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Brasileiro volta a ser diarista para enfrentar a crise

por rodrigo.martani última modificação 14/06/2017 22h41
Emprego como doméstica é opção para cerca de 27% das mulheres no Brasil

Publicado em 14/06/2017 08h54

Última atualização em 14/06/2017 22h41

Brasileiro volta a ser diarista para enfrentar a crise
A diarista Maria Eleonora tem a rotina corrida; na foto, ela inicia a limpeza da faixada de uma das casas onde trabalha - Foto: Arquivo Pessoal

IAGO MARTINS
JULIA CENTINI
Especial para o Rudge Ramos Online*

A vida do auxiliar de caminhoneiro Kelvin Lima, 22, da motorista particular Sheyla Denisio Moraes, 43, e das empregadas domésticas Maria Eleonora da Silva, 47, e Luana Negreiros, 20, tem algo em comum: o trabalho como diaristas [recebem por dia] que, em meio à crise, é alternativa para buscar a sobrevivência.

Mas eles não são os únicos que vivem imersos nessa realidade. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2016, o setor que conta com mais diaristas é o de empregada doméstica, com cerca de dois milhões de trabalhadoras.

A doméstica Maria Eleonora da Silva, 47, de Santo André, faz parte dessa estatística. Ela trabalhou 26 anos com carteira assinada e nunca pensou em trabalhar como diarista. Até que em 2015 tudo mudou. Maria Eleonora foi dispensada pela fábrica onde trabalhava, alegando que a produção sofreu uma queda. Depois, quando foi chamada para retornar, engravidou e precisou recusar a oferta. “Fiquei 10 anos sem trabalhar. Para me ajudar, uma amiga me chamou para limpar a casa dela, então fui e acabei ficando.”

A experiência foi tão significativa que atualmente Maria Eleonora trabalha em cinco casas por semana e, no período em que o marido ficou desempregado, foi a diarista quem ‘sustentou’ a casa. “Recebo cerca de R$ 150 por faxina. É esse dinheiro que tem ajudado a me organizar.” 

Maria Eleonora também trabalha como motorista por meio dos aplicativos Uber e 99táxis - Foto: Júlia Centini/RRJ

Luana Negreiros, 20, de São Bernardo, aprecia a pintura em tela e até chegou iniciar o curso de artes visuais. Mas, em 2015, precisou deixar a graduação por problemas financeiros. Para sair da casa dos pais, a jovem começou a trabalhar, com carteira assinada, em um hostel, lojas e até em um restaurante. Para complementar a renda, Luana decidiu adotar o emprego doméstico nas horas vagas.

A diarista percebeu que a renda vinda da faxina poderia ser suficiente para se manter sozinha. “Notei que no mercado de trabalho os salários não são compatíveis com as funções. Com a faxina, ganho mais do que quando tinha a carteira assinada.” 

Luana vê outros pontos positivos financeiramente no trabalho diário. “Faço o meu horário e minha rotina. Além disso, consigo administrar melhor o que ganho e com o que gasto.”

Alternativas
O trabalho de empregada doméstica não é o único que ganha espaço como diaristas. O auxiliar de caminhão Kelvin Lima, de São Bernardo, é exemplo disso. Formado nos cursos técnicos de comércio exterior e de empilhador, o jovem ficou dois anos em busca de emprego de várias formas: foi de agência em agência, entregou currículo pelas ruas do ABC e se cadastrou em sites de emprego.

Percebendo a dificuldade, Kelvin aceitou o convite do cunhado Alexandre para ajudar em entregas de encomendas. “Esses ‘bicos’ são o que restam. Se eles acabarem, vamos ter que começar a roubar para viver”, disse Lima.

O auxiliar está noivo há dois anos e sente o aperto de não trabalhar com carteira registrada. Isso porque nem sempre seu cunhado precisa de ajuda. Ainda assim, garante que o dinheiro é fundamental para manter as contas em dia. “Hoje, o que me salva financeiramente é o trabalho de auxiliar. Tenho contas a pagar e pretendo casar em 2018.” A cada dia trabalhado, Lima recebe cerca de R$ 50.

Sheyla Denisio, 43, trabalhou cerca de 20 anos como frotista em uma concessionária. Há um ano, ela mudou de atividade. Mas ainda teve um carro na sua frente, só que de outra forma: atrás de um volante. “Escolhi o trabalho de motorista de aplicativos por juntar duas coisas em uma só: preciso de uma renda e gosto de dirigir.”

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A motorista do Uber disse que enxergou na direção a oportunidade de ter uma renda sem carteira assinada. Ela conta que o trabalho diário pode substituir um salário fixo. Segundo a motorista, é possível ganhar entre R$ 200 e R$ 250 por dia fazendo viagens pelo ABC, São Paulo e litoral. Sua renda mensal gira em torno de R$ 2.500 a R$ 3.000. 

Mesmo gostando da rotina de trabalho que escolheram, Luana, Kelvin, Sheyla e Maria Eleonora continuam em busca da carteira assinada. “Quero conseguir algo melhor. Então, quando tenho tempo livre, continuo entregando meu currículo em agências. Essa semana fui em duas”, afirma a diarista Maria Eleonora.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

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