em alguns grupos cristãos.

Palavras-Chave: Mito dos Vigilantes, Mulher, Corpo, Cristianismo das Origens.


Fear of Women: Power through sexuality in The Watchers Myth and its influence over primitive Christianity

It is dangerous to generalize the history of the origins of Christianity by stating that it hides a fluid identity and complex reality, especially in relation to the theme of sexuality. If we do that, we will create a caricature. By assuming that in its beginning Christianity was plural and had many forms, we will examine ancient Christian literature that depicts women’s sexuality negatively, as something exotic, dangerous and demoniacal. This paper will analyze The Watchers Myth (century II B. C. E.), narrated in the Book of Enoch (Enoch the Ethiopian), widely known in the Jewish-Christian tradition, to understand how it depicts the role of women as well as of sexuality. Thus, we will try to see how this myth influenced the literature of old Christianity. One hypothesis states that the language and images of this myth helped to build up the image of women, and sexuality as dangerous in some Christian Groups of old.

Key Words: The Watchers Myth, Woman, Body, Christianity of the Origins.


Miedo de la Mujer: La relación de poder por la sexualidad en el Mito de los Vigilantes y su influencia en el Cristianismo primitivo.

Es peligroso considerar la historia del Cristianismo de manera generalizada, con afirmaciones que oculten su identidad polisémica y su realidad compleja, especialmente en relación con el tema de la sexualidad, pues podemos crear caricaturas. A partir del presupuesto de la pluralidad del Cristianismo original, observaremos que la literatura cristiana antigua presenta negativamente la sexualidad y la mujer, como si fuesen algo exótico, peligroso y demoníaco. Este trabajo analizará el Mito de Los Vigilantes (2º siglo a. E.C), presente en el libro de I Enoc (Enoc etíope), muy conocido en la tradición judeocristiana, para comprender el papel que en él ocupan la mujer y la sexualidad, e indagará por su influencia en la literatura del Cristianismo antiguo. Se sustenta la hipótesis de que el lenguaje y las imágenes presentes en este mito contribuyen a la construcción de la idea del peligno de la mujer y de la sexualidad en algunos grupos cristianos.

Palabras-clave: Mito de los Vigilantes, Mujer, Cuerpo, Cristianismo primitivo.


Introdução

Quando pretendemos fazer a reconstrução histórica do Cristianismo dos primeiros séculos, somos tentados a construir uma imagem generalizante, com o intuito, talvez didático, de chegar à realidade histórica desse fenômeno. A historiografia precisa se precaver contra isso, pois a realidade é complexa e fluída, e se tratando de história antiga o perigo se intensifica. Pedro Paulo Funari e Cláudio U. Carlan tecem uma esclarecedora crítica a essa postura:
As discussões antropológicas das últimas décadas foram importantes para criticar os modelos normativos, ainda muito difundidos, contribuindo significativamente para o estudo, também, das sociedades do passado. Pesquisas empíricas e reflexões teóricas apontam para o caráter heterogêneo da vida social, da fluidez das relações e das contradições e dos conflitos sociais (...) À singularidade de identidades imanentes e ahistóricas, como seria brasileira, ou negra, ou católica, contrapõem-se identidades fluidas e em mutação (FUNARI & CARLAN: 2006, p. 41).

Por isso, podemos criticar os modelos historiográficos sobre o mundo antigo mais articulados e difundidos, que se fundam em uma “interpretação de raiz weberiana” (FUNARI & CARLAN: 2006, p. 39), que embora bem formatados, como tipos ideais, não resistem quando confrontados com a realidade fluída e multifacetada(VASCONCELLOS: 2006, p. 57).

Nessa perspectiva, falar em cristianismo originário é percebê-lo de maneira plural, ou seja, é pensar em “cristianismos primitivos”, cujas práticas, símbolos e cosmovisões são plurais. Mesmo os textos considerados canônicos, que para muitos refletem certa unidade cristã, acabam deixando lacunas que mostram a existência de vários grupos diferentes dentro da cristandade. [2]

A mesma pluralidade é comprovada com alguns achados arqueológicos, por exemplo, os de Nag Hamadi, no século XX, onde somos informados a respeito de grupos cristãos que interpretavam a vida e a fé de maneira bem diferente a que comumente se avaliava como cristã ortodoxa (PEGALS: 2006, passim). Por isso, os escritos utilizados pelos historiadores do cristianismo precisam ser tratados como parte de uma realidade múltipla.

Assim, ao discutirmos questão da sexualidade e a relação de gênero, ou seja, as relações e construções sociais dos sexos (SCOTT: 2005), pressupomos a fluidez da realidade. Dessa forma, os resultados expostos não demonstrarão como o Cristianismo “em si” se relacionava com a sexualidade e as idéias religiosas construídas sobre a relação do homem e da mulher, mas a postura de alguns grupos ou personagens que influenciaram a mentalidade de parcela da cristandade na antiguidade.

Quais são as raízes para uma postura de medo do poder de sedução da mulher e sua acusação de culpa do mal presente no mundo? Como é utilizado seu corpo? De onde vem o medo da figura feminina presente, especialmente, nas obras deuteropaulinas conhecidas como cartas pastorais, que compõe a Bíblia cristã e muito influenciou o Ocidente, e alguns teólogos da Igreja dos primeiros séculos? Qual o mundo religioso e simbólico por trás das afirmações que pintam a mulher como perigosa, sedutora, que precisa até ser comedida por causa dos anjos, como está escrito em 1Coríntios 11.10?

Esses tipos de questionamentos nos reportam a tradições judaicas de pelo menos três séculos a.E.C., onde encontramos uma narrativa de anjos rebeldes que possuem mulheres, gerando gigantes (Nefilins), da tradição Judaica do segundo templo, que pode nos dizer a respeito de práticas sociais e idéias religiosas de grupos Judaicos e cristãos.

A narrativa de anjos que possuem mulheres é testemunhada na literatura judaica pela primeira vez no livro dos Vigilantes, que por sua vez compõe o livro Etíope de Enoque (I Enoque). Este mito tem uma importância fundamental para algumas práticas e imaginários do Judaísmo e do Cristianismo. Paulo Nogueira afirma:
O Mito dos Vigilantes, apesar de desconhecido do público acadêmico brasileiro em geral, constitui uma das narrativas fundantes do ocidente. Isso é dito sem nenhum exagero, uma vez que esta narrativa influencia muito a forma como o judaísmo e o cristianismo compreendem a origem do mal e do demoníaco no mundo, a fundação da cultura e o papel que nela tem os seres divinos e os humanos, especialmente representados pelas mulheres (NOGUEIRA: 2006, p. 145-146).

O mito dos vigilantes serve-nos como um ponto de referência para pesquisa do contexto sócio-cultural do 2º século a.E.C e a ligação simbólica da sexualidade e do poder erótico da mulher, visto de forma difamatória e perigosa. Isso incentivou, como fica claro em alguns escritos cristãos antigos, a ação de domesticação do corpo da mulher e da demonização, em alguns grupos cristãos, da sexualidade humana. E, como bem expressou Paulo Nogueira, estas imagens permearam a mentalidade judaica, foram desenvolvidas no imaginário cristão primitivo e, consequentemente, no Ocidente.


Mulheres belas e perigosas: leitura do Mito dos Vigilantes

Como afirma Annette Y. Reed, o livro dos Vigilantes, onde se encontra o mito que trataremos, é um dos mais antigos textos não bíblicos da literatura judaica (REED: 2005, p. 3). O primeiro passo para percebermos sua influência na literatura Judaica e Cristã é a aproximação da narrativa. O contexto histórico do surgimento do Mito dos Vigilantes, como alguns pesquisadores propõem, pode ser uma crítica a crise pelo contato cultural helênico ou a impureza sacerdotal por causa dos casamentos ilícitos. É um texto pertencente a um grupo que, diferente da aristocracia judaica do 2º século, não aceitava a helenização. [3]

O texto é a junção de duas tradições que no segundo século já pertenciam a uma única obra. De acordo com o relato dos capítulos 6-11, um grupo de seres angelicais nomeados como Os Vigilantes se atraiu pela beleza das filhas dos homens, e conspirou entre si sob a liderança de Shemihazah, com o propósito de possuírem as belas mulheres, filhas dos homens.
Quando os filhos dos homens se multiplicaram, naqueles dias, nasceram-lhes filhas bonitas e graciosas. E os vigilantes, filhos do céu, ao verem-nas, desejaram-nas e disseram entre si: “Venham, escolhamos para serem nossas esposas as filhas dos homens, e tenhamos filhos!” Disse-lhes então o seu chefe Semiaza: “Eu receio que vós não queirais realizar isso, deixando-me no dever de pagar sozinho o castigo de um grande pecado.” Eles responderam-lhe e disseram, “Nós todos estamos dispostos a fazer um juramento, comprometendo-nos a uma maldição comum, mas não abrir mão do plano, e assim executá-lo.” Então eles juraram conjuntamente, obrigando-se a maldições que a todos atingiram. Eram ao todo duzentos os que, nos dias de Jared, haviam descido sobre o cume do monte Hermon. Chamaran-no Hermon porque sobre ele juraram e se comprometeram a maldições comuns. (1 Enoque 6.1-5)

Com o contato com os seres humanos, os vigilantes ensinaram a arte da metalurgia e da confecção de armas. Às mulheres, ensinaram a arte de ornamentar-se (maquiagem etc.), e a arte de adivinhação, magia, encantamentos, astrologia e cultivo de raízes (8.1-3). Paulo Nogueira ( 2006, p. 149) fez um didático inventário dos ensinamentos dado pelos anjos, e seus respectivos nomes presentes na narrativa: - Azazel: a metalurgia (para fabricar armas) e a cosmética. - Amerazak: Magia (encantamentos e raízes) - Armaros: como anular encantamentos - Baraquiel: os astrólogos - Kokabiel: os signos - Tamiel: astrologia - Asradel: o ciclo lunar.

Ao terem relações sexuais com as mulheres, geraram gigantes, seres híbridos que comeram toda a alimentação da terra, e depois os próprios seres humanos. Com o derramamento de sangue a humanidade clamou a Deus.

Ao ver o caos instaurado sobre a terra, os anjos Miguel, Sariel, Rafael e Gabriel, que estavam no céu, intercederam ao Altíssimo a favor da humanidade (cap. 9). Em resposta à solicitação dos anjos, Deus envia o anjo Sariel para alertar Noé do iminente julgamento que virá sobre o mundo.

Na seqüência, Deus envia Rafael para prender Azazel nas profundezas do deserto e que lá permanecesse até o julgamento final. Então, Deus envia Gabriel a fim de destruir, sem misericórdia, os gigantes (10.4-12).

A Miguel, Deus ordenara que prendesse Shemihazah e seus comparsas angelicais e os encarcerassem por sete gerações nos vales profundos da terra, até o dia do julgamento, o dia do juízo final, quando finalmente serão lançados no fogo eterno. E então, florescerá a justiça e a paz entre os justos da terra (10.16-11,2).

O mito se utiliza de linguagem simbólica para tecer críticas e preservar a identidade judaica, utilizando a figura da mulher e da sexualidade de maneira degradadora. O que gera toda desgraça do mundo, e funda uma cultura do caos, que é a beleza da mulher. A isso é ligada a existência da magia, e a ruína de toda uma ordem cósmica presente no significado dos nomes de cada vigilante. Com as posteriores leituras, as figuras da mulher e da sexualidade humana se tornam ainda mais destruidoras.

Os capítulos 12-16 de I Enoque já formam uma releitura dos capítulos 6-11. Enoque ascende aos céus e Deus o comissiona como seu “delegado” para anunciar aos anjos vigilantes o julgamento divino. Nesses capítulos (12-16), os anjos vigilantes são descritos como “sacerdotes” que abandonaram sua posição sacerdotal no templo celestial e “atravessaram” a fronteira entre céus e terra; fornicando com mulheres, se contaminaram com o sangue delas (15.4).

Nesses capítulos, uma nova imagem aparece. Com a morte dos gigantes, filhos das mulheres com os anjos, seus espíritos são liberados e transformam-se em espíritos malignos gerando uma vasta proliferação de demônios (15.10-16,3). Em 15.12 eles oprimirão as crianças e as mulheres grávidas. Esses espíritos dos gigantes aparecem como tentadores da humanidade e causariam terríveis males.

Nesse momento, uma etiologia demoníaca está em estreita relação com a mulher e sua sexualidade. Seu corpo e sua beleza são as causadoras da desgraça humana e da existência dos demônios. Assim, as mulheres possuem perigosa existência a ponto de levar seres santos a uma situação de desgraça e perdição. Imagens vão se reconstruindo em cada momento histórico onde é lido o mito, novos contornos são moldados, mas as figuras centrais são preservadas e ainda mais demonizadas. Como afirma J. Collins, o mito pode ser lido em momentos diferentes e aplicado em outras crises (COLLINS: 1982).


As leituras do Mito dos Vigilantes na história da tradição judaica e cristã

A importância dada a essa narrativa se Percebe nas muitas leituras feitas desse mito sua importância narrativa para a tradição judaica e, posteriormente, à cristã. Alguns textos podem ser mapeados para percebermos como as imagens desse mito influenciaram práticas religiosas e deram base para relações de poder.

Tradições judaicas antigas. Um texto judaico ainda bem próximo ao livro dos Vigilantes é Jubileus (2º a.E.C). Nesse texto é recontada a história do Gênesis. Em jubileus, novamente aparecem os anjos seduzidos pela beleza das mulheres e o nascimento de gigante como resultado das relações sexuais dos seres celestes com elas. Por isso, a maldade aumentou na terra e Deus mandou o dilúvio. Após o dilúvio, Noé ora a Deus contra os demônios (“os demônios poluídos”). Esses demônios estavam desviando, cegando e matando os seus netos. E ele diz: “... tu sabes o que os Vigilantes, os pais destes espíritos [que seriam os demônios], fizeram nos meus dias e também estes espíritos que estão vivos ... eles são cruéis e criados para destruir ...”. Assim, o Senhor ordena aos anjos que os amarrem, e Mastema pede a Deus que deixe com ele um décimo dos demônios (caso contrário “não serei capaz de exercer a autoridade da minha vontade entre os filhos dos homens”).

Em Jubileus, demônios são os espíritos dos gigantes. E a sexualidade novamente causa a maldade e os seres demoníacos na terra. A beleza da mulher é vista como a causadora da origem dos demônios. O mito é relido e novas figuras aparecem contribuindo para construção da imagem negativa da mulher e a sua sexualidade.

Em Qumran, também, o mito é lido e aparece no Documento de Damasco, 4Q180, 1Q23 e outros. A mesma lógica simbólica é preservada em Qumran ao falar da queda dos anjos e a sua relação com as mulheres sexualmente perigosas. No Documento de Damasco, a crítica vai para o olhar luxurioso e a obstinação contra Deus.

Outro texto Judaico que é influenciado pelo mito dos vigilantes é o Testamento de Rubens. Neste texto aparece a instrução para fugir da prostituta. Em forma de instrução, as mulheres são proibidas de se enfeitarem, pois isso trás condenação. A mulher é, mais uma vez, vista como perigosa:
De outra forma, nunca uma mulher poderia subjugar um homem. Fugi da prostituta, meus filhos! Proibi vossas mulheres e vossas filhas de enfeitarem a cabeça e o rosto! Pois toda a mulher que recorre a esses ardis atrai sobre si o castigo eterno. Foi desta maneira que elas também enfeitiçaram os Guardiões [Gn 6] antes do dilúvio. Eles olhavam-nas constantemente, e assim conceberam o desejo por elas. Engendraram o ato em sua mente, e transformaram-se em figuras humanas. E quando aquelas mulheres deitavam-se com os seus maridos, eles vinham e mostravam-se. E as mulheres em seus pensamentos conceberam desejos pelas formas visíveis deles, e assim deram à luz gigantes; pois os vigilantes apareciam-lhes como tendo a estatura do céu (Testamento de Rubem 5,4-6).

Nos textos, a sexualidade é vista como instrumento de poder, e estava nas mãos das mulheres. Assim, legitimava-se a dominação patriarcal, para segurança da ordem social e cósmica.

Tradições cristãs e judaicas do 1º e 2º séculos da E.C. A literatura bíblica neotestamentária é dependente, em algumas partes, da imagem do mito dos vigilantes (Judas 6; I Pedro 3.18-21; 2 Pedro 2.4). Contudo, nos fixaremos na imagem maligna e perigosa da mulher e da sexualidade presente no Mito dos Vigilantes, perpetuada até os tempos cristãos e testemunhada na literatura Judaico-cristã do primeiro e segundo séculos.

A Primeira Carta aos Coríntios tem a seguinte admoestação: “Sendo assim, a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da sua dependência, por causa dos anjos” (11.10). Este texto está inserido dentro de um contexto que impõe à mulher submissão ao homem e ordem no culto. Portanto, a mulher deveria estar submetida ao esposo. Soltar os cabelos na tradição judaica e Romana [4] era extremamente libidinoso. O cabelo era sensual e atraente, por isso deveria ser reprimido, como respeito aos maridos. Lendo esse texto a luz do livro de Enoque, como parece ser o correto, Paulo exorta a esconder a parte erótica da mulher para não atrair os anjos. Vemos aqui novamente uma alusão ao mito dos vigilantes, e a ameaça da mulher.

Aparece a mesma idéia nas cartas pastorais. Em ITimóteo 3.11, a mulher não deveria ser maldizente, que em grego provém da mesma palavra para diabo: Também as mulheres devem ser respeitáveis, não maldizentes (diabolous), sóbrias, fieis em todas as coisas.

Em ITimóteo 2,12-15, mesmo que se remonte a narrativa de Adão e Eva, ainda se levanta a figura perigosa da mulher, por isso deveria ficar calada, e se limitar a maternidade, para sua salvação. A maternidade era como um impedimento, ou medida preventiva para sua sedução:
Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem. Que conserve, pois, o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher, que, seduzida, caiu em transgressão. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, depois que, com modéstia, permanecer na fé, no amor e na santidade.
Em IPedro 3.3-4, como é feito no Testamento de Rubens, os enfeites e adornos são colocados em segundo plano, para que a modéstia e submissão sejam prioridades.
Não consista o vosso adorno em exterioridade, com tranças dos cabelos, no uso de jóias e ouro, nem em trajar vestes finas, mas nas qualidades pessoais internas, isto é, na incorruptibilidade de espírito manso e tranqüilo, que é coisa preciosa diante de Deus.
Em I Timóteo 2.9-11 é dito algo muito parecido e percebe-se a mesma imagética do texto acima citado:
Igualmente, quero que as mulheres se vistam decentemente e se enfeitem com modéstia e bom senso. Nada de penteados complicados nem de jóias de ouro ou de pérolas, nem de vestes luxuosas. Mas que se enfeite com boas obras, como convém a mulheres que fazem questão de uma vida piedosa.

Vemos o controle do corpo da mulher representado no discurso em torno da roupa e a ornamentação, fruto do pavor à potencialidade sexual da mulher. No mito dos vigilantes, juntamente com as outras mazelas resultantes do contato com os anjos, é adicionada o ensinada de ornamentação das mulheres.

Em Apocalipse 9. 8, os terríveis gafanhotos tinham os cabelos longos, remontando a imagem da mulher. Mesmo que aqui se refira a opressão imperial, é a imagética da mulher e seu poder sexual que está na linguagem simbólica.

Outro texto da tradição judaica é um livro do 1º século E.C: 2Enoque. Nesse texto, fala-se de grigori, que são os vigilantes em versão grega. No texto as mulheres são as responsáveis pelos pecados dos vigilantes: “As filhas dos homens cometeram muitas abominações em todas as épocas desde séculos, infringindo a lei, misturando-se (com eles) e gerando gigantes, os monstros e grande iniqüidade”. Em 2Enoque, de forma direta a mulher é culpada pela queda e desgraça dos anjos, pois tinha nas mãos o poder da dominação pela sexualidade.

Esta mesma imagem da sexualidade e da mulher influenciou teólogos cristãos dos séculos posteriores, como Justino Mártir, Irineu, Tertuliano e outros. O próprio Tertuliano, tendo a imagética do mito dos vigilantes, conseguiu escrever:
Porque eles, por quem os instituíram são designados, à condenação, por pena de morte, - esses anjos, com inteligência, que fugiram do céu em busca das filhas de homens; de forma que esta ignomínia também se prende à mulher. De uma época muito mais ignorante (que a nossa) eles revelaram certas substâncias de material bem-ocultas, e várias artes científicas bem-reveladas – se é verdade que eles tinham revelado o manejo da metalurgia, e tinham divulgado as propriedades naturais de ervas, e tinham promulgado os poderes de encantos, e tinha revelado toda arte misteriosa, até mesmo a interpretação das estrelas - e particularmente às mulheres, eles comunicaram corretamente a arte instrumental malévola de ornamentação feminina, os brilhos de jóias como colares são combinados em diversas cores, e os braceletes de ouro, e produtos de tingimento com os quais a lã é colorida, e aquele pó negro, com o qual são feitos as pálpebras e cílios proeminentes. (De cultu feminarum ii.10,2-3)

Considerações finais

Como diz Karen Bergesh, comentando as obras de Foucault, o corpo é o lugar onde fica escrita a história (BERGESH: 2004). O corpo recebe as marcas da história. Esse corpo não entendido de forma dualista, ou seja, separado da alma, como algo inferior ou secundário, mas como ponto de partida e chegada do interesse humano. Um corpo que deseja, mas também vive a violência. No caso das imagens presentes no Mito dos Vigilantes, e que perpassou a tradição judaica e cristã, esse corpo é perigoso, amedrontador. Muitos outros textos testemunham como a religiosidade judaico-cristã, mesmo não tendo raízes no Mito dos Vigilantes, culpou a mulher pelos males desse mundo, como o Testamento de Jó, Eclesiástico 25.24 e Vida de Adão e Eva, onde temos uma cumplicidade entre Eva e a serpente do paraíso.

No Mito dos Vigilantes, o corpo da mulher é demonizado, e por isso domesticado. Sua beleza não é somente demoníaca, como também serve indiretamente para a geração dos demônios. “Anjos que se apaixonam por mulheres, parece ser algo ridículo aos olhos modernos, mas é a raiz do pavor até hoje presente em alguns grupos, e a imagem que permeia o muito do discurso religioso”.


Kenner R. C. Terra [1]




Referências Bibliográficas

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[1]Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e membro do Grupo de Estudos em Apocalíptica Judaica e Cristã - Orácula.
[2]Ver NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. O Conflito entre os hebreus e os helenistas: as origens cristãs não foram tão pacíficas assim. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Experiência Religiosa e Crítica Social no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003
[3]Sobre esse assunto, ver NICKELSBURG, George W. E., Apocalyptic and myth in 1 Enoch 6-11. In: Journal of Biblical Literature, 96/3, 1977, p. 383-405 e p. 395-39; COLLINS, John Joseph.The apocalyptic technique: setting and function in the Book of Watchers. In: Catholic Biblical Quarterly, 44/1, 1982, p. 91-111.
[4]Ver SEBASTA, J. L. Women’s Costume and Feminine Civic Morality in Augustan Rome.In: Gender e History, 9/3, 1997, p. 529-541.
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