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Dislexia atinge 10% da população brasileira

por rroeditor — última modificação 26/02/2010 08:39
O distúrbio é hereditário e o diagnóstico é realizado por uma equipe multidisciplinar e o tratamento pode levar até 5 anos.

Publicado em 26/02/2010 08:39
Última atualização às 08:39

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MARÍLIA RAVASIO e
SANDRA COUTNHO
do Rudge Ramos Jornal

Dificuldade na aprendizagem da leitura, escrita, atraso no desenvolvimento da linguagem e da fala, confusão entre direita e esquerda e dificuldade de copiar conteúdo de lousas e livros didáticos. Esses são alguns dos sintomas da dislexia, também conhecida como transtorno de aprendizagem.

A palavra dislexia é derivada do grego, dis, que significa dificuldade, e lexia, linguagem.

“É um dos muitos distúrbios de aprendizagem que causam dificuldade de leitura, escrita, soletração”, afirmou a coordenadora científica da ABD (Associação Brasileira de Dislexia), Maria Ângela Nico.

É na fase escolar que os sinais aparecem. A criança apresenta dificuldade em identificar as palavras de forma correta, não associa a letra/palavra ao som. Troca o “D”pelo “T” e inverte as letras nas palavras como “sapato” e “satapo”.

“Os sintomas vão aparecendo aos poucos. É mais notável naquela fase em que a criança precisa de boas notas. A professora reclama e é onde acontecem as reprovações”, explicou o fonoaudiólogo Marcos Abreu.

Os problemas apresentados nessa fase interferem no desenvolvimento escolar, fazendo com que a criança seja considerada preguiçosa, até ser chamada de “burra”.

A dona de casa Maria de Fátima passou por essa situação com a filha,10 anos, que apresentou os primeiros sinais da dislexia aos 7 anos.

“Para a professora, ela tinha dificuldade de aprender. Os colegas de classe a chamavam de burra porque ela não conseguia ler no quadro como as outras crianças. Ninguém tinha conhecimento da dislexia porque na época era pouco divulgada”.

Maria de Fátima conta que a filha não quis ir mais à escola e passou a ter problemas de saúde. “Ela chorava muito, ficava com medo de fazer perguntas e rirem dela. Tanto, que hoje ela tem colesterol, e a diabetes dela é emocional.”

Muitas vezes não é apenas o grupo social que a criança faz parte que a exclui, mas ela mesma acaba por se afastar por ter a auto-estima comprometida e ficar muito insegura diante das situações do dia-a-dia.

Atualmente, a filha de Maria de Fátima realiza tratamento na ABD por meio de  terapias e consultas com fonoaudióloga e neurologista. Depois de 5 meses, a mãe já consegue ver os resultados.

“Ela está sabendo ler, pois até [a palavra] ‘casa’ não sabia ler. Não sabia juntar as palavras. Agora, ditando as palavras, ela consegue. Ela já evoluiu bem. Está se sentindo melhor, consegue enfrentar as dificuldades.”

A principal dificuldade do disléxico é na percepção visual. É como se o ele percebesse as letras borradas, sobrepostas, ou com traçados. Como se as palavras dançassem e pulassem diante dos olhos dele, dificultando o entendimento.

É importante lembrar que dislexia não é considerada uma doença, não tem cura, mas tem tratamento. É uma disfunção de algumas áreas do cérebro responsáveis pela linguagem e percepção espacial. Ela é genética e hereditária. Passa de pais para filhos.

Os sintomas variam de pessoas para pessoas. Cada disléxico tem habilidades e inabilidades específicas e desenvolve uma maneira própria de aprender.

Ser disléxico não significa que a criança é menos inteligente, ao contrário. Alguns pesquisadores acreditam que pessoas disléxicas têm uma chance maior de serem bem-sucedidas. Isso porque a maioria delas apresenta um grau de inteligência igual ou superior ao da maioria da população.

A ABD estima que 10% da população brasileira sofre com o transtorno, mas não sabe dizer ao certo quantas pessoas estão em tratamento hoje.

DIAGNÓSTICO - É realizado por uma equipe multidisciplinar, levando em conta todos os sintomas apresentados pela pessoa. A equipe conta com fonoaudiólogo, psicopedagogo e psicólogo, que estudam o possível transtorno. Eles também podem pedir a opinião de outros profissionais, como neurologista e oftalmologista.

O diagnóstico multidisciplinar é importante porque ele tem como função confirmar ou descartar a dislexia. A partir daí é feito um trabalho específico, de acordo com a particularidade e necessidade de cada paciente.

Com os constantes fracassos escolares, os disléxicos apresentam problemas emocionais. Neste processo é importante o parecer da escola e dos pais, para levantar o histórico familiar e a evolução da criança.

O fonoaudiólogo Marcos Abreu avalia que “o atraso de linguagem e dislalia (dificuldade em pronunciar algumas palavras), mais questões genéticas, são fatores primordiais na descoberta da dislexia”.

Para a coordenadora científica Para a coordenadora científica da ABD, o diagnóstico é muito difícil, pois a dislexia é confundida com outros distúrbios de aprendizagem, déficit cognitivo, emocionais e psiquiátricos.  Ela ressalta que o déficit de atenção pode ou não acompanhar o transtorno, mas somente um neurologista poderá avaliá-lo.

COMO TRATAR - Após a identificação de cada caso e especificidade, o disléxico deve ser encaminhado ao profissional que melhor irá tratar do problema. O tratamento é realizado utilizando jogos e materiais específicos.

Ainda assim, o melhor profissional para tratar a dislexia é a fonoaudióloga, pois a maior dificuldade deles é a relação letra-som (grafema-fonema).

“Não há um disléxico igual ao outro. Conforme o grau e tipo do problema apresentado, uma psicopedagoga poderá acompanhá-lo. Se a auto-estima estiver muito rebaixada, uma psicóloga será importante”, afirmou a coordenadora Maria Ângela.  

A duração do tratamento também varia, pode durar de 1 a 5 anos.

APOIO - Para quem não sabe onde buscar mais informações e ajuda, a ABD oferece auxílio.  O tratamento é gratuito e destinado a famílias carentes, que passam por uma avaliação socioeconômica.

O encaminhamento deve ser feito por um especialista. A ABD fica responsável pelo diagnóstico e tratamento.

O principal objetivo da instituição é divulgar a dislexia. Para isso, são realizados simpósios nacionais e internacionais, cursos, e palestras para profissionais, grupos de pais e adultos disléxicos.

Onde conseguir ajuda

  ABD - Associação Brasileira de Dislexia, Fundada em 1983, a associação auxilia pessoas com dislexia por meio de estudos sobre o  transtorno, divulgação de informações e avaliação para tratamento.
  O endereço da ABD é: Av. Angélica, 2.318 – 7ºandar – Higienópolis – 01228-200  São  Paulo – SP
  Contato: (11) 3258-7568/ 3231-3296
  Para mais informações acesse o site:
  www.dislexia.org.br

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