É vendo que se fala...



ANDRESSA NAVARRO
Da Redação*

De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há cerca de dez milhões de brasileiros com alguma deficiência auditiva. Destes, aproximadamente um milhão são crianças e jovens de até 19 anos. São 10% dessa comunidade que têm dificuldades ou não consegue encontrar ensino público direcionado para surdos.
É o caso de Tawanny Marques, que perdeu a audição depois de adquirir uma bactéria, quando tinha apenas 2 anos. Conceição de Maria Marques, a mãe de Tawanny, conta que a menina passou por três escolas antes de realmente encontrar uma em que se desenvolvesse melhor.
Hoje, a menina estuda na EMEB Neusa Basseto, no Rudge. A escola municipal oferece ensino para crianças surdas há mais de 60 anos, e, possui um diferencial: uma comunidade que gera identificação e traz interação real para essas crianças, que se sentem limitadas em escolas, onde as diferenças as deixam deslocadas.
Conceição relata, que, apesar das escolas bilíngues oferecerem o ensino das libras e um intérprete para o acompanhamento das crianças com deficiência, o nível de sociabilidade e a falta de interação com os colegas fazia com que Tawanny, muitas vezes, se fechasse, e a escola se tornava um lugar não muito atrativo.
De acordo com a mãe, o cenário mudou desde que a filha entrou na escola Neusa Basseto. “Ela já participou de outras escolas bilíngues, mas não teve o desenvolvimento que teve em um ano na EMEB”. A escola tem como primeira língua as libras e como segunda, o português, ou seja, todo o conteúdo é lecionado na linguagem de sinais, inclusive o português escrito.
Com salas pequenas, ensino integral e inclusivo, professores especializados em educação especial e, até mesmo, alguns surdos, e salas formadas só por deficientes auditivos, a escola forma uma comunidade, onde a interação e conversação se torna simples e, todos vivem uma mesma realidade, fazendo com que as crianças se sintam parte daquele ambiente.
Situação que propicia o aprendizado da língua dos sinais e das matérias padrões, principalmente, para as crianças que entraram na escola mais velhas, e têm dificuldades. “Quanto mais cedo essa criança entrar em contato com a língua dos sinais, mais rápido ela vai se desenvolver. É no dia a dia, com contato com outras pessoas, que utilizam a linguagem”, explica a diretora da escola Cristiane Gori, ressaltando o reconhecimento de uma identidade surda para os jovens.
Natali Santos também sente a importância da escola na vida da filha. A mãe de Kamilly Aurora conta que a menina estuda na “Neusa Basseto” desde um ano e oito meses de idade, indicada pelo fonoaudiólogo que a atendeu quando descobriram a surdez. Com gratidão, explica como a escola é importante na vida de Kamilly. “Ela nunca quer faltar, ela gosta de ir para as aulas, porque se sente confortável”.
Para ampliar a comunicação e o melhor relacionamento das crianças com a comunidade, a escola dá oficinas para o ensino das libras para familiares e amigos dos alunos. Conceição e Natali aprenderam a linguagem dos sinais nessas oficinas, e não escondem o quanto isso fez a diferença dentro de casa. Ambas relatam que a relação entre mãe e filha se intensifica, ao passo que estudam e aprendem juntas como usar as mãos para se comunicar.
Mas a escola não gera crescimento só para as crianças. Silvia Fernandes, que trabalha como orientadora pedagógica no local, conta que a gratidão e o prazer que sente em trabalhar com o desenvolvimento das crianças é “gigante”. Sentimento compartilhado pela diretora da instituição e sentido por Natali na hora de ver o crescimento de Kamilly. “As outras escolas não têm o mesmo suporte que a ‘Neusa’ tem, as pessoas que estão lá, fazem o que fazem por amor”, conta.

Legislação e conquistas
A escola existe desde 1957, quando a comunidade surda da região se juntou e reivindicou o ensino inclusivo para as crianças com deficiências auditivas, ganhando a batalha. E é essa luta que marca a história das conquistas desta comunidade. E ainda necessária até hoje.
Cem anos antes, no império, D. Pedro institucionalizava a primeira escola para surdos. Mas foi somente em 2002, que a libras foi reconhecida como língua nacional, o que viabilizava a legislação e garantia direitos à comunidade de surdos. Em 2005, o decreto foi em relação ao ensino da linguagem dos sinais nos cursos de formação de professores e fonoaudiólogos, o que contribuiria para a capacitação de professores para a educação especial de deficientes auditivos.
E, por aí vai, hoje, até o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) já se adaptou e oferece a prova em vídeo e interpretada na linguagem brasileira de sinais, inclusive as dificuldades no ensino e inclusão para a comunidade surda foi o tema da redação do ano passado.
Mas, apesar das conquistas já serem muitas, os surdos ainda tem que reivindicar seus direitos a todo instante. “A inclusão de verdade está só no papel. Ainda falta muito para chegarmos ao ideal, mesmo dentro de casa não é todo mundo que sabe a linguagem dos sinais”, conta Natali, ressaltando a necessidade de evolução nos serviços para que o direito de inclusão seja uma realidade para todos. 

 *Esta reportagem foi produzida por alunos da Universidade Metodista de São Paulo.

Publicado em 20/05/2019 14h21