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Dublagem: criatividade e persistência são essenciais para profissão

por cescudero — última modificação 04/05/2008 10h56
Com um nicho bastante restrito, a profissão exige um trabalho árduo para o aspirante, que mesmo tendo uma formação cênica, não garante seu espaço no mercado.

Publicado em 04/05/2008 10h56

Última atualização em 04/05/2008 10h56

MARCELO SANTOS COSTA
e RAQUEL LIMA

Você já deve ter ouvido muitos dubladores quando criança em desenhos animados e, talvez, nunca tenha imaginado como é difícil seguir essa profissão. São atores por formação profissional, que usam e abusam de sua criatividade para enaltecer desenhos, filmes e seriados. Como primeiro passo devem registrar o ofício de ator na delegacia regional do trabalho, conhecida pela sigla DRT. Só assim é que poderão utilizar sua voz à frente dos microfones. O que nem sempre acontece.

Para o diretor artístico da empresa Dublavídeo, Mauri Ribeiro da Silva, mesmo preenchendo o pré-requisito mínimo, DRT de ator, o profissional não terá garantia de trabalho. “Já tivemos casos de bons atores não conseguirem dublar”. A dublagem exige também boa dose de dicção e atenção nas pausas e respirações dos atores, como conta a ex-dubladora Annete Moreira. “E isso só se consegue com a prática, mas dificilmente há tempo disponível para exercitar nos estúdios, devido ao grande número de trabalhos”, afirma Annete.

Outras pessoas podem achar que é um trabalho fácil, já que pode ser desenvolvido a partir de imitações. Mas o jornalista Gilberto Rocha Jr., também ator-dublador e locutor, discorda. “Não adianta achar que, por saber imitar personagens, tem espaço garantido. Dublador não é imitador. Ser dublador é saber interpretar e ter a empatia necessária para assumir a personalidade de outrem”. E ainda afirma que é recomendável ao aspirante fazer um curso de dublagem, para aprender as diversas técnicas do nicho.
 
Uma escola que pode oferecer essas técnicas é a Dubrasil, que além do curso é também um estúdio de dublagem. “Nós já colocamos o profissional no mercado de trabalho”, explica Zodja Pereira, atriz e uma das sócias da escola-estúdio. O curso dura cerca de um ano, e a pessoa deve possuir DRT de ator para participar. “Chega muito leigo, muito fã que não sabe que tem quer um curso de teatro para entrar”.

As técnicas que o aluno virá a aprender são diversas, e se destacam trabalhos com a expressão vocal, a programação da lingüística – a dublagem em várias línguas – e como sincronizar sua voz com a imagem. “O profissional aprende a colocar toda a interpretação na voz. E também a trabalhar tanto com Cinema quanto em TV, pois é um ambiente diferente, uma câmera diferente, tudo muda”, diz Zodja.

O mercado - Tanto Annete quanto Rocha Jr. atuam como locutores da Rádio USP. Quando questionados sobre o mercado de trabalho na área de dublagem, afirmam que é um setor muito restrito, devido às “panelinhas”. Segundo a locutora, o processo começa com um diretor de dublagem realizando testes de uma cena qualquer de algum filme. Depois, você passa bastante tempo fazendo “vozerios” – várias vozes em meio a uma multidão – que ouvimos em uma cena de festa, por exemplo. “Por isso é difícil, podem te chamar a qualquer momento e fica-se durante muito tempo disponível apenas fazendo pequenos papéis”, conta Annete.

Muitos profissionais acabam desistindo, já que recebem por “anel” – diálogos – e os cachês são baixos. É o caso da própria Annete, que acabou trocando a área pela locução de rádio. “Eu precisava trabalhar e migrei para o rádio. Hoje me arrependo, é preciso ter paciência”. Rocha Jr. afirma que antigamente o caminho era inverso. “Muitos profissionais migraram do rádio para a dublagem na década de 70, o que tornou a especialização da profissão um mercado mais restrito”. Para ele, a chance vai depender do talento de quem almeja chegar lá. “Mas também uma boa dose de sorte e uma boa rede de contatos serão essenciais”.

Já Mauri Ribeiro acha o contrário. “As oportunidades hoje são maiores que antigamente, pelo mercado ser maior temos mais estúdios de dublagem”. Isso é fato, pois contamos com mídias de DVD (Home Vídeo), Cinema, Internet, CD-ROM e canais de TV a cabo, que não haviam antigamente. “Mas apesar disso o mercado está extremamente oscilante, ou seja, não ha muita previsão de demanda”, conta a dubladora Denise Reis. Formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André – que não fornece a carteira de trabalho –, Denise acabou adquirindo seu DRT de atriz pelos trabalhos realizados. A versatilidade de sua voz já foi usada tanto em atrizes como Sandra Bullock, Salma Heyek, na personagem Kaoru, do desenho Samurai X, e até Sailor Ray, personagem de Sailor Moon. Essa última lhe rendeu o Oscar da Dublagem, de melhor atriz, em 2003 (veja aqui).

É preciso então ter em mente que o dublador deve estar preparado para qualquer tipo de programa que virá a trabalhar, desde filmes, seriados a novelas, desenhos e documentários. “O profissional não pode escolher o trabalho que vai fazer. Aliás, não pode e nem deve. O importante é a flexibilidade e ser eclético”, finaliza Rocha Jr; lembrando que o profissional será autônomo, portanto quanto mais trabalhar, maior será sua remuneração no fim do mês.

Denise avalia que as modalidades mais requeridas no momento são documentários e séries de reality show. “Canais como Discovery Channel e National Geographic estão investindo muito neste tipo de produção”.

O estrelismo - Não diferente de outras profissões, vários obstáculos terão de ser ultrapassados para que aspirantes cheguem ao mercado. Com um porém. Algo que costuma acontecer freqüentemente é a perda de espaço desses profissionais para atores não necessariamente dubladores. O caso mais famoso é quando esse tipo de ator trabalha em desenhos infantis de terceira dimensão, conhecidos como “blockbusters” – arrasa-quarteirões de bilheterias; como por exemplo, a trilogia Shrek, O Espanta-Tubarões, Ratatouille e A Era do Gelo.

“A escolha de atores ou pseudo-atores contratados para dublar personagens, principalmente animações de grande envergadura, é essencialmente feita pela própria distribuidora”, diz Rocha Jr. Como confirma Mauri, dizendo que essa é a escolha de muitos clientes de sua empresa. “Para valorizar o produto no mercado de DVDs temos de chamar algumas estrelas às vezes”.

Enquanto um ator “global”, por exemplo, ganha um cachê médio de R$ 15 mil a R$ 20 mil por produção, o verdadeiro profissional de dublagem ganha menos de R$ 70 a hora para executar o mesmo trabalho. “Ninguém vai ao cinema para ver o Gianecchini dublando o robozinho simpático de Robôs, e sim o próprio conteúdo do filme”, explica Rocha Jr.

“O dublador nunca será celebridade, pois ele não tem o seu nome identificado, diferente do locutor e ator”, afirma Annete. Para ela, o sistema deveria mudar, por ser uma área na qual o profissional não possui salário fixo. “Deveria haver contratação fixa para a sobrevivência dos dubladores, já que não é um trabalho fácil e é muito importante”.

As experiências - Entre as diversas experiências na área, Rocha Jr. destaca algumas que marcaram sua carreira. A primeira foi ser escolhido para narrador da trilogia dos filmes O Senhor dos Anéis. “O próprio Peter Jackson (diretor do filme) foi quem escolheu o  elenco e isso direto da Nova Zelândia, onde estavam terminando as filmagens do épico”. Outro momento que destacou, foi ser escalado para narrar a série animada Cavaleiros do Zodíaco. ”A legião de fãs de Cavaleiros é algo sensacional, e pude sentir de perto todo o carinho dos fãs pelo meu trabalho”.

Já Denise lembra da personagem Kaoru, que diz ter um carinho especial. “Me trouxe muitas gratificações, entre elas o reconhecimento de fã clubes de animes e até viagens pelo Brasil”. Ela por exemplo não se lembra de nenhuma experiência ruim que passou. “Costumo curtir muito geralmente. Porém, confesso que tenho dificuldade em dublar vômito”, confessa, rindo.

Para Rocha Jr. já é um pouco diferente. Não que tenha passado por alguma experiência desagradável, mas sim desafios, como ele mesmo coloca. “Um deles foi quando minha mãe faleceu. Tinha escala marcada na BKS e não dava pra cancelar, pois o estúdio tinha prazo minguado para entregar a produção finalizada”. Teria de interpretar um mercador viajante bêbado, fanfarrão, que gritava, arrotava e tudo o mais a que tinha direito, para o filme “Dinotopia”. Por isso o dublador se distingue das demais profissões do ramo de comunicação, por não poder levar ao estúdio o seu próprio "eu", devendo sempre “vestir-se” com o personagem que lhe é escalado. “E foi o que fiz. Ao término do trabalho, peguei o meu "eu" de volta e fui chorar a morte de minha mãe”.

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