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Ademir Ueta recorda Olimpíadas de 68 e como se tornou ídolo em Portugal

por esportes — última modificação 07/05/2009 21h22
Ex-meia fez parte da seleção olímpica na década de 60 e atuou durante duas temporadas no futebol português

Publicado em 07/05/2009 21h22

Última atualização em 07/05/2009 21h22

Ademir Ueta recorda Olimpíadas de 68 e como se tornou ídolo em Portugal
Ademir Ueta jogou durante dois anos em Portugal- foto: Matheus Trunk

MATHEUS TRUNK

Historicamente, Portugal sempre foi o principal destino dos jogadores brasileiros na Europa. Hoje em dia, a nação da Península Ibérica continua sendo o país que mais recebe atletas brasileiros. Em 2008, 209 brasileiros se transferiram para equipes portuguesas. Ademir Ueta, o China, 61 anos, atuou de 1978 a 80 no Marítimo de Portugal e se tornou ídolo local.

“Eles queriam que eu ficasse mais tempo lá. Os dirigentes me ofereceram muito dinheiro. Mas minha família quis voltar pro Brasil e não teve jeito da gente permanecer lá”, explica ele. Além dessa passagem pelo futebol europeu, China jogou pelo Palmeiras, Náutico, Guarani, Catanduvense, Juventus, Aliança de São Bernardo, Marília, Desportivo Português da Venezuela e Monte Alto.

Porém, para o ex-meia, o maior momento da carreira foi sua participação na seleção brasileira olímpica. “Fomos campeões do Pré-Olímpico no Paraguai e nos classificamos para os Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México. Disputei um único jogo nessa competição, mas mesmo assim foi muito emocionante. Lembrar isso hoje ainda me arrepia”, relembra.

RROnline- Como o senhor iniciou a carreira?


Ademir Ueta- Eu comecei ainda bem novo jogando bola no Meninos, um clube tradicional de São Bernardo. Na época, eu morava no bairro do Rudge Ramos e depois fui treinar no Flamenguinho da Vila Paulicéia. Foi lá que me levaram pra fazer teste no Palmeiras. No time do Parque Antártica, eu joguei no infantil, juvenil e me profissionalizei. Lá eu consegui conviver com grandes jogadores como Servílio, Djalma Santos, Djalma Dias, Ademir da Guia, entre outros. Na época, o Palmeiras dava muita atenção pra quem estava vindo das categorias de base.

RRO- Mas o senhor se firmou no Palmeiras?

AU- Não. Eles tinham um grupo muito forte, era o Palmeiras da Academia e eu era um jogador muito jovem. Na minha posição, jogava o Servílio, que era ídolo da equipe. Disputei dez partidas pelo Palmeiras, sendo que minha estréia foi na semifinal da Libertadores de 68, no Pacaembu, contra o Estudiantes da Argentina. Foi um ano bastante complicado, porque eles priorizaram a competição sul-americana e quase caímos para a segunda divisão estadual. Depois fui emprestado pro Náutico, sendo vice-campeão pernambucano e fui pra Catanduvense.

RRO- Como foi a participação do senhor na seleção olímpica?

AU- Defender o Brasil foi muito importante. Uma coisa emocionante mesmo. Pela seleção brasileira, eu joguei no time que foi campeão do Pré-Olímpico na Colômbia. Com isso, conseguimos nos classificar para as Olimpíadas da Cidade do México, em 1968.

RRO- Nas Olimpíadas de 68, o Brasil acabou sendo eliminado na primeira fase. Na opinião do senhor, por que isso aconteceu?

AU- Acho que faltou organização. Na nossa época, era difícil porque vários países jogavam a competição com seu time principal. O Brasil mandou para o torneio sua equipe juvenil. Por isso, tivemos grandes dificuldades.  Eu me machuquei no jogo contra a Espanha, por isso, acabei não jogando o restante do torneio olímpico. Nosso treinador era o Marão, um técnico mineiro. Ele era uma boa pessoa, mas creio que ele entrou muito em cima da hora, teve pouca convivência com o grupo. Mesmo assim, guardo boas recordações daquele momento. Na cerimônia de abertura, foi uma coisa muito emocionante pra nós porque tocou o hino brasileiro. 

RRO- O senhor jogou bastante pela Catanduvense?

AU- Sim. Tive três passagens e foi talvez o time que eu mais tenha vestido a camisa em quantidade de jogos. Em 1972, a equipe de Catanduva montou um time muito forte e sagrou-se campeã da segunda divisão do Paulista. Nosso treinador era o Carlos Alberto Silva, que depois seria campeão brasileiro com o Guarani em 1978. Ele era um excelente técnico, bem ao estilo do Telê Santana. Ele foi inclusive meu padrinho de casamento.

RRO- Como foi sua passagem pelo Aliança de São Bernardo?

AU- Foi muito boa. Esse time surgiu com muitas pessoas que vinham da várzea. O ABC sempre foi um grande celeiro do futebol amador. O Aliança tinha uma estrutura legal e conseguimos bons resultados. Mandávamos nossos jogos no estádio Baetão, e tínhamos um grande número de torcedores. Os jogadores mais experientes do elenco era eu e o Julio Amaral, que tinha passado pelo Palmeiras. Chegamos ao quadrangular final da segunda divisão, juntamente com o Santo André, Barretos e XV de Jaú. O XV acabou ganhando a competição e conquistando o acesso. Do Aliança, eu acabei me transferindo pro Marítimo.

RRO- Como surgiu a proposta do time português?

AU- Alguns dirigentes do Marítimo vieram olhar um outro jogador do Aliança. Eles olharam uma partida do Aliança contra a Internacional de Limeira. Foi aquele dia que deu tudo certo pra mim, joguei muito bem. A partida terminou 2 a 0 pra nós e eu fiz os dois gols. Me destaquei e eles ficaram interessados no meu futebol. Depois, o técnico do time me observou em uma partida contra a Esportiva de Guaratinguetá. Depois, eles fizeram a proposta e eu acabei aceitando.

RRO- Como foram esses dois anos atuando pela equipe portuguesa?

AU- Foram duas temporadas excelentes em todos os sentidos. Fiquei lá de 78 até 80. O futebol europeu tem mais força, mais pegada. O Marítimo é uma equipe da Ilha da Madeira e sempre foi um time médio, com uma torcida bem fanática. No primeiro ano que fiquei lá, nos esforçamos bastante para o time permanecer na primeira divisão. No segundo ano, tivemos um desempenho melhor. Conseguimos ser semi-finalistas da Taça de Portugal e tivemos um bom desempenho no campeonato nacional. Nós tiramos o título do Campeonato Português do Benfica. Eles estavam um ponto na frente na liderança e já se julgavam os campeões nacionais. Nós vencemos eles numa grande partida por 2 a 1. Cheguei a ter uma excelente proposta do Boavista, mas minha esposa queria voltar ao Brasil de qualquer maneira. Por isso, acabei retornando após dois anos na Ilha da Madeira.

RRO- O senhor era bastante reconhecido em Portugal?

AU- Bastante. Os torcedores do Marítimo eram muito fanáticos. Quando eu ia no mercado, eu não precisava pagar a conta, porque os vendedores eram torcedores da equipe. Lá na Ilha da Madeira, eles pescam muito o peixe espada, que tem uma carne deliciosa. Várias vezes os pescadores locais me deram esse tipo de pescado, sem eu precisar pagar. Enquanto morei lá, eu não tive carro. Quando eu andava de táxi, muitas vezes não precisei pagar. O motorista falava: “Você é o China. Eu te conheço porque eu sou Marítimo doente”. Nas lojas, sempre me davam desconto. Os portugueses sempre trataram a mim e a minha família muito bem. Era ótimo. Depois de encerrar a carreira, eu voltei três vezes a Ilha da Madeira e sempre fui reconhecido.

NB- Como foi essa passagem pelo futebol venezuelano?

AU- De Portugal, eu voltei outra vez para a Catanduvense. Mas depois fui pro Desportivo Português, que era o clube da colônia da Ilha da Madeira na Venezuela. Lá era um esquema semi-profissional, muitas vezes o jogador do time adversário não aparecia pra jogar. Os dirigentes suplicavam pra eu voltar pra Portugal: “Quanto você quer pra voltar pro Marítimo?”. Eles não entendiam que eu não voltava por questões pessoais.

RRO- O que o senhor acha dos empresários dominarem o futebol hoje?

AU- Os empresários lidam com o futebol como um negócio. Eles pensam primeiramente no retorno financeiro. Por isso, muitas vezes a formação do atleta fica em um segundo plano. Muitos meninos que estão se iniciando no futebol, acabam não tendo nenhuma uma orientação. Isso é muito triste.

RRO- O senhor acredita que os ex-jogadores são muito desvalorizados no Brasil?

AU- Muito. Eles não são vistos com a importância que tiveram para o esporte. Eu não sou um ex-jogador, eu sou um ex-atleta. Poucas pessoas entendem isso. Na minha época, o profissional de futebol era considerado mulherengo, farrista, essas coisas todas. Infelizmente, nunca somos tidos como alguém importante pra sociedade.

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