Poluição visual causa desconforto na população
Outdoors ocupam acesso à via Anchieta na divisa de São Bernardo com São Paulo; a cidade do ABC não aderiu a lei Cidade Limpa - Foto: Guilherme Cimatti
GIOVANNI PERROTTA
GUILHERME CIMATTI
PEDRO SIMÕES
Acidentes de trânsito, distração com cores, desconforto e danos à saúde foram alguns dos motivos que levaram a Prefeitura de São Paulo a criar a Lei Cidade Limpa, no início de 2007. Segundo pesquisa Ibope, 86% dos entrevistados estavam descontentes com a situação vivida na cidade.
Por meio da lei, foram retirados todos os tipos de outdoors, painéis em fachadas de prédios, backlights e frontilghts. Do ABC, São Caetano é a única cidade que aderiu à Lei Cidade Limpa, desde dezembro de 2009.
O advogado Alberto Rollo, 60, especialista em direito eleitoral, acha que São Paulo está menos poluída visualmente. Porém, segundo ele, outros tipos de poluição preocupam mais. “Agora, poluição, eu acho que são mães e crianças nas calçadas, pedindo esmola e necessitando ser socorridas. Isso me atinge. Para mim é poluição, e é pior, porque envolve pessoas que não são devidamente protegidas.”
Rollo também compara Miami, nos Estados Unidos, a São Paulo. “Miami é uma cidade coberta de anúncios, letreiros e não há combate a isso. A cidade fica mais iluminada, atrai mais e fica menos pobre de atração visual.”
De acordo com a Lei Cidade Limpa, os letreiros têm que ser feitos de modo proporcional ao tamanho das fachadas. Em imóveis grandes (100 metros quadrados ou mais), a propaganda não pode ser maior que dez metros quadrados. As propriedades médias (de dez a cem metros) têm limite de quatro metros quadrados. Já as pequenas (menos de dez metros de fachada), o máximo permitido é um metro e meio quadrado.
O psicólogo Paulo Félix, presidente da Pró Cor (associação brasileira de cores que tem projeção nacional e internacional), disse que poluição é o elevado número de informações e estímulos visuais, que se torna prejudicial aos indivíduos. “O espaço deve permitir com que a pessoa tenha um sentimento de pertencer, de estar e que crie identidade com o lugar. A poluição é alguma coisa que tira isso, pois está em excesso.”
Félix acha que para se sentir num ambiente bom é necessária uma boa identidade com o local. “A harmonia implica certa relação de tonalidade de cores, que trazem ou guardam alguma proximidade com a natureza. Expressa algum sentimento de ligação com o lugar ou com o redor.”
O médico oftalmologista Sérgio Crivelin, 27, acredita que os anúncios em outdoors não causam nenhum dano na visão das pessoas. “Você só vai ter uma dor de cabeça se tentar ler os letreiros e ter algum problema, como a falta de óculos. O que pode acontecer é tirar a atenção do motorista.”
O ambientalista e dono da Reprata Ambiental, José Grecco, 55, disse que a lei deixou o município de São Paulo diferente e que o material usado atualmente nos outdoors não poluem tanto como antes. “Antigamente, o material tinha produtos químicos. Com a digitalização, os resíduos deixaram de existir. Eu acho que uma boa parte delas (empresas) já usa a tecnologia digital, o que acaba preservando o meio ambiente.”
Grecco avalia como positiva a implantação da lei que disciplinou o uso de outdoors. “Foi um grande beneficio. Embora São Paulo fosse poluída, víamos propagandas agradáveis e desagradáveis. A cidade ficou bem mais bonita.”
Ouça o áudio abaixo a respeito das pichações na cidade de São Paulo
COMERCIANTES - Com a proibição dos outdoors espalhados pela cidade paulistana, sobrou para os publicitários, que estão tendo que procurar diversas formas para passar sua mensagem. Segundo dados da prefeitura, os que não acatam o regulamento são multados em R$ 10 mil e mais R$ 1.000 por metro quadrado excedido.
O publicitário Carlos Eduardo Ribeiro, 23, acha que a publicidade não é dependente dos outdoors e que agora o desafio é encontrar um novo meio para atingir os antigos clientes. “Quem trabalha com publicidade tem que se virar. Achar uma mídia que vai encontrar seu público alvo.
Perdemos uma forma de anunciar. Tem que ser criativo para estudar uma nova plataforma. O publicitário já aprendeu a driblar isso”, disse.
Algumas empresas utilizam traseiras de ônibus, relógios públicos e placas de ruas como alternativas para anunciar seus serviços e produtos.
Porém Carlos Eduardo admite o peso que tinha anunciar em outdoors: “Era uma grande mídia convencional para as grandes cidades. Uma grande exposição em vários lugares, como numa grande avenida. Você atinge milhares de pessoas ao mesmo tempo.”

