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ABC é pioneiro em tratamento de fertilização para Soropositivos

A primeira permitiu aos casais, com dificuldade na fertilidade, a realização do sonho de ter um filho.

Publicado em 30/06/2010 18:37
Última atualização às 18:37

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ABC é pioneiro em tratamento de fertilização para Soropositivos

O Centro de Reprodução Assistida da Faculdade de Medicina do ABC atende de 30 a 40 casais por mês; 70% tem o vírus HIV - Foto: Divulgação

CAROLINA GARCIA

A maior sobrevida dos pacientes de aids fez com que os planos da maternidade ou paternidade cruzassem o caminho dos soropositivos. Em 10 anos, mais de 47 mil mulheres que vivem com HIV engravidaram no país, segundo o Ministério da Saúde. Parte delas, para realizar o sonho de ser mãe, precisou da união de duas técnicas que “nasceram” quase juntas e agora, cerca de 20 anos depois, estão evoluídas e podem se encontrar nos consultórios clínicos. Uma é a fertilização in vitro e a outra o coquetel antiaids.

A primeira permitiu aos casais, com dificuldade na fertilidade, a realização do sonho de ter um filho. E a segunda fez com que a aids deixasse de ser uma “sentença de morte” e ampliou a sobrevivência dos infectados.

A Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André, foi a primeira clínica pública de fertilização, no Estado de São Paulo, a atender casais sorodiscordantes (quando um dos parceiros é soropositivo e o outro não). O serviço começou em 2006 e até hoje já atendeu mais de 300 casos de fertilização in vitro, informou o responsável pelo Centro de Reprodução Assistida da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), ginecologista e obstetra, Caio Parente Barbosa.

A clínica atende uma média de 30 a 40 casais por mês e nenhuma fila de espera, segundo Barbosa. No início do mês de maio, foi fechada uma parceria com o CRT/Aids (Centro de Referência e Treinamento) do Governo de São Paulo e a capacidade para acolher casais soropositivos será dobrada.

“Nesses dados entram casais com viroses crônicas que podem ser transmitidas ao parceiro (a), como o caso Hepatite B, C e HIV. É claro que a maior parte dos casais atendidos, cerca de 70% são sorodiscordantes. E, na maioria das vezes, o homem é infectado e a mulher não”, explicou Barbosa, também professor de genética e reprodução humana da FMABC.

O principal problema de fertilização para um casal sorodiscordante é quando o homem é contaminado, pois há o risco de carregar o vírus para a parceira, explicou o diretor do IPGO (Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia), e especialista em reprodução assistida, Arnaldo Cambiaghi.

O especialista falou que, para não ocorrer a contaminação, o processo é simples. O sêmen é recolhido e uma mostra é analisada para ver a taxa viral que o homem carrega. Caso seja muito alta, acima de 50 cópias, o tratamento é anulado e o espermatozóide não poderá ser utilizado. Cada cópia equivale a uma célula do corpo infectada pelo vírus, a quantidade é comparada por mililitros de sangue.

Mas se o número for baixo, o sêmen, que estava congelado no laboratório, passa por um processo de lavagem, onde o vírus é retirado completamente, deixando apenas o espermatozóide, e depois inserido direto no útero (no caso de uma inseminação simples), ou fecundado no óvulo ainda no hospital, e depois o embrião é plantado no útero da mulher.

“Com esse processo, a probabilidade da criança ter o vírus é zero. Quando a mãe é soropositiva a chance da criança ser contaminada é de 1% a 2%, mas apenas na hora do parto pelo contato com o sangue. Para que isso não aconteça, antes do parto é feita a Terapia Antiretroviral na mãe, que diminui a taxa viral. Além de cesárea eletiva (quando não há trabalho de parto)”, afirmou o ginecologista e obstetra Barbosa.

Quando a mulher soropositiva tem o bebê também não é permitida a amamentação, pois o vírus pode ser transmitido pelo leite materno. Além do pediatra, a criança é acompanhada até os seis meses, pelo menos, por um infectologista para ver se não há o risco de carregar o HIV. Cambiaghi disse que no caso do soropositivo ser o pai, não há a necessidade do acompanhamento do infectologista.

O valor de cada processo de fertilização varia muito em cada local, podendo chegar até a R$ 50 mil. Na FMABC, o casal terá um custo que varia de R$ 4 mil a R$ 6 mil para o tratamento in vitro.

Brasil - No mês de junho, será publicado um documento do Ministério da Saúde para criar uma “recomendação nacional e homogenia” sobre a política de reprodução das pessoas que vivem com o vírus HIV. O debate está ocorrendo desde novembro do ano passado.

Serão elaboradas recomendações específicas para três casos diferentes: uma para mulheres que são portadoras do vírus e os companheiros não; outra para os casos de só o homem ser soropositivo e uma terceira para quando ambos têm a doença.
Além da fertilização in-vitro, o Ministério também cogita a recomendação do sexo sem prevenção, apenas no período fértil da mulher e quando a carga viral da doença estiver quase nula. Este casal deve ser acompanhado e, após a relação, aquele que não for infectado recebe o coquetel por um período para impedir a infecção. Mas alguns médicos não recomendam esse processo, pois tem uma chance maior de contaminar o parceiro e o bebê.

Atualmente não são todas as clínicas particulares que aceitam casais discordantes e existem apenas cinco serviços públicos no país, conveniados ao Ministério da Saúde, que prestam este serviço, sendo um no Distrito Federal, outro em Pernambuco e três em São Paulo.

“Esse número é algo mínimo. Precisaria de pelo menos quatro vezes o número disso para atender toda a demanda. Essa política do Ministério pode favorecer os casais sorodiscordantes. Afinal de contas, todos têm o direito de ter sua família. Não dar esse tipo de tratamento seria uma discriminação”, afirmou o diretor do IPGO.

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