Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Entretenimento / 2015 / 06 / Fanzines fazem parte da cultura do ABC

Fanzines fazem parte da cultura do ABC

por gabrielli.silva — última modificação 16/06/2015 09h01
As publicações “Hiperespaço” e “A Cigarra” existem há mais de 20 anos; para atingir um público mais jovem migraram para a internet

Publicado em 12/06/2015 18h25

Última atualização em 16/06/2015 09h01

Fanzines fazem parte da cultura do ABC
Junção dos termos fanatic (fanático) e magazine (revista) se refere às publicações feitas por fãs, que eram comuns nos anos 1980 - Foto: Acervo Pessoal/Cesar Silva

GABRIELLI SALVIANO
MARCELO ARGACHOY
Da Redação*

Anos 1980.  Os fãs de música, cinema, literatura e quadrinhos precisavam achar um meio de disseminar ideias, novos artistas e até se conhecer.  Ainda não existiam blogs ou redes sociais, e a plataforma usada pelos jovens da época eram as fanzines.

A palavra é uma junção dos termos em inglês fanatic (fanático) e magazine (revista), e se refere às publicações criadas por fãs de diversos assuntos e até seguidores de determinada ideologia. O ABC registra histórias de fanzines que duraram mais de 20 anos.

A Hiperespaço surgiu em 1983 e se destacou neste cenário por ter sido uma das pioneiras no ramo de ficção científica. Suas páginas traziam artigos, contos, ilustrações e resenhas de histórias de fantasia. O idealizador foi o escritor de São Bernardo César Silva, 56, um fã do gênero que enxergava na publicação uma maneira de divulgar a cultura e unir os fãs,a maioria fascinados pelo universo de da trilogia cinematográfica Guerra nas Estrelas. “Nós criamos uma rede social analógica. Ela cresceu rapidamente e inspirou outras pessoas para fazer publicações do segmento”,lembra Silva.

hiperespaço

A primeira edição da Hiperespaço era de graça e tinha 150 leitores. O editor afirma que a fanzine conseguiu mobilizar muitos admiradores do gênero com o passar dos anos, já que a cultura não era tão difundida no Brasil. Diante desse público, os editores criaram um sistema de distribuição e o

correio era a ferramenta essencial. “Fazíamos assinaturas anuais e depois enviávamos. O preço era simbólico, só para custear o processo, não dava para ter lucro.”

A história de Jurema Barreto, 57, é parecida. Formada em letras, ela conheceu o mundo das publicações independentes ainda na faculdade, em 1982, e reuniu alguns amigos interessados em poesia para iniciar o projeto da “Jornal Literário: A Cigarra”. A proposta era compilar textos poéticos de artistas da região. “O pessoal escrevia poesia, assim como eu, e nós sentimos a necessidade de reunir os nossos trabalhos e mostrar para as pessoas.”

Em 1994, Jurema se juntou ao poeta andreense Zhô Bertholini, e os dois optaram em ampliar a publicação. “Desde então, nós resolvemos usar um projeto gráfico mais elaborado e mostrar artistas plásticos, além de poesia.”

Na década de 1980, os recursos gráficos para amadores era escasso,os editores utilizavam mimeógrafos para multiplicar as publicações. Com o passar do tempo, eles tiveram a oportunidade de usar outros materiais , inserir cores e técnicas mais sofisticadas de impressão.

A chegada da internet até facilitou este processo. De acordo com Cesar Silva, no início dos anos 1990 os preços de postagem das correspondências aumentaram, assim como os custos de produção. A alternativa era começar a estudar a nova plataforma. “A internet começou a dar os primeiros passos no Brasil em 1993, mas naquela época os programas eram precários e a conexão muito complicada.”

A Hiperespaço deixou de ser publicada em 2004 e a revista A Cigarra teve seu último exemplar concluído em 2007. Hoje em dia, os autores encontram na própria internet um local para propagar suas paixões. Cesar Silva usa um blog hoje para mostrar as novidades do mundo da fantasia e Jurema Barreto digitaliza as versões de sua fanzine.

Mesmo usando a plataforma, Silva vê o material impresso como um meio que traz mais credibilidade. "A internet tira os conhecimentos técnicos e não dá muita experiência na questão de filtrar o conteúdo que realmente importa. Para colocar no papel, você cria uma responsabilidade editorial.”

Jurema Barreto também continua apegada ao papel. “Uso a internet para ter o registro das fanzines, mas o legal é ter o contato físico. Você entrega o material na mão de uma pessoa, conhece os fãs e troca ideias.”

Os dois editores concordam que as fanzines tiveram papel essencial na questão de valorizar o trabalho independente. Jurema destaca a liberdade editorial em tempos de ditadura. “As fanzines são um espaço independente, você não tem censura nenhuma. Naquela época, elas eram mais políticas, queriam fazer os textos circularem.”

Silva afirma que não haveria arte no Brasil se não existissem as manifestações independentes. “Não falo apenas das fanzines. Muitas manifestações estão instaladas no cenário alternativo. É só olhar para o teatro e o cinema, por exemplo.”

Os fanzineiros agora

Depois da transição da Hiperespaço das páginas das fanzines para um blog, Cesar Silva ainda se dedica à literatura. O escritor lançou uma coleção de livros de bolsas de ficção, contos e noveletas, chamada “Coleção Fantástica”. Outra publicação foi o “Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica”, que tem a proposta de fazer um apanhado da cena anualmente. “Apesar de ser um livro publicado por uma editora, eu considero essas obras como uma fanzine.”

Jurema Barreto continua sua parceria com Zhô Bertholini e publica a “Zine Zero” e a “Frenezine”, publicações de poesia também. Tanto ela quanto Cesar Silva participam de eventos ligados à divulgação de fanzines.

Leia Mais: Jovens escritores no ABC buscam espaço no mercado literário

*Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo

Ações do documento

registrado em: ,