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Aumento de diagnóstico de déficit de atenção faz consumo de Ritalina disparar

por aluno última modificação 10/11/2014 07h32
Crescimento da prescrição se deve, ao mesmo tempo, à melhora e a erros de avaliações médicas

Publicado em 10/11/2014 07h32

Última atualização em 10/11/2014 07h32

Aumento de diagnóstico de déficit de atenção faz consumo de Ritalina disparar
O neuropediatra Flavio Geraldes Alves aponta a avaliação multidisciplinar como essencial para o diagnostico do TDAH - Foto: Felipe Leme/RRO

 

AMANDA GUILHEN
CAMILA BARBI
FELIPE LEME
Especial para o RROnline*

 

O diagnóstico equivocado pode ser um dos motivos do aumento do consumo de Ritalina, remédio utilizado no tratamento de pessoas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que teve crescimento de 775% nas vendas em dez anos. Com novos critérios e recursos, também houve expansão na quantidade de pessoas que descobriram ter o mal.

Os dados são de pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Esse mesmo estudo apontou que importação e produção do medicamento cresceram 373%, no mesmo período. A Ritalina, da farmacêutica Novartis, é a única medicação no Brasil que contém metilfenidato, substância química estimulante utilizada no tratamento do TDAH, e o preço pode variar de R$ 19 a R$ 200, dependendo da quantidade de mg e de comprimidos.

Neuropediatra e mestre em ciências da USP, Alessandra Freitas Russo acredita que um dos motivos é o excesso de diagnósticos do TDAH sem a devida confirmação. “Às vezes, são diagnosticados com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade crianças que não têm a doença. São ansiosas ou têm outras alterações”, afirmou.

Porém, a especialista não acredita que esse seja o único motivo. “Também estamos fazendo mais diagnósticos porque a gente está refinando os critérios”, completou.

O mais recente boletim de farmacoepidemiologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgado em 2013, apontou que o TDAH afeta de 8 a 12% das crianças do mundo.

Segundo o estudo, feito com base em dados obtidos por registros do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da agência, entre 2009 e 2011, o Brasil apresentou um aumento de 75% de crianças com idade entre 6 e 16 anos que consomem Ritalina. Sendo que somente em 2011, o gasto das famílias para obter o medicamento foi de aproximadamente R$ 28,5 milhões.

O neuropediatra Flávio Geraldes Alves também acredita que o aumento se deve ao diagnostico incorreto. “Não acredito que o motivo seja muitas pessoas se medicando pelo transtorno, acho que tem muita gente fazendo diagnóstico errado porque não passa por uma equipe especializada. Existe muita gente fazendo mau uso”. O médico considera que isso acontece principalmente com pessoas que decidem tomar o remédio por conta própria, acreditando que isso vai permitir uma melhora na concentração e atenção.

O especialista da Faculdade Medicina do ABC e docente do curso de psicopedagogia da Universidade Metodista de São Paulo aponta a avaliação multidisciplinar como essencial, porque o TDAH pode ser confundido com outros transtornos como ansiedade, depressão e doenças psiquiátricas.

Saiba mais sobre diagnósticos incorretos na reportagem abaixo.

 

Já para o psiquiatra Alexandre Cintra, graduado em medicina pela Universidade de São Paulo e residência médica concluída em psiquiatria no Hospital das Clínicas da USP, um dos motivos para o aumento é a divulgação do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. “O TDAH passou a ser mais diagnosticado no final da década de 1990, e o aumento do consumo da Ritalina se deve ao fato de ser a medicação mais efetiva para o tratamento desse transtorno”, disse.

Hereditário

Conforme os neuropediatras, o déficit de atenção está relacionado com a base genética e fatores ambientais, com isso, o transtorno pode ser passado de pai para filho.

“Eu me sinto mais confiante e assertivo. O raciocínio flui com mais facilidade”, disse Gilberto de Almeida, assessor e diretor de duas revistas pela Tamer Comunicação, que tem déficit de atenção e toma Ritalina há dois anos e meio. Almeida diz se sentir mais feliz e entusiasmado com o remédio.

Além dele, o filho também apresenta déficit de atenção e se medica com Ritalina, fazendo uso há quatro anos. Gilberto afirma que o filho tinha dificuldades em acompanhar o conteúdo dado em sala de aula e a alfabetização dele só foi completa quando iniciou o tratamento.

Apesar do medicamento ser muito utilizado no tratamento do transtorno, o psiquiatra Alexandre Cintra afirma que os tratamentos variam de acordo com o caso, podendo ser médico, medicamentoso ou psicoterápico, feito principalmente com a terapia cognitiva comportamental, e em alguns casos tratamento fonoaudiólogo. “É uma doença com um tratamento multiprofissional, e cada paciente vai responder de uma forma diferente”, afirmou.

O especialista destacou a importância do diagnostico do TDAH, que caso não seja feito, pode ter como consequências a diminuição de desempenho escolar e profissional, além de rejeição social, transtornos de conduta e até mesmo dependência de substâncias psicoativas.

As escolas também são fundamentais no diagnóstico. De acordo com a Associação Brasileira de Déficit de Atenção, os professores são grandes observadores das crianças, já que conseguem ter um olhar individual de cada aluno, podendo assim perceber possíveis sintomas.

Confira abaixo a matéria sobre o Déficit de Atenção no ambiente escolar.



*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade  Metodista

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