Billings volta a receber água do Rio Pinheiros

Após acordo entre o governo e o Ministério Público, começa hoje (31) o projeto de limpeza do rio Pinheiros

Publicado em 31/08/2007 08:57
Última atualização às 08:57

Billings volta a receber água do Rio Pinheiros

Prainha da Billings, que receberá 10.000 litros de água por segundo do Rio Pinheiros

Tamirys Collis

do Rudge Ramos Jornal

A represa Billings volta a receber hoje (31) águas do rio Pinheiros, localizado na zona sul de São Paulo. Um acordo entre o governo e o Ministério Público, em julho deste ano, possibilitou a realização de testes por meio de um método de limpeza das águas do rio, chamado flotação. A idéia é que, com o sistema de tratamento, 10 m³ (10.000 litros) por segundo de água sejam bombeados para a represa Billings.

Desde 1993 a água do rio está proibida de ser lançada para o reservatório. Essa decisão foi tomada pela Justiça por conta da poluição das águas do Pinheiros.
O processo de flotação consiste na introdução de polímeros na água do rio nos quais a sujeira adere e sobe à superfície. Esse método facilita a retirada das impurezas. Segundo o presidente do Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), Carlos Bocuhy, a flotação retira apenas 65% dos poluentes, ou seja, não retira os que se referem à poluição tóxica por metais pesados . “O que está solubilizado no rio Pinheiros acabará indo para represa Billings. Por isso considero esses testes perigosos”.

Bocuhy ainda apontou alguns riscos que o bombeamento das águas do rio Pinheiros para a represa Billings pode proporcionar. “O que vai ocorrer é um gradual envenenamento no reservatório, com uma série de poluentes. Como a Billings é um reservatório para abastecimento humano, em que as pessoas também se banham, fazem pesca, temos aí um risco em razão do elevado grau de poluição”.
Já o promotor de Justiça e Meio Ambiente do Ministério Público do Estado, José Eduardo Ismael Lutti, disse que os testes não trarão riscos para a população. “Um conjunto de medidas foi prevista, incluindo 17 pontos de monitoramento da qualidade de água. Nesses pontos, além do monitoramento em tempo real, serão usados alguns equipamentos que transmitem os padrões de qualidade da água. Além disso, serão feitas coletas nesses 17 pontos que vão desde o rio Tietê, rio Pinheiros, Billings e Guarapiranga. Essas coletas serão analisadas por laboratórios e se alguma alteração que traga risco ao meio ambiente for constatada, os testes poderão ser suspensos temporária ou definitivamente”.

Juntamente com os testes serão realizados estudos de impacto ambiental. “Nós concluímos que a realização de testes concomitante ao início dos estudos de impacto ambiental seria o mais viável para toda sociedade. Nós estamos procurando fazer um estudo mais profundo, com informações mais claras, que não se baseie simplesmente em teorias”, explicou José Eduardo Ismael Lutti.
Bocuhy considerou a falta de estudos prévios de impacto ambiental, antes da realização dos testes, um crime de poluição. “Não está provado que esse material não faz mal ao reservatório. Então, quando se está permitindo o bombeamento a título de estudo, se está permitindo um crime de poluição”.
Com 75,82 km² de extensão, a Billings foi criada como um reservatório hidroenergético, para geração de energia para usina Henry Borden, localizada em Cubatão. Mas com o crescimento populacional, ela passou a ser responsável pelo abastecimento de cerca de 1,5 milhão de moradores do ABC, segundo dados da Sabesp.

De acordo com José Eduardo Ismael Lutti, a intenção de implantar o sistema de flotação e o bombeamento das águas do Rio Pinheiros está relacionada ao consumo humano, já que o nível da Billings está abaixando. “Os rios que abastecem a Billings não são suficientes para repor toda água que está sendo retirada, seja por evaporação, seja por captação da Sabesp para consumo humano”.
E afirmou ainda que, como a represa Billings é um reservatório de uso múltiplo, é evidente que o Estado faça uso da usina Henry Borden, isso se o projeto der bons resultados . “É uma usina estratégica, de grande importância e que produz a energia mais barata do mundo. É claro que, se houver volume suficiente para captação de uso humano e uma sobra dessa água, o Estado vai fazer uso para gerar energia”.

“O projeto de flotação visa gerar energia na usina Henry Borden. Um grupo de ambientalistas luta para manter o reservatório próprio para o abastecimento e um grupo industrial, do setor de energia, quer as águas da Billings para geração de energia. Mas o que deve prevalecer é o interesse público, do abastecimento para comunidade futura e, se tiver poluição, isso vai ser difícil”, disse Bocuhy, que não acredita que o projeto de flotação foi aprovado para melhorar o abastecimento da Billings.

Toda sociedade poderá participar dos resultados dos testes. Segundo José Eduardo Ismael Lutti, o Ministério Público vai colocar à disposição da população todas as informações que serão produzidas nesses estudos. No caso de qualquer alteração ou risco ao meio ambiente, os testes serão suspensos imediatamente.

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