Uso indevido do ar-condicionado no carro pode causar até paralisia

Equipamento também não é seguro para o meio ambiente

Publicado em 19/04/2011 09:56
Última atualização às 09:56

LUIZ MARIN
Especial para o RROnline*


No verão ele dá aquela refrescada, no inverno ele ajuda a aquecer o corpo. O ar-condicionado virou um item quase que obrigatório na hora de comprar um carro. O alívio oferecido pelo ar que sai do painel do automóvel, no entanto, tem seus riscos. O aparentemente inofensivo ar climatizado pode causar diversos e sérios problemas à saúde e ao meio ambiente se alguns cuidados não forem tomados.

A professora Monica Lopes Ferreira, 41 anos, passou por um grave problema de saúde causado pelo ar-condicionado do carro. Em um dia quente (cerca de 33°C), ela entrou no seu Palio e ligou o ar no máximo. ‘’No dia seguinte, comecei a sentir uma forte dor no ouvido direito e um tremor nos músculos’’, contou. Três dias se passaram e o lado direito do seu rosto estava completamente deformado. Quando Monica se olhou no espelho, levou um susto tão grande que temeu estar sofrendo um derrame.

Esse problema se estendeu por um mês. ‘’Fiz todos os tipos de tratamento, nem sei qual foi o que resolveu’’, disse a professora. Fisioterapia, massagens, injeções de cortisona para reativar os músculos e até acupuntura foram tentados. Monica diz que não conseguia falar direito, nem fechar as pálpebras. Para dormir, usava uma venda e lubrificava os olhos com pomada.

O choque-térmico causado pelo ar gelado dentro do carro foi apontado como uma das prováveis causa do problema. ‘’Acredito que tenha sido isso mesmo, porque a diferença de temperatura foi realmente muito grande’’, conta Monica. ‘’Visualmente não ficou sequela, mas não consigo fazer alguns movimentos básicos do lado direito’’, afirmou.

Essa doença é conhecida como paralisia de Bell. “Ela acontece quando há uma variação muito brusca de temperatura e os nervos ficam paralisados temporariamente, deixando de levar os estímulos ao cérebro”, explicou o médico vascular Aldo Ferronato.

Quem usa demais o ar-condicionado do carro também fica mais vulnerável a resfriados, problemas respiratórios e musculares. ‘’As dores surgem porque, em ambientes muito gelados, a circulação sanguínea diminui e causa a má irrigação dos músculos’’, esclareceu Ferronato. Para que as dores no corpo e o resfriado não apareçam, a diferença de temperatura dentro e fora do veículo não deve superar 5°C, recomenda o especialista.

Complicações respiratórias, principalmente infecções e rinites, aparecem porque o ar-condicionado armazena bactéria e microorganismos, que são lançados no interior do carro quando o aparelho é ligado. ‘’É por isso que o sistema precisa sempre de manutenção e da troca de filtros’’, ressaltou o médico.

A publicitária Amanda Baye, 25, prefere andar com o ar-condicionado desligado. Ela tem rinite alérgica e, sempre que entra em um carro com o equipamento ligado, sofre uma crise. ‘’Dou vários espirros, começo a tossir e só paro quando a pessoa desligar o ar’’, contou.

Para manter o ar-condicionado funcionando bem, o dono do veículo deve tomar alguns cuidados e fazer manutenções periódicas. O escape do gás refrigerante é um dos defeitos mais comuns do sistema. ‘’ O principal foco de vazamento é o eixo do compressor’’, afirmou Thiago Santos, funcionário da Friocar, empresa de São Bernardo especializada em climatização de veículos. Segundo o profissional, trepidações do carro ao passar por buracos e a falta de uso do aparelho causam o dano. Ligá-lo pelo menos uma vez a cada semana durante cinco minutos, até mesmo no inverno, é uma boa medida de prevenção. ‘’Quanto mais o ar é ligado, mais difícil fica de o gás refrigerante vazar’’, explicou Santos.

Atmosfera ameaçada - As consequências ambientais do uso do ar-condicionado também são graves. Isso porque o gás utilizado nos carros até 1994, chamado CFC, contribui para aumentar o buraco na camada de ozônio. Já veículos fabricados após esse ano usam o gás 134 A ou HFC, considerado como gás menos poluidor. É possível trocar o tipo de gás com pouco impacto para o usuário. ‘’Há uma diferença de 1°C, mas funciona normalmente’’, afirmou Santos.

Para repor o gás, o proprietário do veículo deve procurar no manual, ou em uma etiqueta localizada no motor do carro, a indicação da quantidade. ‘’Se o gás for reposto sem quantidade necessária, o compressor fica duro e o consumo de gasolina ou álcool aumenta’’, disse Thiago Santos.

Para o Fábio Soares, professor de Engenharia Ambiental do Centro Universitário Senac, o gás 134 A não pode ser considerado um gás ecologicamente correto. "A única vantagem de se utilizar o 134 A é a de que se consome menos gasolina, porém ele ainda é um gás poluidor", afirmou.

Soares explica que, enquanto o CFC destroi a camada de ozônio, o 134 A é um gás estufa. Ou seja, contribui para o aquecimento global, responsável pelas mudanças climáticas que o planeta vem sofrendo nas últimas décadas.

Segundo o professor, uma forma de amenizar os impactos ambientais seria capacitar os técnicos que lidam com os gases. "Na reparação e na troca é o momento que o gás mais prejudica a atmosfera, porque alguns instaladores deixam escapar muito gás", disse. Outra solução seria a reciclagem do gás, processo que não é feito no Brasil.

O conserto de um vazamento, já com a recarga de gás do tipo 134 A, varia de R$ 50 e R$ 90, dependendo do tamanho do dano. Apenas a recarga do gás 134 A custa em média R$ 90, mesmo preço da recarga do gás CFC.

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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