Artistas e especialistas comentam a existência da censura na arte



BRUNO PEGORARO
Da Redação*

“A arte é o lugar da controvérsia, das palavras não ditas e das histórias não contadas. Ela é transgressão por natureza”, assim classifica a produtora cultural da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gabriela Murano. 

A discussão sobre a função da arte está na pauta. Na última semana, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) apresentou um projeto de lei que pretende proibir filmes, séries e jogos com profanação de símbolos religiosos. Além disso, alguns museus em São Paulo e em Porto Alegre sofreram protestos por conta do conteúdo de suas exposições. Esses casos levantaram dúvidas a respeito da existência de uma censura na arte nacional.

O artista Bruno Novaes conta que já sofreu censura em uma de suas exposições. O caso ocorreu em 2015. O desenho censurado mostrava, de maneira quase abstrata, uma cena de sexo grupal entre homens. “A curadoria e eu achamos melhor colocar uma etiqueta de censurado no lugar ao invés de deixarmos um espaço em branco, que podia dar outras interpretações como se o próprio artista não quisesse contar uma parte da história. Já que a obra tratava de acontecimentos anuais”, explicou.

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Gabriela Murano lembra que no Brasil, a Constituição Federal garante a liberdade de expressão e de pensamento. Mas mesmo assim, há um movimento de censura à arte. “Começamos a ver indícios, no âmbito da sociedade civil, de um forte pensamento retrógrado e conservador que pode estimular um governo despreparado a adotar essa política perversa da censura”, afirmou.

Para a produtora cultural, não é possível admitir arbitrariedades como os ocorridos na exposição de Porto Alegre. A mostra "Queermuseu", patrocinada pelo Banco Santander, foi fechada um mês antes do previsto após protestos de movimentos sociais. De acordo com ela, a exposição foi encerrada sem nenhum tipo de reflexão ou consulta qualificada.

LGBT na Arte

Um dos temas que se apoia na arte para conseguir vencer o preconceito é a cultura LGBT. “Ela pode jogar uma luz sobre diversas questões e dar voz a todas as vozes, fazendo ecoar algo mais plural”, explicou o artista Bruno Novaes.

Já a artista plástica e transexual Neon Cunha considera que a arte deve ser compreendida de forma mais abrangente não apenas àquela circunscrita aos museus e galerias que, segundo ela, trata-se de “uma arte distanciada, de elite e que não conversa com o cotidiano”.

A cultura LGBT na arte já é consolidada, segundo Neon. Ela cita como referências: Rico Dalasam, Leonilson, David LaChapelle e Renata Carvalho.

Jogos Perigosos, 1990, Leonilson - Foto: Eduardo Brandão/Divulgação
Jogos Perigosos, 1990, Leonilson - Foto: Eduardo Brandão/Divulgação

A artista defende uma arte inclusiva, que dialogue com vários grupos da sociedade e que busque a reflexão. “Sair do lugar comum é o papel da arte”, define Neon, para quem a educação é o único caminho para vencer o preconceito. “Se usarmos o artigo 5º da Constituição, temos elementos de sobra para ter liberdade de expressão e de conduzir qualquer instrumento educacional”, concluiu.

O artigo 5º diz que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Publicado em 05/10/2017 16h58