Visita guiada em cemitério é um passeio curioso na cidade



BEATRIZ CORDEIRO 
Da Redação*

Espalhados pelo mundo existem vários cemitérios que acabaram se tornando atrações turísticas, seja por possuírem belas esculturas, uma arquitetura diferente ou por serem os locais onde personalidades históricas e famosas estão enterradas. Aqui em São Bernardo, um exemplo disso é o Cemitério da Vila Euclides, que abriga personagens importantes como Thereza Delta, a primeira e única prefeita da cidade, Salvador Arena, o fundador da Termomecanica, e Lauro Gomes, o prefeito que trouxe as indústrias para o município. Eles são os jazigos que mais atraem a curiosidade dos visitantes, que, muitas vezes, buscam um passeio diferente.
Antigamente, os mortos eram sepultados nos quintais das igrejas. Em São Bernardo, eles eram enterrados atrás da capela da Nossa Senhora da Boa Viagem, onde hoje está localizada a Igreja Matriz. Entretanto, no final do século 19, uma epidemia de varíola se espalhou pela cidade e, como era uma doença altamente contagiosa, os sepultamentos não podiam mais ser realizados em áreas urbanas. Dessa forma, o Estado determinou que os corpos deveriam ser enterrados em um lugar mais alto e longe dessa área. Foi assim que surgiu o cemitério, na Avenida Redenção.
Após o tombamento do cemitério como patrimônio histórico, começaram a ser organizadas as visitas guiadas para o local. A chefe da Divisão de Preservação da Memória de São Bernardo, Denise Puertas, explica que o principal objetivo das visitas é fazer com que as pessoas conheçam e estabeleçam um contato mais próximo com os bens culturais da cidade. “Às vezes não é só saber da história, no caso do cemitério, é trabalhar uma materialidade que vem desde um tempo um pouco mais remoto, mas que chega até nós e é um suporte de memórias. Quando as pessoas enterram seus familiares, elas não têm mais a presença daquela pessoa, então, tudo que resta são as memórias. Assim, o cemitério é um lugar, por excelência, de memórias”.
Denise ainda conta que muitas pessoas acham estranho esse tipo de passeio, enquanto outras afirmam sentir medo, mas com as visitas, essa impressão vai sendo, aos poucos, quebrada. “A gente vai explicando com um viés bastante histórico as ideias higienistas da virada do século, o porquê da separação do cemitério das igrejas e o que era aquela epidemia, porque as pessoas não sabiam o que que era, como pegava, porque morriam tão rápido, era um medo do desconhecido. Então, isso acabou criando hoje um certo receio, mas a gente tem tido um resultado muito positivo e as pessoas que vão acabam desmistificando, perdendo esses medos e encarando a partir de um outro olhar.”
Mas não são somente as visitas que atraem as pessoas para o cemitério. A aposentada Dinair Bernardelli frequenta o local esporadicamente para visitar sua mãe que está enterrada ali. “Eu não tenho receio de cemitério, eu gosto, acho que é um lugar tranquilo. Mas, hoje em dia, tem que tomar cuidado, você vem durante a semana aqui e não vê mais pessoas. A minha mãe trazia a gente aqui pequeninho, e tínhamos que andar de mão dada porque a gente se perdia, e vinha a família inteira, hoje não existe mais isso”.
Além disso, Dinair fala que o ambiente é muito bonito, mas está descuidado e sem proteção, levando a um roubo constante de túmulos.
Todos os domingos é realizada, pela igreja católica, uma missa, às 9h, na capela ecumenica do cemitério, que leva muitas pessoas a visitarem o local para relembrar dos familiares enterrados ali ou apenas para participar da cerimônia religiosa.
Antônio Borgani, 83, e sua filha Cirlene Maria Borgani, 52, frequentam essa missa todos os domingos e aproveitam para visitar o túmulo da esposa e mãe, respectivamente. “A gente vem recordar os nossos entes que já passaram desta vida, então agora a gente vem lembrar do bem que eles fizeram para nós. E pra nós aqui é um lugar comum, é onde vai ser o fim de todos. Lá em casa, a gente cresceu sempre indo quando tinha velório, mas no dia de finados a gente tinha o costume de fazer uma visita”, lembra Cirlene.
As visitas ao cemitério são realizadas pela Seção de Patrimônio Histórico de São Bernardo e gratuitas. Normalmente, elas são realizadas todas as últimas sextas-feiras do mês, mas há horários abertos para grupos, escolas e interessados em geral. Para participar, basta mandar um e-mail para patrimonio.sbc@gmail.com ou entrar em contato pelo telefone 4337-8217. 

 *Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo.

Publicado em 20/05/2019 14h34