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Transição capilar valoriza fios naturais e acaba com protagonismo do cabelo liso

por leticia.rodrigues1 última modificação 05/09/2018 16h51
Mulheres adotam procedimento estético também como processo de afirmação de identidade cultural

Publicado em 05/09/2018 16h51

Última atualização em 05/09/2018 16h51

Transição capilar valoriza fios naturais e acaba com protagonismo do cabelo liso
A autoaceitação é um processo que exige paciência, e Alice de Carvalho ilustra isso - Foto: Alice de Carvalho/Arquivo Pessoal

LETÍCIA RODRIGUES
Da Redação*

Elis Regina já entoou a clássica "Nega do cabelo duro/ Qual é o pente que te penteia?", música de David Nasser e Rubens Soares composta para o carnaval de 1942. Depois de mais de 70 anos, esses versos são considerados bastante controversos, afinal, o padrão social que impõe fios alisados está perdendo força. Dados divulgados esse ano pela Agência Heads em parceria com a ONU Mulheres, mostram o aumento de 232% na busca por cabelos cacheados no país em 2017. Isso representa um movimento de autoaceitação do público feminino em relação a uma das características mais marcantes: o próprio cabelo.

Em busca da valorização dos fios naturais, muitas mulheres adotam o procedimento estético conhecido como transição capilar. Ele consiste em hidratações, cortes e até tratamentos caseiros que trazem de volta o cabelo cacheado ou crespo, como explica a profissional Deise Angelos, que trabalha com os chamados penteados afro há 19 anos, e que realizou a transição há três anos. “Com 14 anos, eu achava que sempre tinha que alisar. Na verdade, eu não conhecia meu cabelo natural”.

Tábata é uma das mulheres que passaram pela transição - Foto: Tábata Alves/Arquivo Pessoal

Casos mais comuns relatados de quem procura alisar o cabelo são de pessoas que, em algum momento da vida, sofreram bullying. As ofensas marcam de forma significativa quem é alvo de comentários depreciativos. A estudante Tábata Alves, 23, desde pequena foi alvo de comentários maldosos por causa do cabelo. “Eu passava química pela frustração de ensino fundamental. De crianças comentando sobre o meu cabelo, de ser a diferença por ter cabelo enrolado e outra menina ter cabelo liso”. O alisamente era incentivado também pela mãe dela, que acreditava ser mais fácil para cuidar.

Quando Tábata conheceu o procedimento de transição capilar, começou a considerar como uma maneira para que voltasse a se aceitar. Ela conta que cortou o cabelo após receber estímulo da mãe de uma melhor amiga, mas vivenciou novamente os tempos de escola. “Os comentários que você vai ouvindo são bem chatos. As pessoas nunca vão parabenizar. São poucas. A maioria critica você pelo tamanho do seu cabelo. Elas não incentivam.”

Apesar das críticas, a estudante ressalta a importância da transição capilar hoje que, para ela, vai além de um procedimento estético: “É bom para as crianças perceberem que não tem problema ter cabelo enrolado ou cabelo liso. O cabelo dela não deixa de ser bonito”. Outro caso de autoaceitação é da participante do Coletivo Negro da Universidade Federal do ABC Alice de Carvalho, 19, que optou por voltar aos cachos porque não tinha mais dinheiro para a química.

Ela se inspirou em casos de mulheres que começaram a assumir o cabelo natural. “Não é somente para você deixar um tipo de cabelo e usar outro, mas sim uma afirmação política sua. Quando você coloca seu cabelo em jogo num lugar onde rejeitam isso, é muito importante para se afirmar como uma pessoa negra na sociedade.”

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Outro lado: falta de coragem e resistência

A estudante Izabela Lima, 24, decidiu alisar o cabelo quando tinha dez anos. Comentários racistas e preconceituosos entre as crianças na escola a estimularam para que mudasse: “quando eu alisava, era um modo de força para mostrar que, na verdade, eles estavam errados - e que meu cabelo podia ser bonito”. Por conta disso, ela acredita que é preciso ser forte para ouvir qualquer crítica, porque “com toda certeza vão te criticar, com toda certeza vão deixar você para baixo”.

Izabela continua alisando por acreditar ser mais fácil de cuidar, apesar de reconhecer os malefícios causados pelo formol, o produto químico usando na escova progressiva. “Eu enxergo esse processo de alisar como uma prisão, uma dependência. É desanimador porque você perde o dia todo, e no final às vezes, você nem fica satisfeita com o resultado”, desabafa.

Sobre a transição capilar, ela se interessa, mas não tomou iniciativa para dar esse passo. “Às vezes fico vendo fotos de transições e como [os cabelos] ficam bonitos, mas não tenho coragem. Eu realmente espero que um dia eu consiga aceitar o formato do cabelo, me amar mais e realmente me libertar.”

*Esta reportagem foi produzida por estagiários do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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