Você está aqui: Página Inicial / Bióloga Neiva Guedes aponta os principais fatores que causam as queimadas no Pantanal

Bióloga Neiva Guedes aponta os principais fatores que causam as queimadas no Pantanal

por sophia.villanueva última modificação 23/09/2020 10h14
Presidente do Instituto Arara Azul fala sobre o aumento nos focos de incêndio, extinção de espécies e conscientização

Publicado em 23/09/2020 10h14

Última atualização em 23/09/2020 10h14

Bióloga Neiva Guedes aponta os principais fatores que causam as queimadas no Pantanal
Neiva Guedes é mestre em Ciências Florestais, doutora em Zoologia e trabalha há 30 anos na preservação das araras azuis. Foto: Divulgação/Envolverde

BEATRIZ MIRELLE
Da Redação*

A bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto Arara Azul, foi a convidada do Diálogos Envolverde da última quinta-feira (17). Em meio a progressão de incêndios que afetam o Pantanal, a especialista analisa a atuação da população local e dos governos no combate às queimadas. Com mediação dos jornalistas Dal Marcondes e Reinaldo Canto, Neiva pontuou as principais causas do crescimento de focos de incêndio e os possíveis resultados do "pós-fogo".

O Projeto Arara Azul atua no monitoramento e conservação de várias espécies, principalmente das araras azuis. Desde 2014, elas estão fora do risco de extinção, porém, com a destruição de locais considerados redutos, podem voltar para essa lista. "Observamos há mais de 15 anos a fazenda São Francisco do Peligari, um dos maiores santuários das araras no pantanal mato-grossense. Em 20 dias, o fogo basicamente varreu essa propriedade". Neiva confessa que inicialmente sentiu-se impotente ao entender a magnitude do ocorrido, entretanto já sabia que algo assim poderia ocorrer. "Os focos de incêndio começaram em fevereiro. Foram pequenos, mas diferentes, porque naquele período o Pantanal está alagado. Talvez apenas em outubro chova o suficiente para cessar o fogo".

Entenda os fatores da extensão do fogo e as consequências disso, de acordo com a especialista:

Leia mais: Jornalista Âmbar de Barros debate sobre os 30 anos da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente

Araras azuis 

A bióloga justifica que a recuperação do número de araras azuis foi feita por meio de manejos que contaram, majoritariamente, com a ajuda da comunidade local. Além de ser alvo do tráfico animal, as aves sofrem com a coleta das penas pelos povos originários e a descaracterização do habitat natural, por conta do desmatamento e queimadas.

"Antes dos incêndios, a população de araras já havia aumentado. Mesmo assim, percebemos alguns retrocessos na conscientização da população e uma interferência das mudanças climáticas no sucesso reprodutivo delas". Dentre as transformações, Neiva ressaltou as chuvas concentradas em larga escala em um curto período de tempo, o que alaga os ninhos, além de secas extremas, que geram mortes por insolação.

Ela conta que esses animais possuem especificidades reprodutivas e alimentícias que são prejudicadas com a perda do habitat. "Sem árvores para se reproduzirem e palmeiras para se alimentarem, não restarão araras", lamenta. Além disso, a especialista reforça sobre o possível aumento na disputa por ninhos e a predação de adultos e filhotes por falta de comida.

Ouça: Podcast Momento Envolverde

Cultura do pantaneiro 

Neiva entende que as proporções que as queimadas estão tomando em 2020 correspondem a uma junção de acontecimentos. "A escassez de chuvas e o baixo nível de água nos rios, principalmente no Rio Paraguai, um dos grandes distribuidores na região, são influenciadores". Com o alto índice de matéria seca, o pantaneiro tem costume de colocar fogo em certos territórios para que o gado coma um pasto mais fresco, assim como os indígenas, que usam o fogo para limpar determinadas áreas. "A seca, os ventos fortes e essa cultura de se colocar fogo como estratégia de renovação podem gerar extrapolação e descontrole".

A especialista conta que esse não é um costume apenas da área rural e que a mudança precisa ser na mentalidade das pessoas. "Trabalhamos com a Secretaria de Meio Ambiente e outras instituições para o combate e conscientização dessas práticas. Além de ser crime na área urbanizada, a queimada proposital também está proibida por 120 dias", informa.

Assista: Reportagem sobre o Instituto Arara Azul

Consciência e ação

Como forma de combate, a bióloga compreende que os jovens são a grande chance de transformação do estilo de vida. Apesar dessa esperança, ela aponta que as mudanças precisam ser feitas rapidamente. "As pessoas estão acelerando o processo de extinção de fauna e flora sem perceberem que os humanos também serão atingidos. A conscientização não é possível de maneira isolada, é necessário dar alternativas para substituir as atividades que, apesar de serem culturais, são erradas". Para isso, ela destaca que é imprescindível a ação da ciência juntamente com os órgãos públicos instituindo campanhas e políticas públicas de preservação e conscientização ecológica. 

Neiva frisa que as maiores atuações no combate às queimadas no Pantanal são feitas por brigadistas, fazendeiros, pesquisadores e pela população. A falta de pessoas e equipamentos especializados para alcançar áreas remotas são entraves durante as ações dos cidadãos.

"Sabemos que o governo atual não incentiva a preservação, a saúde e a ciência. Há um retrocesso e uma atuação tímida na ajuda a esses temas. Os recursos dos órgãos ambientais foram extremamente reduzidos do ano passado pra cá, então, mesmo que quisessem, não haveria estrutura para ajudar", pontua a especialista. O bioma do Pantanal já está com mais de 20% da cobertura vegetal destruída, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Mesmo assim, na última quinta-feira, em um discurso feito durante a inauguração de um complexo de usinas solares em Coremas, na Paraíba, o presidente Jair Bolsonaro declarou que "o Brasil está de parabéns" na preservação ambiental.

Leia mais: Jornalista Dimas Marques ressalta consequências da impunidade no tráfico de animais silvestres

Diálogos Envolverde

A entrevista na íntegra feita com a bióloga Neiva Guedes está disponível no Facebook e YouTube da Agência Envolverde. Nesses canais é possível conferir outras lives do Diálogos Envolverde, programa que acontece toda quinta-feira, às 11h. Além disso, nesta quinta-feira (24), às 19h, será transmitido o último encontro do Seminário Campinas 2030, formado por especialistas de Campinas e região que discutem sobre a pauta socioambiental.

*Conteúdo multimidiático produzido por estudantes de Jornalismo Presencial da Universidade Metodista de São Paulo, sob a supervisão dos professores Alexandra Gonsalez, Eloiza de Oliveira Frederico, Filomena Salemme e Wesley Elago.

 

Ações do documento