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Busca pela aparência perfeita pode causar doença que atinge 3% da população

por luchelle.furtado última modificação 30/08/2018 13h41
O transtorno se agrava com o uso excessivo de aplicativos de manipulação visual

Publicado em 27/08/2018 16h25

Última atualização em 30/08/2018 13h41

Busca pela aparência perfeita pode causar doença que atinge 3% da população
Expectativa exagerada com as fotos manipuladas podem levar a cirurgias plásticas desnecessárias - Foto: Luchelle Furtado/RRO

LUCHELLE FURTADO
Da Redação*

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é uma doença que pode atingir pessoas excessivamente preocupadas em seguir os padrões de beleza. Esse quadro se agrava quando os filtros dos aplicativos fotográficos afetam a compreensão da autoimagem. Segundo uma pesquisa da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, a situação é cada vez mais comum e afeta quase 3% da população global, o que significa que a cada 50 pessoas, seja homem ou mulher, uma sofre de TDC. A consequência imediata desse quadro é um aumento na procura de cirurgias plásticas desnecessárias para que a pessoa se pareça com suas “fotos ideias".

O comportamento foi chamado de “dismorfia do Snapchat”, já que este foi o primeiro app a lançar efeitos direcionados para a manipulação estética das fotos de rosto. Essa tendência preocupa, uma vez que, cada vez mais pessoas confundem o real com a fantasia do que seria uma aparência ideal, como aponta a psiquiatra Jessica Barbosa. “Estamos vivendo a era das imagens. Há um boom de publicações em redes sociais com a valorização excessiva da aparência em detrimento do que cada um realmente é, pensa ou acredita", diz Jessica. A psiquiatra tem recebido em seu consultório pacientes encaminhados por cirurgiões plásticos. "São pessoas que procuram incessantemente o nariz perfeito para ficar melhor em selfies, o bumbum sem marcas, o abdômen chapado e esquecem que a felicidade não tem nada a ver com isso”.

Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) junto com o Instituto FSB Pesquisa, o Brasil é o quarto país que mais consome produtos de beleza no mundo. Para Jessica Barbosa, estereótipos impostos pela “indústria da beleza” são fatores que interferem no comportamento de cada um e que podem causam riscos. “Cria-se uma expectativa que nem sempre é atingida. A insatisfação leva a quadros depressivos, a restrição da socialização e a sentimentos de inferioridade em relação aos demais”.

Antes e depois feito no aplicativo fotográfico AirBrush que modifica traços faciais

Semelhante opinião tem o cirurgião plástico Giancarlo Dall’ Olio, que explica que a busca por esses procedimentos cirúrgicos muitas vezes é motivada pelo desejo do paciente parecer mais "bonito" nas redes sociais. “Algumas pacientes me mostram fotos com perfis fotográficos de celebridades. Cabe ao especialista conversar e adequar a expectativa à realidade na consulta médica”.

A insatisfação com a aparência leva a comportamentos extremos e inseguros, como fazer procedimentos arriscados, em locais inapropriados e sem o acompanhamento de um médico especializado. “Não existem soluções milagrosas, nem valores baratos. Essas soluções rápidas e sem supervisão devem ser sempre evitadas. Não existe mágica, existe trabalho, especialização, estudo e formação adequada”, alerta o cirurgião plástico.

A cirurgia plástica não é um problema

Os procedimentos estéticos, desde que sejam feitos de forma segura, adequada e com acompanhamento médico, não geram riscos ou acarretam em problemas, como ressalta a psiquiatra. “Penso que tudo o que for com moderação seja válido. Se for para trazer o bem estar, aumentar a autoestima, não vejo empecilho”.

Este é o caso do gerente comercial Alessandro Oliveira, 42, que realizou uma lipoaspiração abdominal devido ao incomodo que sentia com o excesso de gordura. “Minha barriga não era grande, mas me incomodava. Minha rotina não é saudável porque trabalho muito e estou sempre sentado e viajando", diz. Ele conta que o procedimento foi feito de forma segura, por especialistas referenciados. 

A estudante de direito Suéllen Merces, 24, também fez uma lipoaspiração quando estava com 16 anos porque se sentia frustrada com a aparência de sua barriga. Posteriormente a este procedimento, ela realizou a cirurgia de redução de mama, pois achava que o tamanho dos seios não estava proporcional ao seu corpo. Ela conta que faria outra intervenção estética. “Sou vaidosa e procuro me sentir bem. Não me preocupo com o que a sociedade vai achar ou não.”

Suéllen ainda ressalta que não se inspira em ninguém e fala do perigo que as redes sociais podem causar devido a essas comparações. “Eu evito ficar me comparando. Não só fisicamente, mas com a vida das pessoas também, porque nas redes sociais a gente põe o que quiser, mas nem sempre é a realidade”.

*Esta reportagem foi produzida por estagiários do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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