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Máquinas de livros no metrô de SP já venderam mais de 1 milhão de exemplares

por ricardo.fotios última modificação 26/04/2011 11h13
“Sinto que mudei o comportamento das pessoas na cidade”, diz Fabio Bueno Neto, criador das máquinas

Publicado em 26/04/2011 11h13

Última atualização em 26/04/2011 11h13

Máquinas de livros no metrô de SP já venderam mais de 1 milhão de exemplares
Viviane Ruiz lê contos de Machado de Assis enquanto espera o trem - Foto Renan Geishofer

RENAN GEISHOFER
Especial para o RROnline*


Há oito anos, o metrô de São Paulo ganhou máquinas que vendem livros a preços populares. Desde março de 2003, já foram vendidos mais de um milhão de livros. Só em março de 2011 foram 15 mil vendas. Os livros custam em média de R$ 2 a R$ 15. A maioria dos equipamentos fica na própria plataforma de embarque das estações. Ao todo são 38 máquinas no metrô paulistano e duas no metrô do Rio de Janeiro.

As máquinas ocupam um espaço de 2m² e assistem a passagem de milhares de pessoas todos os dias pelas estações. As “vending machines”, quando chegaram ao Brasil, ofereciam basicamente guloseimas e refrigerantes. Mas, no começo da década passada, o até então médico de formação e que já trabalhou nas Páginas Amarelas, Fabio Bueno Neto, teve a ideia de também vender livros nesses equipamentos.

“O sucesso nas vendas se dá pela soma de alguns fatores: o preço baixo, a localização, a facilidade da compra e a qualidade do produto oferecido”, avalia o idealizador do projeto. “Fazemos a compra dos livros em grandes quantidades. Aí conseguimos baratear esse custo final. Com as máquinas, reduzimos o custo de manutenção, pois o livro não fica ocupando lugar nas prateleiras, como ocorre nas livrarias”, completou.

Neto viu essas maquinas de venda automática pela primeira vez em 2000, na sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). “Por que não ter uma máquina que também venda livros?”, pensou. Depois desse dia, foram dois anos e meio de planejamento e estudo para que o negócio se concretizasse.

“Viajei pelos Estados Unidos, pela Europa e pela América Latina para ver se já tinha algo parecido nesses lugares. E vi que não tinha. Nem mesmo no Japão. Aí resolvi fazer”, contou.

No primeiro dia de funcionamento da máquina, na estação São Joaquim (Linha 1 – Azul), Neto perdeu uma noite de sono fazendo reparos. “Quando liguei a máquina às 22h, ela não funcionou. Passei a noite toda fazendo reparos”, lembrou. “Fiquei ao lado da máquina igual a um garoto que apresenta seu trabalho na feira de ciências da escola. Fiquei muito ansioso até ver a primeira pessoa comprando. Muitas pessoas comentavam que a máquina era legal, mas nada de grana. Até que no final do dia saiu o primeiro livro”, comemorou.

Neto é um dos mais de 3,5 milhões de usuários do metrô na capital paulista. “Não tenho carro e sou radical nisso. Não tenho mais paciência de dirigir e aproveito o trajeto no transporte público pra continuar trabalhando. Além de que é muito gostoso quando eu vejo alguém comprando um livro e falando bem do serviço, embora eu prefira não me identificar para a pessoa”, afirmou o inventor, que acredita ter mudado o comportamento da cidade.

Acervo - Os livros expostos são de temas bem variados. Há livros sobre tecnologia, romances, piadas e até mesmo a Constituição Federal. E por ter livros bastante conhecidos e vendidos, eles passam a ser ainda mais procurados. A DJ Maria Teresa Gomes é um bom exemplo. “Eu sempre compro esses livros. No momento eu preciso comprar “A Arte de Guerra”, de Sun Tzu, que eu tinha, emprestei e sumiu”, contou.

A estudante Giovanna Fernandes Rossi, sempre que passa pelas máquinas, confere para ver se há algum livro que ela goste. Ela também indica aos colegas de escola que também procurem esses livros. “Eu indico porque eu estudo em escola pública e tenho colegas que não têm muito dinheiro. E quando temos provas, eu falo para os meus colegas procurarem se os livros que vão cair na prova também estão à venda nessas máquinas”, disse.

“Eu já comprei mais de cinco livros e, alguns deles, como os sobre Sherlock Holmes, Teseu, Perseu e outros mitos eu comprei e dei para a minha namorada”, contou Pietro Bastrucci Garbini, namorado de Giovanna.

A designer digital Cristina Humeki também costuma usar a máquina e já contabiliza quatro exemplares: “Várias Histórias”, de Machado de Assis, “Poesias”, de Fernando Pessoa, “Sonetos”, de Pablo Neruda e “Perdas e Ganhos” (edição de bolso), de Lya Luft. Cristina é fã desses autores e “não importa onde estejam, eu sempre acabo comprando algum exemplar”, comentou.

“Isso é curioso, de certa forma, pois estamos acostumados a encontrar balas e salgadinhos nessas máquinas, não livros, o que torna a compra uma experiência minimamente interessante”, analisou Cristina. “Mas o acabamento dos livros não é bom e a grande quantidade de literatura nacional limita o público”, ponderou.

As amigas Viviane Ruiz e Sibele da Costa Martins voltavam para casa quando pararam em frente à máquina da estação Brigadeiro (Linha 2 - Verde) e compraram por R$ 2 o livro “Contos”, de Machado de Assis. “Foi a primeira vez que eu vi essa máquina. Eu não costumo vir pra esse lado de São Paulo porque eu moro em Carapicuíba. Vim pegar a minha filha que estava passeando e achei bem interessante esse jeito de comprar livros”, comentou Viviane.

Ainda na estação Brigadeiro, Robson Jesus Menezes comprou mais um livro para a sua biblioteca. “Eu costumo comprar livros mais nas livrarias, mas tenho pelo menos seis livros comprados aqui no metrô”, disse Menezes, que é leitor dos mais variados temas e que voltava pra casa no dia da compra.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

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