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Casos de anorexia e bulimia em homens dobram em cinco anos

por ricardo.fotios última modificação 12/04/2011 08h39
Transtornos alimentares são mais comuns em meninos de até 18 anos

Publicado em 11/04/2011 09h21

Última atualização em 12/04/2011 08h39

CAMILA MORETTI
Especial para o RROnline*


Tiago já ficou cinco dias sem comer e, ao mesmo tempo, praticou exercícios físicos em excesso. Na mesma época, o estudante de 20 anos chegou a ingerir 3.000 calorias em uma única refeição e, logo depois da última garfada, correu até o banheiro e provocou o próprio vômito por diversas vezes. Ele também já chegou a substituir os alimentos do almoço por pasta de dente.

O caso de Tiago faz parte de uma estatística que cresce a cada ano, a de pessoas do sexo masculino que têm anorexia e bulimia. Associados normalmente às mulheres, os transtornos alimentares em homens atingem hoje cerca de 10% de todos os pacientes das doenças atendidos no país. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, esse número representa um aumento de cerca de 100% nos últimos cinco anos. A maior incidência dos transtornos alimentares em homens ocorre na fase da adolescência, entre os 13 e os 18 anos.

“Acredita-se que um dos motivos que explicam esse crescimento é o fato de que os homens estão expondo mais seus problemas de peso. Além disso, os médicos hoje estão mais especializados e mais diagnósticos estão sendo feitos”, concluiu a psiquiatra Simone Olsson.
 
Na anorexia, a pessoa fica longos períodos em jejum, pratica exercícios físicos além do limite e chega a ingerir laxantes, tudo em busca de um corpo mais magro. Já na bulimia, há o consumo compulsivo de alimentos e, logo depois, a purgação forçada. “Quando tinha 13 anos, me olhei no espelho e prometi a mim mesmo que nunca mais seria daquela forma. Com 1,70 m de altura, eu pesava quase 90 kg”, declarou o estudante Davi, 15.

Os motivos que contribuem para desencadear as doenças nos meninos são semelhantes aos das meninas. Baixa autoestima, ansiedade, depressão, raiva, solidão e problemas de obesidade na infância são os fatores mais comuns. “Sempre gostei de comer bastante. Mas de uns anos para cá passei a me sentir humilhado e excluído por ser acima do peso. Já cheguei a pesar 100 kg. Sofria preconceito de estranhos, de amigos e até da família”, desabafou Tiago.

Saúde debilitada - As complicações de quem tem essas doenças não são somente de aparência física. A anorexia e a bulimia provocam problemas gástricos, ósseos e circulatórios. Osteoporose, irregularidades cardíacas, queda de cabelo e da temperatura do corpo são algumas das consequências. “Também podem ocorrer alterações hormonais e fadiga do corpo. Além disso, tais doenças também podem trazer complicações emocionais e psicológicas”, afirmou Simone.

Não é raro Davi sentir tonturas e chegar a desmaiar por causa da falta de alimentos. Tiago tem pressão baixa e problemas estomacais. Mas as consequências dos transtornos alimentares são capazes de chegar ao extremo.

O índice de mortalidade é o mesmo entre homens e mulheres, pode atingir até 20% dos casos. A maioria dos pacientes costuma procurar ajuda médica apenas quando já está em estado crítico. Considerada uma questão tipicamente feminina, o medo e a vergonha de revelar tal comportamento influenciam nessa decisão. “Só meus pais sabem. Não tenho coragem de contar para algum amigo pessoalmente. Tenho medo de ser julgado de forma errada”, declarou Tiago.

Visão distorcida - O Índice de Massa Corporal é uma fórmula que indica o peso ideal das pessoas. O considerado normal deve estar entre 20 e 24,9 kg/m². Tiago tem 1,73 m de altura e já chegou a pesar 48 kg, um IMC extremamente baixo de 16 kg/m². Apesar de ter ganho massa nos últimos meses, o estudante ainda pretende perder peso. “O medo de voltar a engordar é imenso. A culpa que eu sinto quando como me faz praticar esses atos. Ainda quero perder 10 kg”, declarou o jovem.

Assim como as mulheres, os homens também têm uma visão errada do próprio corpo. E, por mais lógicos que sejam os argumentos, essa visão não é quebrada. Alguns até conseguem perceber que sofrem da doença, mas não sabem como parar. “Já fiquei quase uma semana seguida em comer. Quando sentia fome, bebia alguma coisa de baixa caloria, como um suco de limão. Eu sei que isso não é certo, mas é um vício insuportável”, contou Davi.

No caso da bulimia, os doentes sentem alívio após forçarem o vômito. “Fico com uma sensação de dever cumprido, de ter tirado um peso das costas”, revelou Tiago. Mas logo depois vem a culpa. “Quando eu tenho a compulsão, eu vomito. Me sinto livre e aliviado. Instantes depois, eu fico mal, desanimado. Sei que estou errado”, desabafou Davi.

O tratamento - Quando a mãe de Tiago viu o filho indo dormir com uma camiseta encharcada, resolveu tomar providências. O estudante criava castigos para cada vez que exagerava na comida. “Fazia cortes de cabelo que eu detestava, me cortava, passava sede e frio. Um dia estava indo para a cama com uma camiseta molhada que havia deixado no congelador e minha mãe viu. Ela resolveu marcar um psicólogo e um nutricionista”, declarou Tiago.

O tratamento é feito de forma multidisciplinar. Psiquiatra, psicólogo, nutricionista e até terapeuta ocupacional fazem parte da equipe. “Às vezes um assistente social também precisa estar envolvido. A participação da família é muito importante. Acusações, raivas e ameaças dos entes queridos só vão piorar o quadro”, afirmou Simone.

Davi faz sessões homeopáticas e toma remédios controlados. Apesar de ainda sofrer com os transtornos, ele comemora o fato de ter apresentado melhora. “Hoje eu peso 58 kg e já não tenho mais tantos problemas quanto antes. Mas quero parar totalmente, não aguento mais essa situação”, disse o estudante.

O paciente é considerado curado quando o seu IMC está normal, seus hábitos alimentares estão adequados e não existe mais o desejo de perda de peso desnecessário. Além disso, a visão distorcida do próprio corpo não ocorre mais na pessoa. “Apesar de ainda me achar acima do peso, pretendo emagrecer saudavelmente. Quero reeducar minha alimentação, continuar com os exercícios físicos e não me sentir tão culpado quando comer algo”, declarou o esperançoso estudante Tiago.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

 

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