Moeda constante
Resumo
A importânca da inflação no resultado e no patrimônio da empresa leva-nos a encontrar uma maneira justa e correta de medir sua inflação interna.
Erroneamente, durante muito tempo, atribuiu-se à moeda norte-americana e ao dólar a característica de moeda constante. Porém, a administração por resultados do Gecon (núcleo da FEA/USP) vem ao encontro da atual Contabilidade Gerencial para mensurar a inflação interna da empresa por meio dos índices internos de preços, uma vez que há uma grande dificuldade em enquadrar os números da empresa a um índice já existente. Esses índices são baseados no custo de oportunidade, que serve de apoio para a tomada de decisão do gestor.
Este artigo propõe contribuir para a conceituação correta de moeda constante, assim como indicar como deve ser sua utilização na área de Contabilidade Gerencial. Palavras-chave: moeda; moeda constante; moeda forte; inflação; índices; índices de preços; demonstrações contábeis; correção monetária; índice interno de preços; cálculos.
Abstract
The importance of inflation to the enterprises results and patrimony lead to a fair and correct way to measure their internal inflation.
During many years, companies have wrongly considered the North American currency, the US dollar, a constant currency.
Nevertheless, the results' oriented administration of Gecon (from FEA/ USP), based on updated Managerial Accountant, measures the internal enterprises' inflation through internal price indexes since there is a great difficulty to fit a company's results into an existing index. Theses indexes are based on the cost of opportunity that is used as a decision making tool.
This article proposes to contribute to correctly define constant currency as well as to indicate how it should be used in the Managerial Accountant area.
O que é moeda constante?
É o sonho do contador e de todos os executivos, principalmente os da área financeira, destacando-se aqui o gestor. Esses profissionais estão sempre fazendo comparações (dias, meses, anos etc.), e isso leva à análise dos resultados dos produtos e serviços da empresa e do próprio desempenho de seus gestores.
A moeda constante representa a moeda ou unidade monetária que, a qualquer tempo, é passível de comparação para efeito analítico. Qual o valor da empresa no ano passado, e hoje, quais as diferenças e por quê? Quais os valores dos faturamentos dos anos anteriores, houve melhora, quanto, por quê?
Quando se falava em moeda constante, muitos acreditavam que era representada pelo dólar americano, que, de acordo com Sandroni (2000:406, 407), é "a moeda de maior circulação em todo o mundo". Sem dúvida, apesar "de todos os seus problemas, continua a moeda mais forte da economia mundial..." sendo "utilizada como referência nas transações internacionais".
Antes de entrarmos propriamente no tema, temos de conhecer mais profundamente dois outros elementos que são: moeda e inflação.
Moeda
Galbraith (1997:2) afirma que Adam Smith além de ser "para muitos um profeta de autoridade somente ligeiramente inferior à dos profetas das Sagradas Escrituras, pensava, em 1776, que de todas as ocupações às quais o homem havia se dedicado até aquela época guerra, política, religião, recreação violenta, sadismo espontâneo ganhar dinheiro era socialmente a menos prejudicial".
No entanto, é discutível hoje a maneira ou esforço pelo qual o homem se empenha na tarefa de ganhar dinheiro. A queda do Império Romano, segundo historiadores, deveu-se quase na sua totalidade à desvalorização da moeda.
Em Amsterdã, no ano 1609, devido à grande quantidade de moedas (eram de prata e ouro) falsas, limadas, cortadas, um movimento de volta à pesagem foi instituído por causa do grande volume de comércio ali exercido. Esse foi um dos elos entre a história da moeda e a dos bancos. As viagens de Colombo, a conquista e o desenvolvimento da América Espanhola foram alguns dos acontecimentos que mais influenciaram a história da moeda, que, por sua vez, estavam associados ao grande comércio da cidade de Amsterdã.
Afinal o que é moeda?
Algumas definições populares, porém, muito restritas: a moeda é o dinheiro (utilizado nas nossas compras); moeda com definição de riqueza, de renda. De acordo com Mayer (1993:9), a classe econômica define a moeda de acordo com suas funções: "É um meio de troca, um padrão de valor, um padrão de pagamento diferido, um estoque de riqueza" – totalmente líquido.
E continuando nossa definição, temos que a moeda pode ser:
- Meio de troca: essa é a principal função da moeda, e só ela a possui. Antes do uso da moeda, o "escambo" era o meio pelo qual se trocavam os bens e serviços. Durante as épocas de guerras, e mesmo hoje, pode vir a ser utilizado. As trocas feitas na Suécia e nos Estados Unidos são um exemplo vivo da utilização do escambo, hoje em dia, como meio de driblar os altos impostos.
- Padrão de valor e de pagamento diferido: o padrão de valor nada mais é do que o uso da moeda como comparativo de valores relativos de determinados bens e serviços. Assim como o grama é um medidor de peso, a moeda é um medidor de valor. A função de padrão de pagamento diferido é, segundo Mayer (1993:9), o padrão pelo "qual são expressos os pagamentos futuros".
- Estoque de riqueza: uma das funções da moeda é servir de estoque de riqueza.
Sandroni (2000:405) a define como sendo "a mais antiga representação do dinheiro, muitas vezes empregada como seu sinônimo. Os primeiros registros do uso de moedas datam do século VII A.C".
Inflação
Para entender um pouco de inflação, devemos nos reportar a John Maynard Keynes, pai da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda - Inflação e Deflação. De acordo com sua teoria (1985:291):
"Lênin, ..., declarou que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista é desmoralizar a moeda. Por um contínuo processo de inflação, os governos podem confiscar, de modo secreto e despercebido, parte importante da riqueza de seus cidadãos... Evidentemente Lênin estava certo. Não há meio mais sutil nem mais seguro de revirar a base da sociedade do que corromper a moeda".
Durante o período estudado por Keynes (1914-1920), os países experimentaram uma oferta grande de dinheiro para gastar em comparação com a oferta de coisas que se podiam comprar: isto é inflação. Alguns países, após 1920, não contentes em terminar com a inflação, contraíram a oferta monetária, experimentando a deflação. Qualquer dos dois processos provocou grandes danos.
"A inflação não é nenhum mal misterioso, com causas inexplicáveis... é uma elevação contínua dos preços", segundo Bueno (1979:11), que é calculada mês a mês por órgãos governamentais ou de caráter misto ou ainda privados (FGV, Dieese, outros). Devemos separar o que realmente é inflação do índice de custo de vida que muitos confundem. O índice de custo de vida mede os preços que a pessoa física (consumidor) paga, quando faz suas compras nos supermercados ou nas lojas. Já a inflação é uma combinação dos vários índices, entre eles: o próprio índice de custo de vida, índice da construção, índice dos preços por atacado, etc.
Segundo Sandroni (2000:301), "A inflação é o aumento persistente dos preços em geral, de que resulta uma contínua perda do poder aquisitivo da moeda". Ela é causada por um excesso da procura agregada sobre a oferta agregada. Isso acontece quando se procura mais do que se oferece, ou seja, quando os gastos superam os ganhos, provocando uma escassez de moeda.
No Brasil, durante os anos 70-80, a inflação variava de tal forma que a maioria das empresas desprezava sua análise. Elas se limitavam a simplesmente repassar para seus clientes a margem de lucro que melhor cobrisse seus custos.
Hoje, no entanto, essas empresas, para continuarem em num mercado extremamente competitivo, necessitam avaliar e analisar tanto os índices gerais de preços da economia como um todo, quanto saber qual sua respectiva influência no seu próprio índice interno de preços. O objetivo é, segundo Escodro (1988:11), traduzir todos os valores da empresa a um "denominador comum monetário" para realizar todas as análises econômico-financeiras possíveis e necessárias para sua gestão.
Quais são os tipos de inflação?
De acordo com Sandroni (2000:302-303), existem vários tipos de inflação, a saber: inflação de papel-moeda, inflação galopante, inflação inercial e inflação reprimida.
Destacamos dois tipos que acreditamos ser principais:
- Inflação de demanda é o crescimento acelerado da demanda agregada de bens e serviços, em relação à oferta agregada de bens e serviços, principalmente devido ao excesso de moeda e de crédito, ocasionando, dessa maneira, a elevação dos preços;
- Inflação de custos decorre da decretação de preços, o que dificulta o ajuste natural entre a oferta e a procura.
Como se calcula a inflação?
Sandroni (2000:302) ressalta que "em princípio, o índice ideal para medir a inflação resultaria do deflator implícito do produto nacional gerado em determinado período de tempo, que daria uma medida, a uma certa periodicidade, do crescimento dos preços dos bens de consumo, dos bens de produção e de todos os serviços gerados no intervalo de tempo relevante com o concurso da força de trabalho".
Por motivo de ordem prática, usam-se os Índices de Custo de Vida para medir a variação dos preços de commodities. A inflação é, pois, calculada pelos índices.
Como controlar a inflação?
As medidas abaixo citadas podem realmente ter o poder do controle da inflação, porém o nível zero é um número impossível de ser conseguido por um tempo indeterminado.
- Elevar a procura agregada para um nível igual ao valor da oferta agregada, utilizando-se a política fiscal e salarial, mantendo, assim, o equilíbrio entre a procura do crédito e a oferta da poupança.
- Manter a quantidade de moeda em circulação igual à procura agregada de caixa, aplicando-se as políticas monetárias e do crédito, equilibrando, assim, o volume agregado do crédito bancário.
1. O que são índices?
O termo índice está relacionado ao conceito de números índices que, segundo Medeiros (1.999:124): "é uma medida estatística construída para facilitar a leitura da evolução dos valores de uma variável ou de um grupo de variáveis, quando relacionadas a diversos períodos de tempo, locais, setores da economia ou qualquer outra característica importante".
Para Munhoz (1989:150) "os números índices permitem, inicialmente, que variáveis representadas por grandes números, de difícil memorização ou cuja compreensão exigiria acentuado esforço, sejam transformados em formas simples de representação, raciocinando-se em termos de percentagens".
Por exemplo: em vez de mencionar que o faturamento de uma empresa, em determinado ano, passou de R$ 84.550.222,00 para R$ 97.232.755,30 com aumento de R$ 12.682.533,30, é mais prático transformar esses dados em termos de percentagem, pois facilita a leitura. Encontramos o índice percentual, dividindo-se o faturamento atual pelo faturamento anterior.
R$ 97.232.755,30 / R$ 84.550.222,00 = 1,15
Portanto, o faturamento de empresa aumentou em 15%.
Parisi (1999: 39) citando Fisher afirma que, quanto ao seu significado econômico, "um índice de preço mostra a variação percentual média dos preços de um ponto do tempo para outro... Um índice de preços de um certo número de commodities é uma média de seus relativos de preços".

Figura 1 - Preço de determinado produto em determinados períodos
Tomemos como exemplo a tabela acima. Dividindo-se o valor de cada mês pelo valor correspondente ao mês de janeiro, por exemplo, teremos o índice de preços deste produto, com base no preço de janeiro.

Figura 2 - Índice de preços por período com base 100 em janeiro
A tabela acima mostra que, em relação ao mês de janeiro, este produto estava 1% mais caro em fevereiro, 1% mais barato em maio, e assim por diante.
2. Como são calculados os índices de preços?
Segundo Kazmier (1982:347), "para se obter um índice de preços agregados, os preços dos diversos itens ou artigos poderiam simplesmente ser somados no período dado e no período-base e, então, ser comparados. Este seria um índice de preços agregados não ponderados... não muito útil, porque o peso implícito de cada item no índice depende das unidades nas quais os preços estão baseados". De acordo com o enunciado acima, os índices agregados de preços são ponderados segundo as quantidades dos artigos. O que diferencia o cálculo dos índices é o uso do ano-base ou o ano dado. As principais fórmulas para se calcular índices agregados de preços são de Laspeyres e de Paasche.
a)Índice de preços de Laspeyres
Obtido pela ponderação dos preços pelas quantidades associadas com o ano-base antes de serem somados. Sua fórmula é:

b) Índice de preços de Paasche
Obtido pela ponderação dos preços pelas quantidades associadas com o ano dado antes de serem somados. Sua formula é:

c) Índice de preços de Fisher
Obtido pela média geométrica dos índices de preços de Laspeyres e Paasche.

Em que:
- po - preço do produto no ano inicial;
- qo - quantidade do produto no ano inicial;
- p1 - preço do produto em cada período considerado;
- q1 - quantidade do produto em cada período considerado.
Quais os principais índices de preços?
No Brasil, existem vários índices que medem o custo de vida. Alguns são regionais, outros medem a variação de preços de setores econômicos específicos, ou seja, mostram a realidade para a qual foram construídos. Dessa forma, é obvio que cada índice mostre um número diferente, já que utilizamos um cálculo diferente quanto à cesta, periodicidade, regionalidade etc.
- INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor, média do custo de vida nas 11 principais regiões metropolitanas do país para famílias com renda variando de 1 a 8 salários mínimos, medidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
- IPA – Índice de Preços no Atacado, mede o nível de preços ao nível de empresas, com base na média aritmética ponderada de preços relativos à época atual e à imediatamente anterior.
- INCC – Índice Nacional do Custo da Construção - um dos componentes das três versões do IGP, o de menor peso. Ele reflete o ritmo dos preços de materiais de construção e da mão-de-obra no setor. Utilizado em financiamentos diretos de construtoras e/ou incorporadoras.
- IGP – Índice Geral de Preços - calculado pela Fundação Getúlio Vargas. É uma média ponderada do Índice de Preços no Atacado (IPA), com peso 6; Índice de Preços ao Consumidor (IPC) no Rio de Janeiro e São Paulo, com peso 3; e do Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), com peso 1. Usado em contratos de prazo mais longo, como aluguel.
- IGP-M – Índice Geral de Preços do Mercado também da FGV: metodologia igual à do IGP-DI, mas pesquisado entre o dia 21 de um mês ao dia 20 do mês seguinte. O IGP tradicional abrange o mês fechado. O IGP-M é elaborado para contratos do mercado financeiro.
- IPC-FIPE – Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da USP, pesquisado no município de São Paulo; ele reflete o custo de vida de famílias com renda de 1 a 20 salários mínimos. A USP divulga também taxas quadrissemanais desse índice.
- ICV-Dieese – Índice do Custo de Vida do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos: também medido na cidade de São Paulo. Ele calcula índices de custo de vida das famílias com renda média abaixo, acima e em torno de R$ 2.800,00.
Obviamente, os índices gerais de preços, da forma como são apurados, têm sua validade atrelada à economia como um todo, pois medem a inflação desta num dado período de tempo, de uma determinada região do país, para uma finalidade específica.
As demonstrações contábeis
Agora que temos uma idéia do que é moeda, inflação e índices, como são calculados e quais são os índices existentes no Brasil, podemos avançar um pouco mais falando sobre a correção monetária, e as demonstrações contábeis.
Iudícibus (1995:724) nos assevera que, em economias com um elevado grau de inflação, a moeda sofre, como já vimos, variações em seu poder aquisitivo.
Vejamos os itens de um balanço que nada mais são do que dados numéricos acumulados durante um determinado período de tempo. Alguns desses itens são de natureza monetária, e outros não. Os primeiros, de natureza monetária, que são o disponível, realizável, exigível, são mostrados em termos de moeda com um poder aquisitivo bem próximo do atual. No entanto, os segundos, de natureza não monetária, que representam o imobilizado, os estoques, o capital integralizado, são mostrados por uma somatória de valores de vários exercícios que constituem moedas de vários níveis de poder aquisitivo.
Sabemos que grande número de países têm passado por altos índices de inflação, durante os anos passados, e segundo nos indica Iudícibus (1995:724), tanto contadores, administradores, quanto autoridades fiscais e outros têm-se preocupado no sentido de desenvolver e aprimorar as técnicas que permitem uma medição adequada da posição financeira e dos resultados das operações das empresas. Porém, segundo ele afirma também, poucos países chegaram a adotar um sistema de reconhecimento dos efeitos da inflação nas demonstrações financeiras.
A correção monetária
Esta fase deve ser dividida em quatro partes para se realizar um melhor estudo:
1. Anterior a 1977
A partir de 1940 até 1976, o advento da lei das Sociedades Anônimas (Lei 6.404), criou o sistema de correção monetária, pois reconheceu o efeito da perda de poder aquisitivo nos resultados anuais da empresa. As autoridades fiscais foram as que primeiramente reconheceram os efeitos da inflação.
De acordo com Escodro (1988:15-16), durante esse período, o reconhecimento dos efeitos inflacionários versava na correção monetária das contas do ativo imobilizado a cada dois anos (lei 3.470/58); correção monetária anual do ativo imobilizado (lei 4.357/64); estímulo fiscal do efeito da inflação sobre o capital circulante – somente limitado a algumas empresas (leis 4.663/65 e 4.862/65); limitações anteriores canceladas e reconhecimento da perda do poder aquisitivo limitado a 20% do lucro tributável pelo Imposto de Renda (lei 401/68); bens do ativo imobilizado sem valor residual após esgotar-se sua vida útil (DL 1.302/74); criação da Reserva para Manutenção de Capital de Giro Próprio, porém limitando o reconhecimento dos efeitos inflacionários positivos e negativos (DL 1338/74).
2. A correção monetária oficial
Como já mencionado acima, em 1976, foi criada a lei 6.404, a Lei das Sociedades por Ações, que reconheceu o efeito total da perda de poder aquisitivo no resultado do exercício da empresa. Então, a partir de 31/12/77, entrou em vigor o que foi chamada a correção monetária oficial.
As leis 7.738/89, 7.799/89 e 8.200/91 (regulamentadas pelo Decreto 332/91) permitiram corrigir as contas do Patrimônio Líquido e do Ativo Permanente, lançando como despesa ou receita, de acordo com seu efeito devedor ou credor.
No final da década de 70, em que o patamar de inflação era de 20% a 50%, a forma simplificada de correção dessas contas foi adequada. Porém, quando os índices passaram a patamares mais altos, este sistema de correção monetária oficial não foi mais aceitável.
3. A correção integral
Assim como salienta Iudícibus (1995:726) houve uma necessidade de "adoção de sistemas mais completos de reconhecimento dos efeitos da inflação" nas demonstrações financeiras.
A Instrução 64/87 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a exigir das sociedades abertas demonstrações financeiras complementares em moeda de poder aquisitivo constante, isto é, com correção integral, cujo efeito inflacionário é reconhecido integralmente. Já em 1992, a Instrução CVM n. 191/92, além de alterar, consolidar e revogar as Instruções CVM ns. 64/87, 138/91, 146/91, também estabelece a Unidade Monetária Contábil (UMC), como uma unidade de referência que deverá ser utilizada pelas sociedades abertas em suas demonstrações contábeis, em moeda de capacidade aquisitiva constante.
A principal finalidade desse sistema é gerar as demonstrações em moeda única para todos seus componentes, além de poder explicitar o efeito da inflação em cada conta. Para gerar essas demonstrações, é necessária a adoção de índice que reflita a perda do poder aquisitivo da moeda, pelo qual serão atualizados os saldos contábeis, sendo reconhecido seu efeito no resultado da empresa.
Iudícibus (1995:727) nos alerta para algumas razões que faz com que a implementação do Sistema de Correção Integral (SCI) se faça necessária:
- Perda de capacidade de compra das disponibilidades e dos valores a receber.
- Ganho de capacidade de compra nos valores a pagar.
- Lucro bruto distorcido no momento de comparar o preço de venda de hoje com o custo histórico de aquisição de uma determinada mercadoria, há pelo menos três meses.
- Defasagem nos valores de ativos não-monetários (estoques, despesas antecipadas, outras).
- Desatualização dos valores de receitas e despesas nas demonstrações de resultados.
- Distorções na apresentação de demonstrações financeiras comparáveis com exercícios anteriores pelos seus valores originais.
- Distorção nos índices da análise financeira do balanço.
4. 1996 a 2001
A partir de 1996 não mais foi exigida a correção monetária nos balanços devido ao fato de que, com a implementação da nova moeda em 1994, o Real, a inflação passou para um patamar bem inferior ao anterior (figura 3).
Na referida figura, vemos claramente o drástico declínio da inflação que, a partir desse momento, se manteve estabilizada. De acordo com a mesma fonte, os índices de preços, durante vários meses do ano de 1998, mantiveram-se negativos.
Durante esse período, em que vemos uma estabilização dos índices de preços na economia, "abandonou-se" a correção monetária integral para as demonstrações financeiras. No entanto, algumas empresas de médio e grande portes reavaliam seus ativos imobilizados para darem ao balanço fiscal uma visão mais real da situação societária.
Essas mesmas empresas estão submetendo às instituições financeiras o seu balanço assim como todas as demais demonstrações financeiras (contábeis de acordo com proposta de alteração da Lei das Sociedades Anônimas no Congresso Nacional do prof. dr. José Carlos Marion), às vistas de uma contabilidade gerencial, em que seu principal baluarte é a moeda constante, de maneira a poder-se comparar e analisar os eventos sem distorções, livres do efeito da inflação, como ressalta Iudicibus (1998:311).
Essa inflação, no entanto, é a inflação interna calculada pelas empresas, que é o que veremos a seguir.

A contabilidade gerencial e a moeda constante
Antes de seguirmos em frente, uma pequena definição: o que vem a ser a contabilidade gerencial? Segundo ATKINSON, BANKER, KAPLAN & YOUNG (2000:67), o Institute of Management Accounting1 define a contabilidade gerencial como sendo "o processo de identificação, mensuração, acumulação, análise, preparação, interpretação e comunicação de informações financeiras usadas pela administração para planejar, avaliar e controlar dentro de uma empresa e assegurar uso apropriado e responsável de seus recursos".
1. Índice interno de preços
Não existe nenhum índice, entre aqueles apresentados anteriormente, que realmente possa ser utilizado de imediato e represente a inflação interna da empresa, devido à sua amplitude e particularidade. Os índices internos de preços, quando corretamente mensurados, servem de apoio para a tomada de decisão. Esta mensuração deve refletir as condições do ambiente em que a empresa está inserida.
Os índices de preços medem a inflação de modo geral, ou seja, tentam mensurar a inflação de uma determinada cesta de produtos. É pouco provável assegurar que um determinado grupo de pessoas, mesmo com rendas equivalentes, irá consumir sempre a mesma cesta de produtos: essa afirmativa torna-se ainda mais verdadeira, para as empresas, visto que possuem cestas de recursos próprios, ou como diz Parisi (1999:54): "cada empresa tem uma situação ambiental específica e em constante mutação, tem cesta de recursos própria, tem acesso a mercados diferentes dos de seus concorrentes e dos demais agentes econômicos, seus produtos e recursos têm ciclos de vida diferenciados, como também o seu nível tecnológico, e os preços e as condições de mercado que a afetam geralmente são de seu conhecimento".
Nesse caso especifico, o índice interno de preço da empresa leva em consideração o poder aquisitivo em relação à sua cesta, considerando todos os insumos necessários à sua atividade, bem como os bens de capital para investimento. Parisi (1999:82) identifica a existência de três índices de Preços para a mesma organização, ou seja: índice interno de preços de compras, de vendas e de consumo.
Índice interno de preços de compras
Esse índice está relacionado com o mercado fornecedor e os recursos adquiridos pela empresa em um determinado período, independentemente do seu consumo. Também reflete o percentual baseado no preço médio transacionado entre a empresa e o seu mercado fornecedor.
Índice interno de preços de vendas
Esse por sua vez, mede o comportamento dos preços transacionados entre a empresa e seu mercado consumidor.
Índice interno de preços de consumo
E, por último, esse índice mede o consumo dos recursos adquiridos e sacrificados nas transações realizadas por todas as atividades da empresa.
Tanto o índice interno de preços de compras quanto o de vendas não retratam a inflação interna da empresa, uma vez que não refletem a realidade de toda a organização, ficando restritos às atividades de compras e vendas. Assim, o índice interno de preços de consumo, por espelhar a realidade física e econômica da organização, é considerado como o mais ideal para mensurar a inflação interna da empresa.
2. Como calcular o índice interno de preços?
Nesse sentido Parisi (1999:93) citando Mauro, afirma que o custo de oportunidade é o único conceito de preço que possui atributos necessários para se medir o índice interno da empresa, pois expressa o valor de mercado à vista de determinado recurso. Assim, esse conceito de preço atende aos requisitos de:
- aderência ao conceito de controlabilidade;
- respeito à racionalidade dos gestores;
- refletir o ambiente econômico em que a empresa se localiza.
3. Índice interno de preços e a gestão empresarial
Tomando-se por base tudo o que foi dito anteriormente, o índice interno de preços reflete a verdadeira inflação da empresa, por meio dele que mediante sua contabilidade gerencial, concentra todos os valores dos eventos econômicos exercidos pelos gestores das áreas, em moeda constante, para efetivamente praticar todos os atos necessários e suficientes perante a direção geral da empresa.
Tomadas de decisão, por sua vez, tais como compras de matérias-primas, vendas, investimento, aplicações e mesmos empréstimos bancários baseiam-se nas análises que utilizam o índice de preços.
Conclusão
Este trabalho não pretende, em hipótese alguma, chegar a esgotar toda a discussão em torno desse assunto. Dentre os vários discutidos, destacamos dois principais:
- Moeda constante: assunto do momento. Acreditamos que por outras discussões, seminários e palestras dentro do meio contabilista, acadêmico e/ou profissional, pode-se chegar a conclusões e recomendações para alteração de leis e comportamentos. A moeda constante deve fazer parte do nosso dia-a-dia profissional e acadêmico, uma vez que, sem ela, incorremos em erros, já que as análises, avaliações e mensurações das informações financeiras são feitas pelas comparações monetárias de diferentes instantes econômicos. Salientamos que, entre diferentes instantes econômicos, existe um espaço de tempo o qual deve ser também medido. O custo desse tempo nada mais é do que o efeito da inflação que deve ser adicionado ao custo original do evento para ser comparável.
- Contabilidade gerencial: ferramenta administrativa relativamente nova. Foi definida acima como um "processo de identificação... de informações financeiras usadas pela administração... e assegurar o uso... apropriado de seus recursos". Assim sendo, tudo deve ser feito no sentido de permitir-se que os resultados das mensurações e avaliações de desempenho referente aos eventos econômicos da empresa sejam incorporados ao respectivo resultado final, tornando-se um resultado econômico.
Assim, a administração por resultado pleiteada pelo Gecon Gestão Administrativa, desenvolvida por pesquisadores do Núcleo Gecon, apoiado pelo Fipecafi (Fundação ligada à FEA/USP), cujo objetivo é otimizar o resultado econômico por meio da melhoria da produtividade e da eficiência operacional, atingindo a eficácia empresarial, vem ao encontro de um futuro bem próximo da atual contabilidade gerencial.
A classe contabilista deve mobilizar todos seus recursos no sentido de conseguir as aprovações do Congresso Nacional para as Demonstrações Financeiras/Contábeis: Propostas para Alteração da Lei das Sociedades Anônimas e outros tipos Societários, do prof. dr. José Carlos Marion, as quais também introduzem modificações na demonstração do resultado do exercício que permitem incluir os efeitos decorrentes da variação do poder aquisitivo da moeda.
Por outro lado, a importância que a inflação tem no resultado e no patrimônio da empresa permite-lhe encontrar uma maneira justa e correta para medir a inflação interna, como proposta pelo Gecon, pelo cálculo do índice interno de preços, com base no custo de oportunidade, de forma que sirva de apoio para tomada de decisão.
Por último, devido à dificuldade de enquadrar os números da empresa a um índice que já existe, faz-se necessário mensurar a inflação interna da empresa. Os gestores direcionaram os recursos para a atividade que proporcionar o melhor resultado econômico, sem deixar de observar o objetivo de continuidade da organização.
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SZUSTER, Natan. Métodos contábeis de reconhecimento da variação do poder aquisitivo da moeda: uma aplicação prática. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Economia e Administração Departamento de Contabilidade e Atuária, 1980.
Moses Benadiba - Professor da Faculdade de Economia e Ciências Contábeis da Universidade Metodista de São Paulo.
- The Institute of Management Accountants é a sociedade profissional norte-americana de praticantes e acadêmicos que estão interessados no desenho e na operação de sistemas de contabilidade gerencial em empresas.








