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Diretor de banco chega a receber 220 salários mínimos mensais

por ricardo.fotios última modificação 25/05/2011 09h15
Os três maiores bancos do país pagaram cerca de R$ 1,2 milhão mensais a diretores

Publicado em 24/05/2011 20h25

Última atualização em 25/05/2011 09h15

Diretor de banco chega a receber 220 salários mínimos mensais
Magnus Ribas Apostólico, diretor de relações trabalhistas da Febraban - Foto: Divulgação

Especial para o RROnline*

No ramo financeiro, os salários mais altos são os de diretores e conselheiros de banco. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ligada ao Ministério da Fazenda, registra o quanto as empresas de capital aberto pagam aos seus patrões. A reportagem garimpou informações dos dois maiores bancos do País, o Itaú e o Bradesco, além do espanhol Santander, número três no ranque brasileiro das instituições financeiras.

Juntos, em 2010, os três bancos pagaram R$ 507,1 milhões aos seus 146 diretores. Isso dá uma média de R$ 1,2 milhão por mês, em salário e bônus, para cada executivo. O montante equivale a cerca de 220 salários mínimos ou 495 bolsas-família (considerando o teto do benefício, de R$ 242). Em outras palavras, o dinheiro que 220 brasileiros ganham juntos (R$ 1,2 milhão, no mínimo), um diretor de banco ganha sozinho, mensalmente. A diretoria estatutária mais bem paga é a do Itaú (R$ 126,7 milhões, em 2010), com 16 membros. Depois, a do Bradesco, com R$ 138 milhões para 82 diretores. Finalmente, a do Santander, onde se recebe menos: R$ 242,4 milhões divididos entre 48 banqueiros.

Nos conselhos de administração — órgãos responsáveis por aprovar ou não a ação das diretorias —, o pagamento não chega a tanto. No ano passado, os 24 conselheiros administrativos dos três bancos receberam R$ 44,3 milhões. Na média entre os três, a remuneração mensal de cada membro foi de R$ 495.833. Mas o valor específico varia de banco a banco: o Bradesco pagou R$ 4,5 milhões para cada um dos sete conselheiros, enquanto o Santander dividiu R$ 4,1 milhões entre nove membros. No Itaú, a remuneração anual foi de R$ 8,2 milhões para oito conselheiros.

As cifras acima superam em muito os salários do poder público. A renda média de um diretor do Itaú, por exemplo, é 18 vezes maior que o teto da República, que pertence aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), onde se ganha R$ 26.723 por mês. “Toda remuneração tem dois objetivos: compensar o nível de responsabilidade e os resultados obtidos e manter o quadro”, disse Magnus Ribas Apostólico, que cuida de questões trabalhistas na Febraban.

Todo ano, o setor financeiro realiza uma convenção nacional, da qual participam banqueiros e bancários, a fim de negociar. A última negociação, entre agosto e outubro passados, rendeu um aumento de 16,3% no piso da categoria e 7,5% nos salários dos trabalhadores. “Foi uma das melhores campanhas salariais dos últimos tempos”, disse Rita Berlof, sindicalista e funcionária do Santander. “Não existe generosidade da parte dos banqueiros. Tudo aquilo que o trabalhador tem, foi arrancado com muita luta”, afirmou.

Em abril deste ano, os acionistas majoritários do Santander estabeleceram uma remuneração anual de R$ 283,5 milhões para seus diretores e conselheiros. Logo, cada um dos 62 dirigentes terá uma renda média de R$ 381 mil por mês, até o fim de 2011. Esse valor é 224 vezes maior que o atual piso do setor bancário (R$ 1.700). Justamente, “o ambiente do qual emerge a luta de classes é o da diferenciação da renda”, observa José Faro, professor de História da Universidade Metodista e da PUC, ambas em São Paulo. A tensão existente entre as classes sociais se deve à diferença dos salários e dos cargos, como esclareceu Faro. A permanência de dois pólos desiguais determina uma luta eterna, mas hoje enfraquecida — na visão do professor —, entre os que vendem sua força de trabalho e aqueles que a compram.

Rita Berlof citou as políticas neoliberais (nos anos ’90) e o posicionamento dos jovens empregados hoje como fatores contrários à conquista de direitos na arena do trabalho. “O jovem é chamado de colaborador e gosta, porque colaborador não é empregado”, disse Rita. Essa atitude demonstra falta de consciência de classe (categoria profissional) e imediatismo (falta de empenho no longo prazo profissional), segundo a análise da sindicalista. Esse parece ser o espírito da terceirização. A indiferença dos jovens e a presença cada vez maior de terceiros, no interior dos bancos, fazem parte de um processo de “fragmentação” do trabalho — um termo que a “companheira” de Rita, Ana Tércia, utilizou.

Miguel Pereira, o secretário de organização da Contraf, também atesta: “Todo trabalho que não é focado no negócio, na receita, põe-se para fora”. Isso vale para a terceirização, como também para a proliferação de “correspondentes não-bancários” (agentes financeiros independentes). A Febraban mostra que eles cresceram 38% em 2009, chegando a 150 mil no País. Por meio desses colaboradores, os bancos encontram lucro nas periferias e as agências ficam reservadas para os clientes com maior saldo. “É corte de classe. Preferem uma agência vazia com grandes negócios do que uma agência cheia de gente pobre”, acusou Pereira. Daí o surgimento dos serviços com foco em atendimento eletrônico e personalizado Itaú Personalité, Van Gogh, do Santander, e Bradesco Prime.

O sindicalista chama de “estratégia de holding” o distanciamento que se dá, no setor financeiro, entre capital e mão de obra. Como se sabe, holdings são conglomerados empresariais em que há somente uma administradora e diversos satélites. Nesse caso, os satélites dos bancos seriam as empresas terceirizadas e os correspondentes não-bancários. Ambos funcionam sob controle, mantém a produção e dão receita, mas custam menos para a empresa do que a expansão orgânica, que envolveria mais bancários e menos lucros.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman, um dos mais respeitados no mundo de hoje, alerta para uma separação entre capital e trabalho. No tempo das fábricas, segundo o filósofo, o trabalhador e o patrão viviam juntos, pois dependiam um do outro. No tempo das finanças e da tecnologia, essa proximidade se atrofiou, tornando-se “líquida”, como todas as relações humanas — Bauman cunhou o termo “modernidade líquida” para designar a era em que vivemos. O banqueiro não depende do bancário para faturar, e ao bancário falta força de mobilização. A luta de classes está mais difícil e impessoal do que nunca.

“A relação entre capital e trabalho continua sendo conflituosa. Mas na contemporaneidade, uma série de atributos de natureza cultural parece ter arrefecido essa relação”, escreveu o professor José Faro, por e-mail. O doutor reconhece a distensão da luta de classes, em consequência de elementos como o consumismo e a crise de ideologia, que esvanecem o sentido de categoria, grupo ou classe. O caso dos bancos é emblemático. A modernidade transformou para sempre a outrora simples oposição entre capital e trabalho. A imagem dos donos da indústria versus os operários em greves é transfigurada para uma relação muito mais fria: poucos banqueiros crescentemente milionários e quase meio milhão de bancários a fazê-los enriquecer. (BRUNO CIRILLO)

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

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