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Bancários reconfiguram luta de classes no Brasil

por ricardo.fotios última modificação 25/05/2011 10h17
Sindicalistas acusam patrões de cortar custos e prejudicar o trabalho

Publicado em 24/05/2011 20h20

Última atualização em 25/05/2011 10h17

Bancários reconfiguram luta de classes no Brasil
A Contax é líder brasileira em terceirização de call center, cujo modelo de negócio é condenado pelos sindicatos da categoria - Foto: Seeb/SP

BRUNO CIRILLO
Especial para o RROnline*


Diante de uma inflação no limite do esperado, sindicatos discutem internamente os problemas que ameaçam a renda e a estabilidade dos trabalhadores, mas adotam uma postura mais defensiva que ofensiva. É histórica a cautela sindical em momentos de incertezas quanto ao futuro do emprego — com as privatizações dos anos 1990, por exemplo, os metalúrgicos do ABC passaram a protestar menos e a negociar mais. O Sindicato dos Bancários ilustra bem o caso atual: com uma agenda cheia de fóruns e mesas temáticas, a entidade se empenha em combater as terceirizações e outras inseguranças da categoria. A eterna luta de classes, tradicionalmente associada à indústria, dá as caras também no setor financeiro, em que diretores chegam a receber por mês o equivalente a mais de 200 salários mínimos.

“Nosso setor trata diretamente com o detentor do capital, que é o banqueiro. A nossa luta de classes é muito mais dura porque estamos lidando com quem decide se injeta ou não recursos nos demais meios de produção”, afirmou Miguel Pereira, secretário de organização da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf). O órgão sindical acusa os banqueiros de uma série de injustiças, entre elas, o uso da trotaividade da mão de obra para a redução de custos com pessoal.

Em 2010, os bancos brasileiros contrataram 57.450 pessoas e demitiram outras 33.418. A média salarial dos funcionários admitidos gira em torno de R$ 2.188. Já o ganho dos demitidos tinha média de R$ 3.056, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos (Dieese). Essa diferença entre as médias, em que o novo funcionário ganha 37,5% a menos que o antigo, é motivo para a preocupação dos sindicatos da categoria. “Há um empobrecimento do trabalho bancário”, afirmou Pereira, que representa a organização nacional.

Quem discorda é o diretor de relações trabalhistas da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Magnus Apostólico. “Sempre o salário de entrada será menor que o de saída. Os que saem já cresceram na carreira e ganham mais”, justificou Apostólico. Os funcionários novos, por outro lado, ganham menos porque são contratados na “base da pirâmide”, segundo o diretor. “Eu promovo um caixa e contrato outro caixa... ou não estamos dando oportunidade para quem está dentro da organização”, disse.

No ano passado, o cargo que mais gerou postos de trabalho foi o de escriturário, posicionado na “base da pirâmide”, como quer Apostólico. Foram 34.454 contratações e 11.432 demissões. O número de vagas quase triplicou, mas o salário médio perdeu 49% de valor. Os funcionários “desligados” ganhavam em média R$ 2.595 mensais, já os escriturários admitidos entraram por R$ 1.319. A subtração prova que a rotatividade barateou os salários, reduzindo custos administrativos.

No entanto, para os cargos mais altos do setor, como no caso dos supervisores, a remuneração média cresceu 50%, nas rotações feitas em 2010, de acordo com os dados do Dieese.

Em uma reunião da Contraf, no Centro de São Paulo, o sindicalista Pereira foi enfático ao acusar os banqueiros. “Demitem para a redução de custos, contratam com menores salários”. O sindicalista observou, também, que o capital se vale de artimanhas, como a rotatividade e a terceirização, na luta de classes no setor financeiro.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

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