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Decio Bianco relembra Pan de 63 e interrupção da carreira por contusão

por esportes — última modificação 10/03/2009 18h59
Decio Bianco, atacante da seleção campeã do Pan-Americano de 1963, teve a trajetória abreviada por uma contusão na região lombar

Publicado em 10/03/2009 18h59

Última atualização em 10/03/2009 18h59

Decio Bianco relembra Pan de 63 e interrupção da carreira por contusão
O ex-atacante Decio defendeu o Juventus da Mooca por três anos

MATHEUS TRUNK

Nas décadas de 60 e 70, muitos jogadores tiveram as carreiras abreviadas por conta de severas contusões. Craques como Garrincha e Muricy Ramalho são exemplos disso. Decio Bianco, 64, teve uma trajetória semelhante.

Em sete anos de carreira profissional, o ex-atacante do Juventus, Flamengo de Caxias (RS) e Saad teve convocações para as seleções paulista e brasileira. Seu maior momento foi receber a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1963, em São Paulo. “Vestir a camisa do meu país foi a maior satisfação da minha vida”, relembra ele.

Sua carreira foi encerrada por um agravamento da contusão na região lombar em 1967, quando o ex-atleta tinha 23 anos. “Depois disso, só joguei no amador mesmo”, sintetiza.

Rudge Ramos Online - Como foi sua participação no Pan de 63?
Decio Bianco- O Pan foi um torneio relâmpago, de cinco jogos. Tinham quatro outras seleções disputando: Argentina, Uruguai, Chile e Estados Unidos. Eu era reserva do Jairzinho, que depois ficaria consagrado como o Furacão da Copa de 70. Joguei na goleada contra os Estados Unidos, que foi o jogo mais fácil pro Brasil. Vencemos por 11 a 0.

RRO- A base do time era carioca?
DB- Sim, a base era do Fluminense. O Antoninho, técnico da seleção também era do Tricolor do Rio. Mesmo assim, muitos jogadores paulistas foram chamados para compor aquele time. 

RRO- O senhor foi convocado pela seleção jogando pelo Juventus. Como foi esse início de carreira no clube da Mooca?
DB- Foi a equipe que eu mais atuei na minha carreira, fiquei lá por três anos. Minha estréia foi numa partida contra o Taubaté, na Rua Javari. Era muito difícil para um jogador se firmar numa equipe tradicional como o Juventus, que jogava um torneio difícil como o Campeonato Paulista. Mas eu consegui isso.

RRO- O senhor jogou no Flamengo de Caxias. Como foi essa passagem?
DB- Eu fui emprestado do Juventus ao Flamengo, que mudou de nome. Hoje se chama Caxias. Minha estréia foi justamente no grande clássico local, contra o Juventude, no estádio Alfredo Jaconi. O estádio lotou, tinha gente até pendurada nos postes e nas casas vizinhas. A rivalidade entre as duas equipes sempre foi muito forte. No Sul, quando eu ia numa loja ou num restaurante que o dono fosse torcedor do Flamengo, eu não pagava nada. Era ótimo.

RRO- O futebol gaúcho era muito diferente do futebol paulista?
DB- Bastante. O futebol gaúcho era mais competitivo e tinha mais pegada. Os jogadores do Sul tinham mais raça, pareciam com os atletas argentinos. No interior do Rio Grande, tinham grandes equipes também.

RRO- Na década de 60, os jogadores se dopavam bastante?
DB- Sim. Inclusive, uma vez eu fui dopado sem saber. Foi na minha passagem pelo Flamengo. Durante um jogo contra o Internacional, eu estava com um problema lombar. A minha perna estava doendo bastante. O massagista me examinou e me deu uma ingessão no braço e era doping. Eu voltei pro jogo com um grande pique. O Zero Hora, jornal de Porto Alegre, me elogiou dizendo que eu tinha acabado com o jogo. Eu fiquei uma semana no hospital, porque quando acabou o efeito da ingessão eu não podia movimentar nada.

RRO - O senhor teve alguma proposta pra jogar no Exterior?
DB- Sim. Eu cheguei a receber uma proposta do Anderlecht da Bélgica. Vários fatores me levaram a não ir pra lá. Naquele tempo, poucos jogadores brasileiros iam pra fora. Inclusive, financeiramente atuar na Europa não tinha grandes vantagens.

RRO- Como o senhor foi jogar no Saad?
DB- O Felício Saad, presidente da equipe, queria montar um grande time. Ele estava montando um time que iria disputar a terceira divisão, mas visando um time que subisse logo. Para isso, ele chamou jogadores que já tinham alguma experiência. Além de mim, ele chamou o Canhoteiro, que tinha sido ídolo no São Paulo.  Também foram o Pando que tinha jogado vários anos no Juventus, Murilo da Portuguesa e Fininho goleiro do Juventus.  

RRO- A proposta do Saad financeiramente era boa?
DB- Sim. No Saad, eu ganhei o dobro que eu ganhava no Juventus. Fiquei dois anos na equipe do ABC. Posso dizer que a equipe que eu mais ganhei dinheiro foi no Saad. Era uma novidade pra São Caetano, ter um novo clube surgindo e o Felício queria fazer a cidade aparecer no mapa. Naquele tempo, a série de acesso era bem disputada. Tivemos grandes confrontos contra Bragantino, Nacional, Ponte Preta, XV de Piracicaba, Ferroviária de Botucatu. Aquele time do Saad era muito bom, embora tivesse muitos veteranos.

RRO-  A arbitragem dos anos 60 era corrupta?
DB- Bastante. Teve um jogo que nós fizemos pelo Saad contra o XV de Jaú, no estádio Zezinho Magalhães, em Jaú. O próprio juiz passou perto de nós e disse: “Olha, infelizmente pra eu sair vivo dessa partida vou ter ir contra vocês”. Na primeira chance que o juiz teve, ele deu um pênalti pro XV.

RRO- Como surgiu esse problema na região lombar?
DB- Eu sofri a contusão quando jogava no Flamengo, num jogo em Farroupilha. Eu tive de fazer fisioterapia pra continuar jogando. Mas para acabar com o problema, eu teria de fazer uma operação para que a lesão acabasse. Mas na época, poucas pessoas faziam uma operação na parte lombar. O médico não me deu certeza: “Pode ficar bom. Mas também pode ficar com algumas seqüelas”. Segundo ele, se houvesse algum problema na operação, eu podia ficar paralítico. Por isso, resolvi deixar o profissionalismo.

RRO - O senhor guarda alguma frustração de ter encerrado a carreira tão cedo?
DB- Quando eu encerrei foi bem difícil. Eu estava acostumado com futebol e não sabia o que iria achar na minha nova atividade. Eu sentia falta do futebol.  Já pensei várias vezes que se eu não tivesse essa contusão, eu poderia ter conseguido jogar em times maiores. Mas a gente nunca sabe. Depois de ter sido jogador, eu fui para General Motors onde fiquei por 26 anos e depois me aposentei. 

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