Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Comportamento / 2018 / Número de pretendentes interessados em adotar é superior ao de crianças na fila de espera

Número de pretendentes interessados em adotar é superior ao de crianças na fila de espera

por luchelle.furtado última modificação 12/06/2018 16h39
Principal motivo da não redução do número de crianças em abrigos são exigências traçados por pretendentes

Publicado em 08/06/2018 18h45

Última atualização em 12/06/2018 16h39

Número de pretendentes interessados em adotar é superior ao de crianças na fila de espera
Perfis traçados por pretendentes na fila de adoção dificultam a diminuição das crianças e adolescentes que esperam por um novo lar - Foto: Giulia Marini

LUCHELLE FURTADO 
Da Redação*

Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), para cada criança na fila de espera para um lar há, ao menos, cinco famílias dispostas em acolher. Mas, o perfil traçado pelos pretendes na hora da escolha como a cor da pele, idade, sexo e sem a presença de irmãos ou portadores de alguma deficiência são os fatores predominantes para que o processo de adoção não se desenvolva.

A professora de Direito Civil Claudete de Souza ressalta que o país teve uma grande mistura de raças e que esses perfis escolhidos não condizem com a nossa realidade. “Apesar de haver um número muito maior de pessoas que querem adotar nós temos uma incompatibilidade. O grande problema que ocorre no Brasil é que as pessoas que querem adotar traçam um perfil que não é a nossa realidade. Temos uma população que é na sua grande maioria parda, e as pessoas exigem uma criança branca e loira”.

 Claudete aponta que as mesmas exigências não são feitas por pessoas de outras nacionalidades, que optam em adotar no Brasil. “Os estrangeiros adotam mais facilmente crianças pardas. Eles não têm o mesmo preconceito que o próprio brasileiro tem”.

Ainda de acordo com a professora, com o passar dos anos, as crianças que antes já não eram prioridade na hora da escolha ficam em uma situação ainda mais difícil. Na maioria das vezes, os pretendes optam por crianças com até três anos de idade, pelo fato de ser mais fácil a socialização e a introdução nos hábitos familiares. “Aquelas crianças que são abrigadas vão crescendo e após os oito ou nove anos quase ninguém quer adotar mais. Temos esse problema que vai gerando cada vez mais crianças que ficam lá até os 18 anos sem conseguir uma família”.

Outro fator apontado pelo CNA é que, atualmente, existem 47 mil crianças e adolescentes que vivem em abrigos ou institutos, mas somente 7,3 mil estão aptos para encontrar um lar. Isso ocorre, porque muitas crianças que estão em abrigos não são órfãs, mas se encontram nesta situação por algum motivo de maus tratos, abandono ou negligência dos responsáveis pela guarda, como fala a coordenadora técnica da entidade de acolhimento Lar Escola Pequeno Leão, Valéria Giolo Prado. “Nossa função é acolher crianças e adolescentes que foram encaminhadas pela vara da infância pelos mais diversos motivos”.

Valéria explica que a orientação para o acolhimento é feita quando os pais violam os direitos básicos dos jovens como o acesso à educação, saúde e segurança e que esses fatos ocorrem muitas vezes devido ao alcoolismo ou à dependência química. “Fazemos isso até que essas famílias se reestruturem e estejam aptas a receber essas crianças novamente. Na impossibilidade disso, a gente trabalha com a família extensa [que é quando algum familiar conquista o direito de ter a guarda da criança] com tios ou avós. Então, só depois de todas as tentativas se esgotarem é que a criança é encaminhada para a adoção”.

A coordenadora também ressalta que antes da guarda ser retirada, as famílias são atendidas e passam por um processo de reestruturação a curto prazo de modo a não perder o direito do filho. “Mesmo que surja uma denúncia, a equipe do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) realiza um trabalho para inibir a necessidade do acolhimento. É feito um atendimento psicossocial aqui na entidade (Lar Escola Pequeno Leão) e essa família é encaminhada para a rede de serviço do município. Em casos de drogas vão para o CAPS, se for de saúde para as UBS, e assim por diante”. 

LEIA MAIS: Polvo de crochê traz tranquilidade para prematuros na UTI

Um novo lar

Izabela Lima, 24, foi adotada ainda na infância. Ela conta que seus pais biológicos não tinham condições financeiras nem psicológicas de criá-la, pois seu pai não era presente e sua mãe era alcoólatra e que foram seus padrinhos que ajudaram no processo de adoção, já que estes eram primos dos pais biológicos e amigos dos futuros pais adotivos. “Uma vez meus pais adotivos foram viajar para a cidade deles [padrinhos] e acabaram me conhecendo. A minha mãe sempre quis uma criança, então meus pais conversaram sobre o assunto e me adotaram”.

Ela conta que cresceu sabendo que seus pais não eram biológicos e que em alguns momentos da vida não entendia o porquê ela era adotada, o que causava confusão e até mesmo revolta na sua cabeça. “Eu não entendia o porquê eu tinha que ser a única que era adotada. Até que um dia que minha mãe me explicou e disse para mim que foi um ato de amor. Ela conta que quando minha mãe biológica me entregou para ela, ela chorava muito, mas sabia que eu ia estar melhor”.

Izabela conta que a relação com os pais é ótima e se sente agradecida por tudo o que eles fizeram por ela. Dentre tantos sonhos, ela também pretende um dia adotar o seu próprio filho. “É um amor que ninguém entende, não dá para explicar, é diferente”.

A adoção de Igor Cardoso, 19, aconteceu ainda na infância também. Com apenas quatro meses sua mãe biológica o entregou para o pai, que era alcoólatra e não tinha condições de criá-lo. Ainda neném ele pegou uma pneumonia e ficou internado por algum tempo. No hospital, seus tios biológicos que viriam a ser seus futuros pais, viram sua situação e decidiram o acolher. Cuidaram dele até que melhorasse e, posteriormente, o entregaram para seu pai biológico. Mas, em pouco tempo, Igor adoeceu novamente e foi quando seus tios decidiram de vez adotá-lo.

Igor cresceu sabendo que era adotado e quem era seu pai biológico, a relação entre eles sempre foi muito boa e isso nunca foi um problema. O único contato que teve com sua mãe biológica aconteceu quando ele já tinha dez anos e queria saber a verdade que a mãe teria para contar. Após dois anos de busca, por meio da vara de São Caetano, eles a localizaram em São Bernardo e marcaram um encontro, mas depois disso nunca mais se viram.

Ele afirma que também tem vontade de adotar. “Tenho mais vontade de adotar uma criança do que ter um filho mesmo, de forma natural. Eu acho que é o que mais me cativa a fazer as coisas que eu faço. Ter um futuro para que eu possa adotar uma criança e dar um futuro para ela assim como eu tive oportunidade”.

*Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo

Ações do documento