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Manifestações retratam resistência de movimentos folclóricos no ABC

por aluno última modificação 29/09/2010 10h11
Grupos populares mantêm suas tradições e lutam pela divulgação de seus trabalhos

Publicado em 22/09/2010 11h15

Última atualização em 29/09/2010 10h11

Manifestações retratam resistência de movimentos folclóricos no ABC
Grupo de congada do Parque São Bernardo no aquecimento para a apresentação no Festival Revelando São Paulo - Foto: Tamires Teodoro

CARLOS FERREIRA
LUKAS KENJI
TAMIRES TEODORO

O ritmo do batuque contagia o público, pessoas de todas as idades dançam e riem conforme as coreografias e cantorias realizadas. Os grupos de congada e moçambique animam o público presente no festival Revelando São Paulo, que tem como objetivo mostrar a resistência dos movimentos culturais e folclóricos de todo o Estado. São Bernardo, por exemplo, possui seis grupos de cultura popular, dos quais quatro se apresentaram na última edição do festival paulistano, que aconteceu na segunda semana de setembro.

Os grupos de folia de reis, quadrilha, congada, moçambique e violeiros  representaram o município durante o evento. Mas para realizarem suas participações em comemorações como esta, os artistas devem antes de tudo manter seus movimentos culturais vivos.

Repassando as tradições de pai para filho, os grupos, que têm em média 60 anos de existência, já estão na terceira geração de familiares e agregam, além de parentes próximos, pessoas da comunidade. As características das manifestações têm um traço definido pela forte presença de migrantes, como conta Neuza Rodrigues Gomes, vice-presidente da Missão Paulista de Folclore. “Existe em São Bernardo muita influência da migração dos mineiros, por conta disso a congada é algo muito relevante para a cidade”.

Congada - Com forte influência das culturas africanas e religiosidade da Igreja Católica, mas com nacionalidade brasileira, a congada se tornou uma manifestação em todo o país. O primeiro registro do movimento no Brasil está no livro “Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas”, de 1711, escrito pelo padre André João Antonil. As apresentações simbolizam a luta dos jesuítas contra os mouros do século XVI e a coroação do rei e da rainha do Congo e ao mesmo tempo uma homenagem aos santos Benedito e Nossa Senhora Aparecida.

O Grupo de Congada do Parque São Bernardo foi criado em 1981. Trazida do sul de Minas Gerais por Benedito da Silva Lemes, o Ditinho da Congada, a manifestação se adaptou à cidade e durante quase três décadas representa a cultura afrodescendente. Atualmente conta com a participação de 45 pessoas que não dependem das apresentações para sobreviver. “Todos trabalham em outras funções. Seria um sonho viver só com a congada, mas isso não é possível. Por vezes não recebemos cachê, vamos apenas com o transporte e alimentação bancados pelo evento, isso quando não temos que tirar do próprio bolso”, contou Ditinho. “Recentemente, fizemos uma apresentação em Minas Gerais, gastei R$ 2.500. Seria interessante termos um auxilio, mas não queremos depender do poder público para manter o grupo. A liberdade não tem preço, e hoje o que mais prezamos em nosso grupo é essa liberdade de expressão”, completou.

Além dos cachês baixos, que não auxiliam a compra de novos instrumentos e uniformes, existe a falta de planejamento para a divulgação. Ditinho afirma que ficou conhecido na região e que as pessoas sabem o que é a Congada do Ditinho, mas não conhecem o significado, apenas gostam da batucada.

“Precisamos educar nossas crianças e a cultura dá condições para isto. Cultura é mais que manifestação, cultura é participação popular, envolvimento, conhecimento. Não temos visibilidade, não existe um planejamento para a inserção da cultura popular nas escolas e no cotidiano das pessoas. O que queremos não são apenas apresentações, são projetos que mostrem todo o contexto cultural”, afirmou Ditinho.

  • Veja abaixo trechos das apresentações dos grupos de congada, moçambique e samba-de-bumbo

 

 

 

Moçambique – Também resultante da miscigenação da cultura portuguesa com a africana, o moçambique tem muitas semelhanças com a congada, representa a luta dos mouros com os jesuítas, a coroação dos reis do Congo e a devoção a Santo Benedito e Nossa Senhora Aparecida. A diferença é que a batalha é simulada com bastões menores e se dá entre épocas e locais distintos.

Em 1945, vindo da cidade de Cunha, interior de São Paulo, José Roberto Feliciano da Silva deu inicio as manifestações da Cia. de Moçambique Família Feliciano. Quando faleceu em 1985, a companhia teve um período de recesso e voltou a se apresentar apenas no ano de 2000, após a visita de Gracinda Aparecida Feliciano, filha de José Roberto, a uma exposição de cultura popular.  A integrante ao se interessar pela reorganização da manifestação se tornou a representante da rainha do congo na companhia. Essa nomeação faz com que durante a apresentação ela supervisione as batalhas e seja reverenciada pelos demais integrantes.

Gracinda conta que faltam projetos sobre o moçambique em São Bernardo e que a melhor forma que encontrou para manter o grupo fazendo apresentações é atrair a maior quantidade de pessoas possíveis, principalmente crianças. “Hoje temos em nosso grupo bisnetos e tataranetos de meu avô. As crianças se interessam primeiro pelas músicas, depois que vão conhecendo o significado da celebração”, disse Gracinda.

Segundo Gracinda, antes dos movimentos populares de São Bernardo serem levados para fora da cidade deveria haver uma valorização e estruturação. “Hoje não temos nenhum projeto voltado para este lado, com a atual gestão temos um pouco mais de abertura, mas se desejarmos tocar em algum evento nós é que devemos entrar em contato com a prefeitura e arcar com as despesas. Utilizamos o mesmo uniforme há doze anos e nossos instrumentos foram conseguidos por meio de doações”, afirmou.

O grupo recebe cachês de no máximo R$ 1.000, que servem para o transporte e alimentação dos componentes. Formado por 18 pessoas e com apresentações esporádicas, todos os membros tem uma profissão paralela ao movimento e fazem dele um lazer e não uma ocupação. “Não conseguimos viver com as apresentações. Conciliar com o trabalho de todos não é fácil, mas não desistiremos. Estamos lutando há muito tempo, o negro é resistente, não iremos desistir agora”, falou Gracinda

 

  • Ouça abaixo como o único grupo de samba-de-bumbo de Mauá, o Samba Lenço, luta para manter suas apresentações.

 

 

Reivindicação – Após perceberem que não havia a dedicação necessária nem políticas publicas adequadas para as questões das manifestações culturais na cidade, os seis grupos de cultura popular de São Bernardo se reuniram este ano e criaram uma frente de reivindicação para seus direitos o Coletivo de Cultura Popular de São Bernardo.

Segundo Neuza Borges, agente cultural de São Bernardo, é importante que haja uma atenção maior das autoridades para este assunto e que a cultura popular seja respeitada como patrimônio. “O interesse não é o de dependência do poder público, mas sim uma divulgação dos trabalhos. É necessário que os artistas populares de São Bernardo sejam reconhecidos como os demais artistas que existem no mercado. As ações públicas se mostram mais importantes nos movimentos populares, justamente por eles não terem o apoio do poder privado e manterem as tradições do município”.

Para Neuza, não é necessário que haja uma valorização forçada. A agente cultual acredita que as pessoas não precisam ser forçadas a gostar do estilo musical ou dos eventos realizados, mas é importante que o habitante de São Bernardo conheça suas raízes culturais, que saiba a importância dela e do que se trata. “Nós temos que criar políticas afirmativas, é preciso que haja ações consistentes. A arte popular sobrevive independentemente, mas o poder público deve ter um cuidado especial com ela, porque todos ganham. Esse tipo de cultura não deixa as coisas superficiais, ao contrário agrega valores sociais e culturais”.

Para o músico Zé Campelo, membro do Coletivo de Cultura e criador de projetos que envolvem o folclore com as crianças, é importante o envolvimento da cultura popular nas escolas. “A música é um intercambio entre a literatura e os costumes antigos. A intenção é levá-la para as escolas. Os moradores da cidade já têm uma grande cultura, ela apenas está adormecida. É possível mostrar a nossas crianças o passado para que ele não seja esquecido”, conclui.

Serviço

Saiba como encontrar os grupos folclóricos do ABC

Grupo de Congada Parque São Bernardo
Responsável: Ditinho
Fone: 4330-6351
Rua: Paula Souza, 791
Parque S. Bernardo - SBC

Samba Lenço
Responsável: Ana Rosa da Rocha
Fone: 4541-3751
Avenida: Guerino Boscariol, l299
Jardim Zaíra - Mauá

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