Intercâmbio acima dos 40? Viaje nessa idéia
Agências de intercâmbio registraram aumento de 30% nas vendas entre os clientes com mais de 40 anos em 2007.
No aeroporto, rumo a um novo país, intercambistas se despedem da família e iniciam uma nova experiência - Foto: Lilian Sobral/RRJ
BRUNA BRAZ, SILVIA POSTIGLIONI, MARIANA VIOLA, LILIAN SOBRAL
do Rudge Ramos Jornal
Malas prontas, passaporte na mão e aquele frio na barriga. Ao contrário das cenas típicas nos aeroportos, agora quem se despede e está pronto para embarcar são os pais ou mesmo os avós.
O que os espera do outro lado? Aprendizado de novas línguas, conhecimentos de outras culturas e novas amizades. Tudo isso faz parte do intercâmbio, que atrai cada vez mais os ‘veteranos’. Este público também está à procura de novas vivências no exterior.
Embora pouco divulgado no Brasil, no último ano as agências que operam esse serviço registraram um aumento de 30% entre os clientes acima de 40 anos. Os “novos” viajantes trocam o conforto dos pacotes turísticos por acomodações nas universidades ou em casa de família.
Os programas não são diferentes dos feitos para os adolescentes. As agências especializadas em intercâmbio fazem algumas adaptações, como explicou Cláudia Martins, gerente de comunicação da STB (Student Travel Bureal). “Procuramos identificar quais são as necessidades deles em termos de desenvolvimento de idioma, de vontade de conhecer um país, de período de tempo que ele pode ficar fora para poder achar, não só o lugar mais adequado para viajar, como também o perfil de escola ou de curso”.
A idade mais avançada tem alguns benefícios, como conta a jornalista Eliane Sobral que aos 44 anos já está no terceiro intercâmbio, e todos após os 40. “A vantagem é que você está mais preparado para aprender. Tem mais responsabilidade e leva mais a sério os estudos. Além disso, o olhar mais maduro ajuda a perceber mais coisas e com mais clareza. Você sabe distinguir melhor o que é bom, o que é importante e com o que você não deve se preocupar. Com mais idade você também fica menos vulnerável a opiniões alheias”, disse.
Atualmente, a jornalista está em seu terceiro e último mês de intercâmbio no Canadá, onde estuda a língua inglesa. A primeira vez que ela passou por esta experiência foi em 2006, quando foi durante um mês aprimorar o idioma francês em Paris. O resultado foi tão positivo, que decidiu voltar no ano seguinte, e estudou mais um mês na mesma escola. Voltou para o Brasil, começou a aprender a língua inglesa, e optou pelo Canadá para mais uma experiência.
Agora no Canadá, o mais complicado para a jornalista foi a adaptação na hospedagem que, pela primeira vez, é em casa de família. Mas essa dificuldade pode ser uma exceção.
Mas desta vez, a viagem para estudos tem uma diferença para a jornalista: uma companhia. Seu marido, Jefferson Silva, 34 anos, vai fazer um mês de intercâmbio no Canadá. Na hora do embarque para Toronto, o segundo do estudante internacional, ele confessa: “Estou um pouco nervoso, mas da primeira vez foi pior”. Para ele, o choque cultural e a insegurança de não dominar o idioma são os maiores desafios.
Flávia Mariano sentia falta de um guia completo sobre estudos no exterior e escreveu o livro “Intercâmbio: aí vou eu!”. Para ela, morar com uma família, o chamado homestay, é a melhor opção em todas as idades. “O pessoal mais velho, neste caso, tem vantagem. Nas minhas entrevistas [feitas para o livro], percebi que quanto mais velho o intercambista, maior a capacidade de se adaptar à família e suas regras”.
Coragem é um item essencial na mala. Além da adaptação, trocar a estabilidade financeira, pessoal e profissional por um ambiente desconhecido, talvez seja o que mais pese na decisão de ir ou não para fora do país.
Arriscar o novo foi o que fez o cirurgião plástico Jorge Galvão. Ele fechou o consultório por dois meses para vivenciar uma nova experiência aos 36 anos, no Canadá. O médico tinha o visto há mais de oito anos, mas sempre adiava a viagem. Até que resolveu acompanhar a namorada que já tinha tudo programado para estudar naquele país.
Antes de embarcar, Jorge entrou em contato com um cirurgião canadense. Perguntou se poderia acompanhar o seu trabalho. Proposta aceita! Durante uma semana, Jorge freqüentou as aulas de inglês pela manhã e à tarde assistia às cirurgias para aprimorar o conhecimento.
O saldo foi tão positivo que o brasileiro já pensa em novos destinos. “Tenho a intenção de fazer outro intercâmbio. Penso em ir para a Itália ou França, praticar o idioma deles e aprender um pouco mais de medicina. É sempre muito prazeroso”.
Para a gerente de comunicação da STB Cláudia Martins, o período de preparo é tão importante quanto a viagem em si. Ao fazer uma boa pesquisa e se manter informado sobre o local de destino, o choque cultural que acaba sempre existindo de uma maneira ou de outra, se torna muito mais tranqüilo: “Você simplesmente vai para confirmar expectativas. E esse público faz a lição de casa muito bem feita, seja pelos anos de experiência e de cultura acumulados ou pelo interesse mesmo”.
Às vezes, a idade é um pouco mais avançada e as coisas acontecem por acaso. Foi o caso da diretora de teatro Elvira Lima Gentil, 78 anos. Ao pesquisar sobre programas de intercâmbio para a neta, que desistiu de viajar depois de passar no vestibular, ela se interessou e decidiu ir no lugar.
A princípio, ficou assustada ao conviver com os jovens. Mas depois de três meses morando em um apartamento com mais sete meninas, ela se acostumou. “Tinha um quarto só meu e quando eles estavam fazendo as festinhas deles, eu ficava bem no meu canto, deixando-os muito à vontade. Foi aí que eles adquiriram confiança e se tornaram meus amigos”.
Apesar da saudade que sentia da família, ela sabia que ia valer a pena. Tanto é que voltou para Nova York no ano seguinte com a nora e a neta.
A língua inglesa ainda é a mais procurada. Por este motivo, Estados Unidos e Inglaterra são os países mais visados. Itália, França e Espanha seguem no ranking. Embora os brasileiros encontrem dificuldades na hora de obtenção do visto, a idade pode ser um ponto a favor. “Desde que a pessoa possua vínculos e recursos financeiros no Brasil, é uma vantagem, pois entende-se que não haja interesse por parte dessa pessoa de idade mais alta, em imigrar ilegalmente para o país”, esclareceu Marlene Pedron Orsini, diretora comercial da CI (Central de Intercâmbio) do ABC.
Para as pessoas acima de 60 anos, os cursos mais procurados são aqueles voltados ao ensino de um idioma específico aliado à atividades culturais. O perfil do público entre 40 e 60 anos é diferente. Eles estão em plena atividade profissional e normalmente optam por cursos voltados a sua área de atuação.
Aos 42 anos, a gerente de projetos e marketing da Petrobras, Miriam Machado, conseguiu realizar um desejo que tinha desde a adolescência. Incentivada pela filha, que já havia feito dois intercâmbios, Miriam passou um ano em Vancouver, no Canadá. A gerente participou de diversos workshops de gerenciamento de projetos, fez cursos de extensão de marketing e ainda foi voluntária como assistente de marketing.
Hoje, aos 46 anos, ela recomenda a experiência. “Recomendo para todo mundo, urgente. Se não saiu do país, vá logo”.
Vitalidade e disposição. A bagagem acumulada durante a vida não é obstáculo para quem busca novos horizontes. Aos 78 anos e depois de duas viagens de intercâmbio, Elvira Lima Gentil dá uma dica aos veteranos: “As pessoas que estão na terceira idade também vão atrás dos seus sonhos, sejam eles quais forem. Não se pode achar que, por estar na terceira idade, não tem mais nada a aprender. É aí que sobra tempo, e ele deve ser preenchido com aquilo que a pessoa gosta de fazer. Eu acho uma descoberta”.

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