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Nordestinos representam 20% da população do ABC

por rroeditor — última modificação 16/12/2008 07h40
Censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que 20% da população da região é constituída por migrantes nordestinos.

Publicado em 16/12/2008 08h40

Última atualização em 16/12/2008 07h40

Nordestinos representam 20% da população do ABC
Rodoviária de São Bernardo onde desembarcam muitos nordestinos - Foto: Denver Pelluchi Sá

Denver Pelluchi Sá

O dia-a-dia no ABC evidencia a diversidade de origens dos habitantes da cidade. Uma pesquisa de censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que 20% da população da região é constituída por migrantes nordestinos.

O município que mais concentra nordestinos é Diadema, com 97.739 habitantes, que corresponde a 28%. O índice é proporcional ao número total de habitantes de cada cidade.

Em Mauá, segunda cidade com maior população originária do nordeste, há 86.883 migrantes. Já São Bernardo abriga aproximadamente 21% do total, o equivalente a 144.881 dos habitantes, e ocupa a sexta colocação do ranking.

Ao todo são cerca de 500 mil pessoas, entre paraibanos, pernambucanos, cearenses, baianos dentre outros, que trocaram um clima quente, uma vida marcada pelo trabalho pesado, para se aventurar no ABC paulista.

A história dessa gente começa na segunda metade do século XX, período em que a imigração de europeus foi superada pela migração de brasileiros, em sua maioria nordestinos, atraídos pelo desenvolvimento econômico-industrial experimentado pela região do sudeste, em específico o Estado de São Paulo.

Eles buscavam ainda melhores condições de vida, uma oportunidade de fugir da seca que assolava as plantações e os deixavam apenas com um único “bem”, a miséria. O historiador José Carlos Sá define: “Estes sertanejos faziam as malas, vendiam as criações e acabavam por esbarrar em áreas de concentração urbana como São Paulo”. 

“Seu Pedro da Portaria”, como é conhecido Pedro Barros, 68 anos, um baiano de Xiquexique, residente em Diadema, chegou na capital paulista em 1960. “Eu vim de lá [Bahia] porque sempre gostei de lutar. E eu via a vida do pessoal de lá, uma vida difícil porque tinham que trabalhar doze horas direto e não tinham salário, ninguém dava valor. Aquilo ia me revoltando”, afirmou Barros.

O baiano, que atualmente é porteiro de um escritório de advocacia, conta que na época estava decidido a mudar-se para São Paulo.“Eu não sou tatu pra ficar cavando terra”, disse Barros ao pai.

Mas a situação era a mesma para os recém chegados do nordeste, conta Barros. “Era difícil aqui, fazia muito frio. Mas eu disse que do jeito que vim não iria voltar. A cabeça do nordestino era essa”.

A dificuldade de adaptação em meio às novas formas de trabalho, nunca antes experimentadas, era um elemento desanimador, que muito os espantavam, motivo suficiente para se pensar em regressar. 

“Trabalhei numa fábrica de fundição na Vila Guilherme, em São Paulo. Nunca tinha visto tanto fogo na minha vida. Dava até vontade de pedir a conta e voltar pra minha terra”, acrescentou Barros. 

Capital do automóvel - Mas assim como grande parte deles, “Seu Pedro”, determinado a permanecer no Estado, seguiu para a “capital do automóvel”, em São Bernardo, no ano de 1970.

O historiador explicou que o surgimento da indústria automobilística, no governo de Juscelino Kubitschek (1956-61), impulsionou a instalação de fábricas montadoras em São Bernardo, como Volkswagen e Mercedes-Benz, que passaram a acolher os nordestinos, futuros operários.

“As montadoras necessitavam de mão-de-obra barata, o que podemos entender por desqualificada, para atender o mercado consumidor. Por outro lado, essa classe buscava um emprego para se fixar na cidade. A princípio, o casamento foi perfeito para ambas às partes.” 

À primeira impressão, de acordo com Barros, era uma boa relação entre funcionário e patrão, mas ao vestir a pele do “peão de fábrica”, sem a mínima condição de trabalho, mudou de idéia. 

“Tinha loucura. Só que chegando lá [Volkswagen] não gostei, porque naquela época era aquele negócio de chicote e escravidão, e eu sempre fui contra isso”, lembrou o ex-metalúrgico. 

“Seu Pedro” afirmou que o trabalhador sempre foi cobrado e nada tinha em troca. A partir de então, alçada a bandeira de luta, iniciou-se a busca por melhores condições.

“E eu fui o primeiro a falar: Opa! É greve. Vamos parar as máquinas”, contou sobre a greve geral dos metalúrgicos ocorrida em 1979 sob o comando de “Taturana” ou “Baiano”, como era chamado o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, paralisando a produção das fábricas do ABC .

O escritor e ex-advogado do sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, que ingressou na instituição em 1967 , Antônio Possidonio Sampaio, 76 anos, disse que os  nordestinos tiveram capacidade de perceber o momento que o país vivenciava. “A elite se descuidou da cultura política. Quando estourou a greve da Fábrica Sueca Scania [1978], confirmei que eles [peões nordestinos] não eram alienados, sabiam olhar a sua volta e se organizar politicamente”, afirmou.

Sampaio, que atuou na área de acidentes de trabalho e compilou histórias que presenciou sobre os migrantes – operários em um livro, destacou: “Esse povo sem eira nem beira foi quem deu a cara para bater, com muita coragem moral de enfrentamento e mobilidade. É daí que tiram a auto-estima”. 

Para “Seu Pedro”, hoje casado e com filhos nascidos no estado de São Paulo, “ainda existe essa consciência política, mas naquela época o pessoal era mais de luta. Antigamente quando a gente ia a luta a gente ia mesmo”.

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